quinta-feira, março 15, 2012

Quase dúvida (1998)

Por André Debevc

Tentei anular a pergunta
mas me perturba a resposta.
Insistência teimosa
e independente
circula lenta entre a gente.
Vivo comigo batendo uma aposta
sem saber fermentar ou medir minhas chances
num crescimento deslumbrado.
O processo da conquista,
xadrez na certa de passos cuidadosos.
Tem até uma impulsividade cretina
que às vezes me domina
me fazendo jogar tudo pra cima.
É que meu beijo quer morrer na sua saliva de menina
e minhas desordenadas linhas precisam de uma musa
pra poder decolar de novo batendofeito ilusão.
Preciso dar resposta a uma pergunta
mas só quero saber de uma opção.

quarta-feira, março 14, 2012

(sem título - 1999)

Por André Debevc

Jogo de palavras,
ensaio levemente delineados do desejo,
lábios se mordem se fitam de longe,
olhos que jogam trocando suas profundidades e
tons castanhos que investigam cada traço do rosto.
Expressões e sorrisos mapeados
em hora que parece continuar além dos minutos.
Iminência de risco,
a inevitável conclusão nos ronda
e num cinismo deslavado de bom humor
fingimos não sabermos bem o que fazemos. Jogamos.

A cada dia
minha boca fica mais perto da sua,
até estar dentro dela.
Talvez a inconseqüência voe por sobre as mesas
ou te ache numa esquina cinza do centro.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

...ah, deixa...

por André Debevc

deixa eu tentar traçar a mediatriz que imaginariamente une suas tatuagens ímpares. deixa eu conhecer o relevo manso das suas cicatrizes, curvas e histórias. deixa eu chegar e brincar devagarinho na sua boca depois da visita de um bom sorriso e um vinho. deixa eu saber as palavras que seus olhos sussurram num taxi numa avenida engarrafada. deixa eu brincar com seu umbigo sem hora pra ir embora. te fazer cócegas com a minha barba cerrada. descansar a mão na sua coxa entregue. deixa te dar um braço e te fazer um cafuné. deixa a gente segredos só nossos. deixa minhas mãos te mostrarem toda alegria contida que têm quando encontram meu osso favorito de qualquer corpo. deixa eu te fazer rir de jogar a cabeça para trás. deixa eu chegar sem precisar avisar na sua nuca. deixa eu chegar e entrar, entre lambidas, suspiros e beijos. deixa eu poder ficar assim encostado em você por mais tempo. deixa no chão as suas duas desculpas práticas. deixa eu te dar uns três ou quatro beijos pra começar. deixa, vai.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

MAIS UM DIA

por André Debevc

respiro fundo
piso mais devagar
mudo de caminho
olho pra outro lado,
pra fugir da tentação.

mordo o lábio
engulo seco
penso em outra coisa,
hesito com os olhos
não me deixo
hesitar com as mãos.
pelo menos não na frente
de todo mundo.

vigio ponteiros
me contorço
sento direito,
me endireito
sem precisar cerrar
olhos ou punhos.

paquero
olho de esguelha
o que não posso,
o que não devo
o que queria
respiro fundo e vou
até onde consigo.
e eu consigo.

amanhã de manhã
a velha calça jeans
mais frouxa
é um jeito estranho
de me dar parabéns.

e começa mais um dia de dieta…

segunda-feira, outubro 31, 2011

Confiar Sim

Por André Debevc

A gente nunca sabe. Se a hora é certa. Quando o encontro é errado. Se tudo é só uma simples hora em que é sim puro acaso. A gente não entende a razão de querer estar junto. E que pode também ser melhor ser separado. A diferença que pode fazer desencontrar para sempre por segundos ou ter a sorte de ficar junto por anos. Nunca vemos que pode até existir uma certa razão no que não queremos ou planejamos. Que no que insistimos por pura teimosia pode não ter sentido nenhum. A gente nunca vai certamente saber. O que vem depois. O que precisava ter vindo antes. O agora. Ou aquilo sem o que poderíamos realmente existir melhor e diferente. A gente pensa que sabe, porque só quer saber se for pra ser assim. Tudo isso faz parte de aprender a existir aqui. Confiar sem saber é que é o complicado. Mas se alguma coisa me cabe, acho que prefiro decidir que vou confiar sim. Virá sempre, na hora certa, o que for melhor pra mim.

terça-feira, setembro 27, 2011

Só um filminho noir

Por André Debevc

A luz gris que escapa da TV de tubo desregulada se mistura à luz âmbar do abajur dando um certo granulado quase noir ao quarto, aquecendo o encontro que é, em algum outro universo, apenas clandestino. Só seus pés estão escondidos sob a aba da coberta enquanto sua coxa esquerda atravessa a cama para pousar entre as minhas pernas. Falamos amenidades dessas nossas almas espelhadas em papéis tão distantes. Você quase sem querer descansa o seu peito perfeito sobre mim. Neste momento, o nosso universo, todos os universos, cabem nessas quatro paredes (uma que na verdade é só um blackout e cortina) e lençóis que ladeiam e esquentam sem precisar nos cobrir. Você sempre diz que nada te esquenta mais que um outro corpo nu colado ao seu, não é mesmo? E você tem razão – sempre tem razão de um jeito ou de outro – ainda mais nessa sua mansidão sua depois de gozar. Acho que de todas as vezes, essa é a vez em que te vi mais calma de todas. Falando mansa, a virilha ainda morna sobre minha perna. O sotaque indefectível, o tom ameno e um cheiro incrível que parece emanar do seu colo só para tomar conta de todo o mundo. Temos cortes secos e closes, muitos closes de detalhes, boca, anca, peito, coxa, olhos. Tudo muito bem editado e montado. O beijo funcionou bem, é claro, ou não estaríamos aqui, lambuzados, repousando sem pressa de mais. Desse filme noir nosso, sem câmeras ou coadjuvantes, dividimos a direção. A trilha sonora é outra coisa que inevitavelmente teríamos que fazer juntos. Olhos nos olhos. Com você em cima, de preferência.

terça-feira, agosto 30, 2011

Veranico

Por André Debevc

Finalzinho de invero e faz um dia tão lindo que até as roupas no varal acordaram com cheiro de sol. Veranico nem tão nanico assim.

terça-feira, junho 14, 2011

Admito que erro

Por André Debevc

Admito que erro. Ponto. Entrego os pontos, limpo o suor na manga arregaçada, baixo a guarda. Deixo a vida, cretina, me bater até cansa (se é que cansa). Noites incautas, sopa de decepção com legumes congelados. Quem sabe os juízes param a luta? Quem sabe q vida não me leva à nocaute? Vai que dá pra que eu vença por pontos? Só admito a hipótese de continuar no ringue, aberto, tomado. Vou seguindo com abaldos de lado mas ninguém começa a contagem, todo mundo leva na sacanagem essa rotina onde meu nome é onvocado num anúncio de telefonia celular.

Passado o tempo do não

Por André Debevc

Vamos repetir esse beijo até chegar à perfeição.
Posso sentir que não estamos longe...
e não é coisa de sexto sentido de homem
(que nunca pára para pedir informação)
Só sei que estamos na direção certa.

Mantenha sua noite aberta
pois quero trazer mais uns beijos para colocarmos em ação.
Vamos tentar mais uma e outra vez,
até que você tenha decorado o bom hálito da minha tez.
Será que você não percebeu
que sua língua derrapa gostosa na minha?
Que nossas respirações até que não se contradizem?
Sei que temos de colocar em prática esse impulso sem esboço de rejeição.
Há tempos que temos dissimulado,
e agora não é mais tempo de dizer não.

sexta-feira, maio 27, 2011

Irrecusável

Por André Debevc

O presente que trago para lhe dar é pessoal e intransferível. Nada de cheques nominais nem títulos da bolsa dos meus valores, apenas uma ilustração em cores de um desejo cultivado. Peço que seja guardado num lugar seguro totalmente livre de atentados. Preciso de sua cumplicidade, uns segundos de eternidade, o caminho inquieto da verdade. Talvez minha boca só sossegue ao sabor da sua, pode ser que as superfícies de nossas línguas se reconheçam de outras histórias. Que importa? O beijo que guardo para você foi amadurecido em barris centenários durante guerras e outros carnavais. Um segredo tão simples que seu consentimento sela silencioso para que que passe ao terreno da realidade um gesto pensado há milênios. Trago entre minhas palavras um presente que você não devia recusar.

Meu jeito de gostar do Rio

Por André Debevc

Gosto dos tons cinzas da chuva no Arpoador, as gatas vira-latas pingadas no parque, um domingo insistente de pés descalços nas pedras pichadas. Entre o asfalto e o morro às vezes o Rio é calmo, às vezes o Rio é morno (feito o mar em dia de chuva), mesmo quando não se vê o fim do Leblon. Aprendizes de flanelinhas ganham um trocado por fingirem deixar a chuva de lado. Eu acelero e nego o parentesco inexistente de quem corre em direção ao meu espelho retovisor. Apesar de tudo, ainda gosto do Rio. Balas perdidas que não me encontram, violência que vacila e desiste (ainda bem) em me vitimar. Consigo gostar do Rio sempre, um eterno caminho entre a favela e o mar.

segunda-feira, maio 16, 2011

Preciso escrever (e o blogger tá fora do ar)

Por André Debevc

Ando precisando escrever. Pra não explodir, pra relaxar e até mesmo pra matar a saudade de me deixar me ler sem ser por encomenda. Preciso de mais de 140 caracteres, preciso de histórias, que podem ser simples, podem ser só de um sorriso mais safado, podem ser um olhar que saiu assim queito e de lado. O enredo nem precisa ter lá suas glórias, saídas espetaculares ou heróis sem capa. Preciso é de linhas e letras, não de um mapa, pra poder voltar a ser um pouco mais do eu que mais gosto. Preciso escrever. Mesmo que o dia dispare e não deixe. Mesmo que a memória feche as pernas de tudo que vi ouvi, vivi e menti. Mesmo que eu negue todo lugar que fui, tudo que presenciei, todas as frases que já disse ou pensei e ninguém nunca se lembrou de anotar. Eu preciso escrever, que é pra voltar a respirar. E dormir e ser em paz.

segunda-feira, abril 11, 2011

Ansiedades

Por André Debevc

Dopemos os poemas,
acalmemos os ânimos,
o caminho ainda se ensaia à frente.
Agir impulsivamente pode satisfazer o peito
mas a razão entrará questionando
se nada funcionar direito.
Só um bocado, vamos nos segurando
pois a ansiedade não anda desavisada na minha cidade
e o beijo quer ir às ruas desfilar em carro aberto.

segunda-feira, março 28, 2011

Mandava, do verbo não mando mais (1996)

Por André Debevc

Eu mandava e desmandava naquele corpo.
mandava abrir,
mandava fechar.
Era senhor absoluto daquilo tudo
ou quase nada.
Um corpo aparentemente comum,
mas perfeito em sua imperfeição adaptada.

Bastava um olhar
e vinha mansa em brasa,
me abraçando e quase devorando.
Bastava um desvio de suspiros
e aquilo tudo se acalmava, ou fingia que sim.

Eu conhecia cada canto, cada pedra,
cada mato, cada pinta daquele corpo,
uma orquestra regida,
domada na minha rotina
(e como era gostosa aquela menina!).

O calor de toda curva,
a profundidade de cada dobra,
...ah, era arrepio de sobra...
e eu era locatário de tudo aquilo.
Meu reino, meu conjugado,
trilhas de suor,
terremotos de humor e desejo
(isso sem lembrar do seu beijo, um poema à parte).

