quarta-feira, maio 06, 2009

Revendo uma velha amada

Por André Debevc

Peço desculpas pela ausência, a culpa não é de uma emergência nem nada. É que tive que cumprir um compromisso dos mais penosos: a dura e árdua tarefa de visitar uma velha amada. O peito acelerado no avião e a tensão paquidérmica, quase obrigatória, daquela ansiedade espessa de rever um amor de tantas histórias e risadas.
Tivemos nossos altos e baixos, confesso (e amigos não me deixam mentir). Mas agora, depois de tanto tempo, penso que o fim não precisava ter sido como foi. Eu não precisava ter ido embora daquele jeito. A mala, cuia e alma pagando excesso de bagagem num aeroporto de segunda categoria. Como se tivesse fugindo de alguma coisa, fingindo pra mim mesmo que não estava fugindo dela. Eu mal me despedi. Cretino. Nem um derradeiro beijo de adeus, nem um afago prometendo guardá-la no meu peito pra sempre.
Restaram fotos, lembranças, cheiros e sons que não esquecerei nem em mil encarnações, talvez ela goste de saber disso, sei lá. Mas também sobraram silêncios e notícias eternamente incompletas de como ela andava. Ouvi de tudo, e não soube exatamente de nada. Mas pra mim sempre vai ficar a imagem da minha velha amada, no auge da sua forma. Sem as marcas inapagáveis do tempo e de relações erradas. Toda em pézinha, como ninguém nunca mais verá. Tínhamos uma intimidade de noites a sós invejada por amigos e conhecidos que nos viram juntos.
Indo ao seu encontro, devo admitir que foi um erro não vê-la por tanto tempo. A gente tinha uma história, tinha uma coisa especial um pelo outro, eu sei. Só de vê-la se aproximando, com aquele jeito dela de achar que é única, já fico eufórico. Preciso me conter. Se eu suasse nas mãos, encharcaria meu passaporte agora. Desse jeito vou acabar me entregando. Manhattan, te amo.

Em São Paulo (I)

Por André Debevc

Ando tranquilo. Sem lugares de onde preciso fugir, sem mulheres onde preciso chegar. O peito devidamente ocupado e uma casa com o cheiro dela, que amo, pra onde eu posso voltar todos os dias. Até de carro troquei, pra poder levar a vida mais devagar, enquanto os finais de tarde bonitos de outono voltam silenciosos aos céus polarizados de São Paulo. Da cobertura do casarão, onde troco meus dias e pensamentos por dinheiro, vejo o sol fugindo pra de trás de Osasco enquanto a lua sorri, desembarcando em Congonhas e atravessando Moema. Na vida, só mesmo o trabalho anda insano, num engarrafamento de projetos, fundindo idéias, atropelando madrugadas na frente do powerpoint. Mas é São Paulo, o que mais eu podia esperar? Fora o trânsito e a falta de praia, confesso que gosto daqui. Não é sempre assim não. É só porque por quase a metade do milésimo dia seguido, acordei tranquilo.

sexta-feira, março 20, 2009

A eternidade começa aos nove minutos

Por André Debevc

Aproximadamente nove minutos depois de fechar os olhos, ela dá um suspiro alto e profundo, mergulhando fundo no sono da noite onde ela se aninha. Dormindo, ela não sabe disso. Nem disso, nem do quanto tempo passo imóvel, com um leve sorriso pendurado no rosto, praticando o meu adorado esporte de vê-la dormir, enquanto nossos futuros avançam de mãos dadas pra cada vez mais longe. Passo a mão no seu cabelo - tantas noites ainda molhado do banho - e sinto sua pele cada vez mais quente enquanto toda a energia inqueita que ela é repousa sem abrir a boca. Por causa dela, faz tempo que não preciso lembrar de nada velho para aquecer meu peito. Faço mil musiquinhas e jingles só nossos, pra animar a nossa vida e rotina corrida. Por causa dessa moça, com três tatuagens e unhas pintadas de vermelho, vejo crianças na rua e fico pensando em como serão os nossos filhos. Se terão os pés com tons de cor-de-rosa, ou quase fecharão os olhos quando gargalharem sem fazer barulho. Se darão esse suspiro adoravelmente fundo minutos depois de dormir, ou se me trarão desenhos e invenções criativos, feitos de coisas que sempre tivemos em casa. Agora já tem 12 minutos que ela fechou os olhos e dormiu. O segundo suspiro fundo – mais raso que o anterior, é verdade – vem aí. E esse eu também não posso perder. Até logo.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Conversa com sentido

