Por André Debevc
Velando seu sono enfermo, pensou em acordá-la só pra dizer o quanto a amava. Mas aí lembrou que ainda não inventaram palavra para coisa de tal grandeza. Aí sorriu, lembrando que só ele e o universo sabem o que é uma coisa que não pára de crescer. Nunca pára.
quarta-feira, julho 30, 2008
a moça e a mão nada boba
Por André Debevc
era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.
era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.
quarta-feira, julho 16, 2008
De Luto
Por André Debevc
Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.
(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)
Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.
(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)
quarta-feira, julho 02, 2008
Eterno Amor
Por André Debevc
meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.
meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.
quinta-feira, junho 26, 2008
lugar indeterminado
Por André Debevc
de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)
de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)
quarta-feira, junho 25, 2008
Lágrimas oficiais
Por André Debevc
Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.
Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.
segunda-feira, junho 23, 2008
Fon-fon
Por André Debevc
estar ao seu lado
me faz um bem danado
eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.
levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.
amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.
estar ao seu lado
me faz um bem danado
eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.
levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.
amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.
Ops...
Por André Debevc
o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.
o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.
quinta-feira, junho 19, 2008
Olhar Fracionado
Por André Debevc
às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…
nuca
olhos
boca
peitos
barriga
flancos
pés
e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.
ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você
e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.
amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.
e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.
às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…
nuca
olhos
boca
peitos
barriga
flancos
pés
e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.
ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você
e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.
amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.
e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.
sexta-feira, maio 23, 2008
Havana
Por André Debevc
A manhã se convida para dentro do quarto pelas frestas da persiana velha de guerra que o hotel anda precisando trocar. Dançando nos feixes de sol penetra que corre o chão, a poeira do tempo, embalada em sussurros e interjeições, vai ricochetear naquele quarto para sempre. O ventilador de teto gira ainda entorpecido tentando cortar o ar denso que ainda emana a maratona de pernas e bocas e mãos que ela e ele percorreram, e ganharam. Parece Havana de tão quente e úmido. Parece Havana de tão granulado e irreal. Talvez até seja Havana depois de tanta sensualidade e tesão. O jeito que se olharam quando a porta fechou, o jeito que se pegaram quando tudo não parou. Corpos exaustos em lençóis molhados e atravessados pelo quarto. Os celulares desligados pro mundo. O universo todo deletado da porta pra fora. Velhos amantes amando corpos antes tantas vezes percorridos e até decorados. Depois de quase aplaudirem, só mesmo as tatuagens descansam, certas de que não são mais a única coisa que eles terão para sempre. Ele vai acordar com cara de safado e cínico. Ela com um sorriso e as pernas ainda bambas. Os dois pensando em começar tudo de novo. Os dois adorando acordar com aquele cheiro familiar e que nunca realmente esqueceram. A distância entre eles andava escondendo alguma coisa forte. Alguns dizem que é saudade, outros tesão. Das pernas dela em prender o corpo dele. Da boca dele em ler em braile as curvas e penugens dela. Um encontro tão clandestino quanto inevitável, rasgado pelo toque do telefone do quarto no dia embrulhado em preguiça.
Ela atende. E antes que ela possa desligar, ele já mergulha sem piedade ou hesitação em direção à nuca. Ela arqueia as costas e pede mais.