Uma alma quase vermelha como o coração,
uma rosa, ou marte,
e tudo no controle nada remoto da minha vontade e disposição.

Eu mandava e desmandava naquele corpo...
até o dia em que o contrato acabou.

Hoje o corpo passa a centímetros de mim
sem piscar nem lembrar quem o fazia gotejar e até escorrer.

Eu já mandei naquele corpo.
Agora não faço a menor diferença.

(poema antigo)

Por André Debevc

Você fugiu feito o vento que ameaçava
aquela chuva que nunca veio.
Assim como o próximo beijo,
o carinho morreu no medo do que vinha depois dos comerciais da novela.
A distância assina sua apólice de seguros
quando você esquece fácil o universo que sabíamos criar.
O big bang do beijo perfeito
e tudo mais indefinível e sem muito jeito,
instalando a alegria em nós tão igual, tão diferente...
Você fugiu feito o vento que prometia chuva
e mareou meus olhos cansados de ter saudade
do que nunca me largou,
mas sempre foi embora.
O suspiro é fundo
só que não chega até onde você quebrou meu coração.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Compasso de Espera

Por André Debevc

A mão passeia sem pressa pela coxa quente que escapa o vestidinho que ele adora. Polegar vasculha penugens ansiosas, que batem continência ao mais simples toque nunca despretencioso. Parece até que não há pressa até que as bocas se encontrem. Tudo acontece em closes fechados. Cortes secos cada vez menos secos. O suspiro mais longo dela, dilata narinas e pupilas. A respiração mais lenta dele, destoando do peito que acelera. Mãos e corpos que não se desgrudam. A pegada mais firme, o calor do corpo que fica ainda maior. Ele sente o coração na garganta, ela agarra o coração dele na mão. Quente e forte como a marcação de uma bateria alucinada. Ele quer colocá-la na boca. Ela quer guardá-lo pra sempre entre as pernas arqueadas, escorregadio e ofegante como um trem próprio com um só destino. Andam tarados e imaginativos, olhando a todo instante pro relógio, esperando a hora de um encontro não marcado. Mas que não tem mais como ser adiado.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

...melhor...

Por André Debevc

Ele não sabia, mas sim, aquele abraço era uma despedida. Soubesse, teria a beijado naquele carro parado na rua como quem vacila ainda sem a certeza de querer mesmo ir embora. Ele teria reunido num só beijo a vontade do primeiro e o desespero de quem sabe só ter um ultimo beijo para dar. Teria apertado a mão dela e olhado fundo naqueles olhos como nunca pode fazer antes. Mesmo na rua porcamente iluminada ele miraria dentro daqueles faróis e abriria sua caixinha de sinceridades, guardadas a sete chaves, pra que ela visse que a falta de racionalidade e consequência dele não eram apenas reais. Eram profundas. Cicatrizes de uma outra vida onde ele tinha pensado muito menos e vivido muito mais. Antes. Muito antes de terem que costurar seu coração remendado de volta ao peito. Antes deles – cada um do seu jeito e no seu tempo - terem virado tijolos, iguais e desapercebidos como tantos outros, numa parede qualquer. Talvez o coração e a palpitação fiquem de novo em segundo plano. Vai ver a razão tenha porque ter razão em algum momento. Melhor não pensar no que não pode ser. Melhor não pensar. E nem sentir.

terça-feira, dezembro 14, 2010

sem olhar direto pro sol

Por André Debevc

No breve detalhe que escapa do seu decote, eu me perco e mergulho sem medo, olhando para os lados pra não ser pego, mapeando suas curvas, dentes, penugens e cheiros sem que você nem tenha a alegria do calor do meu nariz visitando a sua pele desavisada de mim. Sem falar da minha língua, morna e faceira, decorando suas interjeições e suas partes animadas de sílabas inteiras, apertando suas coxas, tensionando suas gargalhadas contidas com dedos sem esmalte e repletas de sorrisos vazios de sons para não serem pegos pelo mundo. Ah tudo tudo que há entre os centímetros que sempre dançam entre você e eu. Um universo infinito e em expansão que não nos coloca nunca nus e simples, apenas um com o outro, preso num quarto, livre de qualquer culpa ou obrigação regada a um desejo existente num mundo real.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

acordar sem hora

Por André Debevc

Quando a luz entra pela janela, não dá pra dizer direito se faz sol ou cinza. Nos dias de chuva só mesmo o chiado consegue chegar na frente e denunciar a letargia do dia. Não importa. Tem dia que é mesmo assim, que todo o processo de acordar é lento, sem burocracias nem velhos vícios da semana, como o de olhar pro relógio mil vezes antes de entender que horas são. Ao lado, ela dorme de boca aberta, ressonando docemente como uma gata preguiçosa dessas fotos de calendário de um ano que já passou. É verão graças a deus, e ela dorme só com uma camiseta e calcinha que tem muito mais história com ela do que eu. Sem pressa de trazê-la pro dia, que já deve ter chegado há sei lá quanto tempo lá fora, aproveito para começar minha doce rotina de beijá-la ainda quase imóvel entre o que sobrou dos lençóis que cismam em lamber suas pernas desavisadas. Sei que ainda não é hora de acordá-la, ela que sempre precisa de uns minutos à sós com o dia antes de sorrir pro mundo. O problema é que a sua pele quentinha de uma noite bem dormida tem poderes inimagináveis sobre a minha boca, e não demora muito estou colocando a moça na boca sem pressa nenhuma. É quando beijo a parte de trás de seus joelhos que ela esboça algum contato com este mundo, e diz alguma coisa ainda ininteligível para quem habita essa nossa dimensão. Tudo isso é minha senha para fazer com ela se vire de frente e me ofereça silenciosamente as suas coxas quase indefesas ante beijos e medições em braile, feitas com a minha língua – que como eu, acorda de ótimo humor. Agora ela ajeita a cabeça mais fundo no travesseiro e dá um suspiro acompanhado de um gole seco. Ela ainda está nos braços de Morfeu, mas aos poucos reconhece o meu toque e minhas bochechas rondando a sua virilha. De olhos fechados, ela lambe os lábios e ensaia um sorriso. Já não há impedimento para que minha boca mergulhe fundo, invocando nela meias sílabas, disfarçadas de esporádicas interjeições. Quando ela faz que vai me apertar com as coxas é que verdadeiramente chega para o dia. Paro e corro a mão pela penugem da sua coxa esquerda que, semi-flexionada, se entrega mais. É quando vejo o peito dela subindo e descendo a manhã como numa montanha-russa. Volto à minha adorável labuta de despertador silencioso depois de fazer shhhhhhhh para que ela não acorde ainda. Ela obedece. E mãos, línguas e beijos ricocheteiam ali onde havia uma calcinha. Pois é...havia. Finalmente ela arqueia as costas, se enfiando ainda mais na cama. Agora sim, digo bom dia. E ela me responde em silêncio, me sorrindo com o olhar mais tarado do mundo.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Moody, Hank

Por André Debevc

Me desculpa. Antes de mais nada quero pedir desculpas. Você sabe que não tenho o maior dos pavios, e que nunca fugi de uma boa briga, mas desta vez eu não tinha o que fazer. Eu tava andando na linha, meu amor, eu juro que tava. Pergunta pro Charlie! Só sei que perdi a razão e saí socando tudo que vi pela frente e só parei quando vi que alguns socos daquele chantagistazinho barato também tinham feito seu estrago nessa minha cara de pau que um dia você tanto amou. Só estou sangrando, rasgado assim, porque ele colocou em risco aquilo que mais tenho de precioso nessa vida, meu amor. Ele ameaçou as únicas coisas que prestam nessa minha vida: você e nossa filha, meu amor. Tudo por causa daquela dissimulada que você insiste em tratar como sendo da família. Eu não sabia quem ela era. Também não sabia quantos anos tinha. E não tem jeito mais sutil de falar isso, meu anjo, mas eu trepei com ela sim. Ela que me fodeu quando roubou meu livro, ela que me ferrou muito antes, quando me seduziu com aquele papinho de eu ser o escritor favorito dela. Ela que agora acabou com a minha vida, a nossa vida. Que finalmente tinha saído dessa eterna corrida de gato e rato e tinha voltado a andar pra frente. A gente com as malas quase prontas pra mudar de volta pra Nova York. Mas agora não tem mais como esconder tudo de você. Me perdoa. Eu sei que agora você não pode, mas um dia quem sabe você possa, então me perdoa. Eu não sabia quem ela era. E fui sim um canalha, um fraco. Seduzido por elogios e toda aquela juventude sem sutiã de peitos empinados.

Se uma trepada pode acabar com a vida de alguém, essa foi a que acabou com a minha. Que me fez refém. De ameaças de uma pirralha leviana que sabia muito bem o que estava fazendo quando sentou sem calcinha em cima de toda minha canalhice carente, com todos aqueles elogios e sorrisos perfeitos. Agora ela volta pra me atormentar, o fantasma mais bonito que alguém já viu nesse mundo, a cretina. E acabou com a nossa vida, os nossos planos. Logo agora que eu tinha rasgado toda minha vasta coleção de frases feitas e caras de escritor derrotado, pai carinhoso de uma adolescente roqueira e umas poucas obras de quase nenhuma relevância. Eu tinha aberto mão de ser o sedutor, até porque a única razão dessa minha vida sexual de gato vira-lata era a falta gigantesca que você me fazia, meu amor. Eu passei todos esses anos, desde que você cansou de toda a minha inconseqüência e falta de maturidade, procurando por você em toda mulher em quem coloquei a boca. Sempre numa tentativa de estancar essa dor filha-da-puta de ter jogado tudo fora. De ter deixado você e nossa filha irem embora, as únicas mulheres com quem realmente me preocupei nessa vida. Me desculpa. Eu me escondi demais atrás de uísque, mulheres e desculpas rasas pra não encarar esse medo gigantesco de nunca te ter de volta. E quando finalmente você voltou, quando finalmente resolveu dar mais uma chance pra esse calhorda tarado, meu membro mais irracional e uma trepada que só me rendeu um soco na cara e muito arrependimento, voltam pra me foder de vez.

Agora eu não sei como tudo acaba, meu amor. À medida que o carro da polícia me leva algemado eu não faço idéia de como tudo isso termina. Qual será o próximo capítulo da nossa história? Quantas temporadas vou ter que viver longe de você? Eu não sei. Só sei que se pudesse voltar atrás, nunca chegaria perto dela, meu anjo. Nunca. Mas hoje, com o peito estraçalhado e o rosto sangrando, encaro o que não tenho mais como esconder. Vou ser o homem que devia ter sido desde de muito tempo atrás. Vou arcar com as conseqüências. Mesmo que você nunca mais me olhe, mesmo que nossa filha demore tempo demais pra me perdoar. Eu assumo meu erro – induzido por elogios e uma vida sem você e sem sentido. Daria tudo que tenho pra não ter comido aquela filha-da-puta. De todas as filhas-da-puta do mundo tinha que ser logo aquela! E hoje dou, entrego de mão beijada, tudo que tenho justamente por uns minutos vazios de prazer. Maldita hora em que fui praquela livraria. Enquanto as sirenes do carro abrem caminho para a delegacia, a única coisa que consigo pensar é: maldita hora em que fui ser eu mesmo. Me desculpe. Eu não sabia. Mas agora que você já sabe, não me odeie para sempre, eu nunca consegui parar de amar você. Nem antes, nem agora. Nem nunca.

sábado, agosto 21, 2010

Deus é brasileiro, mas a competitividade é paulista

Por André Debevc

Marcelo Rubens Paiva é um dos meus escritores favoritos. Na minha humilde opinião, este paulista (tá vendo como não sou bairrista?), é um dos maiores talentos que o Brasil já produziu. Um escritor para a cabeceira e para a vida. Mas não foi pra falar dele que comecei este texto. Foi para falar de listas, um assunto sobre o qual paulistas são craques. Ou melhor, estão no topo, disparado. Lista de melhores então nem se fala. Deve sair pelo menos uma por semana nesta cidade ranqueando o melhor isso, o imbatível aquilo. E se me perguntarem qual a maior diferença entre Rio e Sampa, posso dizer que é isso: a competitividade.

