Por André Debevc
Com o ar mais despreocupado do mundo ele vaga pelo universo. Três ou quatro respostas prontas no bolso costurado pela mãe, ele domina seis sorrisos diferentes fingindo não estar nem aí. Ele sabe que tem mais que merece, ele está ciente que é coisa de outra encarnação, mil karmas a seu favor, sei lá...mas ele também sabe que o relógio anda pra trás, subtrai momentos, reduz segundos, decepando lembranças de quando você sentia o vento da praia na cara, filtro solar 60 e seja o que deus quiser. Ele finge que não, mas sabe sem saber exatamente como que você e ele um dia vão ter um fim.
E aí sem saber bem porque, em alguns dias lindos ele amanhece ciumento e intranqüilo, como quem despenca do centésimo andar, como quem pisa apressado cercado de minas e incertezas. É um homem povoado de sombras futuras, do que ele viveu um dia, do que aconteceu e foi embora. O dia que raiou, inevitável e silencioso como a promessa de que tudo é passageiro. E ele coça a cueca no caminho do banheiro, e ele boceja no caminho da cozinha. Alguma hora tudo passa, ele pensa. Alguma hora a festa acaba. Aqueles olhos, aqueles traços finos e convidativos nos lábios inferiores, aquela cintura fina e os horizontes eternos em seus olhos...aquilo tudo tinha mesmo que se pôr, como o sol que morre fugindo do leblon e do pontal, como tudo que é prometido só com um quarto de vontade.
É um sujeito que já pensa muito menos nos seus olhos castanhos, seus dentes ordenados. Acabar é inevitável, ele sabe. Mas ele finge que não sabe. Ele tem oitocentas desculpas, e ele pede a ajuda do tempo, da família, de qualquer coisa que arraste a ilusão de vencer. Ele sabe que os dias estão desabando em cima dele feito uma onda de três mil metros, ele sabe que vai ser vencido. Às vezes ele se pega pensando nos seus olhos fitando outra boca, nas suas costelas se aninhando em outras mãos, sem promessas, sem viagens. Só com muito mais vontade de descobrir seu gosto, de decorar sua cor favorita, seu jeito de dizer que não, seu meio sorriso de olhar fugindo dizendo que sim. Ele anda falsamente despreocupado por aí.
Ele vaga acelerando pelas avenidas sem lembrar que seu sorriso merece mais, que seu peito acelerado não tem preço em moedas, e custa letras gestos e reticências. Ele quase não olha pros lados antes de furar o sinal e não lembrar que o suspense do que é novo fita sarcástico o primeiro beijo quente e mil vezes pensado. Olhos que se driblam enquanto as bocas ansiosas se mordem em câmera lenta. Peito descompassado, minha mão abraça sua cintura, traz sua coluna e arqueia suas costelas. Te quero inteira numa só rendição em suspiros mordendo minha orelha. Dizendo que há milênios eu tinha – mesmo calado – razão.
O beijo era esse. O cheiro era esse. O calor que te tira do sério era esse. Você dançando comigo entre mil pessoas, e esquecendo do mundo, me concedendo seu universo quente, se explodindo em milhares pra sempre. Seu sorriso na manhã seguinte como você nunca teve antes, seus olhos raiando pérolas e diamantes de acordar com, finalmente, o homem certo. Ah...nossa cumplicidade, nosso beijo. O beijo diz tudo. O fim sorrindo safado, prometendo futuros e planos. Ele nem desconfia. Ele nunca me viu. Eu te encosto meio sem querer e sorrio.
Eu te abraço e gargalho. Respiro fundo pra prender o que posso de você. O relance dos olhos. A sala repleta de desatenções e a gente se encontra. Sei sua mão nas minhas costas, te encho de olhos no descaminho do café. Nunca tomei tanto café...nunca fingi tanto não ver alguém.
Ah se ele soubesse. Vidas paralelas de quem há tempos não te quer como eu te quero. Universo estranho de quem, diferente de mim encontra seu cheiro em qualquer virada do lençol. Ele anda por aí com um ar mais reticente do mundo. E eu só queria ter certeza do que você não gosta de comer, de quando você nunca bebe e do quanto antes de dormir existe uma chance de você pensar em mim. Ele vaga por aí com o ar mais despreocupado do mundo. Seu futuro ex. Um cargo que já ocupei. Com outras mulheres, em outras histórias. E que agora quero viver com você.
sexta-feira, junho 29, 2007
quinta-feira, junho 21, 2007
Saídas Sumidas
Por André Debevc
quero afastá-la de mim mas me falta força,
quero agarrá-la para um beijo mas me falta coragem.
tenho sorrisos, palavras, tenho abraços curtos e algumas piadas,
tenho, talvez, até um bolso cheio de boas intenções...
só não tenho uma saída,
só me falta uma mísera saída heróica e real
para cada vez que a gente fica perto o suficiente para arriscar alguma coisa.
quero afastá-la de mim mas me falta força,
quero agarrá-la para um beijo mas me falta coragem.
tenho sorrisos, palavras, tenho abraços curtos e algumas piadas,
tenho, talvez, até um bolso cheio de boas intenções...
só não tenho uma saída,
só me falta uma mísera saída heróica e real
para cada vez que a gente fica perto o suficiente para arriscar alguma coisa.
Lembrança Latente
Por André Debevc
penso em você mais do que devia
penso em você mais que podia
penso em você muito mais do que gostaria
se esqueço e penso pouco
só acontece umas vezes todo dia
somos pretérito imperfeito
e meu peito ainda conjuga você no presente,
mesmo quando não há mais “a gente”.
sei que penso em você...
já não deveria.
penso em você mais do que devia
penso em você mais que podia
penso em você muito mais do que gostaria
se esqueço e penso pouco
só acontece umas vezes todo dia
somos pretérito imperfeito
e meu peito ainda conjuga você no presente,
mesmo quando não há mais “a gente”.
sei que penso em você...
já não deveria.
Cometa Paralelo
Por André Debevc
com meia dúzia de palavras te deixo completamente nua.
e não importa a avenida,
e não faz diferença a multidão letárgica...
te dispo de tudo sem nenhum receio,
e você morde o lábio inferior devagarzinho,
você desvia os olhos catando no chão alguma coisa pra cobrir sua alma.
é uma mulher sem palavras de efeito ou planos de fuga
o rosto ficando rosa, pupilas dilatadas
um riso nervoso
e o coração batendo na garganta
a falta de uma boa desculpa para correr dali sem olhar para trás.
somos um momento exclusivo onde o resto do mundo não palpita,
e tudo que você quer é que um carro buzine
que um celular toque
que alguma coisa no sistema solar te desvie
antes que você beije a minha boca
antes que você entre sem volta no meu campo de gravidade
e jogue toda essa sua normalidade pro espaço.
mas o ponteiro dos segundos acorda e pula,
a lucidez veste covardia
e balbucia alguma coisa ininteligível no seu ouvido.
o universo lembra o próprio destino e volta a se expandir
agora com um beijo suspenso
ricocheteando em galáxias distantes
passando feito cometa no céu de um lugar paralelo
onde te deixo nua e louca por mim
sem precisar de uma só sílaba.
com meia dúzia de palavras te deixo completamente nua.
e não importa a avenida,
e não faz diferença a multidão letárgica...
te dispo de tudo sem nenhum receio,
e você morde o lábio inferior devagarzinho,
você desvia os olhos catando no chão alguma coisa pra cobrir sua alma.
é uma mulher sem palavras de efeito ou planos de fuga
o rosto ficando rosa, pupilas dilatadas
um riso nervoso
e o coração batendo na garganta
a falta de uma boa desculpa para correr dali sem olhar para trás.
somos um momento exclusivo onde o resto do mundo não palpita,
e tudo que você quer é que um carro buzine
que um celular toque
que alguma coisa no sistema solar te desvie
antes que você beije a minha boca
antes que você entre sem volta no meu campo de gravidade
e jogue toda essa sua normalidade pro espaço.
mas o ponteiro dos segundos acorda e pula,
a lucidez veste covardia
e balbucia alguma coisa ininteligível no seu ouvido.
o universo lembra o próprio destino e volta a se expandir
agora com um beijo suspenso
ricocheteando em galáxias distantes
passando feito cometa no céu de um lugar paralelo
onde te deixo nua e louca por mim
sem precisar de uma só sílaba.
sexta-feira, junho 15, 2007
Festa Junina
Por André Debevc
Quis rasgar todas as fotos deles juntos para fazer uma fogueira. Mudou de idéia. Qual a graça de ver um cartão de memória arder no fogo?
Quis rasgar todas as fotos deles juntos para fazer uma fogueira. Mudou de idéia. Qual a graça de ver um cartão de memória arder no fogo?
Louco Pelo Seu Beijo
Por André Debevc
Acordei com uma vontade louca de beijar você. Te encher de beijos curtos, depois perder um tempo quase absurdo com beijos longos, mas antes quem sabe, te ver dormir um pouco no quarto ainda com preguiça da luz da manhã que se arrasta blasé por entre as persianas. Você em paz ali, só de calcinha e camiseta velha, descansando assim de ladinho com a boca meio aberta e um sonho feliz na cabeça. Acordei com vontade de viver um dia pra te ver se espreguiçando ainda dengosa e me mandando um beijo e um com sorriso antes de me dar bom dia. Um daqueles dias perfeitos pra te ver andando descalça pela casa com os cabelos soltos e um copo com nescau demais na mão. Te ver folheando qualquer revista, pulando em cima de mim quando eu me distrair e me enchendo de ordens e beijos com seu bom humor sarcástico. Um dia pra gente ficar junto sem precisar resolver nada. Um dia pra ficar de bobeira, com um tempinho no sol talvez. Você com a mão na minha perna – que você tanto ama – e eu atento como um felino, revistando com os olhos e a alma o seu corpo pra me apaixonar de vez por qualquer detalhe que te defina, como uma pinta, uma cicatriz ou quem sabe até uma celulite. Acordei morrendo de vontade de olhar dentro dos seus olhos, de sentir o seu calor, de visitar cada traço dos seus lábios e beber do cheiro que só você tem no colo e nuca. Ah, que vontade de te puxar mais perto, te segurar daquele jeito que você adora porque te deixa louca e te faz ter certeza de que você é minha. Levantei da cama hoje pra sentir a parte mais quentinha da suas coxas e ser surpreendido pelo seu lado mais safado. Quero andar de mãos dadas até que o mundo todo feche e sorrir em silêncio no caminho de casa quando você cair no sono no carro. Acordei com uma vontade imensa de ter você pulando em cima de mim, me dizendo o quanto você me ama, me perguntando se sei o quanto eu sou sortudo e prometendo que a gente vai ficar junto pra sempre. Saudade de você, moça. Saudade de viver eu e você. O problema é que eu ainda não sei seu nome, não conheço seu rosto e nem quem você. Mas sei que a gente vai se encontrar em breve. Está escrito há três mil anos como dizia Nélson Rodrigues. Aí não se assuste se eu te perguntar: - será que eu já falei que acordei louco pra te dar um beijo?
Acordei com uma vontade louca de beijar você. Te encher de beijos curtos, depois perder um tempo quase absurdo com beijos longos, mas antes quem sabe, te ver dormir um pouco no quarto ainda com preguiça da luz da manhã que se arrasta blasé por entre as persianas. Você em paz ali, só de calcinha e camiseta velha, descansando assim de ladinho com a boca meio aberta e um sonho feliz na cabeça. Acordei com vontade de viver um dia pra te ver se espreguiçando ainda dengosa e me mandando um beijo e um com sorriso antes de me dar bom dia. Um daqueles dias perfeitos pra te ver andando descalça pela casa com os cabelos soltos e um copo com nescau demais na mão. Te ver folheando qualquer revista, pulando em cima de mim quando eu me distrair e me enchendo de ordens e beijos com seu bom humor sarcástico. Um dia pra gente ficar junto sem precisar resolver nada. Um dia pra ficar de bobeira, com um tempinho no sol talvez. Você com a mão na minha perna – que você tanto ama – e eu atento como um felino, revistando com os olhos e a alma o seu corpo pra me apaixonar de vez por qualquer detalhe que te defina, como uma pinta, uma cicatriz ou quem sabe até uma celulite. Acordei morrendo de vontade de olhar dentro dos seus olhos, de sentir o seu calor, de visitar cada traço dos seus lábios e beber do cheiro que só você tem no colo e nuca. Ah, que vontade de te puxar mais perto, te segurar daquele jeito que você adora porque te deixa louca e te faz ter certeza de que você é minha. Levantei da cama hoje pra sentir a parte mais quentinha da suas coxas e ser surpreendido pelo seu lado mais safado. Quero andar de mãos dadas até que o mundo todo feche e sorrir em silêncio no caminho de casa quando você cair no sono no carro. Acordei com uma vontade imensa de ter você pulando em cima de mim, me dizendo o quanto você me ama, me perguntando se sei o quanto eu sou sortudo e prometendo que a gente vai ficar junto pra sempre. Saudade de você, moça. Saudade de viver eu e você. O problema é que eu ainda não sei seu nome, não conheço seu rosto e nem quem você. Mas sei que a gente vai se encontrar em breve. Está escrito há três mil anos como dizia Nélson Rodrigues. Aí não se assuste se eu te perguntar: - será que eu já falei que acordei louco pra te dar um beijo?
Sem Velhas Traições
Por André Debevc
Ando cansado. Das mulheres erradas, das noites vazias, das madrugadas caras e crepúsculos ébrios. Cansado de abordagens planejadas, da caça sem recompensa ou sorriso no dia seguinte, do telefone sem rosto anotado no celular. Da intenção escancarada antes mesmo de sair de casa. Ando cansado de falar da boca pra fora, de não querer fazer força ou ter alguém pra pedir pra ficar. Ando esvaziado, de motivos pra passar a noite e acordar acompanhado, de sorriso no espelho e de histórias que não tenham deixado algum tipo de decepção ou mágoa. E quando debruço os olhos abatidos sobre a metrópole, encontro um reflexo cinza e triste. Sou eu voltando pra casa no meu corcel negro, imerso em insulfilme e músicas do Dashboard Confessionals. Silêncio na alma, buraco assombrado no peito e luzes azuis do painel refletida nos olhos. Vida que segue com esse maldito cheiro de cigarro na roupa. E no lugar que ficava o coração, uma vontade imensa de amar e nunca me trair de novo.
Ando cansado. Das mulheres erradas, das noites vazias, das madrugadas caras e crepúsculos ébrios. Cansado de abordagens planejadas, da caça sem recompensa ou sorriso no dia seguinte, do telefone sem rosto anotado no celular. Da intenção escancarada antes mesmo de sair de casa. Ando cansado de falar da boca pra fora, de não querer fazer força ou ter alguém pra pedir pra ficar. Ando esvaziado, de motivos pra passar a noite e acordar acompanhado, de sorriso no espelho e de histórias que não tenham deixado algum tipo de decepção ou mágoa. E quando debruço os olhos abatidos sobre a metrópole, encontro um reflexo cinza e triste. Sou eu voltando pra casa no meu corcel negro, imerso em insulfilme e músicas do Dashboard Confessionals. Silêncio na alma, buraco assombrado no peito e luzes azuis do painel refletida nos olhos. Vida que segue com esse maldito cheiro de cigarro na roupa. E no lugar que ficava o coração, uma vontade imensa de amar e nunca me trair de novo.
terça-feira, maio 29, 2007
Palavras reféns e beijos também
Por André Debevc
do outro lado da sala ela só precisa de um sorriso
para sequestrar todas as minhas palavras
aí desvio os olhos
engulo seco
finjo entregar minha atenção a qualquer outra coisa
na tentativa de resgatar um pouco da razão
que caiu no chão junto com o coração
segundos antes
e conto até dez
quando consigo lembrar dos números,
e respiro fundo retribuindo o sorriso
escondendo toda minha sinceridade
por trás da minha simpatia inofensiva
e aí do outro lado da sala ela ajeita o cabelo
e me olha assim de lado
e dá de novo, quase em camera lenta, um só sorriso
e eu que já nem tinha achado as minhas palavras
passo a não pensar em mais nada,
só em beijos que acho que nunca vou poder dar
do outro lado da sala ela só precisa de um sorriso
para sequestrar todas as minhas palavras
aí desvio os olhos
engulo seco
finjo entregar minha atenção a qualquer outra coisa
na tentativa de resgatar um pouco da razão
que caiu no chão junto com o coração
segundos antes
e conto até dez
quando consigo lembrar dos números,
e respiro fundo retribuindo o sorriso
escondendo toda minha sinceridade
por trás da minha simpatia inofensiva
e aí do outro lado da sala ela ajeita o cabelo
e me olha assim de lado
e dá de novo, quase em camera lenta, um só sorriso
e eu que já nem tinha achado as minhas palavras
passo a não pensar em mais nada,
só em beijos que acho que nunca vou poder dar
terça-feira, maio 22, 2007
Estranho Isso
Por André Debevc
Estranho isso de sentir saudade da noite ainda não dormida. Da viagem que nunca foi feita. Do jogo nunca visto. Do milésimo beijo que nunca foi dado. Das mãos se achando no escuro do filme não assistido. Da discussão nunca tida. Do presente jamais recebido. Estranho isso de sentir falta da declaração de amor que nunca foi feita. De um dia perceber o coração batendo mais rápido. Do olhar de cumplicidade ainda sem data pra nascer. Da ligação nunca discada. Da entrega total e feliz de corpo e alma. Estranho isso de estranhar o silêncio online. Os dedos hesitantes no teclado e a bocas que se procuraram tão menos no último encontro. Chato mesmo é isso: de sentir saudade de você e da idéia de tudo que poderíamos ter sido.
Estranho isso de sentir saudade da noite ainda não dormida. Da viagem que nunca foi feita. Do jogo nunca visto. Do milésimo beijo que nunca foi dado. Das mãos se achando no escuro do filme não assistido. Da discussão nunca tida. Do presente jamais recebido. Estranho isso de sentir falta da declaração de amor que nunca foi feita. De um dia perceber o coração batendo mais rápido. Do olhar de cumplicidade ainda sem data pra nascer. Da ligação nunca discada. Da entrega total e feliz de corpo e alma. Estranho isso de estranhar o silêncio online. Os dedos hesitantes no teclado e a bocas que se procuraram tão menos no último encontro. Chato mesmo é isso: de sentir saudade de você e da idéia de tudo que poderíamos ter sido.
terça-feira, maio 15, 2007
Uma vida sem troféus (em 150 toques)
Por André Debevc
Desejava-a intensamente como tudo. Menos troféu. Tivesse uma noite – e não a eternidade - usaria a casa toda com ela. Tirando a estante, claro.
Desejava-a intensamente como tudo. Menos troféu. Tivesse uma noite – e não a eternidade - usaria a casa toda com ela. Tirando a estante, claro.
quarta-feira, maio 09, 2007
Meias sílabas perdidas
Por André Debevc
Meias sílabas ricocheteiam pelo quarto ainda zonzas procurando suas respectivas metades sem saber que horas do dia já são. Ensaios de fachos de uma luz difusa, onde a poeira dança sem pagar ingresso pelo show, invadem o ambiente pela persiana esquecida pelos anos. Talvez seja o sol, pode ser que seja apenas o neon de alguma espelunca qualquer aí em frente, mas quem se importa. Almas vestidas de suor e tesão convocam todos os sentidos pra melhor das batalhas: a que se dorme, acorda e se enrosca no inimigo. Uma dança carnal onde só descansamos recuperando o ar quando quem vence, às vezes, é o cansaço. Maratona de pernas, saliva, horas e dois vencedores. Você me engole sorrindo, me entrega todos os lábios arquejos e penugens que já pensou ter. Testa a resistência das suas pernas, nossa elasticidade, a minha força. E continuamos sem desperdício ou reticência. Um ritmo desritmado, alterando tudo pra que não percamos nada. O calor dos seus beijos, a alegria mais do que morna que escorre pelas suas pernas. Nossos cheiros e sucos inundando o colchão surrado sobre a cama que range e bate todos os pés, morrendo de inveja das paredes, móveis e dos nossos improvisos. Estamos em todos os lugares, de todos os jeitos. Seus dentes no meu ombro, minha língua passeando milhões de vezes pelos seus peitos. Olhos que se cruzam, sorrisos quase sem ar que se reconhecem e se revelam em milímetros de segundo de distância. Mais beijos, mais línguas. Ah, quantas línguas. Fico louco quando você me mordisca a orelha e te agarro pelos cabelos ali pouco acima da nuca. Quero mais é beber desse seu suor ofegante. E entre espásmos e ordens você até tenta me render umas duas ou três sílabas, mas tudo que espoca da sua boca são letras soltas, agarradas umas nas outras, fundidas num só som ininteligível. O ar que você expulsa, sua meia tentativa de pausa olhos fechados e o seu ventre vibrando em quase contrações. Me aperta forte, vai. Me aperta. Fecho os olhos pra poder ir mais fundo, agora já não tem volta. Pede mais, pede. Me dá a mesma ordem mil vezes sem uma palavra. Vamos juntos. Me aperta mão, me arranha as costas, me trava dentro de você até o fim. Agora explode, arqueja, perde a noção de tudo por bem mais que o espaço de milhões de hífens. Morde os lábios. Respira. Sorri. Respira um pouco mais. Fecha os olhos. Me abraça e, ao invés de outra meia sílaba órfã de metade, me diz que ainda é só o começo.
Meias sílabas ricocheteiam pelo quarto ainda zonzas procurando suas respectivas metades sem saber que horas do dia já são. Ensaios de fachos de uma luz difusa, onde a poeira dança sem pagar ingresso pelo show, invadem o ambiente pela persiana esquecida pelos anos. Talvez seja o sol, pode ser que seja apenas o neon de alguma espelunca qualquer aí em frente, mas quem se importa. Almas vestidas de suor e tesão convocam todos os sentidos pra melhor das batalhas: a que se dorme, acorda e se enrosca no inimigo. Uma dança carnal onde só descansamos recuperando o ar quando quem vence, às vezes, é o cansaço. Maratona de pernas, saliva, horas e dois vencedores. Você me engole sorrindo, me entrega todos os lábios arquejos e penugens que já pensou ter. Testa a resistência das suas pernas, nossa elasticidade, a minha força. E continuamos sem desperdício ou reticência. Um ritmo desritmado, alterando tudo pra que não percamos nada. O calor dos seus beijos, a alegria mais do que morna que escorre pelas suas pernas. Nossos cheiros e sucos inundando o colchão surrado sobre a cama que range e bate todos os pés, morrendo de inveja das paredes, móveis e dos nossos improvisos. Estamos em todos os lugares, de todos os jeitos. Seus dentes no meu ombro, minha língua passeando milhões de vezes pelos seus peitos. Olhos que se cruzam, sorrisos quase sem ar que se reconhecem e se revelam em milímetros de segundo de distância. Mais beijos, mais línguas. Ah, quantas línguas. Fico louco quando você me mordisca a orelha e te agarro pelos cabelos ali pouco acima da nuca. Quero mais é beber desse seu suor ofegante. E entre espásmos e ordens você até tenta me render umas duas ou três sílabas, mas tudo que espoca da sua boca são letras soltas, agarradas umas nas outras, fundidas num só som ininteligível. O ar que você expulsa, sua meia tentativa de pausa olhos fechados e o seu ventre vibrando em quase contrações. Me aperta forte, vai. Me aperta. Fecho os olhos pra poder ir mais fundo, agora já não tem volta. Pede mais, pede. Me dá a mesma ordem mil vezes sem uma palavra. Vamos juntos. Me aperta mão, me arranha as costas, me trava dentro de você até o fim. Agora explode, arqueja, perde a noção de tudo por bem mais que o espaço de milhões de hífens. Morde os lábios. Respira. Sorri. Respira um pouco mais. Fecha os olhos. Me abraça e, ao invés de outra meia sílaba órfã de metade, me diz que ainda é só o começo.
