segunda-feira, setembro 25, 2006

Saída pela direita

Por André Debevc

Sair dali. Juro que eu acordei pensando nisso. Quer dizer, quando comecei a pensar, foi isso que veio à minha cabeça. Até porque do jeito que fui acordado – chupado feito caroço de manga – não tinha mesmo muito como raciocinar. Essa coisa puramente carnal é bom quando você vai pra cama, nem sempre quando você abre os olhos no dia seguinte. Camisinha arremessada no lixo – lá se vão mais uns milhares de ganhadores do prêmio nobel, gosto de pensar – só faltava mesmo sair dali.

Sou muito bom em ficar ali abraçadinho pós-coito, mas como só mesmo minha analista sabe, tenho sérios problemas em ficar abraçado a quem não quero realmente abraçar. Ando meio arredio já há alguns anos e nem sei bem porque, mas isso é outra conversa. Marcando cerrado o relógio digital perto da foto dela mesma em algum lugar cliché da europa, faço o que posso antes de sorrir, respirar fundo, apertar a moça com um abraço de um braço só, e pular da cama com uma desculpa pra ir embora tão boa que quase eu acredito que tenha mesmo compromisso logo mais. Aí, sem mentir, digo que preciso ir já juntando os fragmentos da minha passagem por ali e dou um beijo de adeus com aquele ar de penúltimo.

Cabelo desgrenhado, sorriso reprisado pra mim mesmo no espelho do elevador, cumprimento o porteiro e ganho as ruas sem lembrar a última manhã em que eu não quis ir embora, a última vez em que torci pra estar chovendo e ser domingo, a última mulher que me fez querer esquecer do mundo e viver ali, me alimentando apenas dos beijos dela. Nossa, faz tanto tempo que às vezes acho que foi até invenção da minha cabeça, às vezes imprecisa e cínica. Não faz diferenca, quem sabe na próxima, né?

Belas manhãs de sol são ainda mais belas quando você já tá sem pressa, o dia ainda sem saber direito se é domingo ou terça-feira e você já está livre pra fazer o que quiser da vida, até mesmo ir pra casa e dormir numa cama maior e, principalmente, vazia.

Sorrindo pra gente que nunca vi, vou andando jurando um dia usar a mentira mais deslavada do mundo só pra ver se cola. Talvez um dia que vá comprar cigarros e nunca volte. Talvez um dia diga que tenho que voltar pra minha mulher só pra ver a cara da moça, se causo revolta ou tristeza, antes de cair na gargalhada e ficar mais um pouquinho pra mais uns beijos e quem sabe mais uma camisinha no lixo. Sexo de reconciliação não devia ser privilégio só de quem tem compromisso.

Passada alguma banca de jornal onde vejo as manchetes sem me espantar com a desgraça do país, cerro os olhos pra fugir de alguns dos raios de sol que me lembram como adoro esse astro amarelo. Será que eu devia ir pra praia? Enquanto tiro meu tempo pensando, chega uma mensagem de texto. É moça, sei que foi bom. Ótimo fica por sua conta. Sei que posso ser melhor que isso, talvez na próxima eu te deixe experimentar mais um pouquinho. E não me leve a mal, gosto de você e tudo mais, só que não achei que fosse preciso abrir toda minha caixinha de ferramentas ou surpresas pra esta noite. Pra não ser indelicado com tanta honestidade respondo só com uma carinha feliz.

Saber ir embora é uma arte. Vai que um dia quero voltar. Vai que um dia a idéia de ficar um pouco mexa com alguma coisa dentro de mim. Deixa pra lá, depois eu penso nisso. Depois eu me preocupo em te ver ou não. Depois, se lembrar, eu dou um jeito de deixar a porta aberta. Agora a única coisa que quero esquecer é que na porta que eu queria bater, nem adianta tentar.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Bela manhã de sol

Por André Debevc

Engraçado como a gente se engana com as pessoas. Uma bela manhã de sol, e pum. Ela ta fora da sua vida. Ela que você jurou amar pra sempre, logo ela que tinha te enchido de planos, apelidos e responsabilidades. Fazer o quê. Tudo que começa acaba, alguém te diz. A gente se engana. Ou muda de idéia, o que parece mais aceitável principalmente para quem não vai voltar atrás.

Aí se fecham as portas do elevador e você ganha as ruas, perde uns quilos, evita lugares, músicas, e comidas pra tentar não lembrar que você já não existe mais. Não naquele quarto, não naquele coração, não entre aquelas pernas, não em quaisquer planos. Assim. Adeus, saia da minha vida pra sempre por favor. Apenas seja cordial se nos encontrarmos sem querer num bar, numa noite, numa esquina, num outro equívoco da vida que nos coloque frente à frente.

