Por André Debevc
Ela era uma dessas mulheres com marca suave de biquini na alma, dourando ao sol de uma Ipanema da vida, escondendo os olhos castanhos e um ensaio do que seriam sardas atrás de um óculos grande, desses que anda na moda agora. Toda vez que ela deixava o carro, ele – um cara comum, repleto de vícios inofensivos e amigos antigos - como que numa reação automática passava a mão direita carinhosamente pelo banco do carona, querendo ainda sentir ali o calor dela.
Dizer que ele quase cheirava o banco de carro seria exagero, tudo bem, mas quase. A idéia de que todo o calor do objeto de desejo dele tinha estado ali há segundos – e ele não tinha feito nada - o deixava louco. Prestes a se declarar. A dizer que tava apaixonado, que tava amando, entre outras besteiras que todo homem já tentou usar pra levar alguém pra cama. Quanto mais quentinho o banco do carro, mais à beira de se declarar pra ela ficava. Mas declarar o que?
Ele sabia que não tinha nada na manga. Só um pouco de canalhice, uns sorrisos safados e muitas intenções bem objetivas e práticas. Nuas e cruas, diria. Mais pra nuas, claro. Ele só queria umas tardes, noites ou madrugadas sem pressa pra colocar moça na boca feito manga. E ficar ali, com aquela mulher na ponta da língua e alguns outros lugares. Até ela se desfazer mil vezes em suor e gozo, e arrumar um lugar pra ele na galeria de trepadas inesquecíveis dela. Lugar eterno, e de preferência com direito a visitas futuras sem necessidade prévia de agendamento ou joguinhos bestas. Mas como fazer isso? Perguntar diretamente era só garantia de um tapa na cara. Ela era bonita, mas não ordinária...
Como eu vinha dizendo, ele não tinha nada na manga. E ela – bonita e cobiçada – não tava muito aí pra ele não. Até o dia em que ele, distraído, esqueceu de elogiar uma mudança no cabelo dela que todo o resto do universo notou e fez questão de elogiar. Foi o suficiente pra que ela olhasse pra ele com outros olhos. Como se de repente tivesse nascido ali outro homem a ser conquistado. Certamente mais um na sua coleção de presas.
E bastou essa pequena desatenção para que algumas caronas depois, estivessem trocando beijos e amassos em frente à portaria dela. Na primeira vez que colocou as mãos entre as pernas dela, espemidas num jeans importado, ele quase explodiu de alegria e precocidade. Era muito mais quente que o banco do carro. Era muito mais quente do que ele esperava que fosse. Ela era muito mais quente do que ele esperava. A pele, a nuca, os peitos, a virilha, tudo. E como era linda.
Na penumbra então, nem se fala. A falta de luz a fazia ficar ainda mais linda - isso ele descobriu no dia em que subiu na casa dela – o peitinho um pouco menor do que ele queria que fosse (enganando a todos num desses sutiãs propaganda enganosa), a bundinha um pouco mais desafiada pela gravidade do que ele imaginava. Enfim, imperfeições que a faziam ainda mais irresistível. A moça que deixava o banco do carro quente. E ela esta a ali, a segundos de ser consumada por ele.
Taças de vinho e um início de dvd (Vanilla Sky, que ele sempre gostou mas viu mil vezes) depois, transaram, treparam e alguns outros sinônimos para todo esse lance de beijar, passar a mão, ficar pelado, beijar mais, lamber, chupar, quase fazer merda, achar a camisinha, lamber mais, colocar a camisinha e voltar a beijar pra poder gozar (com e sem trocadilho) da liberdade de ir e vir, conforme está previsto na constituição. Ufa....e olha...ela é bonita, viu?
Olhando com um sorriso sem dentes para ele mesmo no espelho do elevador do prédio bacana onde ela morava, foi essa a conclusão a que ele chegou. Moça bonita. Virilha quente. Peitinho lindinho e sem biquinho evidente, mas realmente menor do que o ideal. E aquele corriqueiro defeito que mulheres bonitas demais costumam ter: era esforçada. Tinha uns talentos, é verdade, mas estava longe de ser boa naquilo. Esforçada.
O quão boa ou ruim? Digamos que boa o suficiente para ele não ligar no dia seguinte. Mas nada que o fizesse evitar atender quando ela aparecia numa noite de semana no visor do seu celular. "- Oi lindo!" Lindo não, mas que dá sempre conta do recado.
quinta-feira, outubro 30, 2008
As batatas
Por André Debevc
Acordou ainda sem saber muito bem onde estava, coisa comum nos últimos anos da sua vida. Um resto de shampoo e fumaça na cabeça recostada no seu ombro dormente não deixava dúvida: mais uma vez tinha acabado nua e bêbaba na casa de uma amiga que se divertia levando desconhecidos – quase sempre sem camisinha na carteira - para casa para brincar à três na madrugada.
A boca macia no seu peito, ainda exalando álcool e cigarro barato já até parecia ser coisa antiga e normal, mas a sensação de que toda aquela noite descolada demais não era verdadeiramente pra ela ainda soava seca e forte em manhãs assim, onde flashes de um estranho – quase sempre um pouco agressivo demais - querendo colocá-la de quatro, com a boca entre as pernas da amiga eram mais reais do que nos seus sonhos, sonhados de boca aberta.
Talvez no fundo fosse mesmo apenas uma menina sozinha, de poucos amigos sinceros, a quem nunca tivesse sido dado ou cobrado muito limite.