Por André Debevc

- Me promete uma coisa, Shirley?
- Que foi, Flecha?
- Promete?
- Prometo, Flecha, o que foi?
- Promete que nunca vai me esquecer?
(silêncio)
- Mas que conversa sem sentido é essa agora, meu amor? A gente vai ficar junto pra sempre...
- Não, Shirley. Já ouvi que ia ser pra sempre e o pra sempre acabou. Foi pro saco. Só me promete que, haja o que houver, mesmo que a vida nos separe e você vá pra uma outra dimensão, que você vai sempre lembrar de mim. Que mesmo que a gente nunca mais se veja, vai ter sempre um cantinho no seu peito pro que vivemos...
- Ai, Flecha...que conversa mais triste...pára...a gente nunca vai se separar...
- Pára não, Shirley. Promete, vai.
- Juro, Flecha. Juro.
- Não jura não. Promete. Prefiro.
- Tá bom, prometo. Mas vem cá pra eu te dar um beijo, vem.
(smack)
- Agora me dá uma coçadinha aqui, Flecha?
- Aqui aonde, Shirley? Na virilha?
- Isso, Flecha. Aí. Vou te amar pra sempre!
- Não promete o que você não pode cumprir, Shirley...não promete o que você não pode cumprir.
- Ai...você é foda, sabia? Às vezes me desanima!
- Por que? Pode acontecer, Shirley, pode acontecer...
- Se você continuar com esse papo, vai acontecer MESMO!
- Não disse, Shirley? Eu não disse?

(os nomes dos personagens são sim uma homenagem aos personagens de Luís Fernando Veríssimo - um dos meus grandes heróis da literatura)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Granulado em Preto-e-Branco

Por André Debevc

Posava toda sua naturalidade mansa com sossego felino, abrigada e preguiçosa, numa tarde de chuva sem relógio ou celular por tocar. Quase nua, sorvia o silêncio e esculpia movimentos quase em camera lenta (com trilha sonora claro), com a tranquilidade de quem vive um segredo. Abria sua intimidade pra ele como quem folheia, sem cerimônia nem pressa uma revista antiga, em sala de espera. Insinuações sempre são melhores que o escracho, dizia jogando dissimulada. E assim, fingindo não sentir lá no fundo nem um pouquinho de tesão, ia doando o que ninguém nunca poderia colecionar ou reunir: os melhores de seus fragmentos.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

depois de todo aquele silêncio

Por André Debevc

...e se alguma coisa tiver quebrado?

...e se for uma daquelas coisas que não tem conserto?

...e se for uma dessas coisas sem volta?

Uma pessoa só é realmente importante na sua vida
quando o que ela pensa, ou deixa de pensar,
faz toda a diferença para você.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Resolução Zero

Por André Debevc

Reveillon passado eu não fiz uma promessa de ano novo. Dez, nove, oito, sete...e nada. Nenhuma mísera resolução quase heróica pra seguir por 365 dias quando o dia raiou azulzinho lá num cafundó escondido do sul da Bahia. Não prometi parar de fumar porque não fumo. Não prometi parar de beber porque não minto. Não prometi ficar menos careca porque não posso. E sinceramente acho que entro o ano melhor assim. Livre, leve e solto, correndo e sorridente como mulher menstruada em comercial de absorvente interno. Um ser que pode tudo. Quer dizer, quase tudo porque infelizmente, ficar no paraíso (pois é gente, descobri onde fica) não era possível. Sem internet, sem hora, e em breve sem repelente. Até pensei em prometer voltar lá, mas aí lembrei: melhor mesmo é não ter que prometer nada, e ainda assim poder sair com o sorriso mais safado que tenho estampado bem aqui no rosto.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Nada