E de uma hora pra outra, os bilhetes, as confissões em versos de fotos, os emails, as risadas, as histórias secretas da família, tudo, vira lembrança. Maldita manhã de sol. Lambança da vida, rua sem saída. Pare e volte porque aqui não tem mais pra onde ir. E tome coragem pra encaixotar tudo, queimar lembranças, dar aquela camiseta que lembra ela pro porteiro, jurar nunca mais pedir o número dois especial, e não ficar tenso toda vez que ver um maldito carrinho preto rasgando as ruas pra longe daquilo tudo.

A gente se engana mesmo com as pessoas, engraçado. Então você que era centro, é posto de lado e cai no esquecimento antes mesmo de poder cicatrizar. Sarcástico isso de um dia amar. Amar e esquecer. Amar e não pensar. Ter que usar o nome inteiro ao telefone para poder se identificar. Peraí. Não eram as suas coxas que eu chamava de casa? Não era a sua boca a que me achava até no escuro mais denso? Não importa mais. Mil noites depois, se me distraio muito é nisso que penso, mas não deixar mais me derrubar. O que existe hoje você nem conhece. Nem imagina que eu tinha decidido nunca mais beijar outra pessoa, só você, mas aí você tinha que estragar tudo…

Aí, olhando pra trás vejo que de você eu só herdei açaí, havaianas e aspargos. Nada mais. Nem um afago, nem um carinho que me autentica no seu passado. Impressão de um tempo de erro, um tempo melhor apagado, esquecido, anulado. E desse jeito vamos deixando tudo pra trás. Porque amar alguém é engraçado e pra algumas pessoas pode ser demais. É apostar sabendo que vai perder. É entrar com peito aberto na vida de alguém pra depois ser arrancado. Parto à forceps pra gente nascer de novo, página em branco, simplesmente zerado. Trágico só isso, de nascer com essa memória de vida passada. Lembrança de beijo, amasso gostoso, apelido guardado. Nada tangível. Aconteceu ou eu terei imaginado? Coleção de fantasmas a assombrar aqueles cantinhos da alma que são dados a fazer planos, promessas e principalmente besteiras. Já dizia Nelson Rodrigues: todo mundo já amou errado.

É que a gente acha que conhece alguém. Que sabe a importância que teve. Sonho em ser pra sempre o melhor em alguma coisa que só os dois poderiam pra sempre lembrar. Ai, ai…melhor parar por aqui. Caixinha de surpresas mesmo essa vida. Bela manhã que nada. Melhor apressar a página virada, afinal viramos o rosto pro que vivemos. Contamos meias verdades sem olhar nos olhos. Suspiramos fundo xingando deus e suas piadas em silêncio. Viver é colecionar o que esquecer. E esquecer um dia parece fácil, até que damos de cara com o porteiro em outra bela manhã de sol. Ele sorri e comenta futebol. Sem problema, se não tivesse usando a camisa que aquela cretina te deu milênios atrás.

terça-feira, setembro 19, 2006

Poeminha quase não comportado

Por André Debevc

deixa eu te tirar a roupa
te falar um monte de bobagens
deixa a gente rir das besteiras
se divertir com as mais inocentes sacanagens.

sem jogos promessas ou grandes sacadas
deixa a vida ir assim fácil
sem precisar ter resposta errada.
vamos lá,
bom é viver sem precisar ser exatamente nada.

vamos rir beijar sorrir
desmaiar suados, cansados e nus,
acordar enroscados
crus como o olhar mais sincero,
como aquele primeiro que te dei
meio ainda sem saber
bem o que sei, sinto ou quero.

só sei que agora estou vivo,
cheio de perguntas, improvisos
e um punhado de sorrisos em silêncio
guardados para quando você percebe tímida
o carinho dos meus olhos.

Sorriso Bobo

Por André Debevc

Com sua língua na boca
e seu peito nas mãos,
te beijo com o coração na garganta.
Te puxo,
me entrego, fecho os olhos
para encontrar seus lábios perfeitos,
bocas que pareciam se conhecer de outros tempos.
Contra a parede da boate escura
já nem sei o que toca
a não ser a sua pele quente e nossas mãos aflitas.
E abro os olhos pra sorrir
e jogar a cabeça pra trás
e mergulhar na sua boca
ainda sem acreditar direito,
que beijo, que cheiro, quê isso…
Aí esqueço tudo,
solto as rédeas parece que enlouqueço
e te puxo mais perto, te sinto ofegante, te encaixo.
Nós só existimos ali, naquele presente.
No próximo passo
essa realidade deliciosa se dissolve
e nós seremos passado,
nós seremos segredo,
beijo guardado pra sempre na memória da impossibilidade.
Seus olhos apertados me prendem, confessa brilham,
aí suspiro sorrio te agarro – te quero pra sempre -
sabendo que não te terei nunca.
Então vivo o momento,
deixo qualquer idéia de arrependimento pra depois.
Depois duvido, mas se precisar,
a gente se arrepende com um sorriso inegável na alma.
Calo a boca do que ela ia dizer
porque preciso mesmo é te beijar
e te abraço forte só pra ver se, de repente,
pelo menos ali, na loucura do momento a gente se funde em um.
Cúmplices num dos melhores e mais secretos beijos do universo.