Desde adolescente se metia em pequenas enrascadas, como quando contraiu uma doença venérea numa noite onde mentiu para a mãe e até pegou carona na moto de um garoto sem carteira e sem nome. Aventuras doidas, segundo ela, que contava os fatos – um pouco amenizados para não chocar demais, claro - aos pais e namorados como se tivessem sido vividas por uma amiga, daquelas que você, eu e todo mundo, não conhece muito bem não.
Mas algo na manhã tardia daquela terça-feira, na luz que entrava no quarto daquele apartamento sem cortinas em Laranjeiras, onde se acostumou a andar nua para deleite dos vizinhos, incomodava um pouquinho mais. Que desculpa usaria para a mãe desta vez para justificar o roxo na coxa grossa e o andar coxo ao chegar em casa? Que tamanho teria o vazio que a separava tanto de quem um dia foi? Era isso mesmo que ela queria? Ou era isso que ela achava que teria que querer e gostar? Teria o limite dela, onde se violou pela primeira vez, sido deixado para trás de uma maneira sem volta?
De frente ao espelho do banheiro da casa da amiga, apertado e encardido pelo tempo, lavou o rosto tentando acordar e deixar a ressaca moral, já costumeira para trás. Parou sem querer os olhos na marca de nascença que um antigo namorado, já esquecido – talvez o mais carinhoso de todos – tanto gostava. Uma onda de fraçao de segundos fez que ia a invadir com nostalgia. Chegou até a ensaiar um sorriso. As melhores batatas são sempre as do fundo do saco, o velho namorado costumava dizer, nas milhares de vezes que iam matar a fome do motel num fastfood longe dali e de tudo que ela era hoje. Ele tinha razão, pensou. E então seus olhos ali, em frente à torneira fechada, se encheram de água silenciosa. Gole seco e inevitável.“As melhores batatas são sempre as do fundo do saco.”
Aquele saco - com as melhores batatas e anos da sua vida - não volta mais. Nunca mais.
Acordou ainda sem saber muito bem onde estava, coisa comum nos últimos anos da sua vida. Um resto de shampoo e fumaça na cabeça recostada no seu ombro dormente não deixava dúvida: mais uma vez tinha acabado nua e bêbaba na casa de uma amiga que se divertia levando desconhecidos – quase sempre sem camisinha na carteira - para casa para brincar à três na madrugada.
A boca macia no seu peito, ainda exalando álcool e cigarro barato já até parecia ser coisa antiga e normal, mas a sensação de que toda aquela noite descolada demais não era verdadeiramente pra ela ainda soava seca e forte em manhãs assim, onde flashes de um estranho – quase sempre um pouco agressivo demais - querendo colocá-la de quatro, com a boca entre as pernas da amiga eram mais reais do que nos seus sonhos, sonhados de boca aberta.
Talvez no fundo fosse mesmo apenas uma menina sozinha, de poucos amigos sinceros, a quem nunca tivesse sido dado ou cobrado muito limite.
Desde adolescente se metia em pequenas enrascadas, como quando contraiu uma doença venérea numa noite onde mentiu para a mãe e até pegou carona na moto de um garoto sem carteira e sem nome. Aventuras doidas, segundo ela, que contava os fatos – um pouco amenizados para não chocar demais, claro - aos pais e namorados como se tivessem sido vividas por uma amiga, daquelas que você, eu e todo mundo, não conhece muito bem não.
Mas algo na manhã tardia daquela terça-feira, na luz que entrava no quarto daquele apartamento sem cortinas em Laranjeiras, onde se acostumou a andar nua para deleite dos vizinhos, incomodava um pouquinho mais. Que desculpa usaria para a mãe desta vez para justificar o roxo na coxa grossa e o andar coxo ao chegar em casa? Que tamanho teria o vazio que a separava tanto de quem um dia foi? Era isso mesmo que ela queria? Ou era isso que ela achava que teria que querer e gostar? Teria o limite dela, onde se violou pela primeira vez, sido deixado para trás de uma maneira sem volta?
De frente ao espelho do banheiro da casa da amiga, apertado e encardido pelo tempo, lavou o rosto tentando acordar e deixar a ressaca moral, já costumeira para trás. Parou sem querer os olhos na marca de nascença que um antigo namorado, já esquecido – talvez o mais carinhoso de todos – tanto gostava. Uma onda de fraçao de segundos fez que ia a invadir com nostalgia. Chegou até a ensaiar um sorriso. As melhores batatas são sempre as do fundo do saco, o velho namorado costumava dizer, nas milhares de vezes que iam matar a fome do motel num fastfood longe dali e de tudo que ela era hoje. Ele tinha razão, pensou. E então seus olhos ali, em frente à torneira fechada, se encheram de água silenciosa. Gole seco e inevitável.“As melhores batatas são sempre as do fundo do saco.”
Aquele saco - com as melhores batatas e anos da sua vida - não volta mais. Nunca mais.
quarta-feira, setembro 03, 2008
da alma
Por André Debevc
vai ver é mesmo da alma
isso de vir se despedaçando pelo caminho,
se reinventando e esfarelando,
esquecendo fragmentos e bilhetes dobrados
onde o amor esqueceu
de lembrar que já foi embora.
antes do pôr-do-sol,
muito antes de tantas auroras
ou dela mesma, a alma,
se olhar fundo nos olhos
e entender sorrindo sozinha
que o importante mesmo na vida
é ter páginas com histórias,
porque são elas
as coisas boas de virar.
vai ver é mesmo da alma
isso de vir se despedaçando pelo caminho,
se reinventando e esfarelando,
esquecendo fragmentos e bilhetes dobrados
onde o amor esqueceu
de lembrar que já foi embora.