Por André Debevc

Das coisas que você me deu, acho que não tenho mais nada.
Tudo que sobrou é buraco do que você levou embora.

segunda-feira, novembro 24, 2008

finitude

Por André Debevc

às vezes só é preciso um farol de relance na contramão
ou uma palavra escapando de manhã em alto tom e velocidade,
pra lembrar que nós
também podemos
não ter nada de eternos.

segunda-feira, novembro 17, 2008

No box (ele)

Por André Debevc

Sentado no chão do seu box blindex há mais de vinte minutos, ele pensava numa frase de Balzac enquanto a água quente descia quase sem pressão do chuveiro chinfrin comprado na lojinha da vizinhança. A sorte de uma relação amorosa depende da primeira noite, dizia o velho romancista.

Com a água escorrendo as suas costas e nenhuma preocupação com o tempo, ele pensava em toda a verdade da frase enquanto pensava na sua nova aspiração amorosa. Imaginava na verdade, já que a exatidão das curvas, do tom de rosa e raio exato das auréolas dos, provavelmente, empinados peitos de seu objeto de desejo eram até ali apenas suposição de sua mente fantasiosa e um tanto indecisa.

Macaco velho de guerra nas noites, bagagem não lhe faltava para saber que nenhuma primeira noite acontece em flashes sépia ou closes elegantes em câmera lenta. Lances com imagem granulada, só em dias seguintes. E mesmo assim, dependendo do álcool.

Era um desses raros sujeitos realmente atentos ao detalhe. Sem vulgaridades ou babaquices de pornografia desnecessária. Desses caras que lembra de besteiras ditas sem qualquer intenção – todo mundo conhece um, né? Do tipo que mapeia corpos e idolatra fragmentos e temperaturas que fazem de cada mulher uma criatura completamente diferente da outra.

Gosta de mulher de verdade. E é cético em relação à mulheres de capa de revista, todas refeitas com Photoshop, segundo ele. Imperfeições e detalhes são o que realmente o movem. Não pode ver uma mulher com uma leve cicatriz no rosto. Charme pessoal e intransferível, gosta de dizer. Sabe que a gravidade e celulites acontecem - fazer o quê, né? – e só acha mesmo que começa a pensar numa moça quando ela provoca nele aquela indefinível vontade de colocá-la na boca. Só não aprova sutiã com enchimento. Porque isso é propaganda enganosa.

E foi visitando imaginariamente, e sem nenhuma pressa, cada milímetro do corpo, sinal de nascença e cicatrizes do objeto de sua atenção, que ele ficou. De olhos fechados, sentia cada gota morna que viajava do chuveiro até seu corpo. Tudo tem seu tempo, pensava.

O melhor jeito de decorar o cheiro de sua nuca. A descoberta do calor de suas coxas. O último olhar dela antes dele lhe tirar a calcinha. A primeira vez em que a visse nua, ansiosa, com todo pêlo da alma em guarda, arqueado, esperando o bote. Tudo tem seu tempo. Tudo.

Amores, desilusões, sonhos e promessas feitas ao pé do ouvido. Tudo tem seu tempo. Como a água que escorre pro mar, partindo ali dos seus pés junto ao ralo. E pra ele, que não gosta lá muito de esperar, este tempo só pode ser agora.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Plano de Fuga