Quarto Amarelo
Por André Debevc
no teu quarto amarelo
tuas coxas perfeitas
querem me deixar vermelho,
mas roxo de desejo
nada vejo quando te puxo
te trago te beijo desviando fácil
o último pano que te cobre
e é quando você se abre
me aperta me sobe,
recebe e consome
e no teu quarto amarelo,
você arfante eu mais que quente,
nos cravamos os dentes entre espásmos
e você de repente aperta o laço
que me dá com as coxas
jogando meus sentidos pra longe,
pra onde sua calcinha branca
deita molhada e torta
desde o seu primeiro sorriso
quando entrei mal intencionado e duro
por aquela porta que nem nos incomodamos em fechar.
no teu quarto amarelo
tuas coxas perfeitas
querem me deixar vermelho,
mas roxo de desejo
nada vejo quando te puxo
te trago te beijo desviando fácil
o último pano que te cobre
e é quando você se abre
me aperta me sobe,
recebe e consome
e no teu quarto amarelo,
você arfante eu mais que quente,
nos cravamos os dentes entre espásmos
e você de repente aperta o laço
que me dá com as coxas
jogando meus sentidos pra longe,
pra onde sua calcinha branca
deita molhada e torta
desde o seu primeiro sorriso
quando entrei mal intencionado e duro
por aquela porta que nem nos incomodamos em fechar.
quinta-feira, maio 03, 2007
Inocência zero
Por André Debevc
Finjo bem na minha cordialidade mansa, de cumprimentos sem maiores contatos, mas com você eu não tenho um pensamento puro. Nem um pra contar história e fingir que sou esse cara bonzinho que algumas línguas nem tão más assim queriam espalhar por aí, só pra acabar de vez com minha reputação. Zero. Nada. É só você atravessar meu caminho sorrindo com a boca, ou com os olhos, que partimos para uma dimensão onde todo mundo some e só sobramos nós. Nós e cada vez menos roupa - que só não some por completo pra podermos ter o que puxar e agarrar frenéticos entre amassos e segundos educados com alguma pretensão de hesitação, logo esquecida, quando a temperatura sobe pra valer. Nesta nossa dimensão não existe nada nem ninguém que nos impeça de qualquer coisa. Te beijo, você me morde. Te derreto na boca e você só pede mais. Rasgamos a noite e atravessamos o dia feito dois animais. Frações de segundo na tarde que cai. Carne e química. Cheiro e pólvora. Inconsequência e impossibilidade. Curvas pêlos cheiros e fluídos proibidos aqui na terra de agora que se encontram e reagem incandescentes quando a gente se encontra quando te vejo passar. Imagino seu outro lado que nesse mundo ninguém conhece. Desvendo a força das suas coxas, o calor de seus contornos e a embriaguez de seus lábios. Rendo minhas orelhas pros seus sussurros, ordens e mordidas.
Com você eu não tenho nenhum pensamento puro. E de algum jeito quando nossos olhos se cruzam, sei que você sabe disso há muito tempo.
Finjo bem na minha cordialidade mansa, de cumprimentos sem maiores contatos, mas com você eu não tenho um pensamento puro. Nem um pra contar história e fingir que sou esse cara bonzinho que algumas línguas nem tão más assim queriam espalhar por aí, só pra acabar de vez com minha reputação. Zero. Nada. É só você atravessar meu caminho sorrindo com a boca, ou com os olhos, que partimos para uma dimensão onde todo mundo some e só sobramos nós. Nós e cada vez menos roupa - que só não some por completo pra podermos ter o que puxar e agarrar frenéticos entre amassos e segundos educados com alguma pretensão de hesitação, logo esquecida, quando a temperatura sobe pra valer. Nesta nossa dimensão não existe nada nem ninguém que nos impeça de qualquer coisa. Te beijo, você me morde. Te derreto na boca e você só pede mais. Rasgamos a noite e atravessamos o dia feito dois animais. Frações de segundo na tarde que cai. Carne e química. Cheiro e pólvora. Inconsequência e impossibilidade. Curvas pêlos cheiros e fluídos proibidos aqui na terra de agora que se encontram e reagem incandescentes quando a gente se encontra quando te vejo passar. Imagino seu outro lado que nesse mundo ninguém conhece. Desvendo a força das suas coxas, o calor de seus contornos e a embriaguez de seus lábios. Rendo minhas orelhas pros seus sussurros, ordens e mordidas.
Com você eu não tenho nenhum pensamento puro. E de algum jeito quando nossos olhos se cruzam, sei que você sabe disso há muito tempo.
quarta-feira, maio 02, 2007
O que vem depois
Por André Debevc
Ele gosta de banheiros grandes e lugares de pé direito alto. Sujeito tranquilo, costuma dizer que luas cheias e noites sem nuvens dão vontade de uivar e lamber uns pescoços e peitos por aí. O jeito que ela o beija quando bebe e o time do Fluminense o tiram do sério, só de que maneiras completamente diferentes. E tem dias, em que gosta de pensar nele mesmo como o espaço que respira entre parênteses – cheio de coisas que se pensam mas não se dizem em voz alta. Beijos, queijos, vinhos e amassos. Bom mesmo é fugir quando a tarde cai, entre gargalhadas e dados, amigos distraídos. Aumentar o calor no quarto, suar no frio. Voltar com a alma lavada, o corpo suado e a cara deslavada de quem ficou nu e sapeca, pelado enchendo a cara do cheiro e das interjeições dela. E morreu pra nascer de novo, alegre na goteira aberta no telhado que cobre penugens claras, beijos curtos de quase adeus e sorrisos longos. Mas ele gosta mesmo é de beijos longos, tirar um ronco na rede depois do almoço, fotos pra lembrar que foi feliz; e de um dia pra guardar pra sempre. Até porque, no seu otimismo quase restaurado, o pra sempre - assim como o futuro – ainda vem por aí.
Ele gosta de banheiros grandes e lugares de pé direito alto. Sujeito tranquilo, costuma dizer que luas cheias e noites sem nuvens dão vontade de uivar e lamber uns pescoços e peitos por aí. O jeito que ela o beija quando bebe e o time do Fluminense o tiram do sério, só de que maneiras completamente diferentes. E tem dias, em que gosta de pensar nele mesmo como o espaço que respira entre parênteses – cheio de coisas que se pensam mas não se dizem em voz alta. Beijos, queijos, vinhos e amassos. Bom mesmo é fugir quando a tarde cai, entre gargalhadas e dados, amigos distraídos. Aumentar o calor no quarto, suar no frio. Voltar com a alma lavada, o corpo suado e a cara deslavada de quem ficou nu e sapeca, pelado enchendo a cara do cheiro e das interjeições dela. E morreu pra nascer de novo, alegre na goteira aberta no telhado que cobre penugens claras, beijos curtos de quase adeus e sorrisos longos. Mas ele gosta mesmo é de beijos longos, tirar um ronco na rede depois do almoço, fotos pra lembrar que foi feliz; e de um dia pra guardar pra sempre. Até porque, no seu otimismo quase restaurado, o pra sempre - assim como o futuro – ainda vem por aí.
Erro do Passado (em apenas 150 toques)
Por André Debevc
O amor por ela era tão grande que a primeira coisa a que renunciou foi ele mesmo. Cúmplice, ela não fez menos: assim que viu, abriu mão dele também.
O amor por ela era tão grande que a primeira coisa a que renunciou foi ele mesmo. Cúmplice, ela não fez menos: assim que viu, abriu mão dele também.
segunda-feira, abril 23, 2007
Hoje não
Por André Debevc
hoje não te vejo não te beijo nem te acordo
hoje não te olho não cheiro nem te encosto
hoje é dia de mãos órfãs braços vazios e boca seca
hoje é noite de rolar quilômetros acordar mil vezes
tatear o vazio onde você dorme toda vez que fecho os olhos
hoje o único sinal de você
é essa dor aguda embaixo de alguma das minhas costelas canhotas.
hoje não te vejo não te beijo nem te acordo
hoje não te olho não cheiro nem te encosto
hoje é dia de mãos órfãs braços vazios e boca seca
hoje é noite de rolar quilômetros acordar mil vezes
tatear o vazio onde você dorme toda vez que fecho os olhos
hoje o único sinal de você
é essa dor aguda embaixo de alguma das minhas costelas canhotas.
sexta-feira, abril 20, 2007
corre
Por André Debevc
corre menina. corre como se você tivesse atrasada corre como se fosse fugir da chuva corre como se tivesse que atender o telefone corre como se não tivesse amanhã corre pra dar o ultimo beijo corre sorrindo sabendo que tão olhando corre sabendo que você não vai chegar corre porque já não dá mais tempo corre pra entrar de vez na minha mente corre porque já não vai dar mais pra segurar o mundo em slow motion pra eu nunca poder te alcançar. menina, corre.
corre menina. corre como se você tivesse atrasada corre como se fosse fugir da chuva corre como se tivesse que atender o telefone corre como se não tivesse amanhã corre pra dar o ultimo beijo corre sorrindo sabendo que tão olhando corre sabendo que você não vai chegar corre porque já não dá mais tempo corre pra entrar de vez na minha mente corre porque já não vai dar mais pra segurar o mundo em slow motion pra eu nunca poder te alcançar. menina, corre.
quinta-feira, abril 12, 2007
Perto Dela
Por André Debevc
perto dela
acho até
que
meu peito
bate mais
devagar
como esperando sempre
um olhar ou um gesto,
uns pontos de reticências no ar
pra eu me agarrar e poder
acordar o grande resto que imagino
a cada vez que eu a olho
como se não tivesse olhando
perto dela
às vezes
acho
que meu peito
vai
parar
ansioso
por um momento de distração
e uma resposta
assim como um meio sorriso rendido
para a pergunta que nunca fiz
perto dela
meu peito
às vezes acha
que já é dela
será?
perto dela
acho até
que
meu peito
bate mais
devagar
como esperando sempre
um olhar ou um gesto,
uns pontos de reticências no ar
pra eu me agarrar e poder
acordar o grande resto que imagino
a cada vez que eu a olho
como se não tivesse olhando
perto dela
às vezes
acho
que meu peito
vai
parar
ansioso
por um momento de distração
e uma resposta
assim como um meio sorriso rendido
para a pergunta que nunca fiz
perto dela
meu peito
às vezes acha
que já é dela
será?
terça-feira, abril 03, 2007
Aos Poucos
Por André Debevc
meço palavras
analiso gestos
ensaio carinhos
cedo sorrisos
peço beijos
só quando não resisto
confesso saudade
só quando não aguento
é tudo novo
é tudo diferente
nessa distância
nessa coisa da gente
pra você tenho
milhões de esperanças e gestos
que liberto aos poucos
quando te vejo
pra nós finjo
que não tenho planos nem beijos
a cada noite que o buraco da sua ausência
me lembra que ainda não te tenho
por inteiro
meço palavras
analiso gestos
ensaio carinhos
cedo sorrisos
peço beijos
só quando não resisto
confesso saudade
só quando não aguento
é tudo novo
é tudo diferente
nessa distância
nessa coisa da gente
pra você tenho
milhões de esperanças e gestos
que liberto aos poucos
quando te vejo
pra nós finjo
que não tenho planos nem beijos
a cada noite que o buraco da sua ausência
me lembra que ainda não te tenho
por inteiro
segunda-feira, abril 02, 2007
na terra da vontade
Por André Debevc
fica aí na impossibilidade,
na terra da vontade tudo fica mais perfeito
planta seu sorriso
seu peito
sua sinceridade
onde a vida cresce mais bonita
e quase sem maldade
se esfrega em mim de mansinho
pega em mim um pouco mais
fala baixinho pra ter que chegar mais perto,
e me laça com seu cheiro só um pouquinho
porque a vida que a gente não vai ter
acenou indo embora e já se desfaz…
fica aí na impossibilidade,
na terra da vontade tudo fica mais perfeito
planta seu sorriso
seu peito
sua sinceridade
onde a vida cresce mais bonita
e quase sem maldade
se esfrega em mim de mansinho
pega em mim um pouco mais
fala baixinho pra ter que chegar mais perto,
e me laça com seu cheiro só um pouquinho
porque a vida que a gente não vai ter
acenou indo embora e já se desfaz…
sexta-feira, março 30, 2007
dorme
Por André Debevc
dorme
na luz laranja
que invade o quarto
assim de lado,
seus sonhos se esparramando
na cama entre os lençóis e
cabelos em ondas
enquanto você
descansa mansa
e quase sorri
dorme
nessa manhã
sem roupa sem medo
o corpo dourado
ancorado ao meu
no melhor sono acompanhado
de todas
as minhas estórias
acorda
lenta e linda
suspira fundo
e me beija o peito
antes que o mundo volte a girar
antes que a vida dê um jeito
de voltar a bater
enquanto as nossas bocas ainda
se encontram de olhos fechados
e coração aberto.
dorme
na luz laranja
que invade o quarto
assim de lado,
seus sonhos se esparramando
na cama entre os lençóis e
cabelos em ondas
enquanto você
descansa mansa
e quase sorri
dorme
nessa manhã
sem roupa sem medo
o corpo dourado
ancorado ao meu
no melhor sono acompanhado
de todas
as minhas estórias
acorda
lenta e linda
suspira fundo
e me beija o peito
antes que o mundo volte a girar
antes que a vida dê um jeito
de voltar a bater
enquanto as nossas bocas ainda
se encontram de olhos fechados
e coração aberto.
Acrílicos
Por André Debevc
Na primeira vez que me viu, ainda recém-nascido, meu tio Farnese me olhou em silêncio por uns instantes. Homem de poucas palavras, e ainda menos sorrisos, ele disse à minha mãe, me vendo dormir no berço: - tem que colocar no acrílico. Minha mãe olhou pra ele meio que sem entender e antes que ela perguntasse, ele explicou: - uma coisa perfeita assim tem que ser posta em acrílico para ficar preservada. Era o jeito dele dizer que certas coisas precisam ser eternizadas, da sua forma mais crua. Sem que a humanidade e o tempo possam vir a corromper pra sempre e de uma forma irreversível algo que comprovava, muito a contragosto dele, a existência de deus.
Eu que passei a vida achando que meu soturno tio artista não gostava de nada, a não ser de gatos de rua, pão-de-queijo e ficar sozinho, sorri quando soube que eu, seu sobrinho-neto, tinha merecido tal comentário. Ele não gostava muito de criança, mas gostava de você, disse minha mãe. Mesmo anos depois, ao me ver correndo pela casa de minha avó com meu então inseparável sorriso no rosto, meu velho tio teria sorrido – mais com os olhos do que com a boca, como eram os poucos sorrisos dele – e teria lembrado: - alguém tem que colocar esse menino no acrílico.
Hoje vejo a vida meio assim. Certos momentos, palavras e até olhares deveriam ser eternizados em acrílico. Congelados no tempo e preservados pra sempre aos nossos olhos como nossa memória guardou o que vivemos. O instante onde tudo valia a pena. O milésimo de segundo onde a única coisa que temos é a certeza da felicidade. Da perfeição. O quadro congelado, um frame somente que resume toda uma história, que guarda o que alguém é pra nós. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu poderia ser assim pra sempre. Você bem que podia ser assim pra mim pra sempre...
Todos nós temos nossa coleção de peças com acrílico envolvendo para sempre lembranças, pessoas e até sentimentos. Acrílicos guarados no peito. Acrílicos com o que valeu a pena e com olhares que nunca vamos deixar a vida levar da gente. Olhares como os do meu tio Farnese. Um mestre na arte de capturar para sempre um momento dramático.
Na primeira vez que me viu, ainda recém-nascido, meu tio Farnese me olhou em silêncio por uns instantes. Homem de poucas palavras, e ainda menos sorrisos, ele disse à minha mãe, me vendo dormir no berço: - tem que colocar no acrílico. Minha mãe olhou pra ele meio que sem entender e antes que ela perguntasse, ele explicou: - uma coisa perfeita assim tem que ser posta em acrílico para ficar preservada. Era o jeito dele dizer que certas coisas precisam ser eternizadas, da sua forma mais crua. Sem que a humanidade e o tempo possam vir a corromper pra sempre e de uma forma irreversível algo que comprovava, muito a contragosto dele, a existência de deus.
Eu que passei a vida achando que meu soturno tio artista não gostava de nada, a não ser de gatos de rua, pão-de-queijo e ficar sozinho, sorri quando soube que eu, seu sobrinho-neto, tinha merecido tal comentário. Ele não gostava muito de criança, mas gostava de você, disse minha mãe. Mesmo anos depois, ao me ver correndo pela casa de minha avó com meu então inseparável sorriso no rosto, meu velho tio teria sorrido – mais com os olhos do que com a boca, como eram os poucos sorrisos dele – e teria lembrado: - alguém tem que colocar esse menino no acrílico.
Hoje vejo a vida meio assim. Certos momentos, palavras e até olhares deveriam ser eternizados em acrílico. Congelados no tempo e preservados pra sempre aos nossos olhos como nossa memória guardou o que vivemos. O instante onde tudo valia a pena. O milésimo de segundo onde a única coisa que temos é a certeza da felicidade. Da perfeição. O quadro congelado, um frame somente que resume toda uma história, que guarda o que alguém é pra nós. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu poderia ser assim pra sempre. Você bem que podia ser assim pra mim pra sempre...
Todos nós temos nossa coleção de peças com acrílico envolvendo para sempre lembranças, pessoas e até sentimentos. Acrílicos guarados no peito. Acrílicos com o que valeu a pena e com olhares que nunca vamos deixar a vida levar da gente. Olhares como os do meu tio Farnese. Um mestre na arte de capturar para sempre um momento dramático.
quinta-feira, março 15, 2007
Notícias de longe
Por André Debevc
meu coração ligou não sei daonde
e avisou que está voltando.
não disse como vem
e nem se é de vez,
mas falou que está chegando.
não contou se vem sozinho
vazio ou transbordando.
que surpresa esse sujeito estará me aprontando?
na verdade não importa,
não é pra isso que tô ligando.
sei que meu peito pensou em voltar a bater
e o que menos importa é quando.
meu coração ligou não sei daonde
e avisou que está voltando.
não disse como vem
e nem se é de vez,
mas falou que está chegando.
não contou se vem sozinho
vazio ou transbordando.
que surpresa esse sujeito estará me aprontando?
na verdade não importa,
não é pra isso que tô ligando.
sei que meu peito pensou em voltar a bater
e o que menos importa é quando.
Simples de ler
Por André Debevc
Nunca achei que fosse um cara difícil de ler.
Meu sim normalmente é sim. Meu não, categórico ou precedido de uma certa hesitação, é não. E meu distanciamento é uma tentativa bem intencionada de não entrar em rota de colisão.
Quando eu quero, vou atrás ou chego na frente. Em dúvida – e todos nós temos o direito de tê-las - aguardo. Não sou homem de reticências. Prefiro pontos finais. Pra acabar, pra começar a frase ou a fase seguinte. Sei que é complicado isso de sincronizar relógios. Mas cada um tem seu tempo.
Não sou um engima. Ando sincero e simples como não andava há séculos. Preto no branco, essas coisas. Ando respeitando meu coração. Principalmente quando ele não faz questão de se meter na conversa.
Nunca achei que fosse um cara difícil de ler.
Meu sim normalmente é sim. Meu não, categórico ou precedido de uma certa hesitação, é não. E meu distanciamento é uma tentativa bem intencionada de não entrar em rota de colisão.
Quando eu quero, vou atrás ou chego na frente. Em dúvida – e todos nós temos o direito de tê-las - aguardo. Não sou homem de reticências. Prefiro pontos finais. Pra acabar, pra começar a frase ou a fase seguinte. Sei que é complicado isso de sincronizar relógios. Mas cada um tem seu tempo.
Não sou um engima. Ando sincero e simples como não andava há séculos. Preto no branco, essas coisas. Ando respeitando meu coração. Principalmente quando ele não faz questão de se meter na conversa.
quarta-feira, março 14, 2007
Amar errado
Por André Debevc
Atire a primeira pedra quem já não amou errado. Largou a pedra, né? Pois é, todos nós já o fizemos. Todos nós já amamos bem errado. Amar errado não é exceção, é a regra. Só assim a gente aprende, só assim a gente sofre. E cresce. Aquela menina linda que você amava tanto e com quem queria passar o resto da vida, aquela mulher cheia de vida e planos que você achava que iria te fazer um homem melhor, e até mesmo a paixão adolescente que fez você passar sua primeira noite em claro. Amores errados. Todos eles. Se você olhar bem, vai entender porque.
É difícil é entender as regras do amor. Só com uma coleção de cicatrizes e um punhado de mágoas e amores mal resolvidos que entendemos algumas verdades. Aquela coisa de que os opostos se atraem é uma enorme besteira, por exemplo.
Opostos se distraem e os dispostos se atraem, isso sim. Não se ama duas vezes a mesma mulher. Não se entregue demais a quem acredita ou adora coisas muito diferentes de você. Dê mais valor a quem te faça rir, essas coisas. Moças fingem que amam. Mulheres fingem orgásmos. Importante mesmo é saber reconhecer essas criaturas. E fugir das duas.
Amar em si não é o problema, é coisa que dá e passa. É coisa saudável, que às vezes nos destruir pra começar do zero, mas faz parte. O problema é amar errado. É olhar pra trás e reconhecer que vocês nunca olharam na mesma direção. E amar errado dói. Dói depois. Dói perceber que você investiu em uma relação fadada ao fracasso.
Então, meu camarada, se você desconfiar que não está amando certo, saia fora. Pratique a quase impossível arte de acabar bem, de acabar na hora certa. É um favor que você estará fazendo para sua vida inteira – e não só um gesto louvável de cavalheirismo. Porque talvez ainda dê tempo de se salvar. Talvez ainda dê tempo de conseguir não trair a você mesmo. Pode ser que seja o último lampejo de lucidez antes que seja tarde demais pra alimentar algum tipo de ressentimento, seu ou dela. Se faça esse favor. Não fuzile a esperança ou semeie fantasmas. Deixe espaço para o que vem depois.
Até porque quando a gente reencontra a esperança, aquela guardada numa gaveta que tínhamos perdido junto com um relacionamento que se foi, entendemos que ela ainda é um dos grandes combustíveis do amor. Nos transforma novamente numa folha em branco. Por isso a nossa teimosia, pela chance de um novo começo. Uma folha em branco pode ser qualquer coisa. Até mesmo feliz. E numa hora dessas não é que o medo de amar errado suma. Ele, frustrações, sucessos e amores que quase deram certo sempre vão existir. Mas desta vez vai. Desta vez, vai.
Atire a primeira pedra quem já não amou errado. Largou a pedra, né? Pois é, todos nós já o fizemos. Todos nós já amamos bem errado. Amar errado não é exceção, é a regra. Só assim a gente aprende, só assim a gente sofre. E cresce. Aquela menina linda que você amava tanto e com quem queria passar o resto da vida, aquela mulher cheia de vida e planos que você achava que iria te fazer um homem melhor, e até mesmo a paixão adolescente que fez você passar sua primeira noite em claro. Amores errados. Todos eles. Se você olhar bem, vai entender porque.
É difícil é entender as regras do amor. Só com uma coleção de cicatrizes e um punhado de mágoas e amores mal resolvidos que entendemos algumas verdades. Aquela coisa de que os opostos se atraem é uma enorme besteira, por exemplo.
Opostos se distraem e os dispostos se atraem, isso sim. Não se ama duas vezes a mesma mulher. Não se entregue demais a quem acredita ou adora coisas muito diferentes de você. Dê mais valor a quem te faça rir, essas coisas. Moças fingem que amam. Mulheres fingem orgásmos. Importante mesmo é saber reconhecer essas criaturas. E fugir das duas.
Amar em si não é o problema, é coisa que dá e passa. É coisa saudável, que às vezes nos destruir pra começar do zero, mas faz parte. O problema é amar errado. É olhar pra trás e reconhecer que vocês nunca olharam na mesma direção. E amar errado dói. Dói depois. Dói perceber que você investiu em uma relação fadada ao fracasso.
Então, meu camarada, se você desconfiar que não está amando certo, saia fora. Pratique a quase impossível arte de acabar bem, de acabar na hora certa. É um favor que você estará fazendo para sua vida inteira – e não só um gesto louvável de cavalheirismo. Porque talvez ainda dê tempo de se salvar. Talvez ainda dê tempo de conseguir não trair a você mesmo. Pode ser que seja o último lampejo de lucidez antes que seja tarde demais pra alimentar algum tipo de ressentimento, seu ou dela. Se faça esse favor. Não fuzile a esperança ou semeie fantasmas. Deixe espaço para o que vem depois.