antes do pôr-do-sol,
muito antes de tantas auroras
ou dela mesma, a alma,
se olhar fundo nos olhos
e entender sorrindo sozinha
que o importante mesmo na vida
é ter páginas com histórias,
porque são elas
as coisas boas de virar.
quinta-feira, agosto 07, 2008
O biscoito e a chuva
Por André Debevc
na tarde de gotas de chuva que mais parecem pães de queijo,
um pacote de biscoito familiar me planta um sorriso mais longo.
estou em são paulo e a garoa bombada achou o endereço de casa
depois de um mês de férias em algum lugar lá pro sul.
debruçado sobre meu itunes repleto de novas aquisições
escalo a tarde driblando o sono,
enquanto o ponteiro pequeno do relógio não chega no sete,
criando idéias pra vender e pagar o aluguel.
e em meio ao pantone de cinza emoldurado na janela,
um biscoito Globo aparece do nada e me sorri,
me fazendo fechar os olhos e lembrar da praia, do Rio,
e de um cara que sou lá naquele universo paralelo
onde o vento bate depois de saltar as ilhas cagarras
e as palmeiras imperiais me mostram que estou em casa.
nada como um biscoito na chuva para fazer o sol bater forte na alma.
Biscoito Globo doce, claro.
porque de salgado já me basta o peito.
regado e sempre morrendo de saudade
da água do mar.
na tarde de gotas de chuva que mais parecem pães de queijo,
um pacote de biscoito familiar me planta um sorriso mais longo.
estou em são paulo e a garoa bombada achou o endereço de casa
depois de um mês de férias em algum lugar lá pro sul.
debruçado sobre meu itunes repleto de novas aquisições
escalo a tarde driblando o sono,
enquanto o ponteiro pequeno do relógio não chega no sete,
criando idéias pra vender e pagar o aluguel.
e em meio ao pantone de cinza emoldurado na janela,
um biscoito Globo aparece do nada e me sorri,
me fazendo fechar os olhos e lembrar da praia, do Rio,
e de um cara que sou lá naquele universo paralelo
onde o vento bate depois de saltar as ilhas cagarras
e as palmeiras imperiais me mostram que estou em casa.
nada como um biscoito na chuva para fazer o sol bater forte na alma.
Biscoito Globo doce, claro.
porque de salgado já me basta o peito.
regado e sempre morrendo de saudade
da água do mar.
a casa pra qual não se pode voltar
Por André Debevc
depois de tanto tempo ainda tem dias
que sonho em voltar pra casa...
a velha casa que já não é mais minha
onde eu podia encontrar minha fruta favorita,
e sorvê-la em paz.
uma casa que mudou de dono, e até de endereço,
mas que sempre vai ser um lugar bom de sonhar em voltar.
algumas lembranças renascem - com um cheiro, um gosto,
uma voz saindo que pula de canal na tv - só pra cicatriz que nos fez
ter certeza que existiu.
depois de tanto tempo ainda tem dias
que sonho em voltar pra casa...
a velha casa que já não é mais minha
onde eu podia encontrar minha fruta favorita,
e sorvê-la em paz.
uma casa que mudou de dono, e até de endereço,
mas que sempre vai ser um lugar bom de sonhar em voltar.
algumas lembranças renascem - com um cheiro, um gosto,
uma voz saindo que pula de canal na tv - só pra cicatriz que nos fez
ter certeza que existiu.
quarta-feira, agosto 06, 2008
Filosofia Fast-Food
Por André Debevc
As melhores batatas fritas são sempre as que se jogam no fundo do saco
quando pedimos o lanche pra viagem.
As melhores batatas fritas são sempre as que se jogam no fundo do saco
quando pedimos o lanche pra viagem.
quarta-feira, julho 30, 2008
Só ele
Por André Debevc
Velando seu sono enfermo, pensou em acordá-la só pra dizer o quanto a amava. Mas aí lembrou que ainda não inventaram palavra para coisa de tal grandeza. Aí sorriu, lembrando que só ele e o universo sabem o que é uma coisa que não pára de crescer. Nunca pára.
Velando seu sono enfermo, pensou em acordá-la só pra dizer o quanto a amava. Mas aí lembrou que ainda não inventaram palavra para coisa de tal grandeza. Aí sorriu, lembrando que só ele e o universo sabem o que é uma coisa que não pára de crescer. Nunca pára.
a moça e a mão nada boba
Por André Debevc
era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.
era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.
quarta-feira, julho 16, 2008
De Luto
Por André Debevc
Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.
(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)
Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.
(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)
quarta-feira, julho 02, 2008
Eterno Amor
Por André Debevc
meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.
meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.
quinta-feira, junho 26, 2008
lugar indeterminado
Por André Debevc
de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)
de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)
quarta-feira, junho 25, 2008
Lágrimas oficiais
Por André Debevc
Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.
Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.
segunda-feira, junho 23, 2008
Fon-fon
Por André Debevc
estar ao seu lado
me faz um bem danado
eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.
levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.
amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.
estar ao seu lado
me faz um bem danado
eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.
levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.
amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.
Ops...
Por André Debevc
o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.
o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.
quinta-feira, junho 19, 2008
Olhar Fracionado
Por André Debevc
às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…
nuca
olhos
boca
peitos
barriga
flancos
pés
e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.
ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você
e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.
amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.
e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.
às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…
nuca
olhos
boca
peitos
barriga
flancos
pés
e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.
ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você
e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.
amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.
e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.
sexta-feira, maio 23, 2008
Havana
Por André Debevc
A manhã se convida para dentro do quarto pelas frestas da persiana velha de guerra que o hotel anda precisando trocar. Dançando nos feixes de sol penetra que corre o chão, a poeira do tempo, embalada em sussurros e interjeições, vai ricochetear naquele quarto para sempre. O ventilador de teto gira ainda entorpecido tentando cortar o ar denso que ainda emana a maratona de pernas e bocas e mãos que ela e ele percorreram, e ganharam. Parece Havana de tão quente e úmido. Parece Havana de tão granulado e irreal. Talvez até seja Havana depois de tanta sensualidade e tesão. O jeito que se olharam quando a porta fechou, o jeito que se pegaram quando tudo não parou. Corpos exaustos em lençóis molhados e atravessados pelo quarto. Os celulares desligados pro mundo. O universo todo deletado da porta pra fora. Velhos amantes amando corpos antes tantas vezes percorridos e até decorados. Depois de quase aplaudirem, só mesmo as tatuagens descansam, certas de que não são mais a única coisa que eles terão para sempre. Ele vai acordar com cara de safado e cínico. Ela com um sorriso e as pernas ainda bambas. Os dois pensando em começar tudo de novo. Os dois adorando acordar com aquele cheiro familiar e que nunca realmente esqueceram. A distância entre eles andava escondendo alguma coisa forte. Alguns dizem que é saudade, outros tesão. Das pernas dela em prender o corpo dele. Da boca dele em ler em braile as curvas e penugens dela. Um encontro tão clandestino quanto inevitável, rasgado pelo toque do telefone do quarto no dia embrulhado em preguiça.
Ela atende. E antes que ela possa desligar, ele já mergulha sem piedade ou hesitação em direção à nuca. Ela arqueia as costas e pede mais.
A manhã se convida para dentro do quarto pelas frestas da persiana velha de guerra que o hotel anda precisando trocar. Dançando nos feixes de sol penetra que corre o chão, a poeira do tempo, embalada em sussurros e interjeições, vai ricochetear naquele quarto para sempre. O ventilador de teto gira ainda entorpecido tentando cortar o ar denso que ainda emana a maratona de pernas e bocas e mãos que ela e ele percorreram, e ganharam. Parece Havana de tão quente e úmido. Parece Havana de tão granulado e irreal. Talvez até seja Havana depois de tanta sensualidade e tesão. O jeito que se olharam quando a porta fechou, o jeito que se pegaram quando tudo não parou. Corpos exaustos em lençóis molhados e atravessados pelo quarto. Os celulares desligados pro mundo. O universo todo deletado da porta pra fora. Velhos amantes amando corpos antes tantas vezes percorridos e até decorados. Depois de quase aplaudirem, só mesmo as tatuagens descansam, certas de que não são mais a única coisa que eles terão para sempre. Ele vai acordar com cara de safado e cínico. Ela com um sorriso e as pernas ainda bambas. Os dois pensando em começar tudo de novo. Os dois adorando acordar com aquele cheiro familiar e que nunca realmente esqueceram. A distância entre eles andava escondendo alguma coisa forte. Alguns dizem que é saudade, outros tesão. Das pernas dela em prender o corpo dele. Da boca dele em ler em braile as curvas e penugens dela. Um encontro tão clandestino quanto inevitável, rasgado pelo toque do telefone do quarto no dia embrulhado em preguiça.
Ela atende. E antes que ela possa desligar, ele já mergulha sem piedade ou hesitação em direção à nuca. Ela arqueia as costas e pede mais.
segunda-feira, maio 05, 2008
TODAS
Por André Debevc
as que me disseram sim
e as que me deram pelo menos um não,
as moças que eu sempre quis e nunca tive
e as que eu quis uma vez e tive sempre,
as que me encheram de sorrisos
e as que me secaram de lágrimas,
as mulheres que eu quis ter na boca
e as que quis nunca mais ter nos olhos,
as que me tiveram pra sempre
e as que sempre me prometeram o que nunca podiam dar,
as fêmeas que me beberam
e as que me escorreram pelas mãos,
as que beijei com vontade
e as pra quem mostrei a língua
aquelas que quis levar pra uma ilha
e as de quem eu não consegui fugir,
as que estraguei eternamente
e as que consertei só com um sorriso um pouquinho mais longo
todas as que cruzaram o meu mundo me trouxeram até aqui
pra deixar você ser a única que pode me chamar de seu.
as que me disseram sim
e as que me deram pelo menos um não,
as moças que eu sempre quis e nunca tive
e as que eu quis uma vez e tive sempre,
as que me encheram de sorrisos
e as que me secaram de lágrimas,
as mulheres que eu quis ter na boca
e as que quis nunca mais ter nos olhos,
as que me tiveram pra sempre
e as que sempre me prometeram o que nunca podiam dar,
as fêmeas que me beberam
e as que me escorreram pelas mãos,
as que beijei com vontade
e as pra quem mostrei a língua
aquelas que quis levar pra uma ilha
e as de quem eu não consegui fugir,
as que estraguei eternamente
e as que consertei só com um sorriso um pouquinho mais longo
todas as que cruzaram o meu mundo me trouxeram até aqui
pra deixar você ser a única que pode me chamar de seu.
por pura falta do que fazer
Por André Debevc
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
na cama no banho ou até num sofá
confesso que estou aqui perdendo meu tempo
pensando em como pode ter sido e até será
tô há minutos (ou seriam já horas?)
parecendo sério sem precisar sorrir sozinho ou disfarçar…
coisa mesmo de quem tá pensando em outra pessoa
em outra coisa, e certamente em outro lugar
tô no meu velho lugar sem saber de você,
ser ter idéia nem certeza se você já pensou em me dar
enquanto tava sozinha com o chuveirinho
ou dormindo só de calcinha num quarto com ar
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
mas não se envaideça não
minha falta completa
do que fazer já vai passar.