Por André Debevc

A curva do seu peito que meio sem jeito finge que não quer pular na minha boca, escapa ali pelo seu decote tímido liquidando toda atenção que eu podia ter por qualquer outra coisa. Engulo dissimulação seca desviando os olhos pra você poder passar horas brincando de musa sem nunca precisar publicamente perceber minhas retinas e ajeitar a blusa, tirando minha visão abençoada do seu peito direito. Conto penugens, cumprimento um a um os poros, encontro pintas, investigo o relevo, imagino textura e crio cheiro. Tudo sem que, infelizmente, você tenha a alegria de ver meu sorriso mais safado e faceiro (daqueles que guardo só pra ocasiões especiais e moças mais ainda). Hoje moça, vou lembrar da curva do seu peito quando deitar no travesseiro. Mas aí, vou saborear seus seios por inteiro. E sentirei temperatura, bicos e auréolas sem pressa nem desnecessário sutiã trapaceiro. Mas até la, vou derrapar na reveladora linha curva do seu decote, rezando a cada minuto pro seu peito dar um pinote e vir parar sorrindo na minha boca.

exatamente

Por André Debevc

com o jeito mais despreocupado do mundo
ela leva o umbigo para passear
arrastando olhares silenciosos pelo salão.
sem fazer qualquer esforço
coleciona almas debruçadas, inertes e sem palavras,
rendidas pelo seu ar de menina e sorriso de leite.
doce, traz o resto de sua voz suave para voar pela sala
feito gaivota no fim da tarde de um verão carioca.
a moça que delicadamente anda em estrelas,
não é fã de camelo nem amante de amarante,
acaricia o tempo com dedos de esmalte esquecido
encantando feito as mulheres de Chico,
enquanto o vento em algum canto assovia seu apelido.
ela que brinca de ainda não ter decidido
se quer ser menina apaixonante ou uma cativante mulher,
mas que com certeza já sabe
que quer ser diferente de todas as outras.
e isso é o melhor que alguém pode querer ser.
exatamente o que ela é.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Inspiração

Por André Debevc

ando me especializando em decorar seus sorrisos
de tanto de fazer gargalhar
com alguns de meus improvisos indecisos
faço de tudo um pouco querendo causar às vezes até falta de ar.
mas é só você ir lá longe um pouquinho
que toda minha graça dá um sumiço,
desses longos e quietos por não ter pra quem se engraçar.
que seu calor é do que mais preciso para simplesmente me inspirar.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Foi pouco

Por André Debevc

Outro dia eu a vi atravessando a rua, passando na praça da minha infância, com seu ar primaveril de quem anda sempre com uma leve brisa dançando à sua volta: a mulher com quem (ou seria contra quem?) cometi a maior obra de canalhice de toda minha existência.

Pois é, eu não sabia exatamente quanto, mas descobri que eu também sei ser canalha. E dos bons. Com as pessoas erradas principalmente. Como é típico dos bons moços, aliás. Diria até que quanto mais bom moço o moço, maior a sua capacidade de cometer um grande gesto de canalhice. Destes de causar estranheza até na roda de chope de amigos nada santos.

Enfim, vi de longe a mulher que sei que atravessaria a rua para o outro lado se me visse ali naquela calçada (e todo homem que passou dos trinta tem pelo menos uma). A vi e não fiz nada. Nem um pedido de desculpas, nem um esboço de explicação. Nada. Até porque tudo aquilo, naquela noite, naquela festa em que eu estava com outra mulher (com quem saí apenas algumas vezes), foi um acidente. Mas ela não entenderia. Ela não deixaria eu me explicar se tentasse. Sei que existem horas em que ainda não adianta tentar falar com uma mulher. Esta era uma dessas horas.

Confesso que também não sei como iria começar a explicar porque acabamos, eu e ela (a mulher que vi na rua) aos beijos num corredor escuro, enquanto a mulher que entrou na festa comigo dançava a metros dali. Eu JURO que achei que ela tivesse percebido que eu não estava sozinho, e que mesmo assim estava topando toda aquela loucura. Mas não sei o que se passava na minha cabeça e nem mesmo onde eu tinha esquecido a minha noção de perigo. Não sei.

Sei que sempre a desejei e nunca esperava encontrar com ela ali. Nunca. Logo no dia em que resolvi ir acompanhado por pura e simples falta de paciência de flertar. Eu andava cansado daquele jogo todo, de saídas, bebidas e flertes. De verdade. Mas quando a vi, pirei completamente. Perdi a noção de estar momentaneamente acompanhado. Esqueci qualquer polidez e convenção social enquanto minha solteirice, ali não exatamente completa, martelava meu cérebro com ordens imediatas de ataque. E o pior, sem nem pensar em colocar a pobre incauta que sacodia o esqueleto na pista de dança num taxi rumo a qualquer lugar longe dali.