Se no Rio qualquer carioca pode te falar de um chope maravilhoso, em São Paulo o paulista vai fazer questão de te falar DO melhor chope da cidade. No Rio tem um lugar que tem um delicioso bolinho de camarão. Em São Paulo tem AQUELE lugar que é A melhor coxinha, o outro bar que tem O melhor barman (aliás, parabéns mais uma vez, Souza!). Eita cidadezinha que gosta de medir pau, né? Será, aliás, que é por isso que Toquinho (o amigo paulista de Tom e Vinícius) tem esse nome? Bom, deixa pra lá...

Na balada (calma, só tô usando o vocabulário local para ser entendido melhor) a graça de parar seu carro com o valet, que fica na frente da fila da boate, parece que é só para sair do carro mais importado que o do motorista anterior, na tentativa de impressionar o maior número de moças que estão na fila esperando para entrar. Como se seu carro dissesse quem você é... coisa muito estranha para um carioca.
Vou dizer por que. Não é que no Rio não exista competição. Existe sim, é claro. Mas os cariocas são mais desencanados (olha eu usando expressões locais de novo). Na praia, habitat natural de grande parte dos cariocas, é difícil saber quem é quem pela roupa, concorda? Sunga é sunga, e biquíni é biquíni. A faixa de areia, espremida entre o mar e o asfalto da ciclovia, abriga gente de todas as classes e origens. Tem de boy a CEO. De modelo famosa a professora aspirante. De zilhardário workaholic a vagabundo profissional. E ali todos se misturando naquele mar de gente, que vai se conhecendo de vista.

E quando você menos espera, tá trocando idéia com o grupinho sentado ao seu lado, conhecendo gente interessante, só pelo apelido. Sem saber se eles chegaram de Touareg, Focus ou Chevette. E essa, justamente, é que é uma das grandes graças do Rio: a falta de cartões de visita, de cargos, nome e sobrenome ou chave de carro aparente.

O mais rico talvez tenha vindo de bicicleta, ou quem sabe só desceu mesmo da cobertura e atravessou a rua, sem um tostão no bolso porque compra fiado com o Elias, que aluga cadeira e barraca nos dias de sol. Aquele ali, engraçado, acho que é primo daquele ator que namora aquela gostosa, ou filho daquele deputado que foi ministro. A gatinha saindo da água pode ser vendedora daquela loja de que você nunca ouviu nem falar, ou ex-colega de turma da sua irmã, do primário. Não importa e nem faz a menor diferença.

Por isso – essa eterna falta de roupa e programas culturais - o Rio é menos competitivo, e conseqüentemente mais democrático. Uma cidade de quem vive dando apelidos, mas não lembra de sobrenomes. De velhos amigos que nunca se preocuparam em perguntar exatamente onde o outro trabalha - até porque isso não vai fazer da pessoa mais ou menos sua amiga. Uma cidade que pode até ter engarrafamento, mas que não é nem o maior nem o melhor do país. Um lugar onde todo mundo gosta de se encontrar pra tomar um chope - que não precisa ser o melhor do mundo. Até porque isso, a cidade já é.

domingo, agosto 15, 2010

A lenda reza

Por André Debevc

Reza a lenda,
que seus beijos são doces como a brisa do mar.
Nunca existiu um que me contasse dos seus encantos
mas posso construir os mitos que quiser
na ausência de uma realidade cúmplice e descritiva.
Vivo às margens do seu paralelo particular,
te vendo nas coincidências de rotina
onde o mar lambe seus pés e o sol divide atenções.
Reza a lenda,
que seus carinhos são condecorações aos bravos
que desvendaram os enigmas que levam aos seus lábios.

Doce lenda sobrevive em minha retina,
vacila em ocupar meu peito
e se constrói na distância inerte
que sua figura sorridente insiste em ocupar.

Poemas letárgicos

Por André Debevc

Dopemos os poemas
acalmemos os ânimos,
o caminho ainda se ensaia à frente.
Agir impulsivamente pode satisfazer o peito
mas a razão entrará questionando
se nada funcionar muito direito.
Só um bocado, vamos nos segurando
pois a ansiedade não anda desavisada na minha cidade
e o beijo quer ir às ruas desfilar em carro aberto.

(...)

Por André Debevc

Dessas três ou quatro palavras que eu não disse,
o que você entendeu?
Suas respostas vêm assim,
sem pressa à tona,
feito estas bolhas inocentes no copo de cerveja.
Procuro saber suas reticências
para encontrar um ou dois pontos,
sempre abrindo vírgulas
para o aposto eu,
sujeito ativo,
até passivo ante seu desejo lascivo,
calmo, quase sussurrante
nessa confissão
de quem precisa me provar um beijo viciante
que cansei de imaginar.

Se entre um assento e outro eu calei,
é porque precisava me achar,
talvez entre sua boca e olhos,
talvez só entre nós mesmos
nesse cúmplice ar.

Eu calo, porque você consente
já que nosso beijo quer gritar.

O único jeito

Por André Debevc

Só sei ler lábios em braile.
Minha respiração desacelera ao ritmo da sua
enquanto a pulsação descontrola
e a perfeição rima nossas salivas.
Os cheiros intuem mais
e as palavras poucas, balbuciam um pedido de ininterrupção.
Seu gosto precisa estar aqui agora.

eu defenderia você com uma espada

Por André Debevc

Eu defenderia você com uma espada.

Nem que fosse preciso enfrentar dragões
ou os ladrões do centro
com apenas uma tacada.

Mesmo que tivesse que expulsar raptores ou só lutar horrores.
Eu defenderia você com uma espada.

Se pusessem em jogo sua integridade,
se sua honra ameaçassem,
se você precisasse,
te faria minha amada

e morreria feliz,
te defendendo com uma espada.

É assim que funciono
antes de mais nada,
no suspiro até reticente dos seus olhos
fitando minha alma apaixonada.

Pois se tivesse de morrer mil vezes
por um beijo,
o faria de alma lavada.

Eu defenderia você com uma espada.

Apenas lazer

Por André Debevc

Meu trabalho aqui está feito.

O umbigo dela,
ainda cambaleia,
subindo e descendo zonzo
enquanto ela engole seco
e tenta encontrar o ar
que dança letárgico
pelo quarto
sem abrir os olhos.

Meu trabalho aqui está feito.
Mas eu nunca estive aqui a trabalho. Só por prazer.

quinta-feira, agosto 12, 2010

#bregafeelings

Por André Debevc

Só uma força te cerca com mais constância e há mais tempo que o meu amor: a gravidade.

terça-feira, agosto 10, 2010

cegueira imposta

Por André Debevc

monto um quebra-cabeça no escuro. de olhos vendados, hermeticamente preso num ambiente sem som ou calor, tateio palavras. hipotetizo tons. mentalmente desenho gestos e hesitações de dedos. cada momento é um capítulo. um livro que não sei capa, crítica, orelha nem autor. suspense ou mistério. com pitadas de sarcásmo. obviedade, nenhuma. me lembra uma expressão que adoro: a esgrima das palavras. vivemos nisso. duelo sem derrtotado. leio um livro no escuro, que só me dá palavras e histórias quando quer.

domingo, agosto 01, 2010

Sentimentos Inquebráveis (outro poema antigo)

Por André Debevc


vê se compra uns sentimentos na próxima liquidação
o leite de caixinha vence no dia do seu aniversário
até lá meu nome já pode ter sido esquecido...
a carta demora mais de um mês para nascer
já nem sei mais se te vejo de novo
choveu mais de uma semana sem parar
vamos traçar um novo ponto de fuga
vamos juntos para um paralelo
onde você não me magoe não me machuque
fujamos pra'quele seu pra sempre dos versos da fotos onde éramos felizes
mas vê se compra uns sentimentos inquebráveis
e um coração com aquecimento que deixe meu amor fazer um ninho
(é redundante dizer que mulher não tem sentimentos)
Quebrar o coração dos outros
nunca deu cadeia nem levou à fogueira;
deixa pra próxima porque minha guilhotina
tá numa pesada lembrança de uma vida que quero esquecer

(poema de 1998)

Por André Debevc

Até que não posso reclamar demais,
tenho um Mustang ‘65 conversível que vai a cem enquanto você pisca.
Posso sair do meu bairro nova iorquino de ruas sem nomes
e acabar em Ipanema num fim de noite qualquer,
nem preciso passar pelo eixo monumental
perto de onde fica o cativeiro do meu último coração;
dirijo intranqüilo na chuva escura de estradas adormecidas.
Toca qualquer música no meu rádio importado,
ouço o que era um dia o ritmo do meu peito
no embalo arrastado do limpador de pára-brisas.
Abro a janela,
deixo a chuva me beijar desesperada e metódica,
pisco vazio e distante de mim mesmo,
encontro meu olhar
num desvio cinza do espelho quase embaçado,
estou seco na normalidade de sempre
lembrando de cheiros que o vento levou molhados,
e suspiro fundo,
concentro na chuva,
no dia cinza da rotina preto-e-branco
que aparece em meu retrato grudado na identidade.
Nova York parece tão perto.

Sola no peito

Por André Debevc


Às vezes eu acho que ela tem razão. Temos mesmo de acabar. Jogar tudo fora. Fechar o que sobrou desse sonho, encerrar esta conta amorosa e ver o que sobrou de nós pra continuar. O resto – que sempre é mais do que éramos quando começamos, então me pergunto por que chamar de resto e não somatório? – será visto, cedo ou tarde, pelas noites cariocas, só se esbarrando mesmo por desgraça ou para a diversão do destino. Somos de cenários e públicos diferentes. Tão diferentes que chego a me perguntar por que idiotice achamos que somos iguais, que funcionamos bem juntos. A ironia assim como o diabo tem dessas coisas.

Acabaremos para lá na frente voltarmos e casar, diz ela do alto de sua ingenuidade. Desconhece os truques da vida, penso tentando encobrir um sorriso nati-morto no rosto. Eu já ouvi essa conversa antes, menina. Falaram que eu teria que acabar, e depois vagar por aí. Me prometeram muitas amantes, cicatrizes e histórias. Mentira. Depois que o destino vira a esquina ele não olha mais para trás. É cada um pro seu lado. Um “adeus, te odeio filhadaputa” no rosto e um “volta, te amo” no peito. As bocas, mudas engolem seco.

Depois, só a triste análise do que foi e do que poderia ter sido. Do filho que se deixou morrer por egoísmo ou apenas tristeza. Uma lista infindáveis de “se”. Amigos carregando o caixão com o corpo apagado de quem um dia amou e jurou ficar junto. Um luto amoroso nem sempre aparente. Vai aquela vida, o status, os planos.

E lá atrás, uma música triste que você começou a gostar quando ainda tavam juntos. Lembrança cretina do quanto você se deu. Tragédia que começa sem ainda nenhuma decisão tomada. Os dias seguem como uma procissão de tanques. Seu amor é que foi ficando para trás embaixo do mais reles coturno de sentinela.