Amanhã
no lugar da cicatriz do meu peito
vai amanhecer um sorriso bobo
e muito difícil de apagar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Boa noite

Por André Debevc

Agora me deito
suspirando saudade
do colo que ainda não sei.
Viro sorrindo no escuro
sorvendo seu cheiro
engolindo de longe
a vontade de tocar
tua pele branca
as pintas dos teus braços
os azuis dos teus olhos
o dourado do teu cabelo
e o sorriso
que ilumina toda essa distância
que nos rasga em dois.

Ah…
dormir aninhando você
nessa minha asa há tanto vazia…
ah…
acordar na madrugada
vendo você sorrir dormindo
o seu sono inocente.

Melhor sonhar,
fechar os olhos
e te chegar mais perto feito travesseiro,
melhor esperar teu beijo
e poder te chamar de novo de pretinha
só pra te fazer sorrir inteira.

A hora chega
o sono se anininha
e lembro que acordar amanhã
é estar mais perto de você.
Boa noite.

sexta-feira, julho 21, 2006

37211

com você eu brinco
de não tirar a roupa
esfrega
roça
ofega
respira
conta até trinta e sete mil duzentos e onze
pra não perder o controle
pra sempre

aí te beijo
lambo
sorvo
mordisco
com a respiração
e mãos alucinadas

ah
se eu pudesse
desvendar cada esboço de suspiro
ah
se eu pudesse
desbelotar cada hífen de interjeição
mas tuas pernas
me aprisionam mais e mais perto
a cada espasmo
e eu não consigo pensar em mais nada

quarta-feira, julho 12, 2006

Anjo Canhoto

Por André Debevc

Ela é um anjo canhoto
que caiu na minha vida
num resto de briga
de uma sexta-feira
com cheiro de chuva.
Do alto do seu metro e oitenta
ela me sorri com olhos sérios
e deixa solto o olhar mudo
com sede da minha boca.
Me chamando de lindo
ela brinca com palavras e me traz sorrisos
de um jeito que ninguém nunca fez.
E se, por um instante, lembro
que eu não sou lá muito fã de empunhar meus dentes por aí,
ela me joga as minhas próprias covinhas na cara
só pra me fazer ficar sem graça
antes de me abraçar gostoso
feito travesseiro.
Em sua radiante beleza,
ela é um anjo de longos negros cabelos lisos,
super model de um sorriso e alegria contagiantes.
Ela que não gosta de me ver triste nem em mensagem de texto,
sozinha, me fez mais surpresas
que mil mulheres de quem eu esperei demais
ganhando em mim algo novo, que nunca tinha estado lá.
Ela é um anjo,
que lá do alto insiste em me convencer
com beijos e sem joguinhos que existe amor por aí.

Se algum dia eu tiver de novo um coração,
que caia nas mãos carinhosas e quentes
de uma moça apaixonante como ela:
um anjo canhoto que nunca soube quem eu era
mas que me faz adorar tudo que posso ser.

sexta-feira, maio 05, 2006

Rotinas Rotinas

Tomo café da manhã num boteco movimentado
faço meu jantar numa loja de conveniência onde esbarro em velhos amigos.
Tenho uma barba insistente e cerrada
e um punhado de moedas do troco
que ainda não encontraram o furo dos meus jeans.
Ando sem muita pressa de chegar
dirijo como se fosse me atrasar
e encontro cúmplices de porres nas migalhas de rotinas desatentas.
O meu amor me deixou porque eu amava demais
meu carro adora deslizar nessa chuva
dou as costas pro que não me satisfaz
e não estou nem aí pra vocês.
Tanto faz se meu time perder
ou se uma daquelas meninas não ligar.
Meu motor de arranque tá de férias
a ex-musa liga carente

...eu sou o cara que não se apaixona.