A manhã se convida para dentro do quarto pelas frestas da persiana velha de guerra que o hotel anda precisando trocar. Dançando nos feixes de sol penetra que corre o chão, a poeira do tempo, embalada em sussurros e interjeições, vai ricochetear naquele quarto para sempre. O ventilador de teto gira ainda entorpecido tentando cortar o ar denso que ainda emana a maratona de pernas e bocas e mãos que ela e ele percorreram, e ganharam. Parece Havana de tão quente e úmido. Parece Havana de tão granulado e irreal. Talvez até seja Havana depois de tanta sensualidade e tesão. O jeito que se olharam quando a porta fechou, o jeito que se pegaram quando tudo não parou. Corpos exaustos em lençóis molhados e atravessados pelo quarto. Os celulares desligados pro mundo. O universo todo deletado da porta pra fora. Velhos amantes amando corpos antes tantas vezes percorridos e até decorados. Depois de quase aplaudirem, só mesmo as tatuagens descansam, certas de que não são mais a única coisa que eles terão para sempre. Ele vai acordar com cara de safado e cínico. Ela com um sorriso e as pernas ainda bambas. Os dois pensando em começar tudo de novo. Os dois adorando acordar com aquele cheiro familiar e que nunca realmente esqueceram. A distância entre eles andava escondendo alguma coisa forte. Alguns dizem que é saudade, outros tesão. Das pernas dela em prender o corpo dele. Da boca dele em ler em braile as curvas e penugens dela. Um encontro tão clandestino quanto inevitável, rasgado pelo toque do telefone do quarto no dia embrulhado em preguiça.
Ela atende. E antes que ela possa desligar, ele já mergulha sem piedade ou hesitação em direção à nuca. Ela arqueia as costas e pede mais.
segunda-feira, maio 05, 2008
TODAS
Por André Debevc
as que me disseram sim
e as que me deram pelo menos um não,
as moças que eu sempre quis e nunca tive
e as que eu quis uma vez e tive sempre,
as que me encheram de sorrisos
e as que me secaram de lágrimas,
as mulheres que eu quis ter na boca
e as que quis nunca mais ter nos olhos,
as que me tiveram pra sempre
e as que sempre me prometeram o que nunca podiam dar,
as fêmeas que me beberam
e as que me escorreram pelas mãos,
as que beijei com vontade
e as pra quem mostrei a língua
aquelas que quis levar pra uma ilha
e as de quem eu não consegui fugir,
as que estraguei eternamente
e as que consertei só com um sorriso um pouquinho mais longo
todas as que cruzaram o meu mundo me trouxeram até aqui
pra deixar você ser a única que pode me chamar de seu.
as que me disseram sim
e as que me deram pelo menos um não,
as moças que eu sempre quis e nunca tive
e as que eu quis uma vez e tive sempre,
as que me encheram de sorrisos
e as que me secaram de lágrimas,
as mulheres que eu quis ter na boca
e as que quis nunca mais ter nos olhos,
as que me tiveram pra sempre
e as que sempre me prometeram o que nunca podiam dar,
as fêmeas que me beberam
e as que me escorreram pelas mãos,
as que beijei com vontade
e as pra quem mostrei a língua
aquelas que quis levar pra uma ilha
e as de quem eu não consegui fugir,
as que estraguei eternamente
e as que consertei só com um sorriso um pouquinho mais longo
todas as que cruzaram o meu mundo me trouxeram até aqui
pra deixar você ser a única que pode me chamar de seu.
por pura falta do que fazer
Por André Debevc
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
na cama no banho ou até num sofá
confesso que estou aqui perdendo meu tempo
pensando em como pode ter sido e até será
tô há minutos (ou seriam já horas?)
parecendo sério sem precisar sorrir sozinho ou disfarçar…
coisa mesmo de quem tá pensando em outra pessoa
em outra coisa, e certamente em outro lugar
tô no meu velho lugar sem saber de você,
ser ter idéia nem certeza se você já pensou em me dar
enquanto tava sozinha com o chuveirinho
ou dormindo só de calcinha num quarto com ar
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
mas não se envaideça não
minha falta completa
do que fazer já vai passar.