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
na cama no banho ou até num sofá
confesso que estou aqui perdendo meu tempo
pensando em como pode ter sido e até será
tô há minutos (ou seriam já horas?)
parecendo sério sem precisar sorrir sozinho ou disfarçar…
coisa mesmo de quem tá pensando em outra pessoa
em outra coisa, e certamente em outro lugar
tô no meu velho lugar sem saber de você,
ser ter idéia nem certeza se você já pensou em me dar
enquanto tava sozinha com o chuveirinho
ou dormindo só de calcinha num quarto com ar
hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer
mas não se envaideça não
minha falta completa
do que fazer já vai passar.
terça-feira, abril 22, 2008
A Blueberry Life
Por André Debevc
Cores saturadas, movimentos laterais em camera lenta e muitos silêncios. Lembranças são assim, peças órfãs e granuladas de quebra-cabeças sem trilha sonora ou frases de efeito ricocheteando pela eternidade. Finais que não engolimos e chaves de portas que fecharam, perdidas em um jarro de vidro onde nadam histórias contadas por um só lado. Ninguém ensina a gente na escola a ser deixado. Mas se a gente deixar, o mundo até gosta que a gente se reinvente.
Cores saturadas, movimentos laterais em camera lenta e muitos silêncios. Lembranças são assim, peças órfãs e granuladas de quebra-cabeças sem trilha sonora ou frases de efeito ricocheteando pela eternidade. Finais que não engolimos e chaves de portas que fecharam, perdidas em um jarro de vidro onde nadam histórias contadas por um só lado. Ninguém ensina a gente na escola a ser deixado. Mas se a gente deixar, o mundo até gosta que a gente se reinvente.
sexta-feira, abril 18, 2008
Melhoras
Por André Debevc
A distensão já melhorou bastante. E a panturrilha já tá bem menos inchada. Sempre achou engraçado este nome. Panturrilha. Melhor que chamar de batata da perna, diz. Nem parece batata. Andar já anda mais fácil, assim como levantar da cama de manhã. Hoje mesmo nem queria sair da cama. A namorada ali, quentinha e cheirosa, pedindo pra ele inventar uma desculpa e ficar ali na cama, sem precisar levantar e descobrir que a panturrilha melhorou. Não deu. Levantou depois que o despertador tocou pela segunda vez. Foi pro banho ainda pensando se casar e morar junto é a mesma coisa. Anda pensando. Em morar junto. Ele e a moça que não acorda cedo às sextas-feiras. Afinal também é o rodízio dela, né? O dele não é hoje. Foi na quarta. Dia da distensão. A batata da perna rasgando. Batata não, panturrilha. Passou dias mancando. Anti-inflamatório e gelo. Andar, só devagar. Como os amigos que vão se perdendo pelo caminho. Anda pensando. Nos amigos. Em fazer um esporte diferente. Já até mudou o visual. Óculos novo e meia dúzia de peças virgens no armário. No trabalho anda até mais falante. Culpa da distensão que o deixou mancando. Ela não é a única coisa que já melhorou bastante.
A distensão já melhorou bastante. E a panturrilha já tá bem menos inchada. Sempre achou engraçado este nome. Panturrilha. Melhor que chamar de batata da perna, diz. Nem parece batata. Andar já anda mais fácil, assim como levantar da cama de manhã. Hoje mesmo nem queria sair da cama. A namorada ali, quentinha e cheirosa, pedindo pra ele inventar uma desculpa e ficar ali na cama, sem precisar levantar e descobrir que a panturrilha melhorou. Não deu. Levantou depois que o despertador tocou pela segunda vez. Foi pro banho ainda pensando se casar e morar junto é a mesma coisa. Anda pensando. Em morar junto. Ele e a moça que não acorda cedo às sextas-feiras. Afinal também é o rodízio dela, né? O dele não é hoje. Foi na quarta. Dia da distensão. A batata da perna rasgando. Batata não, panturrilha. Passou dias mancando. Anti-inflamatório e gelo. Andar, só devagar. Como os amigos que vão se perdendo pelo caminho. Anda pensando. Nos amigos. Em fazer um esporte diferente. Já até mudou o visual. Óculos novo e meia dúzia de peças virgens no armário. No trabalho anda até mais falante. Culpa da distensão que o deixou mancando. Ela não é a única coisa que já melhorou bastante.
quarta-feira, abril 16, 2008
outro dia
por André Debevc
Tem dias que, sem motivo ou explicação, uma tristeza gigantesca invade minha alma. Aí fica reverberando nos ossos aquela saudade imensa de não sei bem o quê, que tira o brilho dos meus olhos e deixa meu sorriso opaco. Uma quase dor latente que dá um sono e uma preguiça danada, às vezes até de falar, acreditem. E me faltam respostas ou justificativas. E reviro os bolsos da minha existência, vasculho os cantinhos pouco varridos da vida, e nada. Nada explica essa minha tristeza. Nem a programação pobre da tv, nem avenida engarrafada. É meu dia de reticências. Sem alegrias nem tragédias, sem sorrisos verdadeiros nem elogios falsos. Tem dias que uma tristeza gigantesca invade minha alma, uma tristeza que não é minha. Espero que amanhã não seja um destes dias. Porque hoje já não tem como não ser.