INEVITÁVEL

Sei que vou morrer nos braços de uma mulher,
de peitos assim perfeitos como um drible intomável,
depois do mais incomparável dos meus beijos
ao fim de milênios cansados e incontados.
Mais de sete vidas terão se esgotado
e estarei eu largado na sílaba final de destino
com a boca quase aberta no peito direito perfeito de musa
e sua mão canhota perdida nos meus pêlos,
esquecendo as lágrimas que a escorrem sussurrantes
cheias do gosto enganando doce todo o sal que ela achava que tinha.
Só espero levar o tempero do seu corpo
assim astral e brilhante rasgando minha vida e meu céu
tão picante como mostarda nacho cheese e diamante,
no gozo que rima com todos os meus mais sinceros sorrisos...

Jornal Nacional

Quando eu morrer quero um bloco inteiro no Jornal Nacional,
um espaço obsceno no jornal da nação com meus versos empunhados como lágrimas
pelas viúvas da minha sensibilidade e canalhice.
Quero pisar fundo na imortalidade nas vozes de ninfetas apaixonadas
quero saber dos lenços brancos encharcados
e do luto voluntário estampado nas almas que amam.
Posso até pedir desculpas quando esbarrar no pesado abatimento dos apaixonados.
Quero aviões supersônicos rasgando os céus carregados
derramando pétalas negras antes da chuva radioativa
e um tom grave na confissão de qualquer segredo casual.
Quando eu morrer quero ser inesquecido pelos meus beijos
e incomparado pelos meus poeminhas que sempre só quiseram amar demais.
...talvez eu nunca tenha conseguido...

E as lágrimas do dragão?

...E as lágrimas do dragão, pra onde vão?
Onde é que vão parar os momentos que passam,
os segundos que fogem,
as palavras sussurradas, sufocadas, gritadas?
Onde é que vão os tempos que passam,
os sentimentos que existiam,
as coisas que aconteceram?
Aonde é que são guardados todos os momentos,
quem arquiva o que foi vivido e o que nem aconteceu?
Tudo que já se sentiu,
tudo que já se viveu,
tudo que já pensou acontecer,
pra onde as coisas todas vão?
O riso, o choro, o grito e a esperança, pra onde vão?
O silêncio, o pranto,
onde é que vai parar o que passa?
Será que o vento leva?
Será que a chuva carrega?
Será que a noite esconde?
Será que o dia evidencia?
Onde é o lixo universal?
Onde é o arquivo do que acontece e vai?
Existirá um tapete sobre tudo?
Onde DEUS esconde o que deixa de ser presente?
Mas os momentos que passam, onde se escondem?

...E as lágrimas do dragão, pra onde vão?

Seu pra sempre acabou antes do meu

Seu pra sempre acabou antes do meu,
na passeata de ilusões
a minha ficou perdida no meio de todo aquele passar de horas.
Dias que vão como a nossa vida desapercebida
em rotinas quase compassadas que também escorrem sem volta
como todo esse ar que acaba um dia óbvio e inútil nos cercando.
Depois,
depois ninguém sabe mas aí tudo serão lembranças inertes
congeladas num passado imperfeito
cúmplice da absoluta inexperiência muda que não se rende.
Fiquei com suas promessas nas mãos,
nos cantos invisíveis do coração,
moedas que não valem mais nada brilhando até no escuro.
Nem você pode fazer promessas
na sua falsa mínima imperfeição,
os relógios ainda têm que correr e nós nem nos sabemos ainda.

A rotina compassada tem espaço para melancolia sem folgas.
Seu pra sempre acabou antes do meu.

Viver é escolher o que esquecer

Viver é escolher o que esquecer,
viver é escolher o que não perder,
cada dia nasce um dia
todo dia traz conquistas, perdas escolhas, desilusão.
Escolher um controle, ilusão.
Controle é ilusão, amanhã é ilusão.
Não há muito que fazer, só viver e continuar,
viver e escolher.
Mas continuar,
continuar, só depois...

Fui a melhor coisa que aconteceu na vida de alguém

Fui a melhor coisa que aconteceu na vida de alguém.
Podem sorrir com o canto da boca,
nem ela tem certeza disso de verdade, se é que sabe.
A humanidade é inconsciente
as mulheres inconseqüentes
e alguns sentimentos às vezes são só inconvenientes.
Me chamem de presunçoso,
atesto minha prepotência porque conheço o amor,
atirem suas facas contra mim, abram fogo !
A morte pode ser melhor que sexo bem feito
mas ninguém tem certeza, nem ela me ilude mais; é mulher eu sei.
Carrego o amor como areia nos bolsos, estou vazio vazado
mas ainda sujo os dedos sempre
naquele cantinho que não dá pra revirar. Esquece!
Continuo sorrindo canalha, conheci a paixão seus idiotas!
Posso seguir indiferente a toda essa gente ignorante,
os momentos podem ter fugido apavorados na coleira Victor Hugo daquela musa
mas os sentimentos e lembranças estão mais que cravados na minha alma em crepúsculo.