Músicas de amor são um lixo…

André Debevc

Toda grande musica de amor é uma porcaria. Não, amigo, não estou sendo radical nem sarcástico. Não importa se você é durão ou finge que isso não te afeta, se já amou mesmo uma mulher, sabe que as grandes músicas de amor são mesmo uma grande tragédia pro peito.

Sou um desses sujeitos que ama ouvir música e dirigir – principalmente na chuva. Se me distraio, canto no chuveiro, e se bobear, fico como minha mãe, que cantarola até mesmo enquanto lê jornal. É justamente por me considerar vidrado em música, que sei que assim como toda história termina mal, toda grande música de amor faz o coração silenciosamente engolir seco vidro moído com vodca.

As grandes canções de amor têm sempre algo em comum: trazem uma lembrança muito particular. Seja lembrando de como ela ria jogando a cabeça pra trás ou no modo como cantam como a idéia dela por perto faz falta.

Você não precisa ser Charles Bukowski e ter o fígado derretido por álcool e lembranças para ser um homem com uma história e bilhões de fantasmas que um dia foram doces mulheres. Toda mulher que vale alguma coisa vem com uma música. Toda história que vale a pena esconder ou contar (depende de como você for) tem uma trilha. Mas só as mulheres e amores que nunca morrem por completo é que sempre vão te encarar nos versos de uma grande música de amor, por mais distante no tempo que as duas (a mulher e a música) tenham acontecido entre si.

Boas músicas (como True Love Waits, do Radiohead) são mulheres que conseguiram viver para sempre. Um jeito distorcido de Deus brincar. O rádio do carro, que só tocava porque os cds jogados lá já cansaram, traz sem nenhuma piedade a porcaria que mais mexe com você (no meu caso, Wish You Were Here – que mesmo tendo sido feita para um macho, é perfeita), só para te fazer engolir aquele vidro moído de uns parágrafos acima.

Já me acostumei a dizer que tive coração, que não entro mais nessa de amar, e por isso insisto com isso de que toda grande música de amor é uma violência com nossas pretensas feridas curadas, com todas nossas histórias pensadas enterradas, e resolvidas.

Tem muita gente que finge não ligar, que brada aos quatro ventos que não é atingido pelos estilhaços dessas músicas, e sempre diz que é coisa de mulherzinha. Qualquer homem de verdade sabe viver seus lutos, sabe o que prefere negligenciar. Afinal, viver é escolher o que esquecer, diz o poeta Claufe Rodrigues. Por mais que sorria nos bares, invente histórias, diga que tenha enterrado ilusões e cante mulheres dizendo que tenho cicatrizes que me endureceram, sei que uma boa música de amor – e nunca disse que precisava ter dor de corno ou coisa parecida – sempre bate fundo até nos poços mais vazios.

Vez por outra esbarro em versos novos que muitas vezes nem chegam a tocar nas rádios como Hang, do Matchbox 20. Sou meio que um pára-raio desse tipo de canção que, por mais velha que seja (como O Meu Amor, de Chico Buarque), ainda consegue me trazer um gole cortante, assim quando sou pego – sozinho, distraído – desprevenido em casa no escuro com um uísque ou numa estrada da vida de madrugada. Eu, pelo menos, sou assim, culpa de um pai, que me punha para dormir ouvindo Charles Aznavour quando eu era moleque, sei lá.

Toda grande música de amor é uma porcaria. Não pela letra, ou pelos detalhes sórdidos que ela quase sempre traz. Toda grande canção de amor é uma porcaria, porque nos lembra que fomos muito melhores do que nos tornamos e isso não é nem sombra do que queríamos então ser.

quinta-feira, junho 17, 2010

Carambola

Por André Debevc

Sua cabeça encostada contra o vidro, ainda sonolenta e não necessariamente penteada denunciava ser o dia do rodízio dele na maior cidade do Brasil. Carro na garagem, estava no metrô a caminho de mais um dia de trabalho. Mais atrasado do que gostaria, mas também menos atento do que precisava estar. Nos fones de ouvido que faziam sua fronteira com o mundo externo, True Love Waits, do Radiohead, tocava numa versão acústica baixada da internet. Dá até pra ouvir o vocalista esbarrando no microfonel, ele gostava de comentar como se tivesse descoberto a pólvora. De tempos em tempos abria os olhos só para ter certeza de que não estava dormindo. Era um cara comum, desses com emprego, amigos, contas a pagar e uma vontade enorme de encontrar alguém pra tapar o buraco do seu coração, feito por uma namorada nem tão antiga que foi embora fazendo um estrago daqueles.

Uma das manias que tinha era ouvir no ipod surrado as músicas que gostava mais de uma vez antes de partir pra próxima. Mania de quem só precisava de mais uma chance, pensou um dia. Dane-se, antes do fim aperta o botão e volta pro início da música. True Love Waits. Será? Não né? Amor não espera nada. É só uma música. Era só um desejo. Olhou o relógio. Mas nem prestou atenção na hora.

Só abriu os olhos quando o vagão saiu de outra estação. Um cheiro acre-doce de carambola parecia ter embarcado. Era um cara mais apreciador de manga, mas era impossível para um sujeito com faro tão apurado ignorar o aquele cheiro de fruta em pleno vagão de metrô de São Paulo. Olhou em volta ainda tentando se decidir se estava confuso ou curioso com aquele aroma inesperado. Era como se a primavera tivesse entrado no seu vagão em plena manhã de outono. Acho até que esqueci de dizer que era outono. Agora disse.

Levou alguns momentos até perceber que aquele cheiro fresco e vivo vinha de uma nova passageira ali, em pé, duas pessoas à direita de onde ele estava sentado. Quando percebeu que a moça - de olhar levemente distraído, unhas pintadas de uma cor que quase não era cor e um pingente de crucifixo em ouro branco - tinha leves sardas na região do nariz, sorriu sozinho e lembrou de uma frase que não lembrava bem quem falou. Mas que dizia que um homem pode lembrar para o resto da vida de certas mulheres, mesmo que tenha as visto por apenas uns segundos, atravessando a rua. Era definitivamente um desses homens.

Quando acabou de dizer em silêncio essa frase para si mesmo, percebeu que estava sorrindo. Se deu conta de que estava educadamente mergulhando nas levíssimas e apaixonantes sardas da moça do cheiro de carambola e crucifixo de ouro branco, pensando, meu deus que mulher linda. E antes que ele pudesse pedir pra São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, um pouco de coragem para falar com a moça, ela sorriu de volta pra ele e depois desviou o rosto em câmera lenta.
Foi aí que percebeu, que depois de um longo e tenebroso inverno de pouco mais de dois anos, o seu coração pulava de novo. Sem que ele tivesse nem ao menos um nome, uma voz ou telefone para celebrar. Seu poder de se iludir estava de volta, com um cheiro de fruta e um sorriso despretencioso em pleno metrô paulista. Pensou até em descer do trem atrás dela só para perguntar seu nome e o por que daquele cheiro. Só percebeu que tinha chegado na estação dele, e não na dela, quando teve que sair correndo antes das portas se fecharem. Ainda deu tempo de trocar mais um sorriso com ela quando o trem ia embora. Nem todo milagre é completo, ele pensou. Mas essa mulher sem nome, mas com sardas e cheiro, ele não esquece nunca mais. Nunca mais.

sábado, maio 29, 2010

Eu sou assim

Por André Debevc

Se tentar mandar em mim, a única coisa que vai conseguir é que eu vá embora.

quarta-feira, maio 12, 2010

Somos

Por André Debevc


Eu não sou advogado. Não sou concursado nem tenho estabilidade e dois meses de férias por ano. Não sou herdeiro. Não tenho sobrenome famoso, não sou afilhado de rico e nem fui beneficiado por ter amigos em lugares estratégicos que garantissem a minha fortuna. Não sou galã, não aplico na bolsa, não falo sete línguas nem sou o feliz proprietário de um loft no Soho. Eu até me exercito, finjo que corro, mas não tenho fortunas aplicadas, livros publicados ou roteiros filmados. Não sou livre de todos os meus fantasmas. Não li todos os livros que queria, não visitei todos os lugares que preciso e nem faço sempre todas as perguntas que devo. Muitas vezes eu não tenho resposta, saída ou solução para qualquer dilema. Nenhum mesmo. Tenho sim alguns talentos específicos e talvez publicamente inúteis. Tenho mais quilos e menos reservas do que queria. Não tenho a altura e nem o todo o poder de persuasão que gostaria. Beijei mais mulheres desnecessárias e menos indispensáveis do que poderia. E tem dia que acordo sem a menor noção do que fazer depois. Eu sou um cara em construção. Com meus erros, acertos e decisões passadas. Eu sou um pouco diferente do que sempre pensei que fosse ser. Mas não somos todos?

sexta-feira, março 12, 2010

Melhor meio que todo

Por André Debevc

Ainda com os olhos cerrados e colados pelas lentes de contato secas, encarou o laranja do dia de primavera nascendo no horizonte à sua direita, onde em alguma época da sua vida vivia o East River. Ainda cheirando a feromônios e látex, pegava o rumo de casa depois de uma noite de muita saliva e pouco sono. Ajeitando a gola do casaco pensou calado, fitando o vento ainda frio da manhã de Gotham City (ou seria Metrópolis? não me lembro): melhor ter um lado canalha do que ser canalha por inteiro.

sábado, fevereiro 27, 2010

ah...as idéias...

Por André Debevc

Idéias são sempre sensacionais. O problema é que são totalmente inconsequentes.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Momento "Favorite Photo Meme"


















Fui convidado pela www.marialembrancinha.blogspot.com a participar do "Favorite Photo Meme", um movimento mundial onde blogueiros(as) de todo mundo expõe suas fotos preferidas pra que todos possam ver e saber o porque da escolha.

Sei que este é um espaço de crônicas e textos, mas dependendo da repercussão, pode aos pouquinhos, de vez em quando quem sabe, virar um cantinho de imagens que não foram feitas pra morar em gavetas, já que este que vos escreve é um nostálgico irremediável, desses dados a clicar momentos na tentativa de congelá-los no tempo.

Minha foto escolhida, do comecinho de tudo, antes de qualquer lembrancinha representa um quebra-cabeças, um enigma. Que tento desvendar todos os dias. A mulher sempre a ser decifrada, o amor (a amada) que tem seus lados certos e até, claro que tem, seus lados errados. O braço, as pernas, o vestido, a proximidade. A vida em vários pedaços que só existem juntos, vistos de muito perto, dia após dia.

Espero que gostem. E comentem!

A parte final, e não menos interessante desse movimento é que cada blog que publica sua foto preferida tem que convidar outros blogs a participarem.

Meus convidados:
- www.onomade.com
- www.tatibernardi.com.br

Beijos!

...quem escreve...

Por André Debevc

quem escreve tem mania de querer o que não pode, de espiar aquilo pra que não foi convidado, de escutar conversa de lado assim, de viver emprestado um pouco, de sonhar feito louco, de rimar o que não foi nunca nem conjugado. dizem que quem escreve é meio louco. mas que pra escrever, não pode viver amarrado.