Quando dei por mim estávamos no corredor escuro, eu e a moça que há anos despertava em mim muito mais que interesse. Em beijos espetaculares, de uma sincronicidade e cumplicidade poucos antes vistos. Na hora de voltar à festa, deixei-a ir sozinha na frente. Ao entrar no banheiro, dei de cara com a minha cara de canalha no espelho. Um sorriso largo e cretino no rosto que só a lembrança da outra, esquecida ao som de alguma música insuportável na pista de dança conseguiu quebrar.

Joguei água no rosto, ainda sem acreditar no que tinha acabado de fazer, e fiz a única coisa que me restava fazer: fui resgatar a mulher que tinha chegado na festa comigo para irmos embora e acabarmos de vez com aquilo. Foi quando a pequena Ana (será que eu mencionei que o nome dela era Ana? Será que eu mencionei que ela era pequena?) viu que eu não estava desacompanhado. Seus olhos se injetaram de ódio e eu que pensava que tinha uma cúmplice (juro que pensei que ela sabia que eu não estava só) vi que tinha acabado de ganhar uma fã pelo contrário.

Foi quando ela atravessou a sala como uma bala e disse para que eu nunca ligasse para ela. E nunca mais a vi até este dia, na rua.

Amigas (tô falando de mulheres mesmo, não foi um erro de digitação) que depois ficaram sabendo do acontecido me recriminaram com um estranho tapinha quase cúmplice nas costas. “Você precisava de uma coisa assim na sua vida”, disse uma delas. Outra falou que sabia lá no fundo que eu não era bonzinho, e que eu tinha potencial. Só não precisava ter errado com ela, a doce e pequena Ana. A Ana que agora me odeia. Ana que não quer me ver nem pintado de ouro nem nas próximas encarnações.

Se pedir desculpa adiantasse alguma coisa, eu pediria. Nem que pra isso precisasse levar um bom tapa na cara. Mas cá pra nós, um canalha assim merece muito mais.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A conta do recado

Por André Debevc

Ela era uma dessas mulheres com marca suave de biquini na alma, dourando ao sol de uma Ipanema da vida, escondendo os olhos castanhos e um ensaio do que seriam sardas atrás de um óculos grande, desses que anda na moda agora. Toda vez que ela deixava o carro, ele – um cara comum, repleto de vícios inofensivos e amigos antigos - como que numa reação automática passava a mão direita carinhosamente pelo banco do carona, querendo ainda sentir ali o calor dela.

Dizer que ele quase cheirava o banco de carro seria exagero, tudo bem, mas quase. A idéia de que todo o calor do objeto de desejo dele tinha estado ali há segundos – e ele não tinha feito nada - o deixava louco. Prestes a se declarar. A dizer que tava apaixonado, que tava amando, entre outras besteiras que todo homem já tentou usar pra levar alguém pra cama. Quanto mais quentinho o banco do carro, mais à beira de se declarar pra ela ficava. Mas declarar o que?

Ele sabia que não tinha nada na manga. Só um pouco de canalhice, uns sorrisos safados e muitas intenções bem objetivas e práticas. Nuas e cruas, diria. Mais pra nuas, claro. Ele só queria umas tardes, noites ou madrugadas sem pressa pra colocar moça na boca feito manga. E ficar ali, com aquela mulher na ponta da língua e alguns outros lugares. Até ela se desfazer mil vezes em suor e gozo, e arrumar um lugar pra ele na galeria de trepadas inesquecíveis dela. Lugar eterno, e de preferência com direito a visitas futuras sem necessidade prévia de agendamento ou joguinhos bestas. Mas como fazer isso? Perguntar diretamente era só garantia de um tapa na cara. Ela era bonita, mas não ordinária...