Tem dias que, sem motivo ou explicação, uma tristeza gigantesca invade minha alma. Aí fica reverberando nos ossos aquela saudade imensa de não sei bem o quê, que tira o brilho dos meus olhos e deixa meu sorriso opaco. Uma quase dor latente que dá um sono e uma preguiça danada, às vezes até de falar, acreditem. E me faltam respostas ou justificativas. E reviro os bolsos da minha existência, vasculho os cantinhos pouco varridos da vida, e nada. Nada explica essa minha tristeza. Nem a programação pobre da tv, nem avenida engarrafada. É meu dia de reticências. Sem alegrias nem tragédias, sem sorrisos verdadeiros nem elogios falsos. Tem dias que uma tristeza gigantesca invade minha alma, uma tristeza que não é minha. Espero que amanhã não seja um destes dias. Porque hoje já não tem como não ser.
sexta-feira, março 28, 2008
inconstante
Por André Debevc
Sou um homem que vive de vender palavras. Tenho meia dúzia de sonhos e uns dois ou três pesadelos nos bolsos. Me satisfaço com o que vale a pena, e curto cada dia mais ser o melhor de mim mesmo, sem precisar agradar ninguém. Carrego cada vez menos melhores amigos no peito. Conheço algumas verdades, nutro seletas esperanças, e rezo toda noite pra aprender a perdoar pra um dia, quem sabe, esquecer de vez a minha coleçãozinha de mágoas. No caminho de casa, costurando o asfalto no meu carro, olho para o horizonte de concreto na cidade cinza e lembro de tudo que eu já quis ser. E nessa hora, vejo pelo retrovisor, que o sorriso que me vem, não tem nada de amarelo.
Sou um homem que vive de vender palavras. Tenho meia dúzia de sonhos e uns dois ou três pesadelos nos bolsos. Me satisfaço com o que vale a pena, e curto cada dia mais ser o melhor de mim mesmo, sem precisar agradar ninguém. Carrego cada vez menos melhores amigos no peito. Conheço algumas verdades, nutro seletas esperanças, e rezo toda noite pra aprender a perdoar pra um dia, quem sabe, esquecer de vez a minha coleçãozinha de mágoas. No caminho de casa, costurando o asfalto no meu carro, olho para o horizonte de concreto na cidade cinza e lembro de tudo que eu já quis ser. E nessa hora, vejo pelo retrovisor, que o sorriso que me vem, não tem nada de amarelo.
terça-feira, março 18, 2008
Pré-destinados (em até 150 toques)
Por André Debevc
Antes mesmo de sonhar aquele beijo, já a tinha nos braços. Os dois ali só de passagem. Mãos dadas na madrugada, embarcando juntos com um só destino.
Antes mesmo de sonhar aquele beijo, já a tinha nos braços. Os dois ali só de passagem. Mãos dadas na madrugada, embarcando juntos com um só destino.
Outro meio, outro fim
Por André Debevc
Espero que isso nunca me complique, mas sei que sempre que falar de você, vou acabar sorrindo. Complicar por que, ele perguntou. Ah, sei lá…você sempre acaba com umas mulheres ciumentas, que não gostariam de saber o que tivemos. Quer dizer, na verdade acho que é normal ficar incomodada quando você suspeita que o seu namorado teve uma relação super carnal com uma mulher que está ali te dando dois beijinhos com a cara mais deslavada do mundo. Carnal? – Ele indagou. Como mais poderíamos classificar o que tiveram, pensaram. Ele ousou dizer que nunca precisaram dar nome pro que tinham. Verdade, ela disse. E aí sorriu. E assim se despediram deste quase desencontro. Ali no aeroporto onde ela voltava para sua casa em Paris e ele passava por um desvio de ponte aérea em dia de neblina baixa.
Ao vê-la ir embora quem sorriu em silêncio foi ele. Vendo a ir, elegante e discreta como sempre. A mulher com quem, alguns anos antes, tinha vivido um intenso e rápido caso de sexo e amizade. Nada oficialmente clandestino, mas também longe de ser publicamente assumido, mesmo que nenhum dos dois tivesse compromisso pra impedir. Muito pelo contrário, vinham de desastres emocionais e estavam, os dois, com o coração fechado para balanço. Mas nada que impedisse o corpo de funcionar, claro.
Os encontros frequentes por causa de amigos em comum foram o princípio impensado de tudo. E quando se deram conta, estavam na sala, na cama, no box, no mar. Amantes sem compromisso ou paixão para os condenar ao fracasso. Vivendo uma maratona de pernas, línguas, calores e aquele suor que só costuma pingar de corpos muito ofegantes e sempre prontos para mais.
E o que crescia, rentitente como capim colonião, entre os encontros feitos para o sexo, era amizade. Conversas raras, do tipo mais sincero que um homem pode ter com uma mulher. Um papo realmente desprovido de intenções ou armadilhas, tão nu quanto ele e ela numa velha tarde de Natal, antes de cada um seguir para suas famílias sem trocar ao menos um presente. Eles que voltariam ali algumas outras vezes para descobrir os corpos um do outro. Com bocas, mãos, lábios e sexo cúmplices apenas na tarefa de se darem prazer. Sempre.
Estritamente sexo. Sem apego, esperanças ou promessas. Sexo tão compatível que chegava a dar medo. Os corpos nus, ou sempre a caminho de se arrancarem as roupas. Ela que costumava dizer que ele só tinha uma habilidade maior do que a com as palavras: a habilidade que tem com a boca. Ele que sorria cínico em público ao vê-la passar com seus peitos espetaculares e uma atitude de fazer padre engasgar em plena missa.