Cuidado Fiado

Por André Debevc

eu
tô devendo
pra
tu, ele, nós, vós e eles.

desculpas tenhos muitas.
razões, um punhado.
e não é que falte carinho
ou que eu tenha me tornado
um descuidado.

o tempo
é que andando tem voado.
e dele tenho sentido falta
um enorme bocado.

eu me apego

Por André Debevc

eu me apego. às minhas coisas, aos conhecidos de vista que dão bom dia sorrindo, a camisetas velhas e puídas, a lembranças amareladas e inesquecidas, aos novos amigos, aos caminhos de todo dia, ao travesseiro da minha cama, ao cheiro que diz que tô em casa, à mulher que diz que me ama, a mandar beijo pros velhos amigos, aos costumes que são quase mania, a cantoria no meio da tarde, a necessidade de fazer elogios e dizer a verdade. não feito filhote de labrador chocolate que abana a cauda, mas eu me apego. aos carros que tive que vender, aos sonhos que tive que arquivar, aos beijos que puder dar, ao brilho nos olhos que não quero perder, a roupas nas quais não consigo mais entrar. sim, é verdade, eu me apego. à vontade de saber mais de alguém, de contar uma travessura, de dar risada, de andar descalço no meio da rua, de ter segredos com um só cúmplice, de ainda poder ser um pouco doidinho, a ter saudades de todos a quem tenho carinho, de ligar só pra dizer nada um pouquinho. eu me apego.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Constatação

Por André Debevc

A mulher da calcinha de algodão estava certa: depois dos 30 ninguém se apaixona. No máximo sente tesão.

quinta-feira, novembro 26, 2009

simplicidade canalha

Por André Debevc

Conhecidos mais íntimos o tinham como um tipo mulherengo. Ele preferia dizer que era um fiel não praticante.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Melhor com que sem

Por André Debevc

Existe um ditado antigo que diz que tem certas coisas são mais fáceis de não começar do que de terminar. Essa é uma daquelas verdades absolutas das quais talvez eu nem tenha capacidade física ou mental de discordar. Deve estar falando das melhores coisas da vida de alguém. Todo mundo tem uma história, um amor, um trabalho, uma paixão proibida que foi assim: certamente muito mais fácil de começar do que de terminar.

Tenho uma teoria que diversos finais da mesma coisa acabam mesmo virando reticências. Sem um olhar pra trás, nem de saudade. Sem um segundo em silêncio no esbarrão, desses quase inevitáveis que a vida sempre dá, numa recordação em algum fragmento daquilo que – depois de tanto tempo fica ainda mais fácil de ver - foi mesmo mais fácil de começar.

E às vezes, muitas vezes, tudo começa do jeito mais despretencioso possível. Até porque o não, como adora dizer um amigo meu, já vem de casa. E de repente você, que naquele dia saiu de casa um pouco mal arrumado até, com o cabelo esquisito, a barba pra lá de que por fazer, acaba tendo uma surpresa dessas que te faz sorrir, e até querer se parabenizar, quando cruza com o próprio olhar no espelho retrovisor no caminho de casa.

É como se simplesmente PUMBA, do nada você tivesse ganho o dia, a vida, um novo ânimo só porque fez o que não faz todos os dias. Só porque, pra variar, você venceu todos aqueles milhares de nãos que vive carregando no bolso desde aquela festa americana, em que você levou refrigerante e comeu skinny, querendo dançar com a menina mais bonita, mas simplesmente não teve nem a coragem de arriscar e de repente ganhar um sim.

Um dos meus velhos filmes favoritos, Sociedade dos Poetas Mortos, fala disso. Mostra essa alegria adolescente e contagiante de um simples sim. A vida nos cerca de nãos por todo lado. Com ao anos, vamos nos conformando, saindo de casa com cada vez mais nãos no bolso, esquecendo que sim, existem mesmo coisas que são mais fáceis de não começar do que de acabar. Mas que são essas coisas, às vezes tão difíceis de terminar, que nos fazem mais fortes. Que nos dão nossos sorrisos mais canalhas e cafajestes – no sentido mais inocente e moleque (talvez a palavra fosse mesmo moleque) que elas podem ter.

Então se aquele emprego, aquele amor, aquele esporte, aquela aula, aquela conversa, parece ser uma dessas coisas, muito mais fáceis de nem começar, recuse essa primeira impressão. Vá em frente. Que seja muito mais difícil de acabar, de esquecer, de não parar de lembrar, de ter saudade, de te fazer sorrir sozinho – só com os olhos, que seja – que acabe sendo muito mais complicado de seguir em frente sem olhar pra trás. Aquilo que é mais difícil de terminar sempre é aquilo sem a qual a sua vida não podia ter acontecido, sido e vivido sem.

quinta-feira, outubro 22, 2009

O Pequeno Resumo

Aproveito a inauguração, na Oca do Ibirapuera (em São Paulo até dia 20 de dezembro) da belíssima Exposição baseada no livro favorito de 10 entre 10 candidatas à Miss, pra trazer uma frase absolutamente pertinente sobre o amor.

"Amar não é olhar um pro outro. É olharem os dois na mesma direção"
Antoine Saint-Exupéry (autor de "O Pequeno Príncipe)

Boa semana pra vocês.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Sonhos Perdidos

Por André Debevc
Ando precisando me lembrar mais dos meus sonhos. Daquilo que eu queria quando era criança, de tudo que pensei e queria estar vivendo a essa altura desse campeonato disputadíssimo que é estar vivo. Será que eu queria ter um labrador chocolate? Ser escritor? Ser astronauta? Ou será que eu só pensava mesmo em ter uma Ferrari vermelha tipo a do Magnum? A essa altura será que já era pra ter filhos? Morar numa casa com piscina? Mas mais importante que isso...em todas as minhas mudanças de país, de cidade, de casa, de emprego e até de namorada...onde foi que foram parar meus sonhos? Estarão naquela pasta azul-claro junto com a minha certidão de nascimento original? Será que ficaram na casa da minha mãe junto com aquela caixa com fotos das minhas viagens, amigos e histórias do passado? Onde andam meus sonhos? Perdidos numa peça de bagagem que, sem que eu percebesse, extraviou? Ou teriam sido rasgados por engano juntos com uma correspondência me oferecendo mil vantagens num cartão de crédito que nunca fiz? Não sei. O pior é que não faço a menor idéia. O moleque de franja e cabelos castanhos lisos, que fui um dia, me olharia decepcionado se me encontrasse agora. Não sei onde estão meus velhos sonhos, mas não me esqueci de você, garoto. Eu vou achar tudo que me movia, prometo. Vou achar tudo aquilo que você (eu) queria que eu fosse. Vou viver tudo aquilo que a gente queria pra nós. Não posso decepcionar você. Você, hoje e sempre, é tudo que tenho. É a você a quem devo satisfações. Olhando a velha foto em preto-e-branco eu me lembro disso. Olhando a velha foto, eu não sei nem como faço pra pedir desculpas, por ter perdido tudo aquilo que você, moleque feliz e sorridente que era a alegria da casa, sonhava. Mas eu prometo que vou fazer você orgulhoso de mim. Prometo e vou cumprir. Sei que você não espera, e não vai aceitar, nada menos que isso.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Mais um canal

Caros leitores...

caso vocês tenham interesse, também estou no twitter. Espero vocês lá.

www.twitter.com/guardanapkins

Segredos

Por André Debevc

Muitas são as coisas ameaçam, ou garantem, a longevidade de um casamento. Começando pela mulher e o marido.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Dificuldade (em até 150 caracteres)

Por André Debevc

Tenho que ter muito sangue frio pra resistir à sua pele branca quente e um Shiraz à temperatura ambiente. Na contagem até dez é difícil chegar a três.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Viuvez ressentida

Por André Debevc

Sou um viúvo do falso ressentimento.
Todos meus amores mortos,
aniquilados sem remorso nem lamento
desfilam pelo asfalto cínico
que escorre quieto.

quarta-feira, julho 29, 2009

Marketing Certeiro

Por André Debevc

Que faço para fidelizar você ao meu beijo?
Que estratégias de marketing garantem
que você troque para me consumir
e seja atendida nos seus desejos mais primários e urgentes?
Devo entrar em promoção para te conseguir por mais um tempo?
Posso agregar valor à premissa básica de ser melhor em quase tudo?
Será que minha fórmula lava seus sonhos mais brancos?
E minha boca? Deixa seu hálito fresco por mais tempo?
Meu cheiro consegue não sair da sua cabeça na primeira lavagem?
Que mais coisas temos em comum para fazer você voltar sempre?
Até onde consigo te desviar do caminho para sentir meus outdoors?

Preciso conquistar uma consumidora exigente
que nem desconfia das vantagens que vai conseguir
no meu complexo programa de milhagem e recompensas.

quarta-feira, julho 22, 2009

Constatação

Por André Debevc

Quando um ciclo se encerra,
a primeira reação (natural)
é olhar para trás e visitá-lo, do início ao fim,
ficando com ainda mais saudade
do que não volta mais.

Nunca mais.

Cegueira Seletiva

Por André Debevc

preciso escrever para dizer que essa noite é inútil,
pra dizer que a lua não some
nem pisca fingindo que me vê no trânsito
a caminho de casa.
acre doce beijo perfeito,
a névoa soluça a madrugada pouco londrina
e nada ocupa a cegueira de só sentir o seu cheiro.

terça-feira, julho 21, 2009

Pressa sempre

Por André Debevc

Ela diz que tenho pressa em levá-la pra cama.
Vive reclamando que minhas mãos voam
descolando tecidos, elásticos e zíperes inconvenientes.
Mal sabe ela o que digo quando estou a ranger os dentes.
Tenho uma prece silenciosa
para que possamos resolver tudo isso do meu jeito,
essa missão interminável de macho predador,
que é a coleta de presas falsamente relutantes,
entorpecidas até o talo por orgásmos inebriantes
paridos nas pontas dos dedos e língua.
Talvez ela seja assim só mais um troféu na estante,
talvez eu lembre, silenciosamente, dela na roda de cúmplices
como aquela que vivia reclamando do meu jeito.
Ela sabe como venero um bom peito,
mas os eláticos de sua calcinha
não tinham que marcar a alma tanto assim.

sexta-feira, julho 17, 2009

Coração em paz

Por André Debevc

Quero sua boca rosa
saindo em camera lenta na penumbra
de um beijo de batom apagado,
quero o seu cheiro reconhecido até no caminho bêbado de casa.
Quero o rosa da sua boca questionando minha língua,
aceitando minhas mãos decididas
às vezes queitas e ancoradas à sua cintura.
Quero pôr-do-sol,
sorvete e japonês,
flores quase sempre talvez,
e a sensação de realização que há tanto me abandonou.
Quero ser meta, quero ser seta,
quero sempre uma boca semi-aberta
que intui mais que um beijo,
que instiga desejo e replays
e sorri feliz por saber um coração em paz.

quinta-feira, julho 16, 2009

fino trato

Por André Debevc

Que mel é esse que brota em minha boca
e faz feitiços com as moças que dele provam?
Sei lá eu que doce viciante
rescende em meus lábios e língua solta.
Entorpecente de fino trato,
não sujeito à fiscalização federal,
corra pelas esquinas em boatos
para que minhas conquistas
sejam simples lendas
tais como inesquecíveis atos.