Cada dia é uma promessa menos pedante que eu arrasado.
As noites às vezes só vêm para atestar a mentira nova,
e eu,...bem eu olho indiferente,
sem mexer o canto da boca.

-

você calada me pede um beijo
eu calado digo que desejo

você muda mergulha nos meus olhos
eu mudo pareço usar antolhos

você quieta diz me querer
eu quieto procuro esconder

você imóvel se joga em mim
eu imóvel te cerco assim

Programa de Milhagem

Você devia lançar um programa de milhagem para minha boca.
Cada vez que meus lábios te encontrassem
um bônus seria jogado na minha conta,
assim, acumulando pontos,
eu ganharia vantagens e descontos
nas vezes que precisasse tanto de você.
Toda vez que minha língua te provasse
ou minha boca te percorresse,
ganharíamos viagens incríveis aos nossos paraísos,
teríamos descontos no tempo entre um beijo e outro,
e freqüentaríamos rotinas de primeira classe.
Como membro único deste programa,
te daria em troca muito mais do que exclusividade
ou fama,
te daria um amor de verdade.

Sorrindo Sem os Dentes

Por André Debevc

Para início de conversa, virei o rosto, continuei andando sem dizer uma só palavra. Comecei assim pelo fim mas já conto a história, calma. Fiquei com a impressão de que o mais importate naquela noite tenha sido isso, de eu ter sorrido e virado a cara. Sorri sem mostrar um só dente, e segui com minha vida porque a consumação no bar não tinha chegado nem na metade ainda.

Voltando para casa, vasculho meu arquivo de canalhices e não consigo saber porque ela não queria mais ter contato comigo. Geralmente o fim de uma relação pega a estrada de afastameto, e cumprimentos esritamente necessários, depois que alguém pisa na bola. Eu não tinha pisado e estranhava tudo isso. Nunca achei que diálogos monossilábicos fossem ideais para nós, que num dia distante e galáxia muito distantes, trocamos carinhos e fluidos corporais.

Tudo bem que quando ela me comunicou o fim do relacionamento, e sua mudança para longe, eu acabei achando conforto e carinho nos lábios de algumas de suas conhecidas, mas ela já tinha deixado óbvio que não me queria. Se amigas queriam alegrar a vida e açucarar a minha rua da amargura, não seria eu que iria pará-las. Eu a quis de volta como um homem só quer uma mulher de volta em sua vida inteira – mas se não podia, só me restava colar meus cacos com cuspe...

Se eu tivesse colocado as fotos “sensuais” que tenho dela na Internet, ou coisa que o valha, tudo bem, mas nem isso eu fiz. Posso ter errado, como todo homem vivo, falível e imperfeito, mas nunca fiz nada que justificasse essa repulsa que ela tem de mim hoje. Sei que posso ser um canalha – já mereci até troféu por ter sido insensível, egoísta e algum outro defeito grave do qual não me lembro agora, com algumas mulheres sensacionais - mas não com ela. Fui bonzinho. Vai ver aí está a falha. Tem mulher que odeia isso.

Bom…sem trocadilhos, voltemos à vaca fria. Eu estava lá, bebendo com amigos, quando dou de cara com ela. Ela, que há poucos dias tinha me dito que preferia não ter contato, sentadinha de frente para mim. Juro que na hora, ouvi a gargalhada do destino, se mijando de rir. Minhas pernas pensaram em ficar bambas mas logo vi que aquele costume de deixar o peito disparar na presença dela, tinha caducado. Minha dignidade me pedia que eu sorrisse e virasse sem esboçar uma palavra. Simples.

Antes tivesse pulado o muro todas as vezes que tive chance quando estava com ela. Antes tivesse sido um canalha de dar inveja aos personagens de Nélson Rodrigues. Todo aquel bom-mocismo, para dar nisso. Oi e olhe lá. Dois estranhos sem passado. Se eu tivesse sido mau como fui com mulheres que nunca senti dentro do peito, teria sido melhor. Pelo menos saberia porque tudo que ela deseja de mim é distância. Mudei depois dela. Errei com mulheres a torto e à direito. Não deixei ninguém ter tanto acesso a mim como ela teve. Fiquei mais cínico, cortante.

