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quarta-feira, abril 08, 2015

PEDIDO SIMPLES

Por André Debevc

Não me procure. Eu sei que você nunca pensou que fosse ouvir isso de mim. Mas por favor, não me procure. Continue deixando bem longe de mim esse seu cheiro. Seu sorriso. Sua pele sempre morna. Seus dedos com esmalte antialérgico em algum tom de vermelho. Seus dentes perfeitos e sorriso de desarmar homem bomba. Encarecidamente te peço, que não se distraia, e por acaso deixe que qualquer lembrança de carinho que você tenha por mim me encontre desavisado. Não me olhe como se eu fosse o único homem no mundo, como você sabia fazer. Não me encoste com aquele sua velha mania de nunca querer largar da minha mão. E não me traga seu colo louco pelos meus beijos e nem tente me prender entre suas coxas como se elas ainda fossem minha casa. Eu te peço, não me procure. Não sente no meu colo impedindo que eu fuja. E nem me cale com sua boca e beijos, sempre invadidos pelos seus longos cabelos negros. Por você, sei que essa visita nunca teria acontecido. Mas se por acaso você se distraiu, e acabou me querendo de novo, te peço: não apareça assim do nada. Sonhar com você é perturbador.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

DESENCONTRO PARA SEMPRE

Por André Debevc

Durante anos procurou por ela em toda mulher que encontrava. Toda mulher. Ficou secretamente chato com isso. Até pra ele mesmo. Tentou mesmo nome, dia de nascimento e até compleição física. Nada. Por certas vezes até ia pra cama (ou acordava numa), com a impressão de ter achado um pouco do encanto, sossego lascivo e complitude que tinha encontrado nela. Mas até essa sensação, revigorante e animadora, se esvaía como lembranças de um sonho ao longo do dia. E nessas voltas que a vida dá, acabou dando de cara com ela de novo. Flertes, beijos e nada mais. Ela já não era a mesma. Ele com certeza também não. E os sonhos deles, menos ainda. Mesmo assim, isso nunca conseguiu apagar dentro dele aquele fogo, que só ela conseguia acender. Se existia uma nova versão dela, era mais dela ainda pra ele conquistar. Nunca conseguiu. Ela casou, mudou, mas – por obra dessas coisas inexplicáveis – sempre ficou com o mesmo cheiro. Cheiro do tempo em que ele chegou a ver que a felicidade não precisava ser um momento eternamente indo embora. Só que ela, a mulher que ele amou de verdade, foi embora. Tantas vezes. De tantos jeitos. Que ele parou de procurar por ela em toda mulher que encontrava. Um dia, ele acordou tendo certeza que nunca ia mais encontrá-la. Foi nesse dia que ele começou a encontrar alguém que não via há muito tempo: ele mesmo.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Realidade deslocada

Por André Debevc

E lá estamos nós, num quarto de que nunca precisaríamos sair. Eternos, despidos e completos, certos de que nada da porta pra fora nos fará falta. Ali, nem roupa nos faz falta. Temos o calor dos corpos e bocas para nos alimentar. Passamos dias atando e desatando nossos braços e pernas sem lembrar que cidade pode ser lá fora. Não importa nem que dia é lá fora. Estamos no início do amor, onde minúsculas descobertas e frações de paixão já bastam. O tempo é só uma ilusão, regra que o mundo paralelo obedece. Temos todo o futuro à nossa frente. E inocentes, fazemos planos sem fim, achando que vamos durar para sempre - sem ter a ideia de que, dia nenhum na nossa vida juntos poderá ser melhor que aquele. 

quarta-feira, outubro 29, 2014

MANHÃ CATALÃ

por André Debevc

Longe de casa, viu o dia amanhecer enquanto ela dormia profundamente ao seu lado. Viu as luzes e os sons do dia virem aos poucos do horizonte invadindo o quarto de janela escancarada com uma educação européia impecável. Viu a escuridão ceder lugar à formas de Gaudí – ligo ali – que tinha aprendido a reconhecer do parapeito daquele sexto andar catalão, que improvisaram como casa nos últimos dias. Com ela, qualquer lugar se fazia casa em segundos. Nem que fosse um banco de aeroporto, numa conexão esdrúxula na madrugada. Virada meio de lado, com o corpo numa mornice só dela, não fazia ideia do quanto aquela cena, aquele quarto, e aqueles momentos eram pra ele a definição perfeita de felicidade. Ele, cheio de pra sempres que foram ficando pelo caminho, agora finalmente se sabia feliz de verdade. Pensou em tirar uma polaroid mental daquilo tudo para mostrar pra ela – nada a ver com idealizações e cenas fantásticas – mas aí lembrou que a felicidade de verdade não é compartilhável. É só de quem sabe a reconhecer quando a encontra. Olhou a quarta-feira se impondo lá fora, e encostou a mão na coxa mais que morna dela. Em alguma dimensão paralela, eles viverão naquele quarto catalão de janelão grandão para sempre. Na dimensão que ele partilha com o resto do mundo, ele terá certeza de que foi, é, está sendo feliz nesta manhã, e talvez consiga sossegar um pouco dessa vontade de ser feliz o tempo todo que todo mundo tem por aí.

ENCONTRO IMPROVÁVEL

Por André Debevc

Estava num desses dias em que tinha acordado nostálgico, pensando em tudo que tinha ficado pelo caminho nos caminhos que tinham o levado até ali. Brincou de trocar personagens, mudando pessoas, lugares e escolhas nos seus cenários de hoje. Voltou mais de dez anos no tempo e fingiu ter mudado de país – para outro país – quando voltou ao Brasil cheio de esperanças e certezas de que amigos e família fariam toda a diferença do mundo. Hoje sabe que exagerou nessas esperanças. Sabe que esperou demais dos outros, repetindo o mesmíssimo erro que sua mãe cometera 20 anos antes. Paciência. Por frações de segundos, que ele já sabia fazer eternos, ficou em silêncio e se exilou em si mesmo, vendo a vida e as pessoas passarem, entre rodadas despreocupadas de sangria e tapas, e se colocou na pele e rotina daqueles personagens que desconhecia, mas que ali criava como quisesse. Chegou a se reconhecer no olhar de um quarentão de barba grisalha andando com dois filhos por um parque de Madrid. Achou alguma semelhança com um corredor solitário na manhã de uma rambla de Barcelona. E se ele fosse um deles? E se ele não tivesse voltado ao Brasil quase 12 anos atrás? E se ele não tivesse conhecido quem ele conheceu? E se tivesse ido fazer da vida o que ele queria ter feito e ainda não fez até hoje? E se não tivesse escolhido o que ele escolheu? Será que ainda seria ele? Se encontrasse com ele mesmo – uma dessas versões dele que foi pra Espanha depois do fatídico 11 de setembro de 2001 – será que se reconheceria? Talvez tivesse mais feliz, mais magro, mais careca ou até menos cético. Eu não sei. Ele não sabe. Mas – por diversão inocente – gosta de imaginar que tem uma versão dele, andando pela Espanha há mais de uma década. Talvez esse ele ibérico hoje até ligue pra falar com a família no Brasil sem deixar que a irmã saiba que não é o ele que vive em São Paulo. Vai saber… Esse outro ele, cheio de outras vivências, escolhas e lembranças. Se um dia se encontrarem, não vai faltar conversa para colocar em dia. E muito menos histórias pra contar. Quando chegar a hora de irem pra casa, resta saber qual deles volta mais feliz. Eu sinceramente não saberia em quem apostar.