Até porque quando a gente reencontra a esperança, aquela guardada numa gaveta que tínhamos perdido junto com um relacionamento que se foi, entendemos que ela ainda é um dos grandes combustíveis do amor. Nos transforma novamente numa folha em branco. Por isso a nossa teimosia, pela chance de um novo começo. Uma folha em branco pode ser qualquer coisa. Até mesmo feliz. E numa hora dessas não é que o medo de amar errado suma. Ele, frustrações, sucessos e amores que quase deram certo sempre vão existir. Mas desta vez vai. Desta vez, vai.
terça-feira, março 13, 2007
Encontro de fim de tarde
Por André Debevc
Essa tarde de sol que morre lilás quase com trilha sonora no horizonte à direita de ipanema me faz querer fugir com você pra outro lugar. Um lugar com o mar calmo de noronha no inverno e uma cabana de madeira só pra nós dois. Uma choupana com uma rede na sombra onde nem lembraríamos que um dia pensaram em trancar o tempo em dias. Um canto nosso, de brisa e tranquilidade onde eu levaria todos os milênios do mundo te lambendo lento como você fosse uma manga, carnuda como suas curvas exatas e suculenta como seus beijos de duração perfeita. E já te vejo, de cabelos ainda secando ao vento, sorrindo quase letárgica, olhos semi-cerrados pela claridade. A alça do vestido te escapando o ombro esquerdo revelando um princípio de marca de biquini. Os dentes perfeitos alinhados na boca inquieta e um olhar de quem acabou de deletar todo o resto do universo pra sempre. Sua mão direita se fechando em torno do meu braço, me pedindo um beijo, enquanto sua outra ajeita os cabelos que cismam em beijar seus lábios antes de mim. Ah, tarde de sol lilás à direita de ipanema. Se não prestar atenção por onde ando acabo atropelado na ciclovia. Bem que podia ser por você.
Essa tarde de sol que morre lilás quase com trilha sonora no horizonte à direita de ipanema me faz querer fugir com você pra outro lugar. Um lugar com o mar calmo de noronha no inverno e uma cabana de madeira só pra nós dois. Uma choupana com uma rede na sombra onde nem lembraríamos que um dia pensaram em trancar o tempo em dias. Um canto nosso, de brisa e tranquilidade onde eu levaria todos os milênios do mundo te lambendo lento como você fosse uma manga, carnuda como suas curvas exatas e suculenta como seus beijos de duração perfeita. E já te vejo, de cabelos ainda secando ao vento, sorrindo quase letárgica, olhos semi-cerrados pela claridade. A alça do vestido te escapando o ombro esquerdo revelando um princípio de marca de biquini. Os dentes perfeitos alinhados na boca inquieta e um olhar de quem acabou de deletar todo o resto do universo pra sempre. Sua mão direita se fechando em torno do meu braço, me pedindo um beijo, enquanto sua outra ajeita os cabelos que cismam em beijar seus lábios antes de mim. Ah, tarde de sol lilás à direita de ipanema. Se não prestar atenção por onde ando acabo atropelado na ciclovia. Bem que podia ser por você.
Brincos e lembranças órfãs
Por André Debevc
Reduzo a velocidade e com uma mão tateio aquela parte da porta do carro, que um ou dois amigos me deixariam chamar de console, em busca de troco pro pedágio. No mp3, a gaita da versão de Catherine Wheel para Wish You Were Here ilumina o asfalto com chuva na volta à metrópole. Papel, caneta, fragmento de folheto imobiliário, moedas de um centavo (odeio moedas de um centavo), um brinco. Pago o pedágio com a nota que tinha no bolso, agradeço à atendente de nome composto pelo sorriso frio pelo troco, fecho o vidro e tchau. Primeira. Segunda. Três músicas depois, o primeiro flash, ainda meio embaçado de que raios aquele brinco está fazendo ali. Volto a tatear com a mão esquerda e acho a argola. Mais pra grande, mais pra dourada. Como é que foi parar ali?
Triste isso de um brinco só. Órfão. Incompleto. Tipo de coisa que nasceu pra vir em pares, como juras de amor, peitos e atenção de mulher que te ignorava até que você finalmente sossega e começa a namorar. Onde andará a outra metade do par? E mais importante: - de que orelha terá saído? Agora perdido, não tem ao menos uma tarracha, que dirá uma resposta.
Mais uns quilômetros de silêncio e chuva e me vem um dos meus últimos beijos, ou melhor, o primeiro de muitos que levariam a meus últimos beijos com aquela mulher. Aquela que eu só ousei chamar por um apelido diminutivo e doce, mas tão impessoal que nem me surpreenderia se ela não respondesse. Um caso de amor fugaz, destes tão impossíveis e rápidos, que dá até pra dizer que terminou na hora certa. Antes do amor deixar de ser razoável, antes de brotarem as neuroses e enquanto ainda existe generosidade e não ódio ou palavrões balbuciados a cada vez que um virasse as costas.
Acho que era com esse brinco mesmo que ela estava naquela noite em que começamos a dizer adeus. Por um motivo qualquer da vida, parece que eu sempre acabo (ou começo, depende de como se vê) com mulheres com brincos desse tipo, sei lá. Tantos beijos e amassos encostados contra a escada, dançando mergulhados um nos olhos e boca um do outro que não podia mesmo acabar de um jeito diferente. Lembro agora de uma vez, tomando sorvete no fim de um domingo despreocupado, dela dizendo que vivia perdendo brincos. Ela me disse isso mais de uma vez, mas essa foi a última em que ela me disse isso e sorriu também dizendo que tinha decidido começar a achar que aquilo ali era sinal de sorte. E vai ver nossa sorte foi essa: a de acabar na hora certa o que nem oficialmente tinha começado mas que já tomava nossas vidas e viagens curtas de final-de-semana.
Tivemos bons momentos, aquela moça e eu. Uma intimidade rápida e tão cúmplice que duvido que ela consiga passar na frente de uma certa pousada sem lembrar de mim e sorrir em silêncio. Nosso último beijo foi nesse carro, exatamente um mês depois de não conseguir nem trancar as portas na saída de uma festinha que tinha começado inocente como um chope no Baixo Gávea. Ainda com a calcinha embrulhada na mão esquerda, ela sorriu, me pediu que ligasse quando chegasse em casa e me deu um beijo bem aqui neste banco. Agora quem sorri sozinho sou eu.
Uma paixão que vale lembrar. Um amor que me traz saudade e não mágoa. Raro eu sei. Ela também é. Ela sabe disso. Quanto a mim, bom, eu não sei se a vejo de novo. Não sei se ela já deu por falta dos brincos ou se depois de uma noite mais fria ela acorda com saudade do meu peito e abraço quente. Não é tão difícil assim que eu não saiba a resposta certa. As certezas que carrego na vida são poucas. Sei que quando chove não tem blitz e que quem vive no passado está morto. O resto não importa. Nem mesmo de quem realmente são estes brincos.
Reduzo a velocidade e com uma mão tateio aquela parte da porta do carro, que um ou dois amigos me deixariam chamar de console, em busca de troco pro pedágio. No mp3, a gaita da versão de Catherine Wheel para Wish You Were Here ilumina o asfalto com chuva na volta à metrópole. Papel, caneta, fragmento de folheto imobiliário, moedas de um centavo (odeio moedas de um centavo), um brinco. Pago o pedágio com a nota que tinha no bolso, agradeço à atendente de nome composto pelo sorriso frio pelo troco, fecho o vidro e tchau. Primeira. Segunda. Três músicas depois, o primeiro flash, ainda meio embaçado de que raios aquele brinco está fazendo ali. Volto a tatear com a mão esquerda e acho a argola. Mais pra grande, mais pra dourada. Como é que foi parar ali?
Triste isso de um brinco só. Órfão. Incompleto. Tipo de coisa que nasceu pra vir em pares, como juras de amor, peitos e atenção de mulher que te ignorava até que você finalmente sossega e começa a namorar. Onde andará a outra metade do par? E mais importante: - de que orelha terá saído? Agora perdido, não tem ao menos uma tarracha, que dirá uma resposta.
Mais uns quilômetros de silêncio e chuva e me vem um dos meus últimos beijos, ou melhor, o primeiro de muitos que levariam a meus últimos beijos com aquela mulher. Aquela que eu só ousei chamar por um apelido diminutivo e doce, mas tão impessoal que nem me surpreenderia se ela não respondesse. Um caso de amor fugaz, destes tão impossíveis e rápidos, que dá até pra dizer que terminou na hora certa. Antes do amor deixar de ser razoável, antes de brotarem as neuroses e enquanto ainda existe generosidade e não ódio ou palavrões balbuciados a cada vez que um virasse as costas.
Acho que era com esse brinco mesmo que ela estava naquela noite em que começamos a dizer adeus. Por um motivo qualquer da vida, parece que eu sempre acabo (ou começo, depende de como se vê) com mulheres com brincos desse tipo, sei lá. Tantos beijos e amassos encostados contra a escada, dançando mergulhados um nos olhos e boca um do outro que não podia mesmo acabar de um jeito diferente. Lembro agora de uma vez, tomando sorvete no fim de um domingo despreocupado, dela dizendo que vivia perdendo brincos. Ela me disse isso mais de uma vez, mas essa foi a última em que ela me disse isso e sorriu também dizendo que tinha decidido começar a achar que aquilo ali era sinal de sorte. E vai ver nossa sorte foi essa: a de acabar na hora certa o que nem oficialmente tinha começado mas que já tomava nossas vidas e viagens curtas de final-de-semana.
Tivemos bons momentos, aquela moça e eu. Uma intimidade rápida e tão cúmplice que duvido que ela consiga passar na frente de uma certa pousada sem lembrar de mim e sorrir em silêncio. Nosso último beijo foi nesse carro, exatamente um mês depois de não conseguir nem trancar as portas na saída de uma festinha que tinha começado inocente como um chope no Baixo Gávea. Ainda com a calcinha embrulhada na mão esquerda, ela sorriu, me pediu que ligasse quando chegasse em casa e me deu um beijo bem aqui neste banco. Agora quem sorri sozinho sou eu.
Uma paixão que vale lembrar. Um amor que me traz saudade e não mágoa. Raro eu sei. Ela também é. Ela sabe disso. Quanto a mim, bom, eu não sei se a vejo de novo. Não sei se ela já deu por falta dos brincos ou se depois de uma noite mais fria ela acorda com saudade do meu peito e abraço quente. Não é tão difícil assim que eu não saiba a resposta certa. As certezas que carrego na vida são poucas. Sei que quando chove não tem blitz e que quem vive no passado está morto. O resto não importa. Nem mesmo de quem realmente são estes brincos.
Outros dentes
por andré debevc
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos,
minha boca rastreando pintas curvas auréolas
minha língua te varrendo macia
as mãos puxando segurando esquentando,
seus cabelos entre meus dentes
aquele cantinho atrás da orelha
onde você esconde seu cheiro
as coxas grossas me apertando
a cicatriz do seu joelho,
eu voltando pra casa
em cada um dos seus espásmos.
O caso de amor
da sua virilha e minha barba mal feita,
você em cima de mim
me rendendo o mamilo
rindo achando que tava no controle.
vou dormir hoje com saudade dos seus peitos
vou acordar no meio da noite lembrando do seu calor
e de cada uma de suas interjeições e meias síliabas,
vou rolar na cama sem seus beijos
ou sua mão abrindo a minha calça.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos
que você me esfregava assim,
que diziam me amar tanto
e que hoje não mandam nem lembrança.
amanhã vou acordar com saudade dos seus peitos
que já devem ter se perdido em tantas outras bocas,
que nem reconheceriam a marca doce dos meus dentes.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos,
minha boca rastreando pintas curvas auréolas
minha língua te varrendo macia
as mãos puxando segurando esquentando,
seus cabelos entre meus dentes
aquele cantinho atrás da orelha
onde você esconde seu cheiro
as coxas grossas me apertando
a cicatriz do seu joelho,
eu voltando pra casa
em cada um dos seus espásmos.
O caso de amor
da sua virilha e minha barba mal feita,
você em cima de mim
me rendendo o mamilo
rindo achando que tava no controle.
vou dormir hoje com saudade dos seus peitos
vou acordar no meio da noite lembrando do seu calor
e de cada uma de suas interjeições e meias síliabas,
vou rolar na cama sem seus beijos
ou sua mão abrindo a minha calça.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos
que você me esfregava assim,
que diziam me amar tanto
e que hoje não mandam nem lembrança.
amanhã vou acordar com saudade dos seus peitos
que já devem ter se perdido em tantas outras bocas,
que nem reconheceriam a marca doce dos meus dentes.
Esqueçam as portas
Por André Debevc
Hoje não quero nem saber. Vou sentar de costas pra porta. Sem vigiar se você vem ou se passa. Vou esquecer que um dia te esperei demais e vou beijar na boca com sinceridade e alívio entre um sorriso e mil outros. Hoje eu vou ser feliz como já devia ter voltado a ser a mais tempo. Hoje a porta e meus guarda-costas que se danem. Que meus cães farejadores se distraiam com qualquer outra bobagem facilmente mais entorpecente do que sua presença esvaziada, esse espectro distante de alegria de alguém que um dia já precisou de bem menos platéia. Hoje não quero nem saber. Esqueçam as malditas portas, todas elas. As que bati, as que fecharam na minha cara, as que escancaro só com um suspiro mais fundo e um sorriso mais cínico. Nem se todos os meus fantasmas entrassem neste momento com todo o arsenal do mundo, conseguiriam me derrubar. Hoje eu sou o dono desse lugar. E agora vou celebrar com saliva e uma nova deliciosa nuca na boca todo o movimento de entra-e-sai debaixo daqueles batentes dessa minha nova verdade - Aí sorrio sozinho e lembro que um dia achei que fosse morrer como Pushkin, de coração rachado. Mas aí lembro que não sou o poeta russo, e quem passou jamais seria poderia ter o papel de Natasha. Que bom. - Vou celebrar sem chope, distração rasa ou promessa contundente esse coração no peito, esse calor úmido e ritmado na boca. Beijos que me fecham os olhos mas não me suspendem o sorriso. Beijos que me colocam de costas para sempre para a porta por onde quem amei não vai entrar nunca mais. Já não era sem tempo.
Hoje não quero nem saber. Vou sentar de costas pra porta. Sem vigiar se você vem ou se passa. Vou esquecer que um dia te esperei demais e vou beijar na boca com sinceridade e alívio entre um sorriso e mil outros. Hoje eu vou ser feliz como já devia ter voltado a ser a mais tempo. Hoje a porta e meus guarda-costas que se danem. Que meus cães farejadores se distraiam com qualquer outra bobagem facilmente mais entorpecente do que sua presença esvaziada, esse espectro distante de alegria de alguém que um dia já precisou de bem menos platéia. Hoje não quero nem saber. Esqueçam as malditas portas, todas elas. As que bati, as que fecharam na minha cara, as que escancaro só com um suspiro mais fundo e um sorriso mais cínico. Nem se todos os meus fantasmas entrassem neste momento com todo o arsenal do mundo, conseguiriam me derrubar. Hoje eu sou o dono desse lugar. E agora vou celebrar com saliva e uma nova deliciosa nuca na boca todo o movimento de entra-e-sai debaixo daqueles batentes dessa minha nova verdade - Aí sorrio sozinho e lembro que um dia achei que fosse morrer como Pushkin, de coração rachado. Mas aí lembro que não sou o poeta russo, e quem passou jamais seria poderia ter o papel de Natasha. Que bom. - Vou celebrar sem chope, distração rasa ou promessa contundente esse coração no peito, esse calor úmido e ritmado na boca. Beijos que me fecham os olhos mas não me suspendem o sorriso. Beijos que me colocam de costas para sempre para a porta por onde quem amei não vai entrar nunca mais. Já não era sem tempo.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Brilho eterno de um peito vazio
Por André Debevc
Quem veio te apagar da minha mente esqueceu de se livrar do meu sorriso vendo suas calcinhas coloridas, você correndo pelo corredor de casa quase pelada, sua boca aberta quando você dorme voltando pra casa depois do motel. Esqueceram de apagar os lenços de papel que você largou pelo carro e pela minha vida, os seus esmaltes anti-alérgicos e suas calças 38. Deixaram pelos cantos as marcas dos seus pés sempre descalços, no vidro do carro que nem existe mais, seu sutiã de mil alças jogado no canto do quarto e o jeito sapeca que você ajeitava os peitos pra eles sempre parecerem maiores. Quem veio te apagar da minha vida foi embora e parece ter deixado aqui como eu adorava você me pedindo pra coçar sua virilha ou vindo correndo na minha direção na cozinha pra depois pular em cima de mim e me embrulhar com suas coxas. Quem quer que tenha vindo fazer o serviço de te arrancar de dentro mim não levou a imagem de você cortando pão com tesoura ou enchendo o copo com nescau demais pelas manhãs. Não levaram você esfregando os peitos na minha cara ou abrindo, moleca, a toalha só pra me mostrar o corpo lindo e molhado com seus pais na porta aberta logo ali ao lado. Deixaram em algum desses meus cantos a lembrança feliz de ver seu carro chegando e você me beijando antes da porta do elevador tentar fechar pela milésima vez a cada vez que eu ia embora. Esqueceram de deletar suas pernas grossas jogadas sobre mim numa noite de semana no sofá, que eu achava ser azul, enquanto víamos alguma série na televisão. Quem veio te tirar da minha alma não cortou você tentando ajeitar minhas cutículas numa noite de biscoito Bono ou pipoca de microondas. Quem quer que tenha vindo com a tarefa de tirar você da minha cabeça certamente esqueceu de apagar o encaixe dos nossos beijos e aquele cheirinho que você tem atrás da orelha que eu adorava tanto. Deixaram jogado por aqui também os seus pés brincando com os meus e me dando beliscões, o jeito que você gostava de me ver de óculos e me chamar de cabrito, e o sorriso que espocava nos seus olhos toda vez que você me falava de Bali ou do Macarrão. Esqueceram de levar do meu peito a cicatriz do seu joelho esquerdo e a da velha cirurgia de quando você ainda era pequena, a bagunça eterna do seu carro e a sua inacreditável memória pra letras de música. E quem foi que deixou aqui dentro o jeito lindo que você não consegue falar direito “world” e o barulhinho insistente que você fazia toda vez que a gente dormia em São Paulo? De uma maneira ou de outra, partiram e não deletaram a alegria de andar com você no shopping ou o jeito que você entorta os pés quando mexe nas roupas penduradas na loja antes de parar na frente do espelho fazendo mil caras. Pois é menina, deixaram você dizendo que a gente era um time, lendo bestsellers pra arrumar um jeito de ganhar dinheiro e me contando de Wicca. E olha que também não deram sumiço nos beijos perfeitos, nas risadas – a gente ria muito, lembra? - e no nosso jeito todo nosso de falar mal de alguém. Deixaram por aqui a diversão dos trezentos casamentos e a gente dancando NewYorkNewYork na ponte do Caiçaras numa cumplicidade e alegria que ninguém nunca viu. Não apagaram a nossa ida ao Garota da Urca com você dançando em cima do capô do bolinha, nem a noite que você bebeu demais no Baixo e só queria que eu te levasse dali e arrancasse sua roupa. Não tiraram daqui um monte de coisa. Seu jeito de me chantagear fazendo cara de gato de botas, as nossas noites em Búzios, no Leblon e Teresópolis ou na vez em que não fomos ao noivado da sua irmã porque você tava passando mal. Nós éramos ótimos juntos. Será que você lembra? Ai, canalhas que pediram alto para tirar você da minha cabeça... Não apagaram o quanto eu te amava e gostava de pegar engarrafamento com você depois de acordar ao seu lado, quase sempre atrasada pra faculdade. Ai, deus. Quem veio te apagar da minha mente fez mesmo foi um belo de um serviço de porco.
Quem veio te apagar da minha mente esqueceu de se livrar do meu sorriso vendo suas calcinhas coloridas, você correndo pelo corredor de casa quase pelada, sua boca aberta quando você dorme voltando pra casa depois do motel. Esqueceram de apagar os lenços de papel que você largou pelo carro e pela minha vida, os seus esmaltes anti-alérgicos e suas calças 38. Deixaram pelos cantos as marcas dos seus pés sempre descalços, no vidro do carro que nem existe mais, seu sutiã de mil alças jogado no canto do quarto e o jeito sapeca que você ajeitava os peitos pra eles sempre parecerem maiores. Quem veio te apagar da minha vida foi embora e parece ter deixado aqui como eu adorava você me pedindo pra coçar sua virilha ou vindo correndo na minha direção na cozinha pra depois pular em cima de mim e me embrulhar com suas coxas. Quem quer que tenha vindo fazer o serviço de te arrancar de dentro mim não levou a imagem de você cortando pão com tesoura ou enchendo o copo com nescau demais pelas manhãs. Não levaram você esfregando os peitos na minha cara ou abrindo, moleca, a toalha só pra me mostrar o corpo lindo e molhado com seus pais na porta aberta logo ali ao lado. Deixaram em algum desses meus cantos a lembrança feliz de ver seu carro chegando e você me beijando antes da porta do elevador tentar fechar pela milésima vez a cada vez que eu ia embora. Esqueceram de deletar suas pernas grossas jogadas sobre mim numa noite de semana no sofá, que eu achava ser azul, enquanto víamos alguma série na televisão. Quem veio te tirar da minha alma não cortou você tentando ajeitar minhas cutículas numa noite de biscoito Bono ou pipoca de microondas. Quem quer que tenha vindo com a tarefa de tirar você da minha cabeça certamente esqueceu de apagar o encaixe dos nossos beijos e aquele cheirinho que você tem atrás da orelha que eu adorava tanto. Deixaram jogado por aqui também os seus pés brincando com os meus e me dando beliscões, o jeito que você gostava de me ver de óculos e me chamar de cabrito, e o sorriso que espocava nos seus olhos toda vez que você me falava de Bali ou do Macarrão. Esqueceram de levar do meu peito a cicatriz do seu joelho esquerdo e a da velha cirurgia de quando você ainda era pequena, a bagunça eterna do seu carro e a sua inacreditável memória pra letras de música. E quem foi que deixou aqui dentro o jeito lindo que você não consegue falar direito “world” e o barulhinho insistente que você fazia toda vez que a gente dormia em São Paulo? De uma maneira ou de outra, partiram e não deletaram a alegria de andar com você no shopping ou o jeito que você entorta os pés quando mexe nas roupas penduradas na loja antes de parar na frente do espelho fazendo mil caras. Pois é menina, deixaram você dizendo que a gente era um time, lendo bestsellers pra arrumar um jeito de ganhar dinheiro e me contando de Wicca. E olha que também não deram sumiço nos beijos perfeitos, nas risadas – a gente ria muito, lembra? - e no nosso jeito todo nosso de falar mal de alguém. Deixaram por aqui a diversão dos trezentos casamentos e a gente dancando NewYorkNewYork na ponte do Caiçaras numa cumplicidade e alegria que ninguém nunca viu. Não apagaram a nossa ida ao Garota da Urca com você dançando em cima do capô do bolinha, nem a noite que você bebeu demais no Baixo e só queria que eu te levasse dali e arrancasse sua roupa. Não tiraram daqui um monte de coisa. Seu jeito de me chantagear fazendo cara de gato de botas, as nossas noites em Búzios, no Leblon e Teresópolis ou na vez em que não fomos ao noivado da sua irmã porque você tava passando mal. Nós éramos ótimos juntos. Será que você lembra? Ai, canalhas que pediram alto para tirar você da minha cabeça... Não apagaram o quanto eu te amava e gostava de pegar engarrafamento com você depois de acordar ao seu lado, quase sempre atrasada pra faculdade. Ai, deus. Quem veio te apagar da minha mente fez mesmo foi um belo de um serviço de porco.
segunda-feira, setembro 25, 2006
Saída pela direita
Por André Debevc
Sair dali. Juro que eu acordei pensando nisso. Quer dizer, quando comecei a pensar, foi isso que veio à minha cabeça. Até porque do jeito que fui acordado – chupado feito caroço de manga – não tinha mesmo muito como raciocinar. Essa coisa puramente carnal é bom quando você vai pra cama, nem sempre quando você abre os olhos no dia seguinte. Camisinha arremessada no lixo – lá se vão mais uns milhares de ganhadores do prêmio nobel, gosto de pensar – só faltava mesmo sair dali.