Tem coisas que a gente não entende nunca. Vai ver, para mim, essa é uma dessas coisas mal resolvidas que incomodam sempre, feito o osso que um dia quebrei jogando bola. A gente tem que saber escolher o que deixar para trás. E às vezes só se dá conta que começou a aprender quando vê que não precisou engolir silêncio nenhum, e pode simplesmente sorrir. Sorrir sem mostrar um só dente. Sorrir – como diz o Veríssimo – só com a boca. Até porque se entendo alguma coisa de mulher isso quiz dizer que…motel nem pensar, né? E eu que pensei que tivesse deixado aquela porta aberta, pronta para um encontro assim, casual e descompromissado. Quanta ingenuidade.

Dia Internacional do Vício

Ai mulheres…eita viciozinho mais gostoso que um homem pode ter. Sempre com uma na cabeça. Melhor e mais caro (muito mais caro) que cigarro, mais embriagante que qualquer coisa que contenha álcool…mulheres! Até Dia Internacional elas têm, como se todos os dias não fossem elas a decidirem os rumos da humanidade. Ou você pensa que a não-convocação do Romário não tem o dedinho da mulher do técnico da seleção?

Morenas, baixas, loiras, fofinhas, gostosinhas, magrelas, com ou sem peito. Nuca de fora, ou cabelão. Tem mulher pra todos os gostos. Por isso vicia. E não importa aonde você vá, sempre tem uma mulherzinha lá pra mexer com sua atenção. Se ela faz ou não seu tipo, bem…isso pouco importa. Não existe uma mulher idêntica à outra, mas no fundo são todas a mesma coisa, a brincar com nossos sonhos, bagunçar nosso futuro e nos deixar completamente confusos.

Tem gente que não gosta de mulher com sotaque por exemplo. Eu, particularmente acho uma maravilha. Devo ter herdado isso do meu avô mineiro ou do meu pai gringo. Adoro mulher com sotaque. A doçura das mineiras, o dengo das baianas, a seriedade das paulistas, o charme das gaúchas…as mulheres brasileiras são mesmo as melhores do mundo, sem dúvida nenhuma. Basta morar fora pra descobrir que falta as brazucas fazem. A graça, o jeito de andar, de mexer, de sorrir e até o jeitinho de ser esnobe (e como brasileira sabe ser marrenta!!) são lindos.

Graças a Deus nasci homem pra ter a noção de como é bom ter (em todos os sentidos mesmo), e ser de uma mulher. Nada no mundo deve ter sido feita de forma tão perfeita para seduzir e cativar usando-se de tão pouco. Duvido aliás, que a fêmea de qualquer outra espécie possa ser tão diversa, tão complexa e cheia de pequenos detalhes como as mulheres.

Deus tava mesmo inspirado quando criou a mulher. Adão, o primeiro macho da História que o diga. Vale lembrar que Lilith não deu mole nenhum pra ele e deu no pé, obrigando o Criador a re-inventar a mulher, e re-escrever a história dando uma nova “primeira mulher” à sua primeira criatura. Pegava mal divulgar que seu ser tinha sido abandonado logo na primeira tentativa, pegava não? Pra vocês verem que TPM já atrapalhava muita coisa naquela época, ou vocês acham que Lilith era somente um pouquinho geniosa? Vai ver era 8 de março, deixa pra lá…

Mulher é bom de pôr na boca. Bom de ver, de sentir derreter, de se ter em volta do pescoço, de fazer emitir sons estranhos e quase ininteligíveis por causa dos nossos beijos, toques, sugestões e cheiros. Mulher quando é boa, é bom demais.

Poucos homens são capazes de descrever com exatidão o que mais amam nas mulheres. Uns dirão que é aquela curva onde o braço encontra o peito mas ainda não é peito. Outros dirão que é a nuca, ou o umbigo. Ainda hão de existir os que vão dizer que o bom mesmo da mulher é o conjunto perfeito de formas e graça. A vozinha rouca quando acorda, a parte de trás do braço ou do joelho… Homens aprendem mulheres em partes. Detalhes físicos ou trejeitos.

Mulher é bom quando é real. Mulher tem calor, umidade, cheiro, textura e gosto. Prato completo para todos os sentidos. Mas quando ela bate lá no fundo do peito, isto tudo aumenta mais ainda, e a sensação de sentir uma mulher se espalha como nunca.

Aprendi que ver uma mulher só pelos atributos físicos dela era feio. Pelo menos foi isso que tentaram me ensinar, que beleza não é tudo. Sei disso. Nunca me apaixonei por uma mulher linda aliás. Mas sempre descobri lindas as mulheres por quem me apaixonei. Muitas não chamariam atenção numa festa ou passariam sem serem incomodadas por aquela roda de chopp de machos recém-chegados do futebol loucos para falarem uma gracinha. Acho que sempre soube ver nas mulheres algo além da aparência, e todas têm algo especial. Personalidade e estilo contam também, sem falar que eu jamais conseguiria me ver com uma mulher burra ou submissa.