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
na cama no banho ou até num sofá
confesso que estou aqui perdendo meu tempo
pensando em como pode ter sido e até será
tô há minutos (ou seriam já horas?)
parecendo sério sem precisar sorrir sozinho ou disfarçar…
coisa mesmo de quem tá pensando em outra pessoa
em outra coisa, e certamente em outro lugar
tô no meu velho lugar sem saber de você,
ser ter idéia nem certeza se você já pensou em me dar
enquanto tava sozinha com o chuveirinho
ou dormindo só de calcinha num quarto com ar
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
mas não se envaideça não
minha falta completa
do que fazer já vai passar.
terça-feira, abril 22, 2008
A Blueberry Life
Por André Debevc
Cores saturadas, movimentos laterais em camera lenta e muitos silêncios. Lembranças são assim, peças órfãs e granuladas de quebra-cabeças sem trilha sonora ou frases de efeito ricocheteando pela eternidade. Finais que não engolimos e chaves de portas que fecharam, perdidas em um jarro de vidro onde nadam histórias contadas por um só lado. Ninguém ensina a gente na escola a ser deixado. Mas se a gente deixar, o mundo até gosta que a gente se reinvente.
Cores saturadas, movimentos laterais em camera lenta e muitos silêncios. Lembranças são assim, peças órfãs e granuladas de quebra-cabeças sem trilha sonora ou frases de efeito ricocheteando pela eternidade. Finais que não engolimos e chaves de portas que fecharam, perdidas em um jarro de vidro onde nadam histórias contadas por um só lado. Ninguém ensina a gente na escola a ser deixado. Mas se a gente deixar, o mundo até gosta que a gente se reinvente.
sexta-feira, abril 18, 2008
Melhoras
Por André Debevc
A distensão já melhorou bastante. E a panturrilha já tá bem menos inchada. Sempre achou engraçado este nome. Panturrilha. Melhor que chamar de batata da perna, diz. Nem parece batata. Andar já anda mais fácil, assim como levantar da cama de manhã. Hoje mesmo nem queria sair da cama. A namorada ali, quentinha e cheirosa, pedindo pra ele inventar uma desculpa e ficar ali na cama, sem precisar levantar e descobrir que a panturrilha melhorou. Não deu. Levantou depois que o despertador tocou pela segunda vez. Foi pro banho ainda pensando se casar e morar junto é a mesma coisa. Anda pensando. Em morar junto. Ele e a moça que não acorda cedo às sextas-feiras. Afinal também é o rodízio dela, né? O dele não é hoje. Foi na quarta. Dia da distensão. A batata da perna rasgando. Batata não, panturrilha. Passou dias mancando. Anti-inflamatório e gelo. Andar, só devagar. Como os amigos que vão se perdendo pelo caminho. Anda pensando. Nos amigos. Em fazer um esporte diferente. Já até mudou o visual. Óculos novo e meia dúzia de peças virgens no armário. No trabalho anda até mais falante. Culpa da distensão que o deixou mancando. Ela não é a única coisa que já melhorou bastante.
A distensão já melhorou bastante. E a panturrilha já tá bem menos inchada. Sempre achou engraçado este nome. Panturrilha. Melhor que chamar de batata da perna, diz. Nem parece batata. Andar já anda mais fácil, assim como levantar da cama de manhã. Hoje mesmo nem queria sair da cama. A namorada ali, quentinha e cheirosa, pedindo pra ele inventar uma desculpa e ficar ali na cama, sem precisar levantar e descobrir que a panturrilha melhorou. Não deu. Levantou depois que o despertador tocou pela segunda vez. Foi pro banho ainda pensando se casar e morar junto é a mesma coisa. Anda pensando. Em morar junto. Ele e a moça que não acorda cedo às sextas-feiras. Afinal também é o rodízio dela, né? O dele não é hoje. Foi na quarta. Dia da distensão. A batata da perna rasgando. Batata não, panturrilha. Passou dias mancando. Anti-inflamatório e gelo. Andar, só devagar. Como os amigos que vão se perdendo pelo caminho. Anda pensando. Nos amigos. Em fazer um esporte diferente. Já até mudou o visual. Óculos novo e meia dúzia de peças virgens no armário. No trabalho anda até mais falante. Culpa da distensão que o deixou mancando. Ela não é a única coisa que já melhorou bastante.