Ela era mesmo uma mulher sensacional. Em tudo. Bonita, inteligente, interessante e muitíssimo talentosa e fogosa entre lençóis, no chão, na água. Ele era um homem comum, atormentado pelo passado e com uma certeza: a de que uma mulher daquelas não apareceria na sua vida todos os dias. Talvez fosse até bom que fosse assim. Superficial e intenso. Quente e úmido e com cheiro de coito como o ar pesado das tardes que passavam juntos.
Entre amigos, a cordialidade e distância deles escondia a voracidade e vontade com que se despiam quando ficavam sozinhos. Admiravam-se, sem dúvida. Sempre gostaram do sacarcásmo e inteligência um do outro. Sempre gozaram muito um com o outro. O calor lascivo dela, as tentativas de acrobacias dele, a disposição dos dois. Em alguns momentos chegaram a se entender só no olhar. Foi quando começaram a perceber o quanto gostavam do cheiro, jeito de pegar e do calor um do outro. Foi quando ele começou a pensar nela no caminho de volta pra casa. Foi quando ela começou a esperar que ele ligasse.
Um dia o telefone nunca mais tocou. Talvez a regra fosse mesmo essa. A regra não dita para que sempre sorrissem quando ouvissem o nome um do outro. Respeito e carinho por uma amiga que adorava prender o rosto dele entre as coxas. Uma amiga que sorri quando fala dele. Como ele sorri quando pensa nela. Mágoa nenhuma, nunca. Assim como deveria ser sempre. Ainda bem.
Espero que isso nunca me complique, mas sei que sempre que falar de você, vou acabar sorrindo. Complicar por que, ele perguntou. Ah, sei lá…você sempre acaba com umas mulheres ciumentas, que não gostariam de saber o que tivemos. Quer dizer, na verdade acho que é normal ficar incomodada quando você suspeita que o seu namorado teve uma relação super carnal com uma mulher que está ali te dando dois beijinhos com a cara mais deslavada do mundo. Carnal? – Ele indagou. Como mais poderíamos classificar o que tiveram, pensaram. Ele ousou dizer que nunca precisaram dar nome pro que tinham. Verdade, ela disse. E aí sorriu. E assim se despediram deste quase desencontro. Ali no aeroporto onde ela voltava para sua casa em Paris e ele passava por um desvio de ponte aérea em dia de neblina baixa.
Ao vê-la ir embora quem sorriu em silêncio foi ele. Vendo a ir, elegante e discreta como sempre. A mulher com quem, alguns anos antes, tinha vivido um intenso e rápido caso de sexo e amizade. Nada oficialmente clandestino, mas também longe de ser publicamente assumido, mesmo que nenhum dos dois tivesse compromisso pra impedir. Muito pelo contrário, vinham de desastres emocionais e estavam, os dois, com o coração fechado para balanço. Mas nada que impedisse o corpo de funcionar, claro.
Os encontros frequentes por causa de amigos em comum foram o princípio impensado de tudo. E quando se deram conta, estavam na sala, na cama, no box, no mar. Amantes sem compromisso ou paixão para os condenar ao fracasso. Vivendo uma maratona de pernas, línguas, calores e aquele suor que só costuma pingar de corpos muito ofegantes e sempre prontos para mais.
E o que crescia, rentitente como capim colonião, entre os encontros feitos para o sexo, era amizade. Conversas raras, do tipo mais sincero que um homem pode ter com uma mulher. Um papo realmente desprovido de intenções ou armadilhas, tão nu quanto ele e ela numa velha tarde de Natal, antes de cada um seguir para suas famílias sem trocar ao menos um presente. Eles que voltariam ali algumas outras vezes para descobrir os corpos um do outro. Com bocas, mãos, lábios e sexo cúmplices apenas na tarefa de se darem prazer. Sempre.
Estritamente sexo. Sem apego, esperanças ou promessas. Sexo tão compatível que chegava a dar medo. Os corpos nus, ou sempre a caminho de se arrancarem as roupas. Ela que costumava dizer que ele só tinha uma habilidade maior do que a com as palavras: a habilidade que tem com a boca. Ele que sorria cínico em público ao vê-la passar com seus peitos espetaculares e uma atitude de fazer padre engasgar em plena missa.
Ela era mesmo uma mulher sensacional. Em tudo. Bonita, inteligente, interessante e muitíssimo talentosa e fogosa entre lençóis, no chão, na água. Ele era um homem comum, atormentado pelo passado e com uma certeza: a de que uma mulher daquelas não apareceria na sua vida todos os dias. Talvez fosse até bom que fosse assim. Superficial e intenso. Quente e úmido e com cheiro de coito como o ar pesado das tardes que passavam juntos.
Entre amigos, a cordialidade e distância deles escondia a voracidade e vontade com que se despiam quando ficavam sozinhos. Admiravam-se, sem dúvida. Sempre gostaram do sacarcásmo e inteligência um do outro. Sempre gozaram muito um com o outro. O calor lascivo dela, as tentativas de acrobacias dele, a disposição dos dois. Em alguns momentos chegaram a se entender só no olhar. Foi quando começaram a perceber o quanto gostavam do cheiro, jeito de pegar e do calor um do outro. Foi quando ele começou a pensar nela no caminho de volta pra casa. Foi quando ela começou a esperar que ele ligasse.