Sou da geração que não olha a mulher como pedaço de carne. Qualquer macho inteligente sabe que não existe nada de inferior numa mulher. Tenho amigas mulheres, a acho que acredito na amizade isenta de interesse (sexual) entre homens e mulheres. Posso admirá-las, aprender com elas sem que isso me faça menos macho. Posso até estar errado, mas faz parte.

Enfim, um dia pra comemorar. O oitavo dia de março é dedicado a vocês, a elas, que nos enfeitiçam e estragam. A elas que fazem da Terra um planetinha melhor com suas idéais, seu trabalho e sorrisos. De todos os erros que sempre irei cometer, um admito feliz da vida: sempre amarei as mulheres. Por mais que eu não encontre a minha, por mais que meu grande amor seja só uma lembrança do passado.

Minha mente de macho não esquece como ter uma mulher por inteiro (de corpo, alma e coração) é bom. Chegamos a viver um pro outro (ela e eu), um se alimentando do outro, da alegria, cumplicidade, paixão, tesão e necessidade de estarmos juntos. E ninguém sabe fazer isso melhor, ninguém sabe trazer à tona o que há de melhor num homem do que uma mulher apaixonada. Mulher é o melhor vício que um sujeito pode ter. Acaba com a gente, leva nosso dinheiro, nos deixa no buraco depois de nos levar ao paraíso, mas ainda está pra existir coisa melhor do que encontrar uma calcinha no chuveiro, um bando de cremes no armário do banheiro ou comidinhas dieta que um verdadeiro macho jamais teria na geladeira.

Minhas mulheres vivem todas aqui, na minha mente e peito. Cada uma tendo me ensinado um pouquinho de cada coisa. Umas tendo sido mais ou menos presentes que as outras. Sou grato a todas elas. Sou quase um filho delas todas. Fui amante, irmão, marido e amigo. Sempre serei um admirador. Parabéns pelo dia de vocês. O mundo tinha mesmo que parar para fazer reverência…

…mas será que tinha como dar um jeitinho de convocar o Romário?

Pintas São Armas

Por André Debevc

Acho que tem certas mulheres que nascem com aquelas pintinhas na alma. Sabe aquelas pequenas marquinhas, geralmente redondas como leves pingos de chocolate no sorvete de flocos? No cólo, nas saboneteiras, nas coxas...Pois é, o resto que me desculpe mas ter pintinhas é fundamental.

Não é preciso ser uma floresta de flocos para seduzir o mais sério dos homens. Apenas algumas inocentes pintas dessas podem desarmar o mais inconquistável dos seres. Não há seriedade que resista a encontrar uma pequena pintinha (sem cabelo, por favor!)desavisada no cantinho da boca ou em qualquer outra parte estratégica. Haja força para não se derramar ou ao menos comentar a existência da dita cuja que seduz e se coloca no imaginário de qualquer mortal.

Pelo que me lembre, não há uma só incauta da minha história que não traga no corpo as doces marcas embriagantes. Isso sem falar nas famosas beldades que ostentam tais gotículas como troféus, ou até mesmo ganhem a vida com elas, vejam a Cindy Crawford por exemplo. E a Luana Piovani com aquela fantástica pintinha pouco acima dos seios?

Lembro nitidamente de uma de minhas namoradas, talvez a que tenha mais prendido minha atenção e dedicação, no sentido literal mesmo. Tive o privilégio de contar todas suas pintinhas. Eram seis ao todo(falando em termos significativos). Começava pela pinta que parecia ser uma gotinha selvagem de chocolate, fugida da boca, e que seria o ponto médio certinho entre o lábio (carnudo e delicioso) inferior e o queixo. Ficava do lado esquerdo, meio que Cláudia Abreu, meio que Adriana Esteves, sei lá.

Deliciosa mesmo era a segunda pinta mais abaixo. Medindo no máximo uns três milímetros de diâmetro, postada maliciosamente no peito esquerdo de minha musa. Sempre ficava à vista nos decotes um pouco mais generosos. Que maravilha aquela pinta. Juro que ela, a pinta, sentia saudades minhas. Parecíamos ser conectados espiritualmente, ela e eu. Até hoje sonho com ela, lembro das vezes em que ela desfilava solene na sua beleza entorpecente para meus olhos, boca e dedos privilegiados. Bons tempos que não voltam mais. Acho ter recebido um telegrama de saudades dela noutro dia, mas não estava assinado. Esqueci de dar um nome de mulher para ela.