quarta-feira, abril 16, 2008
outro dia
por André Debevc
Tem dias que, sem motivo ou explicação, uma tristeza gigantesca invade minha alma. Aí fica reverberando nos ossos aquela saudade imensa de não sei bem o quê, que tira o brilho dos meus olhos e deixa meu sorriso opaco. Uma quase dor latente que dá um sono e uma preguiça danada, às vezes até de falar, acreditem. E me faltam respostas ou justificativas. E reviro os bolsos da minha existência, vasculho os cantinhos pouco varridos da vida, e nada. Nada explica essa minha tristeza. Nem a programação pobre da tv, nem avenida engarrafada. É meu dia de reticências. Sem alegrias nem tragédias, sem sorrisos verdadeiros nem elogios falsos. Tem dias que uma tristeza gigantesca invade minha alma, uma tristeza que não é minha. Espero que amanhã não seja um destes dias. Porque hoje já não tem como não ser.
Tem dias que, sem motivo ou explicação, uma tristeza gigantesca invade minha alma. Aí fica reverberando nos ossos aquela saudade imensa de não sei bem o quê, que tira o brilho dos meus olhos e deixa meu sorriso opaco. Uma quase dor latente que dá um sono e uma preguiça danada, às vezes até de falar, acreditem. E me faltam respostas ou justificativas. E reviro os bolsos da minha existência, vasculho os cantinhos pouco varridos da vida, e nada. Nada explica essa minha tristeza. Nem a programação pobre da tv, nem avenida engarrafada. É meu dia de reticências. Sem alegrias nem tragédias, sem sorrisos verdadeiros nem elogios falsos. Tem dias que uma tristeza gigantesca invade minha alma, uma tristeza que não é minha. Espero que amanhã não seja um destes dias. Porque hoje já não tem como não ser.
sexta-feira, março 28, 2008
inconstante
Por André Debevc
Sou um homem que vive de vender palavras. Tenho meia dúzia de sonhos e uns dois ou três pesadelos nos bolsos. Me satisfaço com o que vale a pena, e curto cada dia mais ser o melhor de mim mesmo, sem precisar agradar ninguém. Carrego cada vez menos melhores amigos no peito. Conheço algumas verdades, nutro seletas esperanças, e rezo toda noite pra aprender a perdoar pra um dia, quem sabe, esquecer de vez a minha coleçãozinha de mágoas. No caminho de casa, costurando o asfalto no meu carro, olho para o horizonte de concreto na cidade cinza e lembro de tudo que eu já quis ser. E nessa hora, vejo pelo retrovisor, que o sorriso que me vem, não tem nada de amarelo.
Sou um homem que vive de vender palavras. Tenho meia dúzia de sonhos e uns dois ou três pesadelos nos bolsos. Me satisfaço com o que vale a pena, e curto cada dia mais ser o melhor de mim mesmo, sem precisar agradar ninguém. Carrego cada vez menos melhores amigos no peito. Conheço algumas verdades, nutro seletas esperanças, e rezo toda noite pra aprender a perdoar pra um dia, quem sabe, esquecer de vez a minha coleçãozinha de mágoas. No caminho de casa, costurando o asfalto no meu carro, olho para o horizonte de concreto na cidade cinza e lembro de tudo que eu já quis ser. E nessa hora, vejo pelo retrovisor, que o sorriso que me vem, não tem nada de amarelo.
terça-feira, março 18, 2008
Pré-destinados (em até 150 toques)
Por André Debevc
Antes mesmo de sonhar aquele beijo, já a tinha nos braços. Os dois ali só de passagem. Mãos dadas na madrugada, embarcando juntos com um só destino.
Antes mesmo de sonhar aquele beijo, já a tinha nos braços. Os dois ali só de passagem. Mãos dadas na madrugada, embarcando juntos com um só destino.