Sou muito bom em ficar ali abraçadinho pós-coito, mas como só mesmo minha analista sabe, tenho sérios problemas em ficar abraçado a quem não quero realmente abraçar. Ando meio arredio já há alguns anos e nem sei bem porque, mas isso é outra conversa. Marcando cerrado o relógio digital perto da foto dela mesma em algum lugar cliché da europa, faço o que posso antes de sorrir, respirar fundo, apertar a moça com um abraço de um braço só, e pular da cama com uma desculpa pra ir embora tão boa que quase eu acredito que tenha mesmo compromisso logo mais. Aí, sem mentir, digo que preciso ir já juntando os fragmentos da minha passagem por ali e dou um beijo de adeus com aquele ar de penúltimo.
Cabelo desgrenhado, sorriso reprisado pra mim mesmo no espelho do elevador, cumprimento o porteiro e ganho as ruas sem lembrar a última manhã em que eu não quis ir embora, a última vez em que torci pra estar chovendo e ser domingo, a última mulher que me fez querer esquecer do mundo e viver ali, me alimentando apenas dos beijos dela. Nossa, faz tanto tempo que às vezes acho que foi até invenção da minha cabeça, às vezes imprecisa e cínica. Não faz diferenca, quem sabe na próxima, né?
Belas manhãs de sol são ainda mais belas quando você já tá sem pressa, o dia ainda sem saber direito se é domingo ou terça-feira e você já está livre pra fazer o que quiser da vida, até mesmo ir pra casa e dormir numa cama maior e, principalmente, vazia.
Sorrindo pra gente que nunca vi, vou andando jurando um dia usar a mentira mais deslavada do mundo só pra ver se cola. Talvez um dia que vá comprar cigarros e nunca volte. Talvez um dia diga que tenho que voltar pra minha mulher só pra ver a cara da moça, se causo revolta ou tristeza, antes de cair na gargalhada e ficar mais um pouquinho pra mais uns beijos e quem sabe mais uma camisinha no lixo. Sexo de reconciliação não devia ser privilégio só de quem tem compromisso.
Passada alguma banca de jornal onde vejo as manchetes sem me espantar com a desgraça do país, cerro os olhos pra fugir de alguns dos raios de sol que me lembram como adoro esse astro amarelo. Será que eu devia ir pra praia? Enquanto tiro meu tempo pensando, chega uma mensagem de texto. É moça, sei que foi bom. Ótimo fica por sua conta. Sei que posso ser melhor que isso, talvez na próxima eu te deixe experimentar mais um pouquinho. E não me leve a mal, gosto de você e tudo mais, só que não achei que fosse preciso abrir toda minha caixinha de ferramentas ou surpresas pra esta noite. Pra não ser indelicado com tanta honestidade respondo só com uma carinha feliz.
Saber ir embora é uma arte. Vai que um dia quero voltar. Vai que um dia a idéia de ficar um pouco mexa com alguma coisa dentro de mim. Deixa pra lá, depois eu penso nisso. Depois eu me preocupo em te ver ou não. Depois, se lembrar, eu dou um jeito de deixar a porta aberta. Agora a única coisa que quero esquecer é que na porta que eu queria bater, nem adianta tentar.
Sair dali. Juro que eu acordei pensando nisso. Quer dizer, quando comecei a pensar, foi isso que veio à minha cabeça. Até porque do jeito que fui acordado – chupado feito caroço de manga – não tinha mesmo muito como raciocinar. Essa coisa puramente carnal é bom quando você vai pra cama, nem sempre quando você abre os olhos no dia seguinte. Camisinha arremessada no lixo – lá se vão mais uns milhares de ganhadores do prêmio nobel, gosto de pensar – só faltava mesmo sair dali.
Sou muito bom em ficar ali abraçadinho pós-coito, mas como só mesmo minha analista sabe, tenho sérios problemas em ficar abraçado a quem não quero realmente abraçar. Ando meio arredio já há alguns anos e nem sei bem porque, mas isso é outra conversa. Marcando cerrado o relógio digital perto da foto dela mesma em algum lugar cliché da europa, faço o que posso antes de sorrir, respirar fundo, apertar a moça com um abraço de um braço só, e pular da cama com uma desculpa pra ir embora tão boa que quase eu acredito que tenha mesmo compromisso logo mais. Aí, sem mentir, digo que preciso ir já juntando os fragmentos da minha passagem por ali e dou um beijo de adeus com aquele ar de penúltimo.
Cabelo desgrenhado, sorriso reprisado pra mim mesmo no espelho do elevador, cumprimento o porteiro e ganho as ruas sem lembrar a última manhã em que eu não quis ir embora, a última vez em que torci pra estar chovendo e ser domingo, a última mulher que me fez querer esquecer do mundo e viver ali, me alimentando apenas dos beijos dela. Nossa, faz tanto tempo que às vezes acho que foi até invenção da minha cabeça, às vezes imprecisa e cínica. Não faz diferenca, quem sabe na próxima, né?
Belas manhãs de sol são ainda mais belas quando você já tá sem pressa, o dia ainda sem saber direito se é domingo ou terça-feira e você já está livre pra fazer o que quiser da vida, até mesmo ir pra casa e dormir numa cama maior e, principalmente, vazia.
Sorrindo pra gente que nunca vi, vou andando jurando um dia usar a mentira mais deslavada do mundo só pra ver se cola. Talvez um dia que vá comprar cigarros e nunca volte. Talvez um dia diga que tenho que voltar pra minha mulher só pra ver a cara da moça, se causo revolta ou tristeza, antes de cair na gargalhada e ficar mais um pouquinho pra mais uns beijos e quem sabe mais uma camisinha no lixo. Sexo de reconciliação não devia ser privilégio só de quem tem compromisso.
Passada alguma banca de jornal onde vejo as manchetes sem me espantar com a desgraça do país, cerro os olhos pra fugir de alguns dos raios de sol que me lembram como adoro esse astro amarelo. Será que eu devia ir pra praia? Enquanto tiro meu tempo pensando, chega uma mensagem de texto. É moça, sei que foi bom. Ótimo fica por sua conta. Sei que posso ser melhor que isso, talvez na próxima eu te deixe experimentar mais um pouquinho. E não me leve a mal, gosto de você e tudo mais, só que não achei que fosse preciso abrir toda minha caixinha de ferramentas ou surpresas pra esta noite. Pra não ser indelicado com tanta honestidade respondo só com uma carinha feliz.
Saber ir embora é uma arte. Vai que um dia quero voltar. Vai que um dia a idéia de ficar um pouco mexa com alguma coisa dentro de mim. Deixa pra lá, depois eu penso nisso. Depois eu me preocupo em te ver ou não. Depois, se lembrar, eu dou um jeito de deixar a porta aberta. Agora a única coisa que quero esquecer é que na porta que eu queria bater, nem adianta tentar.
quinta-feira, setembro 21, 2006
Bela manhã de sol
Por André Debevc
Engraçado como a gente se engana com as pessoas. Uma bela manhã de sol, e pum. Ela ta fora da sua vida. Ela que você jurou amar pra sempre, logo ela que tinha te enchido de planos, apelidos e responsabilidades. Fazer o quê. Tudo que começa acaba, alguém te diz. A gente se engana. Ou muda de idéia, o que parece mais aceitável principalmente para quem não vai voltar atrás.
Aí se fecham as portas do elevador e você ganha as ruas, perde uns quilos, evita lugares, músicas, e comidas pra tentar não lembrar que você já não existe mais. Não naquele quarto, não naquele coração, não entre aquelas pernas, não em quaisquer planos. Assim. Adeus, saia da minha vida pra sempre por favor. Apenas seja cordial se nos encontrarmos sem querer num bar, numa noite, numa esquina, num outro equívoco da vida que nos coloque frente à frente.
E de uma hora pra outra, os bilhetes, as confissões em versos de fotos, os emails, as risadas, as histórias secretas da família, tudo, vira lembrança. Maldita manhã de sol. Lambança da vida, rua sem saída. Pare e volte porque aqui não tem mais pra onde ir. E tome coragem pra encaixotar tudo, queimar lembranças, dar aquela camiseta que lembra ela pro porteiro, jurar nunca mais pedir o número dois especial, e não ficar tenso toda vez que ver um maldito carrinho preto rasgando as ruas pra longe daquilo tudo.
A gente se engana mesmo com as pessoas, engraçado. Então você que era centro, é posto de lado e cai no esquecimento antes mesmo de poder cicatrizar. Sarcástico isso de um dia amar. Amar e esquecer. Amar e não pensar. Ter que usar o nome inteiro ao telefone para poder se identificar. Peraí. Não eram as suas coxas que eu chamava de casa? Não era a sua boca a que me achava até no escuro mais denso? Não importa mais. Mil noites depois, se me distraio muito é nisso que penso, mas não deixar mais me derrubar. O que existe hoje você nem conhece. Nem imagina que eu tinha decidido nunca mais beijar outra pessoa, só você, mas aí você tinha que estragar tudo…
Aí, olhando pra trás vejo que de você eu só herdei açaí, havaianas e aspargos. Nada mais. Nem um afago, nem um carinho que me autentica no seu passado. Impressão de um tempo de erro, um tempo melhor apagado, esquecido, anulado. E desse jeito vamos deixando tudo pra trás. Porque amar alguém é engraçado e pra algumas pessoas pode ser demais. É apostar sabendo que vai perder. É entrar com peito aberto na vida de alguém pra depois ser arrancado. Parto à forceps pra gente nascer de novo, página em branco, simplesmente zerado. Trágico só isso, de nascer com essa memória de vida passada. Lembrança de beijo, amasso gostoso, apelido guardado. Nada tangível. Aconteceu ou eu terei imaginado? Coleção de fantasmas a assombrar aqueles cantinhos da alma que são dados a fazer planos, promessas e principalmente besteiras. Já dizia Nelson Rodrigues: todo mundo já amou errado.
É que a gente acha que conhece alguém. Que sabe a importância que teve. Sonho em ser pra sempre o melhor em alguma coisa que só os dois poderiam pra sempre lembrar. Ai, ai…melhor parar por aqui. Caixinha de surpresas mesmo essa vida. Bela manhã que nada. Melhor apressar a página virada, afinal viramos o rosto pro que vivemos. Contamos meias verdades sem olhar nos olhos. Suspiramos fundo xingando deus e suas piadas em silêncio. Viver é colecionar o que esquecer. E esquecer um dia parece fácil, até que damos de cara com o porteiro em outra bela manhã de sol. Ele sorri e comenta futebol. Sem problema, se não tivesse usando a camisa que aquela cretina te deu milênios atrás.
Engraçado como a gente se engana com as pessoas. Uma bela manhã de sol, e pum. Ela ta fora da sua vida. Ela que você jurou amar pra sempre, logo ela que tinha te enchido de planos, apelidos e responsabilidades. Fazer o quê. Tudo que começa acaba, alguém te diz. A gente se engana. Ou muda de idéia, o que parece mais aceitável principalmente para quem não vai voltar atrás.
Aí se fecham as portas do elevador e você ganha as ruas, perde uns quilos, evita lugares, músicas, e comidas pra tentar não lembrar que você já não existe mais. Não naquele quarto, não naquele coração, não entre aquelas pernas, não em quaisquer planos. Assim. Adeus, saia da minha vida pra sempre por favor. Apenas seja cordial se nos encontrarmos sem querer num bar, numa noite, numa esquina, num outro equívoco da vida que nos coloque frente à frente.
E de uma hora pra outra, os bilhetes, as confissões em versos de fotos, os emails, as risadas, as histórias secretas da família, tudo, vira lembrança. Maldita manhã de sol. Lambança da vida, rua sem saída. Pare e volte porque aqui não tem mais pra onde ir. E tome coragem pra encaixotar tudo, queimar lembranças, dar aquela camiseta que lembra ela pro porteiro, jurar nunca mais pedir o número dois especial, e não ficar tenso toda vez que ver um maldito carrinho preto rasgando as ruas pra longe daquilo tudo.
A gente se engana mesmo com as pessoas, engraçado. Então você que era centro, é posto de lado e cai no esquecimento antes mesmo de poder cicatrizar. Sarcástico isso de um dia amar. Amar e esquecer. Amar e não pensar. Ter que usar o nome inteiro ao telefone para poder se identificar. Peraí. Não eram as suas coxas que eu chamava de casa? Não era a sua boca a que me achava até no escuro mais denso? Não importa mais. Mil noites depois, se me distraio muito é nisso que penso, mas não deixar mais me derrubar. O que existe hoje você nem conhece. Nem imagina que eu tinha decidido nunca mais beijar outra pessoa, só você, mas aí você tinha que estragar tudo…
Aí, olhando pra trás vejo que de você eu só herdei açaí, havaianas e aspargos. Nada mais. Nem um afago, nem um carinho que me autentica no seu passado. Impressão de um tempo de erro, um tempo melhor apagado, esquecido, anulado. E desse jeito vamos deixando tudo pra trás. Porque amar alguém é engraçado e pra algumas pessoas pode ser demais. É apostar sabendo que vai perder. É entrar com peito aberto na vida de alguém pra depois ser arrancado. Parto à forceps pra gente nascer de novo, página em branco, simplesmente zerado. Trágico só isso, de nascer com essa memória de vida passada. Lembrança de beijo, amasso gostoso, apelido guardado. Nada tangível. Aconteceu ou eu terei imaginado? Coleção de fantasmas a assombrar aqueles cantinhos da alma que são dados a fazer planos, promessas e principalmente besteiras. Já dizia Nelson Rodrigues: todo mundo já amou errado.
É que a gente acha que conhece alguém. Que sabe a importância que teve. Sonho em ser pra sempre o melhor em alguma coisa que só os dois poderiam pra sempre lembrar. Ai, ai…melhor parar por aqui. Caixinha de surpresas mesmo essa vida. Bela manhã que nada. Melhor apressar a página virada, afinal viramos o rosto pro que vivemos. Contamos meias verdades sem olhar nos olhos. Suspiramos fundo xingando deus e suas piadas em silêncio. Viver é colecionar o que esquecer. E esquecer um dia parece fácil, até que damos de cara com o porteiro em outra bela manhã de sol. Ele sorri e comenta futebol. Sem problema, se não tivesse usando a camisa que aquela cretina te deu milênios atrás.
terça-feira, setembro 19, 2006
Poeminha quase não comportado
Por André Debevc
deixa eu te tirar a roupa
te falar um monte de bobagens
deixa a gente rir das besteiras
se divertir com as mais inocentes sacanagens.
sem jogos promessas ou grandes sacadas
deixa a vida ir assim fácil
sem precisar ter resposta errada.
vamos lá,
bom é viver sem precisar ser exatamente nada.
vamos rir beijar sorrir
desmaiar suados, cansados e nus,
acordar enroscados
crus como o olhar mais sincero,
como aquele primeiro que te dei
meio ainda sem saber
bem o que sei, sinto ou quero.
só sei que agora estou vivo,
cheio de perguntas, improvisos
e um punhado de sorrisos em silêncio
guardados para quando você percebe tímida
o carinho dos meus olhos.
deixa eu te tirar a roupa
te falar um monte de bobagens
deixa a gente rir das besteiras
se divertir com as mais inocentes sacanagens.
sem jogos promessas ou grandes sacadas
deixa a vida ir assim fácil
sem precisar ter resposta errada.
vamos lá,
bom é viver sem precisar ser exatamente nada.
vamos rir beijar sorrir
desmaiar suados, cansados e nus,
acordar enroscados
crus como o olhar mais sincero,
como aquele primeiro que te dei
meio ainda sem saber
bem o que sei, sinto ou quero.
só sei que agora estou vivo,
cheio de perguntas, improvisos
e um punhado de sorrisos em silêncio
guardados para quando você percebe tímida
o carinho dos meus olhos.
Sorriso Bobo
Por André Debevc
Com sua língua na boca
e seu peito nas mãos,
te beijo com o coração na garganta.
Te puxo,
me entrego, fecho os olhos
para encontrar seus lábios perfeitos,
bocas que pareciam se conhecer de outros tempos.
Contra a parede da boate escura
já nem sei o que toca
a não ser a sua pele quente e nossas mãos aflitas.
E abro os olhos pra sorrir
e jogar a cabeça pra trás
e mergulhar na sua boca
ainda sem acreditar direito,
que beijo, que cheiro, quê isso…
Aí esqueço tudo,
solto as rédeas parece que enlouqueço
e te puxo mais perto, te sinto ofegante, te encaixo.
Nós só existimos ali, naquele presente.
No próximo passo
essa realidade deliciosa se dissolve
e nós seremos passado,
nós seremos segredo,
beijo guardado pra sempre na memória da impossibilidade.
Seus olhos apertados me prendem, confessa brilham,
aí suspiro sorrio te agarro – te quero pra sempre -
sabendo que não te terei nunca.
Então vivo o momento,
deixo qualquer idéia de arrependimento pra depois.
Depois duvido, mas se precisar,
a gente se arrepende com um sorriso inegável na alma.
Calo a boca do que ela ia dizer
porque preciso mesmo é te beijar
e te abraço forte só pra ver se, de repente,
pelo menos ali, na loucura do momento a gente se funde em um.
Cúmplices num dos melhores e mais secretos beijos do universo.
Amanhã
no lugar da cicatriz do meu peito
vai amanhecer um sorriso bobo
e muito difícil de apagar.
Com sua língua na boca
e seu peito nas mãos,
te beijo com o coração na garganta.
Te puxo,
me entrego, fecho os olhos
para encontrar seus lábios perfeitos,
bocas que pareciam se conhecer de outros tempos.
Contra a parede da boate escura
já nem sei o que toca
a não ser a sua pele quente e nossas mãos aflitas.
E abro os olhos pra sorrir
e jogar a cabeça pra trás
e mergulhar na sua boca
ainda sem acreditar direito,
que beijo, que cheiro, quê isso…
Aí esqueço tudo,
solto as rédeas parece que enlouqueço
e te puxo mais perto, te sinto ofegante, te encaixo.
Nós só existimos ali, naquele presente.
No próximo passo
essa realidade deliciosa se dissolve
e nós seremos passado,
nós seremos segredo,
beijo guardado pra sempre na memória da impossibilidade.
Seus olhos apertados me prendem, confessa brilham,
aí suspiro sorrio te agarro – te quero pra sempre -
sabendo que não te terei nunca.
Então vivo o momento,
deixo qualquer idéia de arrependimento pra depois.
Depois duvido, mas se precisar,
a gente se arrepende com um sorriso inegável na alma.
Calo a boca do que ela ia dizer
porque preciso mesmo é te beijar
e te abraço forte só pra ver se, de repente,
pelo menos ali, na loucura do momento a gente se funde em um.
Cúmplices num dos melhores e mais secretos beijos do universo.
Amanhã
no lugar da cicatriz do meu peito
vai amanhecer um sorriso bobo
e muito difícil de apagar.
sexta-feira, agosto 18, 2006
Boa noite
Por André Debevc
Agora me deito
suspirando saudade
do colo que ainda não sei.
Viro sorrindo no escuro
sorvendo seu cheiro
engolindo de longe
a vontade de tocar
tua pele branca
as pintas dos teus braços
os azuis dos teus olhos
o dourado do teu cabelo
e o sorriso
que ilumina toda essa distância
que nos rasga em dois.
Ah…
dormir aninhando você
nessa minha asa há tanto vazia…
ah…
acordar na madrugada
vendo você sorrir dormindo
o seu sono inocente.
Melhor sonhar,
fechar os olhos
e te chegar mais perto feito travesseiro,
melhor esperar teu beijo
e poder te chamar de novo de pretinha
só pra te fazer sorrir inteira.
A hora chega
o sono se anininha
e lembro que acordar amanhã
é estar mais perto de você.
Boa noite.
Agora me deito
suspirando saudade
do colo que ainda não sei.
Viro sorrindo no escuro
sorvendo seu cheiro
engolindo de longe
a vontade de tocar
tua pele branca
as pintas dos teus braços
os azuis dos teus olhos
o dourado do teu cabelo
e o sorriso
que ilumina toda essa distância
que nos rasga em dois.
Ah…
dormir aninhando você
nessa minha asa há tanto vazia…
ah…
acordar na madrugada
vendo você sorrir dormindo
o seu sono inocente.
Melhor sonhar,
fechar os olhos
e te chegar mais perto feito travesseiro,
melhor esperar teu beijo
e poder te chamar de novo de pretinha
só pra te fazer sorrir inteira.
A hora chega
o sono se anininha
e lembro que acordar amanhã
é estar mais perto de você.
Boa noite.
sexta-feira, julho 21, 2006
37211
com você eu brinco
de não tirar a roupa
esfrega
roça
ofega
respira
conta até trinta e sete mil duzentos e onze
pra não perder o controle
pra sempre
aí te beijo
lambo
sorvo
mordisco
com a respiração
e mãos alucinadas
ah
se eu pudesse
desvendar cada esboço de suspiro
ah
se eu pudesse
desbelotar cada hífen de interjeição
mas tuas pernas
me aprisionam mais e mais perto
a cada espasmo
e eu não consigo pensar em mais nada
de não tirar a roupa
esfrega
roça
ofega
respira
conta até trinta e sete mil duzentos e onze
pra não perder o controle
pra sempre
aí te beijo
lambo
sorvo
mordisco
com a respiração
e mãos alucinadas
ah
se eu pudesse
desvendar cada esboço de suspiro
ah
se eu pudesse
desbelotar cada hífen de interjeição
mas tuas pernas
me aprisionam mais e mais perto
a cada espasmo
e eu não consigo pensar em mais nada
quarta-feira, julho 12, 2006
Anjo Canhoto
Por André Debevc
Ela é um anjo canhoto
que caiu na minha vida
num resto de briga
de uma sexta-feira
com cheiro de chuva.
Do alto do seu metro e oitenta
ela me sorri com olhos sérios
e deixa solto o olhar mudo
com sede da minha boca.
Me chamando de lindo
ela brinca com palavras e me traz sorrisos
de um jeito que ninguém nunca fez.
E se, por um instante, lembro
que eu não sou lá muito fã de empunhar meus dentes por aí,
ela me joga as minhas próprias covinhas na cara
só pra me fazer ficar sem graça
antes de me abraçar gostoso
feito travesseiro.
Em sua radiante beleza,
ela é um anjo de longos negros cabelos lisos,
super model de um sorriso e alegria contagiantes.
Ela que não gosta de me ver triste nem em mensagem de texto,
sozinha, me fez mais surpresas
que mil mulheres de quem eu esperei demais
ganhando em mim algo novo, que nunca tinha estado lá.
Ela é um anjo,
que lá do alto insiste em me convencer
com beijos e sem joguinhos que existe amor por aí.
Se algum dia eu tiver de novo um coração,
que caia nas mãos carinhosas e quentes
de uma moça apaixonante como ela:
um anjo canhoto que nunca soube quem eu era
mas que me faz adorar tudo que posso ser.
Ela é um anjo canhoto
que caiu na minha vida
num resto de briga
de uma sexta-feira
com cheiro de chuva.
Do alto do seu metro e oitenta
ela me sorri com olhos sérios
e deixa solto o olhar mudo
com sede da minha boca.
Me chamando de lindo
ela brinca com palavras e me traz sorrisos
de um jeito que ninguém nunca fez.
E se, por um instante, lembro
que eu não sou lá muito fã de empunhar meus dentes por aí,
ela me joga as minhas próprias covinhas na cara
só pra me fazer ficar sem graça
antes de me abraçar gostoso
feito travesseiro.
Em sua radiante beleza,
ela é um anjo de longos negros cabelos lisos,
super model de um sorriso e alegria contagiantes.
Ela que não gosta de me ver triste nem em mensagem de texto,
sozinha, me fez mais surpresas
que mil mulheres de quem eu esperei demais
ganhando em mim algo novo, que nunca tinha estado lá.
Ela é um anjo,
que lá do alto insiste em me convencer
com beijos e sem joguinhos que existe amor por aí.
Se algum dia eu tiver de novo um coração,
que caia nas mãos carinhosas e quentes
de uma moça apaixonante como ela:
um anjo canhoto que nunca soube quem eu era
mas que me faz adorar tudo que posso ser.
sexta-feira, maio 05, 2006
Rotinas Rotinas
Tomo café da manhã num boteco movimentado
faço meu jantar numa loja de conveniência onde esbarro em velhos amigos.
Tenho uma barba insistente e cerrada
e um punhado de moedas do troco
que ainda não encontraram o furo dos meus jeans.
Ando sem muita pressa de chegar
dirijo como se fosse me atrasar
e encontro cúmplices de porres nas migalhas de rotinas desatentas.