(sem título)

Por André Debevc

Sua indecisão pontuava sua resistência,
indecisão medrosa de uma cumplicidade branda.
E vai, me beija logo,
antes que sua boca consiga fingir arquivar o desejo
que te move agora.
Me lê, me beija, deixa ser
pois agora sou simples demais, um impulso primário
que adora te dominar.

quinta-feira, julho 09, 2009

Apelos milenares

Por André Debevc

Agora,
vamos às ilusões coletivas,
às momentâneas faltas de caráter,
ao mergulho da saudade precoce.
Vamos aos braços das lágrimas doces,
nos rendamos ao apelo mais milenar de nossos instintos animais.
Falesmo de palavras que calam e de gestos que consentem.
Suspendamos, assim nesse ar onírico,
as mais maliciosas ilusões
no piscar mais vacilativo do segundo de cansaço.
Paremos de beber antes mesmo de começar,
renunciemos agressões gratuitas
e guardemos para nós alguma conclusão inútil.
Já é tempo de morder o mundo com esses caninos afiados,
já é hora de passar-lhe a língua no lábio superior.
Os dias não vêm pré-fabricados
e ninguém sabe sua cota de alegrias nem de dor.

terça-feira, julho 07, 2009

Jantar pra quê?

Por André Debevc

Com o buraco imenso que tinha no peito, a fome se acovadou e sumiu. Vai ver a comida sabia que nunca chegaria no estômago.

segunda-feira, julho 06, 2009

Dúvida constante

Por André Debevc

Quando te beijo de novo?
Faz tempo que meus sentidos
não concebem o seu gosto,
e muito a contra-gosto acabo brincando comigo mesmo,
invento desculpas sem sentido nem rima
sem ficar paralisado e atento
algenado pelos seus olhos acinzentados.
Então na escalada das horas vasculho perfumes,
me embriago em saliva, mas nada me salva...

Noites insossas
não rendem lábios sempre doces,
e a cumplicidade de nossas bocas
até finge...
mas não aparece em qualquer esquina.

sexta-feira, julho 03, 2009

resolução escrita

Por André Debevc

Sua nuca é a mais bonita que já vi,
embora isso não conte muito a seu favor
se eu não souber o seu nome.
Algumas coisa só sei resolver escrevendo,
já que minha boca quer saber a sua em braile
e deixar tudo mais
virar uma boa história para a gente contar.

Regime de cotas

Por André Debevc

Vou aumentar minha cota de deslizes.
Ando muito inocente ultimamente
e quase esqueci aquele meu sorriso safado.
Não quero é deixar de lado
minha poesia pouco contundente.
Até acho graça nas minhas cicatrizes,
e preciso de histórias para encompridar.

Descoberta Solo

Por André Debevc

Nem só de palavras bonitas
e slogans incríveis vive a minha boca.

Além de meus dentes afiados
trago uma língua de seda parecendo tecido molhado
que se estica até a ponta do meu nariz.

Desejado objeto,
quase sempre agindo, quase nunca quieto,
minha boca esconde delírios além de segredos e mentiras.

Para você, tenho uns beijos esboçados
com gosto apurado, que garante replay.
Mas até aí, nem eu sei,
já que sua boca ignora cobiçada ação
restrita às moças que me encantam
e tentam de toda maneira se infiltrar em meu coração.

Nem só de palavras bonitas vive a minha boca.
Mas isso você pode descobrir sozinha.

quinta-feira, julho 02, 2009

diagnóstico

Por André Debevc

Premeditação e inconsequência andam juntas. Ninguém nunca teve um sorriso safado e sem mostrar os dentes no rosto, sem mil idéias deliciosas na cabeça.

quarta-feira, julho 01, 2009

dia de inferno

Por André Debevc

uma angústia gigante me estacionou latente num pedaço que vai, da garganta até quase a parte debaixo do coração. e num abrir de olhos, como tantos outros - num dia final de inferno - foi como se todos os beijos eternamente adiados, todos os empregos e peitos nunca tidos, todas as viagens e promessas nunca feitas, absolutamente toda a liberdade e as ilusões nati-mortas resolvessem ficar engarrafadas em mim, baixando a luz da minha alma por mais tempo que qualquer outra tristeza sem cúmplice. em dias assim, de ponteiros lentos e piadas órfãs de sorrisos, tudo que eu queria é poder correr, correr, correr. até me encontrar, cheio de planos e soluções, e com aquele sorriso de alma tão profundo que me faz até ter buracos felizes no rosto. hoje acho que não vai dar...

quase quatro

Por André Debevc

descobria as coxas dela com as costas do indicador mais esperto. depois de quase 4cm de penugem arrepiada, não sabiam nem mesmo seus próprios nomes.

quinta-feira, junho 25, 2009

Chuva de quinta

Por André Debevc

a massa polar que chegou lá do sul
me faz querer atracar felino e letárgico no sofá,
a chuva caindo burocrática e constante lá fora,
e dentro de casa só a luz azul da tv no jogo do Brasil
desenhando sombras cúmplices nas paredes.

cenário perfeito, granulado em preto-e-branco,
para ter uma gata branca preguiçosa e fotofóbica no colo,
ronronando com um quase sorriso nos lábios
todo o calorzinho cheiroso que ela guarda para dias assim.

na mesa de centro, a coca-cola perdendo o gás,
sem pressa, enquanto na casa toda só o copo sua
e as almas se enroscam querendo que não exista amanhã.

segunda-feira, junho 15, 2009

na folha em branco

Por Andre Debevc

brinque com a folha em branco com carinho.
nela cabem mil aventuras.

ali, cercada de nada por todos os lados,
você pode ser quem quiser,
fazer de tudo um muito,
até mesmo aquilo que nunca teve nem coragem
de falar alto, assim aos quarto ventos.

você pode beijar e ser beijada,
pode despir ou já estar despida,
pode qualquer coisa, ter um segredo ou
até mesmo ser lambida,
num curioso banho de gata bípede.

…da folha em branco, ninguém escapa, todos ali podem ser mil histórias….

então escreva a sua, vale tudo.
desenho, verso, interjeição e,
depois do espásmo,
o palavrão.
…ah sim, e espere encontrar sorrisos também.
nem que seja assim, sorrindo só com os olhos,
as coxas mornas se apertando de ansiedade.

mas não esqueça, quando guardar a folha em branco,
que seja com um beijo longo do lado mais quente do peito.
juntinho da pele, que é pra toda aventura que tiver guardada ali
ficar paradinha, imobilizada pelo seu cheiro.

quarta-feira, maio 06, 2009

Revendo uma velha amada

Por André Debevc

Peço desculpas pela ausência, a culpa não é de uma emergência nem nada. É que tive que cumprir um compromisso dos mais penosos: a dura e árdua tarefa de visitar uma velha amada. O peito acelerado no avião e a tensão paquidérmica, quase obrigatória, daquela ansiedade espessa de rever um amor de tantas histórias e risadas.
Tivemos nossos altos e baixos, confesso (e amigos não me deixam mentir). Mas agora, depois de tanto tempo, penso que o fim não precisava ter sido como foi. Eu não precisava ter ido embora daquele jeito. A mala, cuia e alma pagando excesso de bagagem num aeroporto de segunda categoria. Como se tivesse fugindo de alguma coisa, fingindo pra mim mesmo que não estava fugindo dela. Eu mal me despedi. Cretino. Nem um derradeiro beijo de adeus, nem um afago prometendo guardá-la no meu peito pra sempre.
Restaram fotos, lembranças, cheiros e sons que não esquecerei nem em mil encarnações, talvez ela goste de saber disso, sei lá. Mas também sobraram silêncios e notícias eternamente incompletas de como ela andava. Ouvi de tudo, e não soube exatamente de nada. Mas pra mim sempre vai ficar a imagem da minha velha amada, no auge da sua forma. Sem as marcas inapagáveis do tempo e de relações erradas. Toda em pézinha, como ninguém nunca mais verá. Tínhamos uma intimidade de noites a sós invejada por amigos e conhecidos que nos viram juntos.
Indo ao seu encontro, devo admitir que foi um erro não vê-la por tanto tempo. A gente tinha uma história, tinha uma coisa especial um pelo outro, eu sei. Só de vê-la se aproximando, com aquele jeito dela de achar que é única, já fico eufórico. Preciso me conter. Se eu suasse nas mãos, encharcaria meu passaporte agora. Desse jeito vou acabar me entregando. Manhattan, te amo.

Em São Paulo (I)

Por André Debevc

Ando tranquilo. Sem lugares de onde preciso fugir, sem mulheres onde preciso chegar. O peito devidamente ocupado e uma casa com o cheiro dela, que amo, pra onde eu posso voltar todos os dias. Até de carro troquei, pra poder levar a vida mais devagar, enquanto os finais de tarde bonitos de outono voltam silenciosos aos céus polarizados de São Paulo. Da cobertura do casarão, onde troco meus dias e pensamentos por dinheiro, vejo o sol fugindo pra de trás de Osasco enquanto a lua sorri, desembarcando em Congonhas e atravessando Moema. Na vida, só mesmo o trabalho anda insano, num engarrafamento de projetos, fundindo idéias, atropelando madrugadas na frente do powerpoint. Mas é São Paulo, o que mais eu podia esperar? Fora o trânsito e a falta de praia, confesso que gosto daqui. Não é sempre assim não. É só porque por quase a metade do milésimo dia seguido, acordei tranquilo.

sexta-feira, março 20, 2009

A eternidade começa aos nove minutos

Por André Debevc

Aproximadamente nove minutos depois de fechar os olhos, ela dá um suspiro alto e profundo, mergulhando fundo no sono da noite onde ela se aninha. Dormindo, ela não sabe disso. Nem disso, nem do quanto tempo passo imóvel, com um leve sorriso pendurado no rosto, praticando o meu adorado esporte de vê-la dormir, enquanto nossos futuros avançam de mãos dadas pra cada vez mais longe. Passo a mão no seu cabelo - tantas noites ainda molhado do banho - e sinto sua pele cada vez mais quente enquanto toda a energia inqueita que ela é repousa sem abrir a boca. Por causa dela, faz tempo que não preciso lembrar de nada velho para aquecer meu peito. Faço mil musiquinhas e jingles só nossos, pra animar a nossa vida e rotina corrida. Por causa dessa moça, com três tatuagens e unhas pintadas de vermelho, vejo crianças na rua e fico pensando em como serão os nossos filhos. Se terão os pés com tons de cor-de-rosa, ou quase fecharão os olhos quando gargalharem sem fazer barulho. Se darão esse suspiro adoravelmente fundo minutos depois de dormir, ou se me trarão desenhos e invenções criativos, feitos de coisas que sempre tivemos em casa. Agora já tem 12 minutos que ela fechou os olhos e dormiu. O segundo suspiro fundo – mais raso que o anterior, é verdade – vem aí. E esse eu também não posso perder. Até logo.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Conversa com sentido

Por André Debevc

- Me promete uma coisa, Shirley?
- Que foi, Flecha?
- Promete?
- Prometo, Flecha, o que foi?
- Promete que nunca vai me esquecer?
(silêncio)
- Mas que conversa sem sentido é essa agora, meu amor? A gente vai ficar junto pra sempre...
- Não, Shirley. Já ouvi que ia ser pra sempre e o pra sempre acabou. Foi pro saco. Só me promete que, haja o que houver, mesmo que a vida nos separe e você vá pra uma outra dimensão, que você vai sempre lembrar de mim. Que mesmo que a gente nunca mais se veja, vai ter sempre um cantinho no seu peito pro que vivemos...
- Ai, Flecha...que conversa mais triste...pára...a gente nunca vai se separar...
- Pára não, Shirley. Promete, vai.
- Juro, Flecha. Juro.
- Não jura não. Promete. Prefiro.
- Tá bom, prometo. Mas vem cá pra eu te dar um beijo, vem.
(smack)
- Agora me dá uma coçadinha aqui, Flecha?
- Aqui aonde, Shirley? Na virilha?
- Isso, Flecha. Aí. Vou te amar pra sempre!
- Não promete o que você não pode cumprir, Shirley...não promete o que você não pode cumprir.
- Ai...você é foda, sabia? Às vezes me desanima!
- Por que? Pode acontecer, Shirley, pode acontecer...
- Se você continuar com esse papo, vai acontecer MESMO!
- Não disse, Shirley? Eu não disse?