Outro meio, outro fim
Por André Debevc
Espero que isso nunca me complique, mas sei que sempre que falar de você, vou acabar sorrindo. Complicar por que, ele perguntou. Ah, sei lá…você sempre acaba com umas mulheres ciumentas, que não gostariam de saber o que tivemos. Quer dizer, na verdade acho que é normal ficar incomodada quando você suspeita que o seu namorado teve uma relação super carnal com uma mulher que está ali te dando dois beijinhos com a cara mais deslavada do mundo. Carnal? – Ele indagou. Como mais poderíamos classificar o que tiveram, pensaram. Ele ousou dizer que nunca precisaram dar nome pro que tinham. Verdade, ela disse. E aí sorriu. E assim se despediram deste quase desencontro. Ali no aeroporto onde ela voltava para sua casa em Paris e ele passava por um desvio de ponte aérea em dia de neblina baixa.
Ao vê-la ir embora quem sorriu em silêncio foi ele. Vendo a ir, elegante e discreta como sempre. A mulher com quem, alguns anos antes, tinha vivido um intenso e rápido caso de sexo e amizade. Nada oficialmente clandestino, mas também longe de ser publicamente assumido, mesmo que nenhum dos dois tivesse compromisso pra impedir. Muito pelo contrário, vinham de desastres emocionais e estavam, os dois, com o coração fechado para balanço. Mas nada que impedisse o corpo de funcionar, claro.
Os encontros frequentes por causa de amigos em comum foram o princípio impensado de tudo. E quando se deram conta, estavam na sala, na cama, no box, no mar. Amantes sem compromisso ou paixão para os condenar ao fracasso. Vivendo uma maratona de pernas, línguas, calores e aquele suor que só costuma pingar de corpos muito ofegantes e sempre prontos para mais.
E o que crescia, rentitente como capim colonião, entre os encontros feitos para o sexo, era amizade. Conversas raras, do tipo mais sincero que um homem pode ter com uma mulher. Um papo realmente desprovido de intenções ou armadilhas, tão nu quanto ele e ela numa velha tarde de Natal, antes de cada um seguir para suas famílias sem trocar ao menos um presente. Eles que voltariam ali algumas outras vezes para descobrir os corpos um do outro. Com bocas, mãos, lábios e sexo cúmplices apenas na tarefa de se darem prazer. Sempre.
Estritamente sexo. Sem apego, esperanças ou promessas. Sexo tão compatível que chegava a dar medo. Os corpos nus, ou sempre a caminho de se arrancarem as roupas. Ela que costumava dizer que ele só tinha uma habilidade maior do que a com as palavras: a habilidade que tem com a boca. Ele que sorria cínico em público ao vê-la passar com seus peitos espetaculares e uma atitude de fazer padre engasgar em plena missa.
Ela era mesmo uma mulher sensacional. Em tudo. Bonita, inteligente, interessante e muitíssimo talentosa e fogosa entre lençóis, no chão, na água. Ele era um homem comum, atormentado pelo passado e com uma certeza: a de que uma mulher daquelas não apareceria na sua vida todos os dias. Talvez fosse até bom que fosse assim. Superficial e intenso. Quente e úmido e com cheiro de coito como o ar pesado das tardes que passavam juntos.
Entre amigos, a cordialidade e distância deles escondia a voracidade e vontade com que se despiam quando ficavam sozinhos. Admiravam-se, sem dúvida. Sempre gostaram do sacarcásmo e inteligência um do outro. Sempre gozaram muito um com o outro. O calor lascivo dela, as tentativas de acrobacias dele, a disposição dos dois. Em alguns momentos chegaram a se entender só no olhar. Foi quando começaram a perceber o quanto gostavam do cheiro, jeito de pegar e do calor um do outro. Foi quando ele começou a pensar nela no caminho de volta pra casa. Foi quando ela começou a esperar que ele ligasse.