O meu amor me deixou porque eu amava demais
meu carro adora deslizar nessa chuva
dou as costas pro que não me satisfaz
e não estou nem aí pra vocês.
Tanto faz se meu time perder
ou se uma daquelas meninas não ligar.
Meu motor de arranque tá de férias
a ex-musa liga carente
...eu sou o cara que não se apaixona.
faço meu jantar numa loja de conveniência onde esbarro em velhos amigos.
Tenho uma barba insistente e cerrada
e um punhado de moedas do troco
que ainda não encontraram o furo dos meus jeans.
Ando sem muita pressa de chegar
dirijo como se fosse me atrasar
e encontro cúmplices de porres nas migalhas de rotinas desatentas.
O meu amor me deixou porque eu amava demais
meu carro adora deslizar nessa chuva
dou as costas pro que não me satisfaz
e não estou nem aí pra vocês.
Tanto faz se meu time perder
ou se uma daquelas meninas não ligar.
Meu motor de arranque tá de férias
a ex-musa liga carente
...eu sou o cara que não se apaixona.
INEVITÁVEL
Sei que vou morrer nos braços de uma mulher,
de peitos assim perfeitos como um drible intomável,
depois do mais incomparável dos meus beijos
ao fim de milênios cansados e incontados.
Mais de sete vidas terão se esgotado
e estarei eu largado na sílaba final de destino
com a boca quase aberta no peito direito perfeito de musa
e sua mão canhota perdida nos meus pêlos,
esquecendo as lágrimas que a escorrem sussurrantes
cheias do gosto enganando doce todo o sal que ela achava que tinha.
Só espero levar o tempero do seu corpo
assim astral e brilhante rasgando minha vida e meu céu
tão picante como mostarda nacho cheese e diamante,
no gozo que rima com todos os meus mais sinceros sorrisos...
de peitos assim perfeitos como um drible intomável,
depois do mais incomparável dos meus beijos
ao fim de milênios cansados e incontados.
Mais de sete vidas terão se esgotado
e estarei eu largado na sílaba final de destino
com a boca quase aberta no peito direito perfeito de musa
e sua mão canhota perdida nos meus pêlos,
esquecendo as lágrimas que a escorrem sussurrantes
cheias do gosto enganando doce todo o sal que ela achava que tinha.
Só espero levar o tempero do seu corpo
assim astral e brilhante rasgando minha vida e meu céu
tão picante como mostarda nacho cheese e diamante,
no gozo que rima com todos os meus mais sinceros sorrisos...
Jornal Nacional
Quando eu morrer quero um bloco inteiro no Jornal Nacional,
um espaço obsceno no jornal da nação com meus versos empunhados como lágrimas
pelas viúvas da minha sensibilidade e canalhice.
Quero pisar fundo na imortalidade nas vozes de ninfetas apaixonadas
quero saber dos lenços brancos encharcados
e do luto voluntário estampado nas almas que amam.
Posso até pedir desculpas quando esbarrar no pesado abatimento dos apaixonados.
Quero aviões supersônicos rasgando os céus carregados
derramando pétalas negras antes da chuva radioativa
e um tom grave na confissão de qualquer segredo casual.
Quando eu morrer quero ser inesquecido pelos meus beijos
e incomparado pelos meus poeminhas que sempre só quiseram amar demais.
...talvez eu nunca tenha conseguido...
um espaço obsceno no jornal da nação com meus versos empunhados como lágrimas
pelas viúvas da minha sensibilidade e canalhice.
Quero pisar fundo na imortalidade nas vozes de ninfetas apaixonadas
quero saber dos lenços brancos encharcados
e do luto voluntário estampado nas almas que amam.
Posso até pedir desculpas quando esbarrar no pesado abatimento dos apaixonados.
Quero aviões supersônicos rasgando os céus carregados
derramando pétalas negras antes da chuva radioativa
e um tom grave na confissão de qualquer segredo casual.
Quando eu morrer quero ser inesquecido pelos meus beijos
e incomparado pelos meus poeminhas que sempre só quiseram amar demais.
...talvez eu nunca tenha conseguido...
E as lágrimas do dragão?
...E as lágrimas do dragão, pra onde vão?
Onde é que vão parar os momentos que passam,
os segundos que fogem,
as palavras sussurradas, sufocadas, gritadas?
Onde é que vão os tempos que passam,
os sentimentos que existiam,
as coisas que aconteceram?
Aonde é que são guardados todos os momentos,
quem arquiva o que foi vivido e o que nem aconteceu?
Tudo que já se sentiu,
tudo que já se viveu,
tudo que já pensou acontecer,
pra onde as coisas todas vão?
O riso, o choro, o grito e a esperança, pra onde vão?
O silêncio, o pranto,
onde é que vai parar o que passa?
Será que o vento leva?
Será que a chuva carrega?
Será que a noite esconde?
Será que o dia evidencia?
Onde é o lixo universal?
Onde é o arquivo do que acontece e vai?
Existirá um tapete sobre tudo?
Onde DEUS esconde o que deixa de ser presente?
Mas os momentos que passam, onde se escondem?
...E as lágrimas do dragão, pra onde vão?
Onde é que vão parar os momentos que passam,
os segundos que fogem,
as palavras sussurradas, sufocadas, gritadas?
Onde é que vão os tempos que passam,
os sentimentos que existiam,
as coisas que aconteceram?
Aonde é que são guardados todos os momentos,
quem arquiva o que foi vivido e o que nem aconteceu?
Tudo que já se sentiu,
tudo que já se viveu,
tudo que já pensou acontecer,
pra onde as coisas todas vão?
O riso, o choro, o grito e a esperança, pra onde vão?
O silêncio, o pranto,
onde é que vai parar o que passa?
Será que o vento leva?
Será que a chuva carrega?
Será que a noite esconde?
Será que o dia evidencia?
Onde é o lixo universal?
Onde é o arquivo do que acontece e vai?
Existirá um tapete sobre tudo?
Onde DEUS esconde o que deixa de ser presente?
Mas os momentos que passam, onde se escondem?
...E as lágrimas do dragão, pra onde vão?
Seu pra sempre acabou antes do meu
Seu pra sempre acabou antes do meu,
na passeata de ilusões
a minha ficou perdida no meio de todo aquele passar de horas.
Dias que vão como a nossa vida desapercebida
em rotinas quase compassadas que também escorrem sem volta
como todo esse ar que acaba um dia óbvio e inútil nos cercando.
Depois,
depois ninguém sabe mas aí tudo serão lembranças inertes
congeladas num passado imperfeito
cúmplice da absoluta inexperiência muda que não se rende.
Fiquei com suas promessas nas mãos,
nos cantos invisíveis do coração,
moedas que não valem mais nada brilhando até no escuro.
Nem você pode fazer promessas
na sua falsa mínima imperfeição,
os relógios ainda têm que correr e nós nem nos sabemos ainda.
A rotina compassada tem espaço para melancolia sem folgas.
Seu pra sempre acabou antes do meu.
na passeata de ilusões
a minha ficou perdida no meio de todo aquele passar de horas.
Dias que vão como a nossa vida desapercebida
em rotinas quase compassadas que também escorrem sem volta
como todo esse ar que acaba um dia óbvio e inútil nos cercando.
Depois,
depois ninguém sabe mas aí tudo serão lembranças inertes
congeladas num passado imperfeito
cúmplice da absoluta inexperiência muda que não se rende.
Fiquei com suas promessas nas mãos,
nos cantos invisíveis do coração,
moedas que não valem mais nada brilhando até no escuro.
Nem você pode fazer promessas
na sua falsa mínima imperfeição,
os relógios ainda têm que correr e nós nem nos sabemos ainda.
A rotina compassada tem espaço para melancolia sem folgas.
Seu pra sempre acabou antes do meu.
Viver é escolher o que esquecer
Viver é escolher o que esquecer,
viver é escolher o que não perder,
cada dia nasce um dia
todo dia traz conquistas, perdas escolhas, desilusão.
Escolher um controle, ilusão.
Controle é ilusão, amanhã é ilusão.
Não há muito que fazer, só viver e continuar,
viver e escolher.
Mas continuar,
continuar, só depois...
viver é escolher o que não perder,
cada dia nasce um dia
todo dia traz conquistas, perdas escolhas, desilusão.
Escolher um controle, ilusão.
Controle é ilusão, amanhã é ilusão.
Não há muito que fazer, só viver e continuar,
viver e escolher.
Mas continuar,
continuar, só depois...
Fui a melhor coisa que aconteceu na vida de alguém
Fui a melhor coisa que aconteceu na vida de alguém.
Podem sorrir com o canto da boca,
nem ela tem certeza disso de verdade, se é que sabe.
A humanidade é inconsciente
as mulheres inconseqüentes
e alguns sentimentos às vezes são só inconvenientes.
Me chamem de presunçoso,
atesto minha prepotência porque conheço o amor,
atirem suas facas contra mim, abram fogo !
A morte pode ser melhor que sexo bem feito
mas ninguém tem certeza, nem ela me ilude mais; é mulher eu sei.
Carrego o amor como areia nos bolsos, estou vazio vazado
mas ainda sujo os dedos sempre
naquele cantinho que não dá pra revirar. Esquece!
Continuo sorrindo canalha, conheci a paixão seus idiotas!
Posso seguir indiferente a toda essa gente ignorante,
os momentos podem ter fugido apavorados na coleira Victor Hugo daquela musa
mas os sentimentos e lembranças estão mais que cravados na minha alma em crepúsculo.
Cada dia é uma promessa menos pedante que eu arrasado.
As noites às vezes só vêm para atestar a mentira nova,
e eu,...bem eu olho indiferente,
sem mexer o canto da boca.
Podem sorrir com o canto da boca,
nem ela tem certeza disso de verdade, se é que sabe.
A humanidade é inconsciente
as mulheres inconseqüentes
e alguns sentimentos às vezes são só inconvenientes.
Me chamem de presunçoso,
atesto minha prepotência porque conheço o amor,
atirem suas facas contra mim, abram fogo !
A morte pode ser melhor que sexo bem feito
mas ninguém tem certeza, nem ela me ilude mais; é mulher eu sei.
Carrego o amor como areia nos bolsos, estou vazio vazado
mas ainda sujo os dedos sempre
naquele cantinho que não dá pra revirar. Esquece!
Continuo sorrindo canalha, conheci a paixão seus idiotas!
Posso seguir indiferente a toda essa gente ignorante,
os momentos podem ter fugido apavorados na coleira Victor Hugo daquela musa
mas os sentimentos e lembranças estão mais que cravados na minha alma em crepúsculo.
Cada dia é uma promessa menos pedante que eu arrasado.
As noites às vezes só vêm para atestar a mentira nova,
e eu,...bem eu olho indiferente,
sem mexer o canto da boca.
-
você calada me pede um beijo
eu calado digo que desejo
você muda mergulha nos meus olhos
eu mudo pareço usar antolhos
você quieta diz me querer
eu quieto procuro esconder
você imóvel se joga em mim
eu imóvel te cerco assim
eu calado digo que desejo
você muda mergulha nos meus olhos
eu mudo pareço usar antolhos
você quieta diz me querer
eu quieto procuro esconder
você imóvel se joga em mim
eu imóvel te cerco assim
Programa de Milhagem
Você devia lançar um programa de milhagem para minha boca.
Cada vez que meus lábios te encontrassem
um bônus seria jogado na minha conta,
assim, acumulando pontos,
eu ganharia vantagens e descontos
nas vezes que precisasse tanto de você.
Toda vez que minha língua te provasse
ou minha boca te percorresse,
ganharíamos viagens incríveis aos nossos paraísos,
teríamos descontos no tempo entre um beijo e outro,
e freqüentaríamos rotinas de primeira classe.
Como membro único deste programa,
te daria em troca muito mais do que exclusividade
ou fama,
te daria um amor de verdade.
Cada vez que meus lábios te encontrassem
um bônus seria jogado na minha conta,
assim, acumulando pontos,
eu ganharia vantagens e descontos
nas vezes que precisasse tanto de você.
Toda vez que minha língua te provasse
ou minha boca te percorresse,
ganharíamos viagens incríveis aos nossos paraísos,
teríamos descontos no tempo entre um beijo e outro,
e freqüentaríamos rotinas de primeira classe.
Como membro único deste programa,
te daria em troca muito mais do que exclusividade
ou fama,
te daria um amor de verdade.
Sorrindo Sem os Dentes
Por André Debevc
Para início de conversa, virei o rosto, continuei andando sem dizer uma só palavra. Comecei assim pelo fim mas já conto a história, calma. Fiquei com a impressão de que o mais importate naquela noite tenha sido isso, de eu ter sorrido e virado a cara. Sorri sem mostrar um só dente, e segui com minha vida porque a consumação no bar não tinha chegado nem na metade ainda.
Voltando para casa, vasculho meu arquivo de canalhices e não consigo saber porque ela não queria mais ter contato comigo. Geralmente o fim de uma relação pega a estrada de afastameto, e cumprimentos esritamente necessários, depois que alguém pisa na bola. Eu não tinha pisado e estranhava tudo isso. Nunca achei que diálogos monossilábicos fossem ideais para nós, que num dia distante e galáxia muito distantes, trocamos carinhos e fluidos corporais.
Tudo bem que quando ela me comunicou o fim do relacionamento, e sua mudança para longe, eu acabei achando conforto e carinho nos lábios de algumas de suas conhecidas, mas ela já tinha deixado óbvio que não me queria. Se amigas queriam alegrar a vida e açucarar a minha rua da amargura, não seria eu que iria pará-las. Eu a quis de volta como um homem só quer uma mulher de volta em sua vida inteira – mas se não podia, só me restava colar meus cacos com cuspe...
Se eu tivesse colocado as fotos “sensuais” que tenho dela na Internet, ou coisa que o valha, tudo bem, mas nem isso eu fiz. Posso ter errado, como todo homem vivo, falível e imperfeito, mas nunca fiz nada que justificasse essa repulsa que ela tem de mim hoje. Sei que posso ser um canalha – já mereci até troféu por ter sido insensível, egoísta e algum outro defeito grave do qual não me lembro agora, com algumas mulheres sensacionais - mas não com ela. Fui bonzinho. Vai ver aí está a falha. Tem mulher que odeia isso.
Bom…sem trocadilhos, voltemos à vaca fria. Eu estava lá, bebendo com amigos, quando dou de cara com ela. Ela, que há poucos dias tinha me dito que preferia não ter contato, sentadinha de frente para mim. Juro que na hora, ouvi a gargalhada do destino, se mijando de rir. Minhas pernas pensaram em ficar bambas mas logo vi que aquele costume de deixar o peito disparar na presença dela, tinha caducado. Minha dignidade me pedia que eu sorrisse e virasse sem esboçar uma palavra. Simples.
Antes tivesse pulado o muro todas as vezes que tive chance quando estava com ela. Antes tivesse sido um canalha de dar inveja aos personagens de Nélson Rodrigues. Todo aquel bom-mocismo, para dar nisso. Oi e olhe lá. Dois estranhos sem passado. Se eu tivesse sido mau como fui com mulheres que nunca senti dentro do peito, teria sido melhor. Pelo menos saberia porque tudo que ela deseja de mim é distância. Mudei depois dela. Errei com mulheres a torto e à direito. Não deixei ninguém ter tanto acesso a mim como ela teve. Fiquei mais cínico, cortante.
Tem coisas que a gente não entende nunca. Vai ver, para mim, essa é uma dessas coisas mal resolvidas que incomodam sempre, feito o osso que um dia quebrei jogando bola. A gente tem que saber escolher o que deixar para trás. E às vezes só se dá conta que começou a aprender quando vê que não precisou engolir silêncio nenhum, e pode simplesmente sorrir. Sorrir sem mostrar um só dente. Sorrir – como diz o Veríssimo – só com a boca. Até porque se entendo alguma coisa de mulher isso quiz dizer que…motel nem pensar, né? E eu que pensei que tivesse deixado aquela porta aberta, pronta para um encontro assim, casual e descompromissado. Quanta ingenuidade.
Para início de conversa, virei o rosto, continuei andando sem dizer uma só palavra. Comecei assim pelo fim mas já conto a história, calma. Fiquei com a impressão de que o mais importate naquela noite tenha sido isso, de eu ter sorrido e virado a cara. Sorri sem mostrar um só dente, e segui com minha vida porque a consumação no bar não tinha chegado nem na metade ainda.
Voltando para casa, vasculho meu arquivo de canalhices e não consigo saber porque ela não queria mais ter contato comigo. Geralmente o fim de uma relação pega a estrada de afastameto, e cumprimentos esritamente necessários, depois que alguém pisa na bola. Eu não tinha pisado e estranhava tudo isso. Nunca achei que diálogos monossilábicos fossem ideais para nós, que num dia distante e galáxia muito distantes, trocamos carinhos e fluidos corporais.
Tudo bem que quando ela me comunicou o fim do relacionamento, e sua mudança para longe, eu acabei achando conforto e carinho nos lábios de algumas de suas conhecidas, mas ela já tinha deixado óbvio que não me queria. Se amigas queriam alegrar a vida e açucarar a minha rua da amargura, não seria eu que iria pará-las. Eu a quis de volta como um homem só quer uma mulher de volta em sua vida inteira – mas se não podia, só me restava colar meus cacos com cuspe...
Se eu tivesse colocado as fotos “sensuais” que tenho dela na Internet, ou coisa que o valha, tudo bem, mas nem isso eu fiz. Posso ter errado, como todo homem vivo, falível e imperfeito, mas nunca fiz nada que justificasse essa repulsa que ela tem de mim hoje. Sei que posso ser um canalha – já mereci até troféu por ter sido insensível, egoísta e algum outro defeito grave do qual não me lembro agora, com algumas mulheres sensacionais - mas não com ela. Fui bonzinho. Vai ver aí está a falha. Tem mulher que odeia isso.
Bom…sem trocadilhos, voltemos à vaca fria. Eu estava lá, bebendo com amigos, quando dou de cara com ela. Ela, que há poucos dias tinha me dito que preferia não ter contato, sentadinha de frente para mim. Juro que na hora, ouvi a gargalhada do destino, se mijando de rir. Minhas pernas pensaram em ficar bambas mas logo vi que aquele costume de deixar o peito disparar na presença dela, tinha caducado. Minha dignidade me pedia que eu sorrisse e virasse sem esboçar uma palavra. Simples.
Antes tivesse pulado o muro todas as vezes que tive chance quando estava com ela. Antes tivesse sido um canalha de dar inveja aos personagens de Nélson Rodrigues. Todo aquel bom-mocismo, para dar nisso. Oi e olhe lá. Dois estranhos sem passado. Se eu tivesse sido mau como fui com mulheres que nunca senti dentro do peito, teria sido melhor. Pelo menos saberia porque tudo que ela deseja de mim é distância. Mudei depois dela. Errei com mulheres a torto e à direito. Não deixei ninguém ter tanto acesso a mim como ela teve. Fiquei mais cínico, cortante.
Tem coisas que a gente não entende nunca. Vai ver, para mim, essa é uma dessas coisas mal resolvidas que incomodam sempre, feito o osso que um dia quebrei jogando bola. A gente tem que saber escolher o que deixar para trás. E às vezes só se dá conta que começou a aprender quando vê que não precisou engolir silêncio nenhum, e pode simplesmente sorrir. Sorrir sem mostrar um só dente. Sorrir – como diz o Veríssimo – só com a boca. Até porque se entendo alguma coisa de mulher isso quiz dizer que…motel nem pensar, né? E eu que pensei que tivesse deixado aquela porta aberta, pronta para um encontro assim, casual e descompromissado. Quanta ingenuidade.
Dia Internacional do Vício
Ai mulheres…eita viciozinho mais gostoso que um homem pode ter. Sempre com uma na cabeça. Melhor e mais caro (muito mais caro) que cigarro, mais embriagante que qualquer coisa que contenha álcool…mulheres! Até Dia Internacional elas têm, como se todos os dias não fossem elas a decidirem os rumos da humanidade. Ou você pensa que a não-convocação do Romário não tem o dedinho da mulher do técnico da seleção?
Morenas, baixas, loiras, fofinhas, gostosinhas, magrelas, com ou sem peito. Nuca de fora, ou cabelão. Tem mulher pra todos os gostos. Por isso vicia. E não importa aonde você vá, sempre tem uma mulherzinha lá pra mexer com sua atenção. Se ela faz ou não seu tipo, bem…isso pouco importa. Não existe uma mulher idêntica à outra, mas no fundo são todas a mesma coisa, a brincar com nossos sonhos, bagunçar nosso futuro e nos deixar completamente confusos.
Tem gente que não gosta de mulher com sotaque por exemplo. Eu, particularmente acho uma maravilha. Devo ter herdado isso do meu avô mineiro ou do meu pai gringo. Adoro mulher com sotaque. A doçura das mineiras, o dengo das baianas, a seriedade das paulistas, o charme das gaúchas…as mulheres brasileiras são mesmo as melhores do mundo, sem dúvida nenhuma. Basta morar fora pra descobrir que falta as brazucas fazem. A graça, o jeito de andar, de mexer, de sorrir e até o jeitinho de ser esnobe (e como brasileira sabe ser marrenta!!) são lindos.
Graças a Deus nasci homem pra ter a noção de como é bom ter (em todos os sentidos mesmo), e ser de uma mulher. Nada no mundo deve ter sido feita de forma tão perfeita para seduzir e cativar usando-se de tão pouco. Duvido aliás, que a fêmea de qualquer outra espécie possa ser tão diversa, tão complexa e cheia de pequenos detalhes como as mulheres.
Deus tava mesmo inspirado quando criou a mulher. Adão, o primeiro macho da História que o diga. Vale lembrar que Lilith não deu mole nenhum pra ele e deu no pé, obrigando o Criador a re-inventar a mulher, e re-escrever a história dando uma nova “primeira mulher” à sua primeira criatura. Pegava mal divulgar que seu ser tinha sido abandonado logo na primeira tentativa, pegava não? Pra vocês verem que TPM já atrapalhava muita coisa naquela época, ou vocês acham que Lilith era somente um pouquinho geniosa? Vai ver era 8 de março, deixa pra lá…
Mulher é bom de pôr na boca. Bom de ver, de sentir derreter, de se ter em volta do pescoço, de fazer emitir sons estranhos e quase ininteligíveis por causa dos nossos beijos, toques, sugestões e cheiros. Mulher quando é boa, é bom demais.
Poucos homens são capazes de descrever com exatidão o que mais amam nas mulheres. Uns dirão que é aquela curva onde o braço encontra o peito mas ainda não é peito. Outros dirão que é a nuca, ou o umbigo. Ainda hão de existir os que vão dizer que o bom mesmo da mulher é o conjunto perfeito de formas e graça. A vozinha rouca quando acorda, a parte de trás do braço ou do joelho… Homens aprendem mulheres em partes. Detalhes físicos ou trejeitos.
Mulher é bom quando é real. Mulher tem calor, umidade, cheiro, textura e gosto. Prato completo para todos os sentidos. Mas quando ela bate lá no fundo do peito, isto tudo aumenta mais ainda, e a sensação de sentir uma mulher se espalha como nunca.
Aprendi que ver uma mulher só pelos atributos físicos dela era feio. Pelo menos foi isso que tentaram me ensinar, que beleza não é tudo. Sei disso. Nunca me apaixonei por uma mulher linda aliás. Mas sempre descobri lindas as mulheres por quem me apaixonei. Muitas não chamariam atenção numa festa ou passariam sem serem incomodadas por aquela roda de chopp de machos recém-chegados do futebol loucos para falarem uma gracinha. Acho que sempre soube ver nas mulheres algo além da aparência, e todas têm algo especial. Personalidade e estilo contam também, sem falar que eu jamais conseguiria me ver com uma mulher burra ou submissa.
Sou da geração que não olha a mulher como pedaço de carne. Qualquer macho inteligente sabe que não existe nada de inferior numa mulher. Tenho amigas mulheres, a acho que acredito na amizade isenta de interesse (sexual) entre homens e mulheres. Posso admirá-las, aprender com elas sem que isso me faça menos macho. Posso até estar errado, mas faz parte.