(os nomes dos personagens são sim uma homenagem aos personagens de Luís Fernando Veríssimo - um dos meus grandes heróis da literatura)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Granulado em Preto-e-Branco

Por André Debevc

Posava toda sua naturalidade mansa com sossego felino, abrigada e preguiçosa, numa tarde de chuva sem relógio ou celular por tocar. Quase nua, sorvia o silêncio e esculpia movimentos quase em camera lenta (com trilha sonora claro), com a tranquilidade de quem vive um segredo. Abria sua intimidade pra ele como quem folheia, sem cerimônia nem pressa uma revista antiga, em sala de espera. Insinuações sempre são melhores que o escracho, dizia jogando dissimulada. E assim, fingindo não sentir lá no fundo nem um pouquinho de tesão, ia doando o que ninguém nunca poderia colecionar ou reunir: os melhores de seus fragmentos.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

depois de todo aquele silêncio

Por André Debevc

...e se alguma coisa tiver quebrado?

...e se for uma daquelas coisas que não tem conserto?

...e se for uma dessas coisas sem volta?

Uma pessoa só é realmente importante na sua vida
quando o que ela pensa, ou deixa de pensar,
faz toda a diferença para você.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Resolução Zero

Por André Debevc

Reveillon passado eu não fiz uma promessa de ano novo. Dez, nove, oito, sete...e nada. Nenhuma mísera resolução quase heróica pra seguir por 365 dias quando o dia raiou azulzinho lá num cafundó escondido do sul da Bahia. Não prometi parar de fumar porque não fumo. Não prometi parar de beber porque não minto. Não prometi ficar menos careca porque não posso. E sinceramente acho que entro o ano melhor assim. Livre, leve e solto, correndo e sorridente como mulher menstruada em comercial de absorvente interno. Um ser que pode tudo. Quer dizer, quase tudo porque infelizmente, ficar no paraíso (pois é gente, descobri onde fica) não era possível. Sem internet, sem hora, e em breve sem repelente. Até pensei em prometer voltar lá, mas aí lembrei: melhor mesmo é não ter que prometer nada, e ainda assim poder sair com o sorriso mais safado que tenho estampado bem aqui no rosto.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Nada

Por André Debevc

Das coisas que você me deu, acho que não tenho mais nada.
Tudo que sobrou é buraco do que você levou embora.

segunda-feira, novembro 24, 2008

finitude

Por André Debevc

às vezes só é preciso um farol de relance na contramão
ou uma palavra escapando de manhã em alto tom e velocidade,
pra lembrar que nós
também podemos
não ter nada de eternos.

segunda-feira, novembro 17, 2008

No box (ele)

Por André Debevc

Sentado no chão do seu box blindex há mais de vinte minutos, ele pensava numa frase de Balzac enquanto a água quente descia quase sem pressão do chuveiro chinfrin comprado na lojinha da vizinhança. A sorte de uma relação amorosa depende da primeira noite, dizia o velho romancista.

Com a água escorrendo as suas costas e nenhuma preocupação com o tempo, ele pensava em toda a verdade da frase enquanto pensava na sua nova aspiração amorosa. Imaginava na verdade, já que a exatidão das curvas, do tom de rosa e raio exato das auréolas dos, provavelmente, empinados peitos de seu objeto de desejo eram até ali apenas suposição de sua mente fantasiosa e um tanto indecisa.

Macaco velho de guerra nas noites, bagagem não lhe faltava para saber que nenhuma primeira noite acontece em flashes sépia ou closes elegantes em câmera lenta. Lances com imagem granulada, só em dias seguintes. E mesmo assim, dependendo do álcool.

Era um desses raros sujeitos realmente atentos ao detalhe. Sem vulgaridades ou babaquices de pornografia desnecessária. Desses caras que lembra de besteiras ditas sem qualquer intenção – todo mundo conhece um, né? Do tipo que mapeia corpos e idolatra fragmentos e temperaturas que fazem de cada mulher uma criatura completamente diferente da outra.

Gosta de mulher de verdade. E é cético em relação à mulheres de capa de revista, todas refeitas com Photoshop, segundo ele. Imperfeições e detalhes são o que realmente o movem. Não pode ver uma mulher com uma leve cicatriz no rosto. Charme pessoal e intransferível, gosta de dizer. Sabe que a gravidade e celulites acontecem - fazer o quê, né? – e só acha mesmo que começa a pensar numa moça quando ela provoca nele aquela indefinível vontade de colocá-la na boca. Só não aprova sutiã com enchimento. Porque isso é propaganda enganosa.

E foi visitando imaginariamente, e sem nenhuma pressa, cada milímetro do corpo, sinal de nascença e cicatrizes do objeto de sua atenção, que ele ficou. De olhos fechados, sentia cada gota morna que viajava do chuveiro até seu corpo. Tudo tem seu tempo, pensava.

O melhor jeito de decorar o cheiro de sua nuca. A descoberta do calor de suas coxas. O último olhar dela antes dele lhe tirar a calcinha. A primeira vez em que a visse nua, ansiosa, com todo pêlo da alma em guarda, arqueado, esperando o bote. Tudo tem seu tempo. Tudo.

Amores, desilusões, sonhos e promessas feitas ao pé do ouvido. Tudo tem seu tempo. Como a água que escorre pro mar, partindo ali dos seus pés junto ao ralo. E pra ele, que não gosta lá muito de esperar, este tempo só pode ser agora.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Plano de Fuga

Por André Debevc

A curva do seu peito que meio sem jeito finge que não quer pular na minha boca, escapa ali pelo seu decote tímido liquidando toda atenção que eu podia ter por qualquer outra coisa. Engulo dissimulação seca desviando os olhos pra você poder passar horas brincando de musa sem nunca precisar publicamente perceber minhas retinas e ajeitar a blusa, tirando minha visão abençoada do seu peito direito. Conto penugens, cumprimento um a um os poros, encontro pintas, investigo o relevo, imagino textura e crio cheiro. Tudo sem que, infelizmente, você tenha a alegria de ver meu sorriso mais safado e faceiro (daqueles que guardo só pra ocasiões especiais e moças mais ainda). Hoje moça, vou lembrar da curva do seu peito quando deitar no travesseiro. Mas aí, vou saborear seus seios por inteiro. E sentirei temperatura, bicos e auréolas sem pressa nem desnecessário sutiã trapaceiro. Mas até la, vou derrapar na reveladora linha curva do seu decote, rezando a cada minuto pro seu peito dar um pinote e vir parar sorrindo na minha boca.

exatamente

Por André Debevc

com o jeito mais despreocupado do mundo
ela leva o umbigo para passear
arrastando olhares silenciosos pelo salão.
sem fazer qualquer esforço
coleciona almas debruçadas, inertes e sem palavras,
rendidas pelo seu ar de menina e sorriso de leite.
doce, traz o resto de sua voz suave para voar pela sala
feito gaivota no fim da tarde de um verão carioca.
a moça que delicadamente anda em estrelas,
não é fã de camelo nem amante de amarante,
acaricia o tempo com dedos de esmalte esquecido
encantando feito as mulheres de Chico,
enquanto o vento em algum canto assovia seu apelido.
ela que brinca de ainda não ter decidido
se quer ser menina apaixonante ou uma cativante mulher,
mas que com certeza já sabe
que quer ser diferente de todas as outras.
e isso é o melhor que alguém pode querer ser.
exatamente o que ela é.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Inspiração

Por André Debevc

ando me especializando em decorar seus sorrisos
de tanto de fazer gargalhar
com alguns de meus improvisos indecisos
faço de tudo um pouco querendo causar às vezes até falta de ar.
mas é só você ir lá longe um pouquinho
que toda minha graça dá um sumiço,
desses longos e quietos por não ter pra quem se engraçar.
que seu calor é do que mais preciso para simplesmente me inspirar.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Foi pouco

Por André Debevc

Outro dia eu a vi atravessando a rua, passando na praça da minha infância, com seu ar primaveril de quem anda sempre com uma leve brisa dançando à sua volta: a mulher com quem (ou seria contra quem?) cometi a maior obra de canalhice de toda minha existência.

Pois é, eu não sabia exatamente quanto, mas descobri que eu também sei ser canalha. E dos bons. Com as pessoas erradas principalmente. Como é típico dos bons moços, aliás. Diria até que quanto mais bom moço o moço, maior a sua capacidade de cometer um grande gesto de canalhice. Destes de causar estranheza até na roda de chope de amigos nada santos.

Enfim, vi de longe a mulher que sei que atravessaria a rua para o outro lado se me visse ali naquela calçada (e todo homem que passou dos trinta tem pelo menos uma). A vi e não fiz nada. Nem um pedido de desculpas, nem um esboço de explicação. Nada. Até porque tudo aquilo, naquela noite, naquela festa em que eu estava com outra mulher (com quem saí apenas algumas vezes), foi um acidente. Mas ela não entenderia. Ela não deixaria eu me explicar se tentasse. Sei que existem horas em que ainda não adianta tentar falar com uma mulher. Esta era uma dessas horas.

Confesso que também não sei como iria começar a explicar porque acabamos, eu e ela (a mulher que vi na rua) aos beijos num corredor escuro, enquanto a mulher que entrou na festa comigo dançava a metros dali. Eu JURO que achei que ela tivesse percebido que eu não estava sozinho, e que mesmo assim estava topando toda aquela loucura. Mas não sei o que se passava na minha cabeça e nem mesmo onde eu tinha esquecido a minha noção de perigo. Não sei.

Sei que sempre a desejei e nunca esperava encontrar com ela ali. Nunca. Logo no dia em que resolvi ir acompanhado por pura e simples falta de paciência de flertar. Eu andava cansado daquele jogo todo, de saídas, bebidas e flertes. De verdade. Mas quando a vi, pirei completamente. Perdi a noção de estar momentaneamente acompanhado. Esqueci qualquer polidez e convenção social enquanto minha solteirice, ali não exatamente completa, martelava meu cérebro com ordens imediatas de ataque. E o pior, sem nem pensar em colocar a pobre incauta que sacodia o esqueleto na pista de dança num taxi rumo a qualquer lugar longe dali.

Quando dei por mim estávamos no corredor escuro, eu e a moça que há anos despertava em mim muito mais que interesse. Em beijos espetaculares, de uma sincronicidade e cumplicidade poucos antes vistos. Na hora de voltar à festa, deixei-a ir sozinha na frente. Ao entrar no banheiro, dei de cara com a minha cara de canalha no espelho. Um sorriso largo e cretino no rosto que só a lembrança da outra, esquecida ao som de alguma música insuportável na pista de dança conseguiu quebrar.

Joguei água no rosto, ainda sem acreditar no que tinha acabado de fazer, e fiz a única coisa que me restava fazer: fui resgatar a mulher que tinha chegado na festa comigo para irmos embora e acabarmos de vez com aquilo. Foi quando a pequena Ana (será que eu mencionei que o nome dela era Ana? Será que eu mencionei que ela era pequena?) viu que eu não estava desacompanhado. Seus olhos se injetaram de ódio e eu que pensava que tinha uma cúmplice (juro que pensei que ela sabia que eu não estava só) vi que tinha acabado de ganhar uma fã pelo contrário.

Foi quando ela atravessou a sala como uma bala e disse para que eu nunca ligasse para ela. E nunca mais a vi até este dia, na rua.