Um dia o telefone nunca mais tocou. Talvez a regra fosse mesmo essa. A regra não dita para que sempre sorrissem quando ouvissem o nome um do outro. Respeito e carinho por uma amiga que adorava prender o rosto dele entre as coxas. Uma amiga que sorri quando fala dele. Como ele sorri quando pensa nela. Mágoa nenhuma, nunca. Assim como deveria ser sempre. Ainda bem.
Espero que isso nunca me complique, mas sei que sempre que falar de você, vou acabar sorrindo. Complicar por que, ele perguntou. Ah, sei lá…você sempre acaba com umas mulheres ciumentas, que não gostariam de saber o que tivemos. Quer dizer, na verdade acho que é normal ficar incomodada quando você suspeita que o seu namorado teve uma relação super carnal com uma mulher que está ali te dando dois beijinhos com a cara mais deslavada do mundo. Carnal? – Ele indagou. Como mais poderíamos classificar o que tiveram, pensaram. Ele ousou dizer que nunca precisaram dar nome pro que tinham. Verdade, ela disse. E aí sorriu. E assim se despediram deste quase desencontro. Ali no aeroporto onde ela voltava para sua casa em Paris e ele passava por um desvio de ponte aérea em dia de neblina baixa.
Ao vê-la ir embora quem sorriu em silêncio foi ele. Vendo a ir, elegante e discreta como sempre. A mulher com quem, alguns anos antes, tinha vivido um intenso e rápido caso de sexo e amizade. Nada oficialmente clandestino, mas também longe de ser publicamente assumido, mesmo que nenhum dos dois tivesse compromisso pra impedir. Muito pelo contrário, vinham de desastres emocionais e estavam, os dois, com o coração fechado para balanço. Mas nada que impedisse o corpo de funcionar, claro.
Os encontros frequentes por causa de amigos em comum foram o princípio impensado de tudo. E quando se deram conta, estavam na sala, na cama, no box, no mar. Amantes sem compromisso ou paixão para os condenar ao fracasso. Vivendo uma maratona de pernas, línguas, calores e aquele suor que só costuma pingar de corpos muito ofegantes e sempre prontos para mais.
E o que crescia, rentitente como capim colonião, entre os encontros feitos para o sexo, era amizade. Conversas raras, do tipo mais sincero que um homem pode ter com uma mulher. Um papo realmente desprovido de intenções ou armadilhas, tão nu quanto ele e ela numa velha tarde de Natal, antes de cada um seguir para suas famílias sem trocar ao menos um presente. Eles que voltariam ali algumas outras vezes para descobrir os corpos um do outro. Com bocas, mãos, lábios e sexo cúmplices apenas na tarefa de se darem prazer. Sempre.
Estritamente sexo. Sem apego, esperanças ou promessas. Sexo tão compatível que chegava a dar medo. Os corpos nus, ou sempre a caminho de se arrancarem as roupas. Ela que costumava dizer que ele só tinha uma habilidade maior do que a com as palavras: a habilidade que tem com a boca. Ele que sorria cínico em público ao vê-la passar com seus peitos espetaculares e uma atitude de fazer padre engasgar em plena missa.
Ela era mesmo uma mulher sensacional. Em tudo. Bonita, inteligente, interessante e muitíssimo talentosa e fogosa entre lençóis, no chão, na água. Ele era um homem comum, atormentado pelo passado e com uma certeza: a de que uma mulher daquelas não apareceria na sua vida todos os dias. Talvez fosse até bom que fosse assim. Superficial e intenso. Quente e úmido e com cheiro de coito como o ar pesado das tardes que passavam juntos.