Enfim, um dia pra comemorar. O oitavo dia de março é dedicado a vocês, a elas, que nos enfeitiçam e estragam. A elas que fazem da Terra um planetinha melhor com suas idéais, seu trabalho e sorrisos. De todos os erros que sempre irei cometer, um admito feliz da vida: sempre amarei as mulheres. Por mais que eu não encontre a minha, por mais que meu grande amor seja só uma lembrança do passado.
Minha mente de macho não esquece como ter uma mulher por inteiro (de corpo, alma e coração) é bom. Chegamos a viver um pro outro (ela e eu), um se alimentando do outro, da alegria, cumplicidade, paixão, tesão e necessidade de estarmos juntos. E ninguém sabe fazer isso melhor, ninguém sabe trazer à tona o que há de melhor num homem do que uma mulher apaixonada. Mulher é o melhor vício que um sujeito pode ter. Acaba com a gente, leva nosso dinheiro, nos deixa no buraco depois de nos levar ao paraíso, mas ainda está pra existir coisa melhor do que encontrar uma calcinha no chuveiro, um bando de cremes no armário do banheiro ou comidinhas dieta que um verdadeiro macho jamais teria na geladeira.
Minhas mulheres vivem todas aqui, na minha mente e peito. Cada uma tendo me ensinado um pouquinho de cada coisa. Umas tendo sido mais ou menos presentes que as outras. Sou grato a todas elas. Sou quase um filho delas todas. Fui amante, irmão, marido e amigo. Sempre serei um admirador. Parabéns pelo dia de vocês. O mundo tinha mesmo que parar para fazer reverência…
…mas será que tinha como dar um jeitinho de convocar o Romário?
Morenas, baixas, loiras, fofinhas, gostosinhas, magrelas, com ou sem peito. Nuca de fora, ou cabelão. Tem mulher pra todos os gostos. Por isso vicia. E não importa aonde você vá, sempre tem uma mulherzinha lá pra mexer com sua atenção. Se ela faz ou não seu tipo, bem…isso pouco importa. Não existe uma mulher idêntica à outra, mas no fundo são todas a mesma coisa, a brincar com nossos sonhos, bagunçar nosso futuro e nos deixar completamente confusos.
Tem gente que não gosta de mulher com sotaque por exemplo. Eu, particularmente acho uma maravilha. Devo ter herdado isso do meu avô mineiro ou do meu pai gringo. Adoro mulher com sotaque. A doçura das mineiras, o dengo das baianas, a seriedade das paulistas, o charme das gaúchas…as mulheres brasileiras são mesmo as melhores do mundo, sem dúvida nenhuma. Basta morar fora pra descobrir que falta as brazucas fazem. A graça, o jeito de andar, de mexer, de sorrir e até o jeitinho de ser esnobe (e como brasileira sabe ser marrenta!!) são lindos.
Graças a Deus nasci homem pra ter a noção de como é bom ter (em todos os sentidos mesmo), e ser de uma mulher. Nada no mundo deve ter sido feita de forma tão perfeita para seduzir e cativar usando-se de tão pouco. Duvido aliás, que a fêmea de qualquer outra espécie possa ser tão diversa, tão complexa e cheia de pequenos detalhes como as mulheres.
Deus tava mesmo inspirado quando criou a mulher. Adão, o primeiro macho da História que o diga. Vale lembrar que Lilith não deu mole nenhum pra ele e deu no pé, obrigando o Criador a re-inventar a mulher, e re-escrever a história dando uma nova “primeira mulher” à sua primeira criatura. Pegava mal divulgar que seu ser tinha sido abandonado logo na primeira tentativa, pegava não? Pra vocês verem que TPM já atrapalhava muita coisa naquela época, ou vocês acham que Lilith era somente um pouquinho geniosa? Vai ver era 8 de março, deixa pra lá…
Mulher é bom de pôr na boca. Bom de ver, de sentir derreter, de se ter em volta do pescoço, de fazer emitir sons estranhos e quase ininteligíveis por causa dos nossos beijos, toques, sugestões e cheiros. Mulher quando é boa, é bom demais.
Poucos homens são capazes de descrever com exatidão o que mais amam nas mulheres. Uns dirão que é aquela curva onde o braço encontra o peito mas ainda não é peito. Outros dirão que é a nuca, ou o umbigo. Ainda hão de existir os que vão dizer que o bom mesmo da mulher é o conjunto perfeito de formas e graça. A vozinha rouca quando acorda, a parte de trás do braço ou do joelho… Homens aprendem mulheres em partes. Detalhes físicos ou trejeitos.
Mulher é bom quando é real. Mulher tem calor, umidade, cheiro, textura e gosto. Prato completo para todos os sentidos. Mas quando ela bate lá no fundo do peito, isto tudo aumenta mais ainda, e a sensação de sentir uma mulher se espalha como nunca.
Aprendi que ver uma mulher só pelos atributos físicos dela era feio. Pelo menos foi isso que tentaram me ensinar, que beleza não é tudo. Sei disso. Nunca me apaixonei por uma mulher linda aliás. Mas sempre descobri lindas as mulheres por quem me apaixonei. Muitas não chamariam atenção numa festa ou passariam sem serem incomodadas por aquela roda de chopp de machos recém-chegados do futebol loucos para falarem uma gracinha. Acho que sempre soube ver nas mulheres algo além da aparência, e todas têm algo especial. Personalidade e estilo contam também, sem falar que eu jamais conseguiria me ver com uma mulher burra ou submissa.
Sou da geração que não olha a mulher como pedaço de carne. Qualquer macho inteligente sabe que não existe nada de inferior numa mulher. Tenho amigas mulheres, a acho que acredito na amizade isenta de interesse (sexual) entre homens e mulheres. Posso admirá-las, aprender com elas sem que isso me faça menos macho. Posso até estar errado, mas faz parte.
Enfim, um dia pra comemorar. O oitavo dia de março é dedicado a vocês, a elas, que nos enfeitiçam e estragam. A elas que fazem da Terra um planetinha melhor com suas idéais, seu trabalho e sorrisos. De todos os erros que sempre irei cometer, um admito feliz da vida: sempre amarei as mulheres. Por mais que eu não encontre a minha, por mais que meu grande amor seja só uma lembrança do passado.
Minha mente de macho não esquece como ter uma mulher por inteiro (de corpo, alma e coração) é bom. Chegamos a viver um pro outro (ela e eu), um se alimentando do outro, da alegria, cumplicidade, paixão, tesão e necessidade de estarmos juntos. E ninguém sabe fazer isso melhor, ninguém sabe trazer à tona o que há de melhor num homem do que uma mulher apaixonada. Mulher é o melhor vício que um sujeito pode ter. Acaba com a gente, leva nosso dinheiro, nos deixa no buraco depois de nos levar ao paraíso, mas ainda está pra existir coisa melhor do que encontrar uma calcinha no chuveiro, um bando de cremes no armário do banheiro ou comidinhas dieta que um verdadeiro macho jamais teria na geladeira.
Minhas mulheres vivem todas aqui, na minha mente e peito. Cada uma tendo me ensinado um pouquinho de cada coisa. Umas tendo sido mais ou menos presentes que as outras. Sou grato a todas elas. Sou quase um filho delas todas. Fui amante, irmão, marido e amigo. Sempre serei um admirador. Parabéns pelo dia de vocês. O mundo tinha mesmo que parar para fazer reverência…
…mas será que tinha como dar um jeitinho de convocar o Romário?
Pintas São Armas
Por André Debevc
Acho que tem certas mulheres que nascem com aquelas pintinhas na alma. Sabe aquelas pequenas marquinhas, geralmente redondas como leves pingos de chocolate no sorvete de flocos? No cólo, nas saboneteiras, nas coxas...Pois é, o resto que me desculpe mas ter pintinhas é fundamental.
Não é preciso ser uma floresta de flocos para seduzir o mais sério dos homens. Apenas algumas inocentes pintas dessas podem desarmar o mais inconquistável dos seres. Não há seriedade que resista a encontrar uma pequena pintinha (sem cabelo, por favor!)desavisada no cantinho da boca ou em qualquer outra parte estratégica. Haja força para não se derramar ou ao menos comentar a existência da dita cuja que seduz e se coloca no imaginário de qualquer mortal.
Pelo que me lembre, não há uma só incauta da minha história que não traga no corpo as doces marcas embriagantes. Isso sem falar nas famosas beldades que ostentam tais gotículas como troféus, ou até mesmo ganhem a vida com elas, vejam a Cindy Crawford por exemplo. E a Luana Piovani com aquela fantástica pintinha pouco acima dos seios?
Lembro nitidamente de uma de minhas namoradas, talvez a que tenha mais prendido minha atenção e dedicação, no sentido literal mesmo. Tive o privilégio de contar todas suas pintinhas. Eram seis ao todo(falando em termos significativos). Começava pela pinta que parecia ser uma gotinha selvagem de chocolate, fugida da boca, e que seria o ponto médio certinho entre o lábio (carnudo e delicioso) inferior e o queixo. Ficava do lado esquerdo, meio que Cláudia Abreu, meio que Adriana Esteves, sei lá.
Deliciosa mesmo era a segunda pinta mais abaixo. Medindo no máximo uns três milímetros de diâmetro, postada maliciosamente no peito esquerdo de minha musa. Sempre ficava à vista nos decotes um pouco mais generosos. Que maravilha aquela pinta. Juro que ela, a pinta, sentia saudades minhas. Parecíamos ser conectados espiritualmente, ela e eu. Até hoje sonho com ela, lembro das vezes em que ela desfilava solene na sua beleza entorpecente para meus olhos, boca e dedos privilegiados. Bons tempos que não voltam mais. Acho ter recebido um telegrama de saudades dela noutro dia, mas não estava assinado. Esqueci de dar um nome de mulher para ela.
Assim como as estrelas, essas marcas deveriam ter um nome próprio, um bem único e intransferível como o amor de passado, que sempre tem razão. No caso da minha amada, suas pintas eram quase como pontos cardeais, por onde eu me orientava nas horas de prazer e descompromisso. Éramos só nós doze ali. Isso mesmo, nós doze(eu também tenho quatro pintas próprias), as minhas, as dela, eu e ela. Mas não acho que minhas pintas tenham sido tão relevantes nessas horas. Já as dela sempre foram.
Passam as moças, as pintas ficam. Meu imaginário parece até um sorvete de flocos, com peles nem sempre tão alvas povoadas, diferentemente, por saborosas pintas de chocolate. Eu amo em choc-chip! Ou seriam flocos? Sei que é só se saber que há pintas para desvendar que meus olhos se lançam para uma busca em câmera lenta pelas curvas, dobras e gestos da moça. Mas nem sempre encontro. Tive uma paixão platônica que tinha uma pinta no alto da testa, linda. Dia desses até sonhei com um rosto ainda meio indecifrado mas que trazia, vejam só, uma pintinha micra e linda bem no lábio. Nem acima nem abaixo dele, mas no lábio mesmo...
Sim, acredito que há moças com pintas na alma, só assim explico essa minha obsessão. Talvez aquele velho amor seja o culpado, mas mesmo antes as pintinhas me fascinavam.
Só Deus mesmo para pintar as moças com tamanha parcimônia e perfeição. Mesmo em horas a fio eu não conseguiria fazer trabalho tão sedutor. Cuidado senhores, elas estão cheias de armas para conquistar sua atenção, e uma delas é a colocação aleatória e feliz de pintas que desnorteiam e acabam com qualquer pretensão de domínio nosso. Seria bênção ou feitiço de doces bruxas?
Por isso, quando minha namorada dizia que a pinta estava com saudades de mim, ou então quando ameaçava esconder as pintas numa cruel greve, por isso eu entregava quaisquer pontos. Eu, nunca saberia viver sem as minhas estrelas chocolate, referência em qualquer universo.
Acho que tem certas mulheres que nascem com aquelas pintinhas na alma. Sabe aquelas pequenas marquinhas, geralmente redondas como leves pingos de chocolate no sorvete de flocos? No cólo, nas saboneteiras, nas coxas...Pois é, o resto que me desculpe mas ter pintinhas é fundamental.
Não é preciso ser uma floresta de flocos para seduzir o mais sério dos homens. Apenas algumas inocentes pintas dessas podem desarmar o mais inconquistável dos seres. Não há seriedade que resista a encontrar uma pequena pintinha (sem cabelo, por favor!)desavisada no cantinho da boca ou em qualquer outra parte estratégica. Haja força para não se derramar ou ao menos comentar a existência da dita cuja que seduz e se coloca no imaginário de qualquer mortal.
Pelo que me lembre, não há uma só incauta da minha história que não traga no corpo as doces marcas embriagantes. Isso sem falar nas famosas beldades que ostentam tais gotículas como troféus, ou até mesmo ganhem a vida com elas, vejam a Cindy Crawford por exemplo. E a Luana Piovani com aquela fantástica pintinha pouco acima dos seios?
Lembro nitidamente de uma de minhas namoradas, talvez a que tenha mais prendido minha atenção e dedicação, no sentido literal mesmo. Tive o privilégio de contar todas suas pintinhas. Eram seis ao todo(falando em termos significativos). Começava pela pinta que parecia ser uma gotinha selvagem de chocolate, fugida da boca, e que seria o ponto médio certinho entre o lábio (carnudo e delicioso) inferior e o queixo. Ficava do lado esquerdo, meio que Cláudia Abreu, meio que Adriana Esteves, sei lá.
Deliciosa mesmo era a segunda pinta mais abaixo. Medindo no máximo uns três milímetros de diâmetro, postada maliciosamente no peito esquerdo de minha musa. Sempre ficava à vista nos decotes um pouco mais generosos. Que maravilha aquela pinta. Juro que ela, a pinta, sentia saudades minhas. Parecíamos ser conectados espiritualmente, ela e eu. Até hoje sonho com ela, lembro das vezes em que ela desfilava solene na sua beleza entorpecente para meus olhos, boca e dedos privilegiados. Bons tempos que não voltam mais. Acho ter recebido um telegrama de saudades dela noutro dia, mas não estava assinado. Esqueci de dar um nome de mulher para ela.
Assim como as estrelas, essas marcas deveriam ter um nome próprio, um bem único e intransferível como o amor de passado, que sempre tem razão. No caso da minha amada, suas pintas eram quase como pontos cardeais, por onde eu me orientava nas horas de prazer e descompromisso. Éramos só nós doze ali. Isso mesmo, nós doze(eu também tenho quatro pintas próprias), as minhas, as dela, eu e ela. Mas não acho que minhas pintas tenham sido tão relevantes nessas horas. Já as dela sempre foram.
Passam as moças, as pintas ficam. Meu imaginário parece até um sorvete de flocos, com peles nem sempre tão alvas povoadas, diferentemente, por saborosas pintas de chocolate. Eu amo em choc-chip! Ou seriam flocos? Sei que é só se saber que há pintas para desvendar que meus olhos se lançam para uma busca em câmera lenta pelas curvas, dobras e gestos da moça. Mas nem sempre encontro. Tive uma paixão platônica que tinha uma pinta no alto da testa, linda. Dia desses até sonhei com um rosto ainda meio indecifrado mas que trazia, vejam só, uma pintinha micra e linda bem no lábio. Nem acima nem abaixo dele, mas no lábio mesmo...
Sim, acredito que há moças com pintas na alma, só assim explico essa minha obsessão. Talvez aquele velho amor seja o culpado, mas mesmo antes as pintinhas me fascinavam.
Só Deus mesmo para pintar as moças com tamanha parcimônia e perfeição. Mesmo em horas a fio eu não conseguiria fazer trabalho tão sedutor. Cuidado senhores, elas estão cheias de armas para conquistar sua atenção, e uma delas é a colocação aleatória e feliz de pintas que desnorteiam e acabam com qualquer pretensão de domínio nosso. Seria bênção ou feitiço de doces bruxas?
Por isso, quando minha namorada dizia que a pinta estava com saudades de mim, ou então quando ameaçava esconder as pintas numa cruel greve, por isso eu entregava quaisquer pontos. Eu, nunca saberia viver sem as minhas estrelas chocolate, referência em qualquer universo.
A Hora Mais Escura
Por André Debevc
Quando frio chega, até os dias encolhem. O ponteiro do relógio pulou recuou uma hora duas meia-noites atrás. A luz do dia que já se esvaía mais cedo se deixou intimidar de vez. Os dias hibernam na mais longa das horas. O breu, as luzes laranjas, o passo mais apertado na saída do trabalho, tudo assume um ar mais gelado, com as invisíveis barreiras de frio e egoísmo se fechando violentas no mais espesso de todos os silêncios.
Essa hora a menos no dia se prolonga na distância de um outro mundo paralelo onde alguns de meus velhos amigos e sentimentos ainda passeia. Fico ainda mais longe deles, a sincronia se cala e permite um erro, desacerto vacilante até no temperatura das vozes esporádicas do outro lado da linha. Viver opostos não é mais somente uma metáfora de uma alma mais dramática ou sensível, é a mais crua realidade. Nem mais as verdades andam nuas por esta cidade. O frio seco do coração da multidão racha lábios e petrifica planos que só podem mesmo esperar pela época onde os casacos voltarão a habitar cabides e lembranças.
Agora tudo ganha um outro ritmo, tudo meio que se rende às hordas de casacos pretos e gorros que dita o inevitável peso extra da rotina. Como que mais que o corpo tivesse se defendendo da hostilidade e impessoalidade dos caminhos, das obrigações sem um pingo de calor a não ser o do filete de suor que se esboça quando o metrô infernal finge, e mal, ser agradável.
Quando o vento bate cerrando os olhos, quando as mãos se apertam xingando as luvas esquecidas uma parte de mim suspira os engarrafamentos intermináveis no calor da Rua Jardim Botânico, mas sei que continuo odiando as mesmas coisas. O que muda é a nova variedade de gostos e ódios, de pessoas e caminhos. Escolhidos ou renunciados, nunca largados ou incrivelmente deixados para trás…
As pernas de fora, as camisetas são lembrança, soterradas para muito nas camadas mais espessas das horas mais longas. Os minutos arrastados, os dias eternos, a noitinha precoce. Encontro calor nas conversas de bar, com refugiados como eu, temporários ou não, visitando em conversa o meu Suvaco de Cristo, episódios de riso em algum lugar das Minas Gerais, ou até as tardes de lerdeza e calor tentando achar vaga para estacionar o carro no caminho da praia de Ipanema.
Nesses momentos, de descontração e alegria, as horas parecem mais longas em calma e até conforto. A casa não está no lugar, mas sim nas pessoas que abreviam o frio com um sotaque tão carioca quanto o próximo Fla x Flu. Para todos nós o abraço de oi e tchau é um abraço longo de saudade.
Quando frio chega, até os dias encolhem. O ponteiro do relógio pulou recuou uma hora duas meia-noites atrás. A luz do dia que já se esvaía mais cedo se deixou intimidar de vez. Os dias hibernam na mais longa das horas. O breu, as luzes laranjas, o passo mais apertado na saída do trabalho, tudo assume um ar mais gelado, com as invisíveis barreiras de frio e egoísmo se fechando violentas no mais espesso de todos os silêncios.
Essa hora a menos no dia se prolonga na distância de um outro mundo paralelo onde alguns de meus velhos amigos e sentimentos ainda passeia. Fico ainda mais longe deles, a sincronia se cala e permite um erro, desacerto vacilante até no temperatura das vozes esporádicas do outro lado da linha. Viver opostos não é mais somente uma metáfora de uma alma mais dramática ou sensível, é a mais crua realidade. Nem mais as verdades andam nuas por esta cidade. O frio seco do coração da multidão racha lábios e petrifica planos que só podem mesmo esperar pela época onde os casacos voltarão a habitar cabides e lembranças.
Agora tudo ganha um outro ritmo, tudo meio que se rende às hordas de casacos pretos e gorros que dita o inevitável peso extra da rotina. Como que mais que o corpo tivesse se defendendo da hostilidade e impessoalidade dos caminhos, das obrigações sem um pingo de calor a não ser o do filete de suor que se esboça quando o metrô infernal finge, e mal, ser agradável.
Quando o vento bate cerrando os olhos, quando as mãos se apertam xingando as luvas esquecidas uma parte de mim suspira os engarrafamentos intermináveis no calor da Rua Jardim Botânico, mas sei que continuo odiando as mesmas coisas. O que muda é a nova variedade de gostos e ódios, de pessoas e caminhos. Escolhidos ou renunciados, nunca largados ou incrivelmente deixados para trás…
As pernas de fora, as camisetas são lembrança, soterradas para muito nas camadas mais espessas das horas mais longas. Os minutos arrastados, os dias eternos, a noitinha precoce. Encontro calor nas conversas de bar, com refugiados como eu, temporários ou não, visitando em conversa o meu Suvaco de Cristo, episódios de riso em algum lugar das Minas Gerais, ou até as tardes de lerdeza e calor tentando achar vaga para estacionar o carro no caminho da praia de Ipanema.
Nesses momentos, de descontração e alegria, as horas parecem mais longas em calma e até conforto. A casa não está no lugar, mas sim nas pessoas que abreviam o frio com um sotaque tão carioca quanto o próximo Fla x Flu. Para todos nós o abraço de oi e tchau é um abraço longo de saudade.
quinta-feira, maio 04, 2006
Rotina fácil
Se quisera apenas te comer
Já morreria satisfeito:
Cabeça dilacerada entre suas coxas,
Cumprindo uma sina de macho esquartejado.
Mas não, não me basta saber o seu gosto,
Quero mais quero estabelecer um posto
De alegria e constância no seu prazer.
De gafanhoto nada tenho,
Nem zangão, minha rainha,
Tenho apenas o desejo de te amar demais.
Escrever uma estória começa com dois personagens
E uma escolha. Queria ser a sua.
Prêsa entre as pernas,
Nas inconstâncias da sua boca sussurrante,
Um meio caminho entre a eternidade
E uma rotina aparentemente fácil.
Já morreria satisfeito:
Cabeça dilacerada entre suas coxas,
Cumprindo uma sina de macho esquartejado.
Mas não, não me basta saber o seu gosto,
Quero mais quero estabelecer um posto
De alegria e constância no seu prazer.
De gafanhoto nada tenho,
Nem zangão, minha rainha,
Tenho apenas o desejo de te amar demais.
Escrever uma estória começa com dois personagens
E uma escolha. Queria ser a sua.
Prêsa entre as pernas,
Nas inconstâncias da sua boca sussurrante,
Um meio caminho entre a eternidade
E uma rotina aparentemente fácil.
Troco
Ela era uma moça cheia de estórias e saídas
Tatuada pelos cantos de uma vida que ainda demora por acabar…
Eu era um estranho,
Passando meus olhos vagamente pelo rebanho na tentativa de ainda não
Me apaixonar.
Vidas que cruzam por acaso num terral diferente de Ipanema.
Agora a vida até que vale a pena,
Desejando seu beijo num próximo desvio.
As noites é que sempre parecem mais curtas nesse eterno meio-fio de vidas alheias
Co-habitabado um mesmo asfalto.
Quem rodou fui eu,
Mãos ao alto para entregar meu peito,
Minhas ilusões e covardia.
Quisera eu ter prometido mais que devia,
Pelo menos me safava com o troco da volta pra casa.
Tatuada pelos cantos de uma vida que ainda demora por acabar…
Eu era um estranho,
Passando meus olhos vagamente pelo rebanho na tentativa de ainda não
Me apaixonar.
Vidas que cruzam por acaso num terral diferente de Ipanema.
Agora a vida até que vale a pena,
Desejando seu beijo num próximo desvio.
As noites é que sempre parecem mais curtas nesse eterno meio-fio de vidas alheias
Co-habitabado um mesmo asfalto.
Quem rodou fui eu,
Mãos ao alto para entregar meu peito,
Minhas ilusões e covardia.
Quisera eu ter prometido mais que devia,
Pelo menos me safava com o troco da volta pra casa.
Herói às avessas
Sou um herói às avessas,
lutando sempre pelos motivos errados.
Morro pelo amor que não merece,
sangro pela pessoa que nunca reconhece,
me ponho em xeque pelas mais absurdas perguntas.
Decididamente, um herói do contra…
Clamo meu amor pela mocinha que não me sabe,
viajo léguas e horas para saborear o abandono,
exponho meu peito à deriva,
entrego minha estima ao primeiro bandido.
Espero quem não vem,
choro por quem não olha para trás.
Me apaixono pela mulher que não me assume,
vago vadio e largado vazio de qualquer alegria.