Assim como as estrelas, essas marcas deveriam ter um nome próprio, um bem único e intransferível como o amor de passado, que sempre tem razão. No caso da minha amada, suas pintas eram quase como pontos cardeais, por onde eu me orientava nas horas de prazer e descompromisso. Éramos só nós doze ali. Isso mesmo, nós doze(eu também tenho quatro pintas próprias), as minhas, as dela, eu e ela. Mas não acho que minhas pintas tenham sido tão relevantes nessas horas. Já as dela sempre foram.

Passam as moças, as pintas ficam. Meu imaginário parece até um sorvete de flocos, com peles nem sempre tão alvas povoadas, diferentemente, por saborosas pintas de chocolate. Eu amo em choc-chip! Ou seriam flocos? Sei que é só se saber que há pintas para desvendar que meus olhos se lançam para uma busca em câmera lenta pelas curvas, dobras e gestos da moça. Mas nem sempre encontro. Tive uma paixão platônica que tinha uma pinta no alto da testa, linda. Dia desses até sonhei com um rosto ainda meio indecifrado mas que trazia, vejam só, uma pintinha micra e linda bem no lábio. Nem acima nem abaixo dele, mas no lábio mesmo...

Sim, acredito que há moças com pintas na alma, só assim explico essa minha obsessão. Talvez aquele velho amor seja o culpado, mas mesmo antes as pintinhas me fascinavam.

Só Deus mesmo para pintar as moças com tamanha parcimônia e perfeição. Mesmo em horas a fio eu não conseguiria fazer trabalho tão sedutor. Cuidado senhores, elas estão cheias de armas para conquistar sua atenção, e uma delas é a colocação aleatória e feliz de pintas que desnorteiam e acabam com qualquer pretensão de domínio nosso. Seria bênção ou feitiço de doces bruxas?

Por isso, quando minha namorada dizia que a pinta estava com saudades de mim, ou então quando ameaçava esconder as pintas numa cruel greve, por isso eu entregava quaisquer pontos. Eu, nunca saberia viver sem as minhas estrelas chocolate, referência em qualquer universo.

A Hora Mais Escura

Por André Debevc

Quando frio chega, até os dias encolhem. O ponteiro do relógio pulou recuou uma hora duas meia-noites atrás. A luz do dia que já se esvaía mais cedo se deixou intimidar de vez. Os dias hibernam na mais longa das horas. O breu, as luzes laranjas, o passo mais apertado na saída do trabalho, tudo assume um ar mais gelado, com as invisíveis barreiras de frio e egoísmo se fechando violentas no mais espesso de todos os silêncios.

Essa hora a menos no dia se prolonga na distância de um outro mundo paralelo onde alguns de meus velhos amigos e sentimentos ainda passeia. Fico ainda mais longe deles, a sincronia se cala e permite um erro, desacerto vacilante até no temperatura das vozes esporádicas do outro lado da linha. Viver opostos não é mais somente uma metáfora de uma alma mais dramática ou sensível, é a mais crua realidade. Nem mais as verdades andam nuas por esta cidade. O frio seco do coração da multidão racha lábios e petrifica planos que só podem mesmo esperar pela época onde os casacos voltarão a habitar cabides e lembranças.

Agora tudo ganha um outro ritmo, tudo meio que se rende às hordas de casacos pretos e gorros que dita o inevitável peso extra da rotina. Como que mais que o corpo tivesse se defendendo da hostilidade e impessoalidade dos caminhos, das obrigações sem um pingo de calor a não ser o do filete de suor que se esboça quando o metrô infernal finge, e mal, ser agradável.

Quando o vento bate cerrando os olhos, quando as mãos se apertam xingando as luvas esquecidas uma parte de mim suspira os engarrafamentos intermináveis no calor da Rua Jardim Botânico, mas sei que continuo odiando as mesmas coisas. O que muda é a nova variedade de gostos e ódios, de pessoas e caminhos. Escolhidos ou renunciados, nunca largados ou incrivelmente deixados para trás…

As pernas de fora, as camisetas são lembrança, soterradas para muito nas camadas mais espessas das horas mais longas. Os minutos arrastados, os dias eternos, a noitinha precoce. Encontro calor nas conversas de bar, com refugiados como eu, temporários ou não, visitando em conversa o meu Suvaco de Cristo, episódios de riso em algum lugar das Minas Gerais, ou até as tardes de lerdeza e calor tentando achar vaga para estacionar o carro no caminho da praia de Ipanema.

Nesses momentos, de descontração e alegria, as horas parecem mais longas em calma e até conforto. A casa não está no lugar, mas sim nas pessoas que abreviam o frio com um sotaque tão carioca quanto o próximo Fla x Flu. Para todos nós o abraço de oi e tchau é um abraço longo de saudade.