Entre amigos, a cordialidade e distância deles escondia a voracidade e vontade com que se despiam quando ficavam sozinhos. Admiravam-se, sem dúvida. Sempre gostaram do sacarcásmo e inteligência um do outro. Sempre gozaram muito um com o outro. O calor lascivo dela, as tentativas de acrobacias dele, a disposição dos dois. Em alguns momentos chegaram a se entender só no olhar. Foi quando começaram a perceber o quanto gostavam do cheiro, jeito de pegar e do calor um do outro. Foi quando ele começou a pensar nela no caminho de volta pra casa. Foi quando ela começou a esperar que ele ligasse.
Um dia o telefone nunca mais tocou. Talvez a regra fosse mesmo essa. A regra não dita para que sempre sorrissem quando ouvissem o nome um do outro. Respeito e carinho por uma amiga que adorava prender o rosto dele entre as coxas. Uma amiga que sorri quando fala dele. Como ele sorri quando pensa nela. Mágoa nenhuma, nunca. Assim como deveria ser sempre. Ainda bem.
segunda-feira, março 17, 2008
Na falta de Greene
Por André Debevc
Você com certeza não leu Greene. Se não foi obrigada ou apresentada a alguma cena antológica dele, você não deve mesmo saber quem é Graham Greene, autor de algumas obras primas da literatura mundial, entre elas o livro “Fim de Caso”. Leitura nunca foi o seu forte mesmo, fazer o que (daqui a pouco sai o filme, não é isso?). Quem sabe agora que você tem que saber um pouco mais sobre os grandes personagens, quem sabe agora você um dia se depare com Maurice Bendrix, um dos maiores personagens de todos os tempos. Um covarde, canalha, quase um anti-herói. Quem sabe…
Mas também, quem sou eu pra dizer quem você leu e quem você não leu? Eu não sou ninguém. Não pra você. Não hoje. Não mais. Você nunca leu Greene. Nunca soube como são as coisas do amor, como são os jeitos da traição. As canalhices e os suspiros, as cegueiras temporárias e o sangue frio conviencente. Você e seus personagens. Até hoje não sei que você realmente era. Seu amor, sua dependência da minha asa, sua necessidade da minha companhia e atenção. Eu não sei de nada. Nada de você. Me dói só saber que você nunca leu Greene.
"Esquecemos as pessoas que amamos, mas não esquececemos as pessoas que traímos." Greene disse isso. Se você lesse, saberia. Não. Você esqueceu quem amou e, principalmente, quem traiu. Nem Bendrix seria tão ingrato. Mas, de novo, você nunca leu Greene. Maldita incauta!
Você com certeza não leu Greene. Se não foi obrigada ou apresentada a alguma cena antológica dele, você não deve mesmo saber quem é Graham Greene, autor de algumas obras primas da literatura mundial, entre elas o livro “Fim de Caso”. Leitura nunca foi o seu forte mesmo, fazer o que (daqui a pouco sai o filme, não é isso?). Quem sabe agora que você tem que saber um pouco mais sobre os grandes personagens, quem sabe agora você um dia se depare com Maurice Bendrix, um dos maiores personagens de todos os tempos. Um covarde, canalha, quase um anti-herói. Quem sabe…
Mas também, quem sou eu pra dizer quem você leu e quem você não leu? Eu não sou ninguém. Não pra você. Não hoje. Não mais. Você nunca leu Greene. Nunca soube como são as coisas do amor, como são os jeitos da traição. As canalhices e os suspiros, as cegueiras temporárias e o sangue frio conviencente. Você e seus personagens. Até hoje não sei que você realmente era. Seu amor, sua dependência da minha asa, sua necessidade da minha companhia e atenção. Eu não sei de nada. Nada de você. Me dói só saber que você nunca leu Greene.
"Esquecemos as pessoas que amamos, mas não esquececemos as pessoas que traímos." Greene disse isso. Se você lesse, saberia. Não. Você esqueceu quem amou e, principalmente, quem traiu. Nem Bendrix seria tão ingrato. Mas, de novo, você nunca leu Greene. Maldita incauta!
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