Nesta noite (nem nunca),
salvarei alguém do perigo,
ajudarei velhinha alguma a atravessar a rua.
Sou um herói às avessas
E minhas intervenções só orgulham a minha ruína.
lutando sempre pelos motivos errados.
Morro pelo amor que não merece,
sangro pela pessoa que nunca reconhece,
me ponho em xeque pelas mais absurdas perguntas.
Decididamente, um herói do contra…
Clamo meu amor pela mocinha que não me sabe,
viajo léguas e horas para saborear o abandono,
exponho meu peito à deriva,
entrego minha estima ao primeiro bandido.
Espero quem não vem,
choro por quem não olha para trás.
Me apaixono pela mulher que não me assume,
vago vadio e largado vazio de qualquer alegria.
Nesta noite (nem nunca),
salvarei alguém do perigo,
ajudarei velhinha alguma a atravessar a rua.
Sou um herói às avessas
E minhas intervenções só orgulham a minha ruína.
Amar é covardia.
Nem lhe pergunto se queres e trago
Uma imensidão de ilusões.
Crio,
Espero,
Sofro um universo que você nem sabe.
Decifro todo gesto seu com infinito significado.
Sou barrado às portas do meu castelo de areia
Já que nada que eu trago nas prateleiras da alma
Passa pela sua fiscalização.
Nada encontra sua hora,
Marcada há milênios em minha emoção.
Imponho verdades,
Autorizo ansiedades
Remarco insanidades
Em cada vão minuto criado à sua espera.
Coloco em suas mãos tudo que tenho:
tempo, atenção, amor
Sem nunca perguntar se te cabem esses detalhes.
Te amo com tudo,
Sem vacilos sem hora nem desculpas.
Você nunca pediu tanto,
Você não sabe o que fazer com tão pouco
E decretamos o desespero.
Não dá para voltar atrás,
O passado é uma inquebrável estátua muda
Sem qualquer esboço a não ser o de deboche.
Todos os poemas de amor se tornam um presente incarregável.
Amar alguém é covardia.
Uma imensidão de ilusões.
Crio,
Espero,
Sofro um universo que você nem sabe.
Decifro todo gesto seu com infinito significado.
Sou barrado às portas do meu castelo de areia
Já que nada que eu trago nas prateleiras da alma
Passa pela sua fiscalização.
Nada encontra sua hora,
Marcada há milênios em minha emoção.
Imponho verdades,
Autorizo ansiedades
Remarco insanidades
Em cada vão minuto criado à sua espera.
Coloco em suas mãos tudo que tenho:
tempo, atenção, amor
Sem nunca perguntar se te cabem esses detalhes.
Te amo com tudo,
Sem vacilos sem hora nem desculpas.
Você nunca pediu tanto,
Você não sabe o que fazer com tão pouco
E decretamos o desespero.
Não dá para voltar atrás,
O passado é uma inquebrável estátua muda
Sem qualquer esboço a não ser o de deboche.
Todos os poemas de amor se tornam um presente incarregável.
Amar alguém é covardia.
2203
Você vasculha sua velha caixas de fotografias
e esbarra em mim, sorrindo dentes afiados de entrega
na película quase desbotada de tão velha.
Um segundo um pouco mais comprido sangra o tempo
com um suspiro seu de resignação. A vida nos rasgou em dois.
Sua vida não foi nem de longe uma coleção de coreografias perfeitas.
Na intenção de começar a juntar suas memórias
você se dá conta do quanto não nos sabemos mais.
Seus filhos, netos e cães já não dançam mais à sua volta
seu marido cansou de te trair
e agora baba no sofá uma estória de amor acabada.
O que você deixou a vida fazer com você?
Eu, errei muito. Vivi de errar,
saí por aí errando com todas as mulheres
por todos os caminhos.
Nunca achei nelas nada de você, meu último amor,
o amor que nunca soube o quanto eu a amava.
Patentiei meu cinismo,
formatei minha molecagem eterna e peguei a primeira reta,
desencontrei atalhos, fingi prometer amor sem ter nenhum pra dar
e fiquei podre de rico vendendo ilusões e riso on-line.
Aonde terão ido todas aquelas noites intensas de amor?
Em que gaveta terá você guardado
todo aquele seu carinho manso apaixonado por mim?
Uma lágrima comprida despenca de seus olhos silenciosamente afogados
Como na vez em que você embarcava pra longe levando meu coração no La Guardia.
Agora,
não adianta nada. O ano é 2203…longe de nós em todas as maneiras.
Você dançou por aí,
ganhou a vida e os palcos até seu joelho soluçar não poder mais.
Eu, morri, secretamente te esperando,
com os olhos debruçados na noite
cercado de mulheres erradas,
com um tigre tatuado no braço e um pingüim cravado no peito.
e esbarra em mim, sorrindo dentes afiados de entrega
na película quase desbotada de tão velha.
Um segundo um pouco mais comprido sangra o tempo
com um suspiro seu de resignação. A vida nos rasgou em dois.
Sua vida não foi nem de longe uma coleção de coreografias perfeitas.
Na intenção de começar a juntar suas memórias
você se dá conta do quanto não nos sabemos mais.
Seus filhos, netos e cães já não dançam mais à sua volta
seu marido cansou de te trair
e agora baba no sofá uma estória de amor acabada.
O que você deixou a vida fazer com você?
Eu, errei muito. Vivi de errar,
saí por aí errando com todas as mulheres
por todos os caminhos.
Nunca achei nelas nada de você, meu último amor,
o amor que nunca soube o quanto eu a amava.
Patentiei meu cinismo,
formatei minha molecagem eterna e peguei a primeira reta,
desencontrei atalhos, fingi prometer amor sem ter nenhum pra dar
e fiquei podre de rico vendendo ilusões e riso on-line.
Aonde terão ido todas aquelas noites intensas de amor?
Em que gaveta terá você guardado
todo aquele seu carinho manso apaixonado por mim?
Uma lágrima comprida despenca de seus olhos silenciosamente afogados
Como na vez em que você embarcava pra longe levando meu coração no La Guardia.
Agora,
não adianta nada. O ano é 2203…longe de nós em todas as maneiras.
Você dançou por aí,
ganhou a vida e os palcos até seu joelho soluçar não poder mais.
Eu, morri, secretamente te esperando,
com os olhos debruçados na noite
cercado de mulheres erradas,
com um tigre tatuado no braço e um pingüim cravado no peito.
Parar de querer
Fomos separados muito antes de nascer.
Seu beijo só me veio para mostrar
o quanto posso gostar de querer.
Cumplicidade na verdade veio só me ver,
inocente e entregue ao amor.
Quem sabe eu fosse um experimento de dor,
testado ao extremo para me devolver
o instinto da saudade.
Pois a realidade é que meu peito
está sepultado no seu cimento
cinza e ciumento
por nunca mais saber tua boca,
e mais que isso,
nunca mais saber seus olhos.
Te perdi quando seus olhos pararam de me querer.
Seu beijo só me veio para mostrar
o quanto posso gostar de querer.
Cumplicidade na verdade veio só me ver,
inocente e entregue ao amor.
Quem sabe eu fosse um experimento de dor,
testado ao extremo para me devolver
o instinto da saudade.
Pois a realidade é que meu peito
está sepultado no seu cimento
cinza e ciumento
por nunca mais saber tua boca,
e mais que isso,
nunca mais saber seus olhos.
Te perdi quando seus olhos pararam de me querer.
Gravidade
Se até a gravidade,
inimiga feroz da tua silhueta,
age no teu peito,
porque eu também não posso?
Lágrimas e palavras falharam
na tentativa de provar minha verdade.
Sua alma só sorri amarela
para minha presença que se retorce muda
em espasmos de tristeza e impotência.
Sou eu,
fantasma de nossa ausência
conjugando verbo passado,
morto como Latim.
Às vezes uma referência
falsamente inocente alucina a realidade,
mas somos silêncio e incapacidade
quando meus olhos e palavras
cedem lugar a gravidade
na tentativa de agir no seu peito.
inimiga feroz da tua silhueta,
age no teu peito,
porque eu também não posso?
Lágrimas e palavras falharam
na tentativa de provar minha verdade.
Sua alma só sorri amarela
para minha presença que se retorce muda
em espasmos de tristeza e impotência.
Sou eu,
fantasma de nossa ausência
conjugando verbo passado,
morto como Latim.
Às vezes uma referência
falsamente inocente alucina a realidade,
mas somos silêncio e incapacidade
quando meus olhos e palavras
cedem lugar a gravidade
na tentativa de agir no seu peito.
O Último Beijo, abre os olhos.
Por André Debevc
Depois de ser a única criatura no mundo que ainda queria mas não tinha visto o filme italiano “O Último Beijo”, eu, cidadão carioca, abri mão da praia e fui – junto com uma enorme população de idosas – assistir a sessão de 13:40 em pleno domingo de sol e relativo calor no Rio.
Adorei o filme, mas me senti acertado em cheio – feito o coiote nos desenhos, acertado pela bigorna. Qualquer homem teria se identificado com cada um daqueles sujeitos quase trintões e inconsequentes. Vi a imaturidade deles, e como as mulheres encaram a idade que têm com muito mais responsabilidade e pés no chão do que nós. Como somos meninos! Sempre tentando fugir, sempre querendo a emoção na veia, sempre chateados com a normalidade, com a rotina inevitável e simples.
Carlo - personagem principal acordou a tempo, mesmo tendo chegado ao ponto de trair a mãe da sua futura filha. Caiu de quarto pela irresistível ninfeta. Homem nenhum conseguiria ficar impassível frente aquela loira eternamente sem sutiã. Carlo, sucumbiu. E depois desistiu. Correu de volta para seu amor, optou por quem conhecia sem maquiagem, de TPM, já com os efeitos do tempo e gravidade. Sua Giulia o deu uma nova chance. A omissão da verdade inteira colaborou…Giulia perguntou o que tinha acontecido antes dele sair de casa, e não perguntou o que aconteceu depois. Todos os homens adorariam ter a briga para usar de alibi, de motivo. Carlo a teve, teve uma noite de “solteiro” para viver, expulso de casa temporariamente para sempre. Se tem uma lição a aprender até estes ponto no filme, é (do distorcido ponto de vista masculino) que se você vai mentir, envolva o menor número de pessoas nisso.
Todos os homens do mundo estão no filme...do casado que não aguenta mais o choro do filho e a esposa que virou só mãe, do sujeito apaixonado pela ex que não quer seguir os passos do pai, do mulherengo que dorme com todas para não estar com nenhuma, e do futuro pai que entra em pânico e cai nos peitos da ninfa loira por medo de estar entrando em algo para sempre, com a mesma mulher, boca, corpo, para sempre...
Talvez eu já tenha sido um pouco de cada um deles em algum momento. Já dormi com uma mulher para esquecer outra. Já entrei em pânico e acabei relações por medo de sofrer, por medo de ficar pior. Já quis me alistar na Legião Estrangeira para esquecer uma namorada que amei muito. E também me revoltei como um menino por não ser mais a única distração e fonte de alegria de um amor. Já fui todos eles, de um jeito ou de outro. Vai ver que é o processo de qualquer homem, vai ver só assim a gente cresce. Perdendo, errando. Não podendo voltar atrás e consertar o erro com quem erramos.
Uma frase ou duas, ditas no filme, ficaram com mais força na minha mente. Não sei exatamente como transcrevê-las, mas era algo meio assim, de que “A normalidade é que era o grande desafio” e que o há de errado com algo simples, comum, rotineiro? Juro que assim, de cabeça, não sei. Acho que nada, mas sei na prática que a rotina é complicada. Se acostumar, saber tudo de uma pessoa é maravilhoso. Saber como ela vai reagir a tal pergunta. Saber que cara ela vai fazer em certa situação…essas pequenas conquistas são maravilhosas. Não sou um homem que tem medo de intimidade e apelidos. Mas, como os personagens do filme, preciso lembrar que não sou mais um adolescente, e que não devo esperar nem emoções nem paixões adolescentes. Mereço pensar com mais maturidade.
O cinema era longe de casa, e eu não consegui voltar pra casa. Precisava pensar. Mastigar o filme, esmiuçar o que ele quis dizer pra mim. Não disse uma só palavra por horas. Pensei em ligar para minha última namorada, que tinha me indicado o filme há séculos, mas hesitei. E você sabe, a pior coisa que um homem pode fazer é hesitar. Fiquei quieto, vendo como me identifico, como existe muito de mim em cada um daqueles personagens. - ou muito deles em mim. Seja lá o que for mais definitivo.
É um momento, uma idade muito difícil. Alguns de nossos amigos casaram, outros estão na gandaia. Uns tiveram filhos, outros se separaram, e alguns nem trabalham ainda. Chegar aos trinta é quase que um meio de algum caminho. Será que eu me tornei o superheroi que pensei que fosse ser? Será que não estou nem perto do que sonhava? Será que eu estou mesmo pronto para a vida?
Todos nós, precisamos nos apropriar dessa consciência de que não somos mais adolescentes, de que precisamos crescer e aprender a lidar com essa normalidade. De que ter um amor sem reações extremas - sem febres, quebradeiras, brigas homéricas, viagens inesperadas, sexo no chão da cozinha e em banheiros de avião, pode ser até bom. Só que ninguém consegue viver bem numa montanha russa. Nem toda calcinha dela vai ser sedutora. Nem todo dia você vai sair do trabalho louco para beijá-la.
Quem sabe lembrando disso, um dia sossegamos, sem a ansiedade de que sempre seja melhor. Todos temos beijos que nunca esquecemos. Principalmente quando você o vê de olhos muito bem abertos.
Depois de ser a única criatura no mundo que ainda queria mas não tinha visto o filme italiano “O Último Beijo”, eu, cidadão carioca, abri mão da praia e fui – junto com uma enorme população de idosas – assistir a sessão de 13:40 em pleno domingo de sol e relativo calor no Rio.
Adorei o filme, mas me senti acertado em cheio – feito o coiote nos desenhos, acertado pela bigorna. Qualquer homem teria se identificado com cada um daqueles sujeitos quase trintões e inconsequentes. Vi a imaturidade deles, e como as mulheres encaram a idade que têm com muito mais responsabilidade e pés no chão do que nós. Como somos meninos! Sempre tentando fugir, sempre querendo a emoção na veia, sempre chateados com a normalidade, com a rotina inevitável e simples.
Carlo - personagem principal acordou a tempo, mesmo tendo chegado ao ponto de trair a mãe da sua futura filha. Caiu de quarto pela irresistível ninfeta. Homem nenhum conseguiria ficar impassível frente aquela loira eternamente sem sutiã. Carlo, sucumbiu. E depois desistiu. Correu de volta para seu amor, optou por quem conhecia sem maquiagem, de TPM, já com os efeitos do tempo e gravidade. Sua Giulia o deu uma nova chance. A omissão da verdade inteira colaborou…Giulia perguntou o que tinha acontecido antes dele sair de casa, e não perguntou o que aconteceu depois. Todos os homens adorariam ter a briga para usar de alibi, de motivo. Carlo a teve, teve uma noite de “solteiro” para viver, expulso de casa temporariamente para sempre. Se tem uma lição a aprender até estes ponto no filme, é (do distorcido ponto de vista masculino) que se você vai mentir, envolva o menor número de pessoas nisso.
Todos os homens do mundo estão no filme...do casado que não aguenta mais o choro do filho e a esposa que virou só mãe, do sujeito apaixonado pela ex que não quer seguir os passos do pai, do mulherengo que dorme com todas para não estar com nenhuma, e do futuro pai que entra em pânico e cai nos peitos da ninfa loira por medo de estar entrando em algo para sempre, com a mesma mulher, boca, corpo, para sempre...
Talvez eu já tenha sido um pouco de cada um deles em algum momento. Já dormi com uma mulher para esquecer outra. Já entrei em pânico e acabei relações por medo de sofrer, por medo de ficar pior. Já quis me alistar na Legião Estrangeira para esquecer uma namorada que amei muito. E também me revoltei como um menino por não ser mais a única distração e fonte de alegria de um amor. Já fui todos eles, de um jeito ou de outro. Vai ver que é o processo de qualquer homem, vai ver só assim a gente cresce. Perdendo, errando. Não podendo voltar atrás e consertar o erro com quem erramos.
Uma frase ou duas, ditas no filme, ficaram com mais força na minha mente. Não sei exatamente como transcrevê-las, mas era algo meio assim, de que “A normalidade é que era o grande desafio” e que o há de errado com algo simples, comum, rotineiro? Juro que assim, de cabeça, não sei. Acho que nada, mas sei na prática que a rotina é complicada. Se acostumar, saber tudo de uma pessoa é maravilhoso. Saber como ela vai reagir a tal pergunta. Saber que cara ela vai fazer em certa situação…essas pequenas conquistas são maravilhosas. Não sou um homem que tem medo de intimidade e apelidos. Mas, como os personagens do filme, preciso lembrar que não sou mais um adolescente, e que não devo esperar nem emoções nem paixões adolescentes. Mereço pensar com mais maturidade.
O cinema era longe de casa, e eu não consegui voltar pra casa. Precisava pensar. Mastigar o filme, esmiuçar o que ele quis dizer pra mim. Não disse uma só palavra por horas. Pensei em ligar para minha última namorada, que tinha me indicado o filme há séculos, mas hesitei. E você sabe, a pior coisa que um homem pode fazer é hesitar. Fiquei quieto, vendo como me identifico, como existe muito de mim em cada um daqueles personagens. - ou muito deles em mim. Seja lá o que for mais definitivo.
É um momento, uma idade muito difícil. Alguns de nossos amigos casaram, outros estão na gandaia. Uns tiveram filhos, outros se separaram, e alguns nem trabalham ainda. Chegar aos trinta é quase que um meio de algum caminho. Será que eu me tornei o superheroi que pensei que fosse ser? Será que não estou nem perto do que sonhava? Será que eu estou mesmo pronto para a vida?
Todos nós, precisamos nos apropriar dessa consciência de que não somos mais adolescentes, de que precisamos crescer e aprender a lidar com essa normalidade. De que ter um amor sem reações extremas - sem febres, quebradeiras, brigas homéricas, viagens inesperadas, sexo no chão da cozinha e em banheiros de avião, pode ser até bom. Só que ninguém consegue viver bem numa montanha russa. Nem toda calcinha dela vai ser sedutora. Nem todo dia você vai sair do trabalho louco para beijá-la.
Quem sabe lembrando disso, um dia sossegamos, sem a ansiedade de que sempre seja melhor. Todos temos beijos que nunca esquecemos. Principalmente quando você o vê de olhos muito bem abertos.
Exausto (Ninguém)
Por André Debevc
Além das frases habituais que pontuam toda manhã, hoje mais um verão chegou ao fim me trazendo algo muito além do “bom dia” seco e o sorriso sem maiores intenções dado aos vizinhos no elevador. A frase, do contista Caio Fernando Abreu, me abateu antes mesmo que eu decolasse para a vida dessa sexta-feira parcialmente encoberta. Retrato de um espírito cansado, de alguém que certamente quis amar demais, ele disparou: "Estou exausto de construir e demolir fantasias, não quero me encantar com mais ninguém".
Quanta verdade numa frase. Quanta desilusão numa confissão, que imagino tenha sido até despretenciosa. Desabafo. Cansaço, exaustão. Construir ilusões é muito bom. Ruim é quando passamos a fazê-lo repetidamente, colocando nossas fantasias nas mãos de pessoas diferentes porque nada durou e nosso peito foi estilhaçado. Trágica a idéia de que alguém pudesse nos salvar de nós mesmos, como se nosso amor só existisse se fosse para alguém. Demolir fantasias dói, dá a luz à fantasmas e mágoas, deixa um gosto esquisito e metálico no peito. Seco, triste. As rotinas que vêm com a sensação de uma eterna ausência. Logo para você que se acostumou com um beijo, logo para você que sabia poder esperar um sorriso.
Não sei mais quantos de nós querem essas mulheres que dão (em todos os sentidos) e sempre passam. A afobação joga sempre uma nuvem traiçoeira sobre nossas melhores intenções. As mulheres que não entenderam nosso amor demais, as incautas que nunca nos deixaram ficar. Estou cansado. Exaurido de dar nome e rosto para meu desejo, cansado de dizer para o coração que quem sabe dessa vez vai. E não ir.
Também não quero mais me encantar com ninguém. Não quero esperar que entendam a simplicidade que quero. Alguém para não fazer joguinhos, alguém que queira estar comigo e eu com ela. Essa combinação é difícil. Nélson Rodrigues dizia que era um deslavado milagre alguém conseguir viver um amor, pois nada garantia que alguém que amássemos vivesse na mesma cidade e nem mesmo na mesma época que a gente. Ficamos então aqui nos desencontrando. Demolindo fantasias e vendo aquela pessoa que um dia olhamos fundo nos olhos, que um dia adoramos ter visto dormir, ir embora. E às vezes nem ir para tão longe assim, mas parar nos braços ou nas graças de outro bem perto de você.
Na cabeça de quem fica, de quem tem que desconstruir a ilusão, o outro caso (começado mesmo que seja só na paranóia dela mesmo) é sempre um caso perfeito. Noites perdidas. Pesadelo. Fica a sensação de que quem foi guardou o melhor dela pra quem veio depois. Que fomos nada, porque hoje somos nada. Apenas algo a ser arquivado, ou nem isso.
Talvez eu não queira mais me encantar com ninguém. Pode ser que lá no fundo exista uma eterna vontade de se encantar – vício de quem vive - mas que seja se encantar por alguém que valha a pena, que entenda, que esteja no mesmo momento. Por agora, que fique decretado que não quero me encantar com ninguém. Melhor assim. Deixemos a construção de uma fantasia para quando a última não for nem mais uma lembrança. Continuarei demolindo todas as minhas ilusões, resquícios de mulheres com todos os nomes. As que deram e passaram (e algumas mostram que só servem pra isso mesmo), e as que nem precisaram dar e ficaram.
Tristemente, eu não sei me entregar aos poucos. Ou me jogo de cabeça ou apenas administro a vantagem, com carinho e cuidado, tocando a bola pro lado sem estragar corações. Minha sina é amar demais, já dizia Claufe Rodrigues. Não sei amar pouco, não sei ir devagar com minhas ilusões. Me afobo, erro, abro a guarda (quem não joga entenderia, e não se aproveitaria disso nem usaria isso contra mim – mas usam). Era assim pelo menos que eu era quando me encantava. Até ontem. Mas só que dói demais isso de deixar sonhos para trás. Dói demais não ver o que se pensou futuro nunca acontecer. O planeta dos ressentidos nunca foi tão populoso. Caio Fernando estava certo, e meu coração não tem resistência para isso. Eu não suporto mais. Por isso, não quero mais me encantar, pelo menos não com as mulheres erradas, e hoje, todas parecem ser assim.
Além das frases habituais que pontuam toda manhã, hoje mais um verão chegou ao fim me trazendo algo muito além do “bom dia” seco e o sorriso sem maiores intenções dado aos vizinhos no elevador. A frase, do contista Caio Fernando Abreu, me abateu antes mesmo que eu decolasse para a vida dessa sexta-feira parcialmente encoberta. Retrato de um espírito cansado, de alguém que certamente quis amar demais, ele disparou: "Estou exausto de construir e demolir fantasias, não quero me encantar com mais ninguém".
Quanta verdade numa frase. Quanta desilusão numa confissão, que imagino tenha sido até despretenciosa. Desabafo. Cansaço, exaustão. Construir ilusões é muito bom. Ruim é quando passamos a fazê-lo repetidamente, colocando nossas fantasias nas mãos de pessoas diferentes porque nada durou e nosso peito foi estilhaçado. Trágica a idéia de que alguém pudesse nos salvar de nós mesmos, como se nosso amor só existisse se fosse para alguém. Demolir fantasias dói, dá a luz à fantasmas e mágoas, deixa um gosto esquisito e metálico no peito. Seco, triste. As rotinas que vêm com a sensação de uma eterna ausência. Logo para você que se acostumou com um beijo, logo para você que sabia poder esperar um sorriso.
Não sei mais quantos de nós querem essas mulheres que dão (em todos os sentidos) e sempre passam. A afobação joga sempre uma nuvem traiçoeira sobre nossas melhores intenções. As mulheres que não entenderam nosso amor demais, as incautas que nunca nos deixaram ficar. Estou cansado. Exaurido de dar nome e rosto para meu desejo, cansado de dizer para o coração que quem sabe dessa vez vai. E não ir.