Como eu vinha dizendo, ele não tinha nada na manga. E ela – bonita e cobiçada – não tava muito aí pra ele não. Até o dia em que ele, distraído, esqueceu de elogiar uma mudança no cabelo dela que todo o resto do universo notou e fez questão de elogiar. Foi o suficiente pra que ela olhasse pra ele com outros olhos. Como se de repente tivesse nascido ali outro homem a ser conquistado. Certamente mais um na sua coleção de presas.

E bastou essa pequena desatenção para que algumas caronas depois, estivessem trocando beijos e amassos em frente à portaria dela. Na primeira vez que colocou as mãos entre as pernas dela, espemidas num jeans importado, ele quase explodiu de alegria e precocidade. Era muito mais quente que o banco do carro. Era muito mais quente do que ele esperava que fosse. Ela era muito mais quente do que ele esperava. A pele, a nuca, os peitos, a virilha, tudo. E como era linda.

Na penumbra então, nem se fala. A falta de luz a fazia ficar ainda mais linda - isso ele descobriu no dia em que subiu na casa dela – o peitinho um pouco menor do que ele queria que fosse (enganando a todos num desses sutiãs propaganda enganosa), a bundinha um pouco mais desafiada pela gravidade do que ele imaginava. Enfim, imperfeições que a faziam ainda mais irresistível. A moça que deixava o banco do carro quente. E ela esta a ali, a segundos de ser consumada por ele.

Taças de vinho e um início de dvd (Vanilla Sky, que ele sempre gostou mas viu mil vezes) depois, transaram, treparam e alguns outros sinônimos para todo esse lance de beijar, passar a mão, ficar pelado, beijar mais, lamber, chupar, quase fazer merda, achar a camisinha, lamber mais, colocar a camisinha e voltar a beijar pra poder gozar (com e sem trocadilho) da liberdade de ir e vir, conforme está previsto na constituição. Ufa....e olha...ela é bonita, viu?

Olhando com um sorriso sem dentes para ele mesmo no espelho do elevador do prédio bacana onde ela morava, foi essa a conclusão a que ele chegou. Moça bonita. Virilha quente. Peitinho lindinho e sem biquinho evidente, mas realmente menor do que o ideal. E aquele corriqueiro defeito que mulheres bonitas demais costumam ter: era esforçada. Tinha uns talentos, é verdade, mas estava longe de ser boa naquilo. Esforçada.

O quão boa ou ruim? Digamos que boa o suficiente para ele não ligar no dia seguinte. Mas nada que o fizesse evitar atender quando ela aparecia numa noite de semana no visor do seu celular. "- Oi lindo!" Lindo não, mas que dá sempre conta do recado.

As batatas

Por André Debevc

Acordou ainda sem saber muito bem onde estava, coisa comum nos últimos anos da sua vida. Um resto de shampoo e fumaça na cabeça recostada no seu ombro dormente não deixava dúvida: mais uma vez tinha acabado nua e bêbaba na casa de uma amiga que se divertia levando desconhecidos – quase sempre sem camisinha na carteira - para casa para brincar à três na madrugada.

A boca macia no seu peito, ainda exalando álcool e cigarro barato já até parecia ser coisa antiga e normal, mas a sensação de que toda aquela noite descolada demais não era verdadeiramente pra ela ainda soava seca e forte em manhãs assim, onde flashes de um estranho – quase sempre um pouco agressivo demais - querendo colocá-la de quatro, com a boca entre as pernas da amiga eram mais reais do que nos seus sonhos, sonhados de boca aberta.

Talvez no fundo fosse mesmo apenas uma menina sozinha, de poucos amigos sinceros, a quem nunca tivesse sido dado ou cobrado muito limite.
Desde adolescente se metia em pequenas enrascadas, como quando contraiu uma doença venérea numa noite onde mentiu para a mãe e até pegou carona na moto de um garoto sem carteira e sem nome. Aventuras doidas, segundo ela, que contava os fatos – um pouco amenizados para não chocar demais, claro - aos pais e namorados como se tivessem sido vividas por uma amiga, daquelas que você, eu e todo mundo, não conhece muito bem não.