Amigas (tô falando de mulheres mesmo, não foi um erro de digitação) que depois ficaram sabendo do acontecido me recriminaram com um estranho tapinha quase cúmplice nas costas. “Você precisava de uma coisa assim na sua vida”, disse uma delas. Outra falou que sabia lá no fundo que eu não era bonzinho, e que eu tinha potencial. Só não precisava ter errado com ela, a doce e pequena Ana. A Ana que agora me odeia. Ana que não quer me ver nem pintado de ouro nem nas próximas encarnações.

Se pedir desculpa adiantasse alguma coisa, eu pediria. Nem que pra isso precisasse levar um bom tapa na cara. Mas cá pra nós, um canalha assim merece muito mais.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A conta do recado

Por André Debevc

Ela era uma dessas mulheres com marca suave de biquini na alma, dourando ao sol de uma Ipanema da vida, escondendo os olhos castanhos e um ensaio do que seriam sardas atrás de um óculos grande, desses que anda na moda agora. Toda vez que ela deixava o carro, ele – um cara comum, repleto de vícios inofensivos e amigos antigos - como que numa reação automática passava a mão direita carinhosamente pelo banco do carona, querendo ainda sentir ali o calor dela.

Dizer que ele quase cheirava o banco de carro seria exagero, tudo bem, mas quase. A idéia de que todo o calor do objeto de desejo dele tinha estado ali há segundos – e ele não tinha feito nada - o deixava louco. Prestes a se declarar. A dizer que tava apaixonado, que tava amando, entre outras besteiras que todo homem já tentou usar pra levar alguém pra cama. Quanto mais quentinho o banco do carro, mais à beira de se declarar pra ela ficava. Mas declarar o que?

Ele sabia que não tinha nada na manga. Só um pouco de canalhice, uns sorrisos safados e muitas intenções bem objetivas e práticas. Nuas e cruas, diria. Mais pra nuas, claro. Ele só queria umas tardes, noites ou madrugadas sem pressa pra colocar moça na boca feito manga. E ficar ali, com aquela mulher na ponta da língua e alguns outros lugares. Até ela se desfazer mil vezes em suor e gozo, e arrumar um lugar pra ele na galeria de trepadas inesquecíveis dela. Lugar eterno, e de preferência com direito a visitas futuras sem necessidade prévia de agendamento ou joguinhos bestas. Mas como fazer isso? Perguntar diretamente era só garantia de um tapa na cara. Ela era bonita, mas não ordinária...

Como eu vinha dizendo, ele não tinha nada na manga. E ela – bonita e cobiçada – não tava muito aí pra ele não. Até o dia em que ele, distraído, esqueceu de elogiar uma mudança no cabelo dela que todo o resto do universo notou e fez questão de elogiar. Foi o suficiente pra que ela olhasse pra ele com outros olhos. Como se de repente tivesse nascido ali outro homem a ser conquistado. Certamente mais um na sua coleção de presas.

E bastou essa pequena desatenção para que algumas caronas depois, estivessem trocando beijos e amassos em frente à portaria dela. Na primeira vez que colocou as mãos entre as pernas dela, espemidas num jeans importado, ele quase explodiu de alegria e precocidade. Era muito mais quente que o banco do carro. Era muito mais quente do que ele esperava que fosse. Ela era muito mais quente do que ele esperava. A pele, a nuca, os peitos, a virilha, tudo. E como era linda.

Na penumbra então, nem se fala. A falta de luz a fazia ficar ainda mais linda - isso ele descobriu no dia em que subiu na casa dela – o peitinho um pouco menor do que ele queria que fosse (enganando a todos num desses sutiãs propaganda enganosa), a bundinha um pouco mais desafiada pela gravidade do que ele imaginava. Enfim, imperfeições que a faziam ainda mais irresistível. A moça que deixava o banco do carro quente. E ela esta a ali, a segundos de ser consumada por ele.

Taças de vinho e um início de dvd (Vanilla Sky, que ele sempre gostou mas viu mil vezes) depois, transaram, treparam e alguns outros sinônimos para todo esse lance de beijar, passar a mão, ficar pelado, beijar mais, lamber, chupar, quase fazer merda, achar a camisinha, lamber mais, colocar a camisinha e voltar a beijar pra poder gozar (com e sem trocadilho) da liberdade de ir e vir, conforme está previsto na constituição. Ufa....e olha...ela é bonita, viu?

Olhando com um sorriso sem dentes para ele mesmo no espelho do elevador do prédio bacana onde ela morava, foi essa a conclusão a que ele chegou. Moça bonita. Virilha quente. Peitinho lindinho e sem biquinho evidente, mas realmente menor do que o ideal. E aquele corriqueiro defeito que mulheres bonitas demais costumam ter: era esforçada. Tinha uns talentos, é verdade, mas estava longe de ser boa naquilo. Esforçada.

O quão boa ou ruim? Digamos que boa o suficiente para ele não ligar no dia seguinte. Mas nada que o fizesse evitar atender quando ela aparecia numa noite de semana no visor do seu celular. "- Oi lindo!" Lindo não, mas que dá sempre conta do recado.

As batatas

Por André Debevc

Acordou ainda sem saber muito bem onde estava, coisa comum nos últimos anos da sua vida. Um resto de shampoo e fumaça na cabeça recostada no seu ombro dormente não deixava dúvida: mais uma vez tinha acabado nua e bêbaba na casa de uma amiga que se divertia levando desconhecidos – quase sempre sem camisinha na carteira - para casa para brincar à três na madrugada.

A boca macia no seu peito, ainda exalando álcool e cigarro barato já até parecia ser coisa antiga e normal, mas a sensação de que toda aquela noite descolada demais não era verdadeiramente pra ela ainda soava seca e forte em manhãs assim, onde flashes de um estranho – quase sempre um pouco agressivo demais - querendo colocá-la de quatro, com a boca entre as pernas da amiga eram mais reais do que nos seus sonhos, sonhados de boca aberta.

Talvez no fundo fosse mesmo apenas uma menina sozinha, de poucos amigos sinceros, a quem nunca tivesse sido dado ou cobrado muito limite.
Desde adolescente se metia em pequenas enrascadas, como quando contraiu uma doença venérea numa noite onde mentiu para a mãe e até pegou carona na moto de um garoto sem carteira e sem nome. Aventuras doidas, segundo ela, que contava os fatos – um pouco amenizados para não chocar demais, claro - aos pais e namorados como se tivessem sido vividas por uma amiga, daquelas que você, eu e todo mundo, não conhece muito bem não.

Mas algo na manhã tardia daquela terça-feira, na luz que entrava no quarto daquele apartamento sem cortinas em Laranjeiras, onde se acostumou a andar nua para deleite dos vizinhos, incomodava um pouquinho mais. Que desculpa usaria para a mãe desta vez para justificar o roxo na coxa grossa e o andar coxo ao chegar em casa? Que tamanho teria o vazio que a separava tanto de quem um dia foi? Era isso mesmo que ela queria? Ou era isso que ela achava que teria que querer e gostar? Teria o limite dela, onde se violou pela primeira vez, sido deixado para trás de uma maneira sem volta?

De frente ao espelho do banheiro da casa da amiga, apertado e encardido pelo tempo, lavou o rosto tentando acordar e deixar a ressaca moral, já costumeira para trás. Parou sem querer os olhos na marca de nascença que um antigo namorado, já esquecido – talvez o mais carinhoso de todos – tanto gostava. Uma onda de fraçao de segundos fez que ia a invadir com nostalgia. Chegou até a ensaiar um sorriso. As melhores batatas são sempre as do fundo do saco, o velho namorado costumava dizer, nas milhares de vezes que iam matar a fome do motel num fastfood longe dali e de tudo que ela era hoje. Ele tinha razão, pensou. E então seus olhos ali, em frente à torneira fechada, se encheram de água silenciosa. Gole seco e inevitável.“As melhores batatas são sempre as do fundo do saco.”

Aquele saco - com as melhores batatas e anos da sua vida - não volta mais. Nunca mais.

quarta-feira, setembro 03, 2008

da alma

Por André Debevc

vai ver é mesmo da alma
isso de vir se despedaçando pelo caminho,
se reinventando e esfarelando,
esquecendo fragmentos e bilhetes dobrados
onde o amor esqueceu
de lembrar que já foi embora.

antes do pôr-do-sol,
muito antes de tantas auroras
ou dela mesma, a alma,
se olhar fundo nos olhos
e entender sorrindo sozinha
que o importante mesmo na vida
é ter páginas com histórias,
porque são elas
as coisas boas de virar.

quinta-feira, agosto 07, 2008

O biscoito e a chuva

Por André Debevc

na tarde de gotas de chuva que mais parecem pães de queijo,
um pacote de biscoito familiar me planta um sorriso mais longo.
estou em são paulo e a garoa bombada achou o endereço de casa
depois de um mês de férias em algum lugar lá pro sul.

debruçado sobre meu itunes repleto de novas aquisições
escalo a tarde driblando o sono,
enquanto o ponteiro pequeno do relógio não chega no sete,
criando idéias pra vender e pagar o aluguel.

e em meio ao pantone de cinza emoldurado na janela,
um biscoito Globo aparece do nada e me sorri,
me fazendo fechar os olhos e lembrar da praia, do Rio,
e de um cara que sou lá naquele universo paralelo
onde o vento bate depois de saltar as ilhas cagarras
e as palmeiras imperiais me mostram que estou em casa.

nada como um biscoito na chuva para fazer o sol bater forte na alma.
Biscoito Globo doce, claro.
porque de salgado já me basta o peito.
regado e sempre morrendo de saudade
da água do mar.

a casa pra qual não se pode voltar

Por André Debevc

depois de tanto tempo ainda tem dias
que sonho em voltar pra casa...
a velha casa que já não é mais minha
onde eu podia encontrar minha fruta favorita,
e sorvê-la em paz.

uma casa que mudou de dono, e até de endereço,
mas que sempre vai ser um lugar bom de sonhar em voltar.

algumas lembranças renascem - com um cheiro, um gosto,
uma voz saindo que pula de canal na tv - só pra cicatriz que nos fez
ter certeza que existiu.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Filosofia Fast-Food

Por André Debevc

As melhores batatas fritas são sempre as que se jogam no fundo do saco
quando pedimos o lanche pra viagem.

quarta-feira, julho 30, 2008

Só ele

Por André Debevc

Velando seu sono enfermo, pensou em acordá-la só pra dizer o quanto a amava. Mas aí lembrou que ainda não inventaram palavra para coisa de tal grandeza. Aí sorriu, lembrando que só ele e o universo sabem o que é uma coisa que não pára de crescer. Nunca pára.

a moça e a mão nada boba

Por André Debevc

era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.

Reflexões

Por André Debevc

O melhor filme é o que nunca pode ter uma continuação.

quarta-feira, julho 16, 2008

De Luto

Por André Debevc

Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.

(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)

quarta-feira, julho 02, 2008

Eterno Amor

Por André Debevc

meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.

quinta-feira, junho 26, 2008

lugar indeterminado

Por André Debevc

de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)

quarta-feira, junho 25, 2008

Lágrimas oficiais

Por André Debevc

Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.

segunda-feira, junho 23, 2008

Fon-fon

Por André Debevc

estar ao seu lado
me faz um bem danado

eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.

levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.

amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.

Ops...

Por André Debevc

o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.

quinta-feira, junho 19, 2008

Olhar Fracionado

Por André Debevc

às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…

nuca
olhos
boca

peitos
barriga
flancos
pés

e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.

ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você

e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.

amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.

e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.