Também não quero mais me encantar com ninguém. Não quero esperar que entendam a simplicidade que quero. Alguém para não fazer joguinhos, alguém que queira estar comigo e eu com ela. Essa combinação é difícil. Nélson Rodrigues dizia que era um deslavado milagre alguém conseguir viver um amor, pois nada garantia que alguém que amássemos vivesse na mesma cidade e nem mesmo na mesma época que a gente. Ficamos então aqui nos desencontrando. Demolindo fantasias e vendo aquela pessoa que um dia olhamos fundo nos olhos, que um dia adoramos ter visto dormir, ir embora. E às vezes nem ir para tão longe assim, mas parar nos braços ou nas graças de outro bem perto de você.
Na cabeça de quem fica, de quem tem que desconstruir a ilusão, o outro caso (começado mesmo que seja só na paranóia dela mesmo) é sempre um caso perfeito. Noites perdidas. Pesadelo. Fica a sensação de que quem foi guardou o melhor dela pra quem veio depois. Que fomos nada, porque hoje somos nada. Apenas algo a ser arquivado, ou nem isso.
Talvez eu não queira mais me encantar com ninguém. Pode ser que lá no fundo exista uma eterna vontade de se encantar – vício de quem vive - mas que seja se encantar por alguém que valha a pena, que entenda, que esteja no mesmo momento. Por agora, que fique decretado que não quero me encantar com ninguém. Melhor assim. Deixemos a construção de uma fantasia para quando a última não for nem mais uma lembrança. Continuarei demolindo todas as minhas ilusões, resquícios de mulheres com todos os nomes. As que deram e passaram (e algumas mostram que só servem pra isso mesmo), e as que nem precisaram dar e ficaram.
Tristemente, eu não sei me entregar aos poucos. Ou me jogo de cabeça ou apenas administro a vantagem, com carinho e cuidado, tocando a bola pro lado sem estragar corações. Minha sina é amar demais, já dizia Claufe Rodrigues. Não sei amar pouco, não sei ir devagar com minhas ilusões. Me afobo, erro, abro a guarda (quem não joga entenderia, e não se aproveitaria disso nem usaria isso contra mim – mas usam). Era assim pelo menos que eu era quando me encantava. Até ontem. Mas só que dói demais isso de deixar sonhos para trás. Dói demais não ver o que se pensou futuro nunca acontecer. O planeta dos ressentidos nunca foi tão populoso. Caio Fernando estava certo, e meu coração não tem resistência para isso. Eu não suporto mais. Por isso, não quero mais me encantar, pelo menos não com as mulheres erradas, e hoje, todas parecem ser assim.
Play it again, Sam…
Por André Debevc
Você é do tipo de pessoa que consegue ser arrasada por uma música? Pois é eu sou, ou melhor, pensei que tivesse deixado de ser. Sabe como é…vacinado contra essas coisas pelas amarguras do tempo, do amor, quer dizer, da ausência dele. Pelo menos digo, da ausência de sua reciprocidade temporal.
Mas, voltando ao assunto. Fazia anos que uma música não “acabava comigo”. Sério. A mesmíssima canção que abreviou meu sorriso, que estacionou cimento na minha garganta seca, a mesma música instalou nostalgia na minha inocente noite de quinta-feira.
Sei que não vai dar para imaginar, mas quem conhece a musica sabe: “Tu, tu, rurun, tummm…” e a invasão de silêncio se decretou veloz e completa. Meus sentidos calaram, ou ainda, viajaram anos na minha existência. Cada um dos vários pêlos de meu surrado corpo se levantou como que batendo continência ao, uma vez, hino de amor e paixão inseparáveis como a moeda soldada, alguém diria para sempre, no cimento ou asfalto inerte dos caminhos comuns.
E eu me achava vacinado contra isso. Até uma das fitas exiladas em meu carro abriga essa canção, o que não a faz incomum. Mas não, só uma noite assim pode deflagrar melancolia.
Estaria ela, meu ex-amor, pensado furtivamente em mim? A gente gosta mesmo de se enganar inventando desculpas, construindo portas secretas no imaginário já morto e expugnado de inocência. Ai, amores…
Ao invés de calar, e deixar a música me tomar, saltei ante as balas da memória. E como que suprimindo as imagens e cheiros que me cercavam, eu cantei. Não cantei quase calado ressentindo a ausência. Cantei alto mostrando possuir aquela musica. Cumplicidade e complacência.
Quando o “tu, tu, rurun, tummm…” final se entregou, pude olhar pro céu, praguejar e me render ao futuro, tempo incerto, traiçoeiro como os peitos que ainda batem.
Só uma pergunta me encara de vez em quando, querendo saber qual efeito, ocasional como o meu de hoje, qual efeito tenta assaltar o outro coração que um dia também viveu por essa melodia. A resposta úmida e reticente das estrelas da noite ainda ecoa.
Até onde uma música e só uma música? Até onde um puto vai aleatoriamente esboçar um soluço quando o ar se esvai melancólico? Se a palavra e nostalgia, por que essa humilhante e passada cumplicidade?
Tenho saudades, não dela e de outros tempos. Tenho saudade da inocência do meu coração, da angústia mareada quando o telefone demorava a tocar, e não por saber que o amor saiu para comprar cigarros sem ao menos fumar. Sinto falta de outra dimensão onde a musica intimava um beijo, encerrava discussão. E onde a mão, correndo desavisada pela minha coxa num carro engarrafado, só queria dizer “estou aqui, ainda te amo…”.
Talvez, mesmo antes de existir, de meu amor raiar e minguar, essa música fosse e só servisse ao seu título e propósito. Wish You Were Here. Ainda a vejo me puxando para um beijo.
Amor foi feito para dar, não pra levar embora. Play it again, Sam…
Você é do tipo de pessoa que consegue ser arrasada por uma música? Pois é eu sou, ou melhor, pensei que tivesse deixado de ser. Sabe como é…vacinado contra essas coisas pelas amarguras do tempo, do amor, quer dizer, da ausência dele. Pelo menos digo, da ausência de sua reciprocidade temporal.
Mas, voltando ao assunto. Fazia anos que uma música não “acabava comigo”. Sério. A mesmíssima canção que abreviou meu sorriso, que estacionou cimento na minha garganta seca, a mesma música instalou nostalgia na minha inocente noite de quinta-feira.
Sei que não vai dar para imaginar, mas quem conhece a musica sabe: “Tu, tu, rurun, tummm…” e a invasão de silêncio se decretou veloz e completa. Meus sentidos calaram, ou ainda, viajaram anos na minha existência. Cada um dos vários pêlos de meu surrado corpo se levantou como que batendo continência ao, uma vez, hino de amor e paixão inseparáveis como a moeda soldada, alguém diria para sempre, no cimento ou asfalto inerte dos caminhos comuns.
E eu me achava vacinado contra isso. Até uma das fitas exiladas em meu carro abriga essa canção, o que não a faz incomum. Mas não, só uma noite assim pode deflagrar melancolia.
Estaria ela, meu ex-amor, pensado furtivamente em mim? A gente gosta mesmo de se enganar inventando desculpas, construindo portas secretas no imaginário já morto e expugnado de inocência. Ai, amores…
Ao invés de calar, e deixar a música me tomar, saltei ante as balas da memória. E como que suprimindo as imagens e cheiros que me cercavam, eu cantei. Não cantei quase calado ressentindo a ausência. Cantei alto mostrando possuir aquela musica. Cumplicidade e complacência.
Quando o “tu, tu, rurun, tummm…” final se entregou, pude olhar pro céu, praguejar e me render ao futuro, tempo incerto, traiçoeiro como os peitos que ainda batem.
Só uma pergunta me encara de vez em quando, querendo saber qual efeito, ocasional como o meu de hoje, qual efeito tenta assaltar o outro coração que um dia também viveu por essa melodia. A resposta úmida e reticente das estrelas da noite ainda ecoa.
Até onde uma música e só uma música? Até onde um puto vai aleatoriamente esboçar um soluço quando o ar se esvai melancólico? Se a palavra e nostalgia, por que essa humilhante e passada cumplicidade?
Tenho saudades, não dela e de outros tempos. Tenho saudade da inocência do meu coração, da angústia mareada quando o telefone demorava a tocar, e não por saber que o amor saiu para comprar cigarros sem ao menos fumar. Sinto falta de outra dimensão onde a musica intimava um beijo, encerrava discussão. E onde a mão, correndo desavisada pela minha coxa num carro engarrafado, só queria dizer “estou aqui, ainda te amo…”.
Talvez, mesmo antes de existir, de meu amor raiar e minguar, essa música fosse e só servisse ao seu título e propósito. Wish You Were Here. Ainda a vejo me puxando para um beijo.
Amor foi feito para dar, não pra levar embora. Play it again, Sam…
A vida que se leva, nos leva muito longe.
Por André Debevc
Fazia anos que não se encontravam, o acaso não sabe favorecer uma coincidência. Apenas as lembranças de uns tempos em que flertavam docemente apareciam nos momentos de paz e nostalgia. Tão poucos momentos juntos, e como aparece num dos prefácios de um dos livros dele: “...apenas um lamento de não ter podido amar um pouco mais”. O ponto de tangência onde suas vidas se encontraram parecia ser único, e isso o afligia silenciosamente.
Que rumos distanciadores suas rotinas cismaram em tomar? Resposta muda, sem nem um franzir de testa. As tiras no jornal da nação traziam sem querer lembranças. Você me ama, Flecha? (Claro que sim, amaria muito, se você deixasse, Shirlei.)
Na cabeça dele, muita coisa seria para sempre dela. Uma propriedade sobre momentos e fatos singularizados numa expectativa que sempre pairava no ar, baixa e densa como a neblina de uma manhã de inverno. Será que aqueles poemas viraram pó? Será que ainda habitam um esconderijo secreto perto da cama? Nada teria mesmo resposta. O passado acaba sempre tendo razão, e o presente só finge não ser mais uma dúvida.
Não ficou uma foto, um guardanapo manchado de batom, só um trecho escrito a mão falando de um beijo. A letra delicada se restringe ao poema, ou sei lá o que seja. Não há uma assinatura, nem uma declaração do quanto o coração dela acelerava quando ele chegava com um papelzinho dobrado na mão. As intenções estão nas entrelinhas, suaves como a pele branca de quem transcreveu.
As imagens, apesar de tudo, estão em câmera lenta e quase sem som na lembrança dele. Cores só em algumas cenas. Um gole seco de saudade em todas. ...O vento alucinado de uma pré-tempestade no Centro... A lua cheia que tanto cobiçavam como cenário nunca coincidiu com a cumplicidade que nascia ali. Os beijos deliciosos não saíam de sua cabeça. Na portaria, na rua, com gosto de saquê, com gosto de ainda ser pouco. Agora nada restava a se fazer a não ser tentar não lembrar. Um suspiro fundo sempre corta resignado qualquer momento de abatimento.
Haveria uma próxima vez? Existiria algum momento em que pudessem flertar de novo com a travessura de adolescentes? Nem o vento de um fim de tarde poderia responder... Os dedos longos dela se perdiam em outros carinhos enquanto os dele teimavam em surrar teclas de um computador quase cúmplice, mas totalmente alheio à tudo aquilo que ele pensara poder existir um dia entre os dois.
Até hoje, quando o nome dela ricocheteia no ambiente, ele esboça um sorriso, e reserva uns segundos para viajar de volta nos velozes dias onde se beijavam com ansiedade. Mas o tempo passou, eles não se esbarram, e o destino nem acena com uma possibilidade de carinho a mais. No mais, a vida segue, mas ele ainda tem o cheiro dela tatuando sua alma. Graças a Deus. Será?
Fazia anos que não se encontravam, o acaso não sabe favorecer uma coincidência. Apenas as lembranças de uns tempos em que flertavam docemente apareciam nos momentos de paz e nostalgia. Tão poucos momentos juntos, e como aparece num dos prefácios de um dos livros dele: “...apenas um lamento de não ter podido amar um pouco mais”. O ponto de tangência onde suas vidas se encontraram parecia ser único, e isso o afligia silenciosamente.
Que rumos distanciadores suas rotinas cismaram em tomar? Resposta muda, sem nem um franzir de testa. As tiras no jornal da nação traziam sem querer lembranças. Você me ama, Flecha? (Claro que sim, amaria muito, se você deixasse, Shirlei.)
Na cabeça dele, muita coisa seria para sempre dela. Uma propriedade sobre momentos e fatos singularizados numa expectativa que sempre pairava no ar, baixa e densa como a neblina de uma manhã de inverno. Será que aqueles poemas viraram pó? Será que ainda habitam um esconderijo secreto perto da cama? Nada teria mesmo resposta. O passado acaba sempre tendo razão, e o presente só finge não ser mais uma dúvida.
Não ficou uma foto, um guardanapo manchado de batom, só um trecho escrito a mão falando de um beijo. A letra delicada se restringe ao poema, ou sei lá o que seja. Não há uma assinatura, nem uma declaração do quanto o coração dela acelerava quando ele chegava com um papelzinho dobrado na mão. As intenções estão nas entrelinhas, suaves como a pele branca de quem transcreveu.
As imagens, apesar de tudo, estão em câmera lenta e quase sem som na lembrança dele. Cores só em algumas cenas. Um gole seco de saudade em todas. ...O vento alucinado de uma pré-tempestade no Centro... A lua cheia que tanto cobiçavam como cenário nunca coincidiu com a cumplicidade que nascia ali. Os beijos deliciosos não saíam de sua cabeça. Na portaria, na rua, com gosto de saquê, com gosto de ainda ser pouco. Agora nada restava a se fazer a não ser tentar não lembrar. Um suspiro fundo sempre corta resignado qualquer momento de abatimento.
Haveria uma próxima vez? Existiria algum momento em que pudessem flertar de novo com a travessura de adolescentes? Nem o vento de um fim de tarde poderia responder... Os dedos longos dela se perdiam em outros carinhos enquanto os dele teimavam em surrar teclas de um computador quase cúmplice, mas totalmente alheio à tudo aquilo que ele pensara poder existir um dia entre os dois.
Até hoje, quando o nome dela ricocheteia no ambiente, ele esboça um sorriso, e reserva uns segundos para viajar de volta nos velozes dias onde se beijavam com ansiedade. Mas o tempo passou, eles não se esbarram, e o destino nem acena com uma possibilidade de carinho a mais. No mais, a vida segue, mas ele ainda tem o cheiro dela tatuando sua alma. Graças a Deus. Será?
A árdua vida de um macho
Por André Debevc
Na porta do próprio apartamento, ela se despede dizendo que o prazer foi todo dela. Sorrio cínico dizendo que também adorei a noite. Adoro minha capacidade de mentir nessas horas. São quase oito da manhã de uma sexta-feira. Faz sol lá fora. Gosto disso. Nem precisei inventar uma boa desculpa para ir embora logo, depois de acordar com uma loira desconhecida nos braços. Dura tarefa de ser macho...
Quando ganho as ruas ainda vazias, olho para o céu perguntando a Deus porque uma noite boa dessas tinha que ser com alguém que não me dizia absolutamente nada. Não há resposta. Em algum lugar deste planetinha confuso, a mulher que pensei estar amando segue com sua vida sem lembrar de mim. A única coisa saudável a fazer era esquece-la. Eu já tinha até decicido curtir essa fossa, ficar mal por umas horas pensando no que poderia ter sido, mas o telefonema de um comparsa não me deixaria ficar na toca todo nostálgico e meloso.
Um homem de verdade sabe que tem que chorar suas perdas. Essa tinha sido uma grande. De qualquer jeito, a noite de quinta-feira tinha começado e uma amiga de uma amiga estava perdida num bar cheia de más intenções. O dever chamava...e lá se ia o sossego do macho.
Precisei ser persuadido a sair de casa, mas a insistência do comparsa demonstrava um desespero amigo. Mais do que ajuda para atacar o grupo de amigas, ele via ali uma chance para que eu afogasse as mágoas em álcool gratuito e um colo potencialmente lascivo.
Fui recebido com duas taças de vinho branco. Uma para cada mão desocupada, me disseram. Gosto mesmo é de cerveja – como todo bom macho – mas não ia deixar o vinho de lado, por mais de graça que fosse. Logo fui introduzido à loira com sorriso de cristal. Normalmente ela não teria sido minha primeira escolha, mas seus atrativos e sotaque logo trataram de tentar me seduzir. Falei umas besteiras habituais, sem fazer muita força para agradar, afinal de contas, meu peito ainda sangrava uma emoção de verdade pela mulher que não me soube. Copos de uísque, garrafas e taças mais tarde, eu rumava para casa. A dela como mencionei antes.
Preferia assim. Sempre é mais fácil ir embora que do que expulsar alguém numa situação destas. Menos trabalho, mais possibilidades de simplesmente ir embora sem olhar para trás, como as mulheres são mestras em fazer. Enfim, acabamos lá. Ela, eu e o que restava da noite.
Fiz o que tinha que fazer e um pouco mais, com minha habitual classe e dedicação – diferente de como tinha sido com a mulher que eu amava, com quem eu travei, fui quase burocrático. E depois de terminado, eu fiquei. Já era tarde, e arranjar um táxi naquela parte de Manhattan àquela hora seria bem difícil. Não precisava ir, então fiquei. Mais de trinta quarteirões até minha casa. Não sou burro. Já era outono em Nova York.
Acordei com uns beijos matinais dos quais até já tinha esquecido o gosto. Só estou com a pessoa errada, pensei. Sexo pela manhã sempre é bom. Melhor mesmo matar a última camisinha. Pensado e feito. Olhei o relógio e sorri sem mexer a boca. Já poderia sair dali a qualquer momento sem precisar parecer que estava fugindo com uma desculpa esfarrapada.
Tinha que, pelo menos, passar em casa para trocar de roupa antes de ir para o trabalho. Posso demorar o tempo que quiser no meu chuveiro, pensei. Vou pra casa.
Às vezes, você tem que cometer um erro para ter a certeza de que – antes – você estava certo. Naquela noite, eu saí de casa para errar. Pelos motivos mais errados do mundo eu me diverti. Vingança inútil. Diversão vazia. Fui o melhor que pude ser, dei um show simplesmente por tristeza. O coração de um macho é mesmo um terreno traiçoeiro. Minha pseudo-amada já tinha pendurado seus quadros nas paredes do meu peito e, mesmo assim, eu me jogava nas coxas da primeira mulher que aparecia para tentar esquece-la. Sei de mulher que fazem pior...
Passei o dia todo meio que ainda cheirando a sexo. Minha fisionomia denunciava as poucas horas de descanso e minha fama de galanteador rendeu tapinhas nas costas e comentários picantes de amigos de trabalho, colegas de happy hour. Na minha mente, ainda a pergunta da manhã: por que essa noite não foi com que deveria ter sido?
Ao contrário do que tinha feito por toda a vida, eu tinha que olhar para frente. Mesmo com o peito doído, com a alma moída, com o desejo me arrastando para que me disse para nunca mais lhe mandar flores. Todo machão é, no fundo, um sentimental. O que varia é nosso grau de cinismo.
Mulheres eventualmente chamam isso de canalhice. Alguns de nós conseguem ter uma amplitude grande neste quesito. É um dom que temos que saber domar e usar. Macho que é macho tem um coração gigante, no fundo feito de manteiga e cheio de intenções românticas.
Cuidado só para não destruir um, parindo mais um canalha. Viver é escolher o que deixar para trás.
Na porta do próprio apartamento, ela se despede dizendo que o prazer foi todo dela. Sorrio cínico dizendo que também adorei a noite. Adoro minha capacidade de mentir nessas horas. São quase oito da manhã de uma sexta-feira. Faz sol lá fora. Gosto disso. Nem precisei inventar uma boa desculpa para ir embora logo, depois de acordar com uma loira desconhecida nos braços. Dura tarefa de ser macho...
Quando ganho as ruas ainda vazias, olho para o céu perguntando a Deus porque uma noite boa dessas tinha que ser com alguém que não me dizia absolutamente nada. Não há resposta. Em algum lugar deste planetinha confuso, a mulher que pensei estar amando segue com sua vida sem lembrar de mim. A única coisa saudável a fazer era esquece-la. Eu já tinha até decicido curtir essa fossa, ficar mal por umas horas pensando no que poderia ter sido, mas o telefonema de um comparsa não me deixaria ficar na toca todo nostálgico e meloso.
Um homem de verdade sabe que tem que chorar suas perdas. Essa tinha sido uma grande. De qualquer jeito, a noite de quinta-feira tinha começado e uma amiga de uma amiga estava perdida num bar cheia de más intenções. O dever chamava...e lá se ia o sossego do macho.
Precisei ser persuadido a sair de casa, mas a insistência do comparsa demonstrava um desespero amigo. Mais do que ajuda para atacar o grupo de amigas, ele via ali uma chance para que eu afogasse as mágoas em álcool gratuito e um colo potencialmente lascivo.
Fui recebido com duas taças de vinho branco. Uma para cada mão desocupada, me disseram. Gosto mesmo é de cerveja – como todo bom macho – mas não ia deixar o vinho de lado, por mais de graça que fosse. Logo fui introduzido à loira com sorriso de cristal. Normalmente ela não teria sido minha primeira escolha, mas seus atrativos e sotaque logo trataram de tentar me seduzir. Falei umas besteiras habituais, sem fazer muita força para agradar, afinal de contas, meu peito ainda sangrava uma emoção de verdade pela mulher que não me soube. Copos de uísque, garrafas e taças mais tarde, eu rumava para casa. A dela como mencionei antes.
Preferia assim. Sempre é mais fácil ir embora que do que expulsar alguém numa situação destas. Menos trabalho, mais possibilidades de simplesmente ir embora sem olhar para trás, como as mulheres são mestras em fazer. Enfim, acabamos lá. Ela, eu e o que restava da noite.
Fiz o que tinha que fazer e um pouco mais, com minha habitual classe e dedicação – diferente de como tinha sido com a mulher que eu amava, com quem eu travei, fui quase burocrático. E depois de terminado, eu fiquei. Já era tarde, e arranjar um táxi naquela parte de Manhattan àquela hora seria bem difícil. Não precisava ir, então fiquei. Mais de trinta quarteirões até minha casa. Não sou burro. Já era outono em Nova York.
Acordei com uns beijos matinais dos quais até já tinha esquecido o gosto. Só estou com a pessoa errada, pensei. Sexo pela manhã sempre é bom. Melhor mesmo matar a última camisinha. Pensado e feito. Olhei o relógio e sorri sem mexer a boca. Já poderia sair dali a qualquer momento sem precisar parecer que estava fugindo com uma desculpa esfarrapada.
Tinha que, pelo menos, passar em casa para trocar de roupa antes de ir para o trabalho. Posso demorar o tempo que quiser no meu chuveiro, pensei. Vou pra casa.
Às vezes, você tem que cometer um erro para ter a certeza de que – antes – você estava certo. Naquela noite, eu saí de casa para errar. Pelos motivos mais errados do mundo eu me diverti. Vingança inútil. Diversão vazia. Fui o melhor que pude ser, dei um show simplesmente por tristeza. O coração de um macho é mesmo um terreno traiçoeiro. Minha pseudo-amada já tinha pendurado seus quadros nas paredes do meu peito e, mesmo assim, eu me jogava nas coxas da primeira mulher que aparecia para tentar esquece-la. Sei de mulher que fazem pior...
Passei o dia todo meio que ainda cheirando a sexo. Minha fisionomia denunciava as poucas horas de descanso e minha fama de galanteador rendeu tapinhas nas costas e comentários picantes de amigos de trabalho, colegas de happy hour. Na minha mente, ainda a pergunta da manhã: por que essa noite não foi com que deveria ter sido?
Ao contrário do que tinha feito por toda a vida, eu tinha que olhar para frente. Mesmo com o peito doído, com a alma moída, com o desejo me arrastando para que me disse para nunca mais lhe mandar flores. Todo machão é, no fundo, um sentimental. O que varia é nosso grau de cinismo.
Mulheres eventualmente chamam isso de canalhice. Alguns de nós conseguem ter uma amplitude grande neste quesito. É um dom que temos que saber domar e usar. Macho que é macho tem um coração gigante, no fundo feito de manteiga e cheio de intenções românticas.
Cuidado só para não destruir um, parindo mais um canalha. Viver é escolher o que deixar para trás.
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