Mas algo na manhã tardia daquela terça-feira, na luz que entrava no quarto daquele apartamento sem cortinas em Laranjeiras, onde se acostumou a andar nua para deleite dos vizinhos, incomodava um pouquinho mais. Que desculpa usaria para a mãe desta vez para justificar o roxo na coxa grossa e o andar coxo ao chegar em casa? Que tamanho teria o vazio que a separava tanto de quem um dia foi? Era isso mesmo que ela queria? Ou era isso que ela achava que teria que querer e gostar? Teria o limite dela, onde se violou pela primeira vez, sido deixado para trás de uma maneira sem volta?

De frente ao espelho do banheiro da casa da amiga, apertado e encardido pelo tempo, lavou o rosto tentando acordar e deixar a ressaca moral, já costumeira para trás. Parou sem querer os olhos na marca de nascença que um antigo namorado, já esquecido – talvez o mais carinhoso de todos – tanto gostava. Uma onda de fraçao de segundos fez que ia a invadir com nostalgia. Chegou até a ensaiar um sorriso. As melhores batatas são sempre as do fundo do saco, o velho namorado costumava dizer, nas milhares de vezes que iam matar a fome do motel num fastfood longe dali e de tudo que ela era hoje. Ele tinha razão, pensou. E então seus olhos ali, em frente à torneira fechada, se encheram de água silenciosa. Gole seco e inevitável.“As melhores batatas são sempre as do fundo do saco.”

Aquele saco - com as melhores batatas e anos da sua vida - não volta mais. Nunca mais.

quarta-feira, setembro 03, 2008

da alma

Por André Debevc

vai ver é mesmo da alma
isso de vir se despedaçando pelo caminho,
se reinventando e esfarelando,
esquecendo fragmentos e bilhetes dobrados
onde o amor esqueceu
de lembrar que já foi embora.

antes do pôr-do-sol,
muito antes de tantas auroras
ou dela mesma, a alma,
se olhar fundo nos olhos
e entender sorrindo sozinha
que o importante mesmo na vida
é ter páginas com histórias,
porque são elas
as coisas boas de virar.

quinta-feira, agosto 07, 2008

O biscoito e a chuva

Por André Debevc

na tarde de gotas de chuva que mais parecem pães de queijo,
um pacote de biscoito familiar me planta um sorriso mais longo.
estou em são paulo e a garoa bombada achou o endereço de casa
depois de um mês de férias em algum lugar lá pro sul.

debruçado sobre meu itunes repleto de novas aquisições
escalo a tarde driblando o sono,
enquanto o ponteiro pequeno do relógio não chega no sete,
criando idéias pra vender e pagar o aluguel.

e em meio ao pantone de cinza emoldurado na janela,
um biscoito Globo aparece do nada e me sorri,
me fazendo fechar os olhos e lembrar da praia, do Rio,
e de um cara que sou lá naquele universo paralelo
onde o vento bate depois de saltar as ilhas cagarras
e as palmeiras imperiais me mostram que estou em casa.

nada como um biscoito na chuva para fazer o sol bater forte na alma.
Biscoito Globo doce, claro.
porque de salgado já me basta o peito.
regado e sempre morrendo de saudade
da água do mar.

a casa pra qual não se pode voltar

Por André Debevc

depois de tanto tempo ainda tem dias
que sonho em voltar pra casa...
a velha casa que já não é mais minha
onde eu podia encontrar minha fruta favorita,
e sorvê-la em paz.

uma casa que mudou de dono, e até de endereço,
mas que sempre vai ser um lugar bom de sonhar em voltar.

algumas lembranças renascem - com um cheiro, um gosto,
uma voz saindo que pula de canal na tv - só pra cicatriz que nos fez
ter certeza que existiu.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Filosofia Fast-Food

Por André Debevc

As melhores batatas fritas são sempre as que se jogam no fundo do saco
quando pedimos o lanche pra viagem.