Um dia o telefone nunca mais tocou. Talvez a regra fosse mesmo essa. A regra não dita para que sempre sorrissem quando ouvissem o nome um do outro. Respeito e carinho por uma amiga que adorava prender o rosto dele entre as coxas. Uma amiga que sorri quando fala dele. Como ele sorri quando pensa nela. Mágoa nenhuma, nunca. Assim como deveria ser sempre. Ainda bem.
segunda-feira, março 17, 2008
Na falta de Greene
Por André Debevc
Você com certeza não leu Greene. Se não foi obrigada ou apresentada a alguma cena antológica dele, você não deve mesmo saber quem é Graham Greene, autor de algumas obras primas da literatura mundial, entre elas o livro “Fim de Caso”. Leitura nunca foi o seu forte mesmo, fazer o que (daqui a pouco sai o filme, não é isso?). Quem sabe agora que você tem que saber um pouco mais sobre os grandes personagens, quem sabe agora você um dia se depare com Maurice Bendrix, um dos maiores personagens de todos os tempos. Um covarde, canalha, quase um anti-herói. Quem sabe…
Mas também, quem sou eu pra dizer quem você leu e quem você não leu? Eu não sou ninguém. Não pra você. Não hoje. Não mais. Você nunca leu Greene. Nunca soube como são as coisas do amor, como são os jeitos da traição. As canalhices e os suspiros, as cegueiras temporárias e o sangue frio conviencente. Você e seus personagens. Até hoje não sei que você realmente era. Seu amor, sua dependência da minha asa, sua necessidade da minha companhia e atenção. Eu não sei de nada. Nada de você. Me dói só saber que você nunca leu Greene.
"Esquecemos as pessoas que amamos, mas não esquececemos as pessoas que traímos." Greene disse isso. Se você lesse, saberia. Não. Você esqueceu quem amou e, principalmente, quem traiu. Nem Bendrix seria tão ingrato. Mas, de novo, você nunca leu Greene. Maldita incauta!
Você com certeza não leu Greene. Se não foi obrigada ou apresentada a alguma cena antológica dele, você não deve mesmo saber quem é Graham Greene, autor de algumas obras primas da literatura mundial, entre elas o livro “Fim de Caso”. Leitura nunca foi o seu forte mesmo, fazer o que (daqui a pouco sai o filme, não é isso?). Quem sabe agora que você tem que saber um pouco mais sobre os grandes personagens, quem sabe agora você um dia se depare com Maurice Bendrix, um dos maiores personagens de todos os tempos. Um covarde, canalha, quase um anti-herói. Quem sabe…
Mas também, quem sou eu pra dizer quem você leu e quem você não leu? Eu não sou ninguém. Não pra você. Não hoje. Não mais. Você nunca leu Greene. Nunca soube como são as coisas do amor, como são os jeitos da traição. As canalhices e os suspiros, as cegueiras temporárias e o sangue frio conviencente. Você e seus personagens. Até hoje não sei que você realmente era. Seu amor, sua dependência da minha asa, sua necessidade da minha companhia e atenção. Eu não sei de nada. Nada de você. Me dói só saber que você nunca leu Greene.
"Esquecemos as pessoas que amamos, mas não esquececemos as pessoas que traímos." Greene disse isso. Se você lesse, saberia. Não. Você esqueceu quem amou e, principalmente, quem traiu. Nem Bendrix seria tão ingrato. Mas, de novo, você nunca leu Greene. Maldita incauta!
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
em órbita
Por André Debevc
ainda encostada em mim,
ela está incomunicável
em órbita irregular rindo sozinha.
de olhos fechados
esboça tapar o sorriso com as costas da mão.
mas entorpecida de si mesma não consegue.
sensível até o primeiro toque
desacelera espásmos entre lençóis
sem procurar se quer uma só palavra.
para entender tudo que ela gostaria de me dizer
só preciso estar de olhos abertos.
ainda encostada em mim,
ela está incomunicável
em órbita irregular rindo sozinha.
de olhos fechados
esboça tapar o sorriso com as costas da mão.
mas entorpecida de si mesma não consegue.
sensível até o primeiro toque
desacelera espásmos entre lençóis
sem procurar se quer uma só palavra.
para entender tudo que ela gostaria de me dizer
só preciso estar de olhos abertos.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
dia de sorte
Por André Debevc
a respiração pára e ela arqueia as costas enterrando a cabeça na cama.
até há intenção de uma interjeição mas não há consciência para articular uma.
vejo seu ventre vibrar entre seus goles secos.
ela agora está em órbita, suando ofegante em outra dimensão.
alegria, letargia e uma vontade de retribuir a tomam na volta a este planeta.
não tenho lugar nenhum para ir agora. deve ser meu dia de sorte.
a respiração pára e ela arqueia as costas enterrando a cabeça na cama.
até há intenção de uma interjeição mas não há consciência para articular uma.
vejo seu ventre vibrar entre seus goles secos.
ela agora está em órbita, suando ofegante em outra dimensão.
alegria, letargia e uma vontade de retribuir a tomam na volta a este planeta.
não tenho lugar nenhum para ir agora. deve ser meu dia de sorte.
Outro fim de caso
Por André Debevc
tem hora que nada que possa ser dito tem efeito,
a frase sai até medrosa, de tão sem jeito.
um ali gaguejando as palavras que transboradam do peito ferido
e o outro querendo ir embora já existindo ressentido.
fim de caso tem dessas coisas,
a história começando a se apagar do jeito mais doído,
e as lembranças atravessando de vez pro pretérito imperfeito
querendo convencer que a morte daquilo tudo que se pensou eterno
algum dia vai fazer sentido.
(como dói o peito)
tem hora que nada que possa ser dito tem efeito,
a frase sai até medrosa, de tão sem jeito.
um ali gaguejando as palavras que transboradam do peito ferido
e o outro querendo ir embora já existindo ressentido.
fim de caso tem dessas coisas,
a história começando a se apagar do jeito mais doído,
e as lembranças atravessando de vez pro pretérito imperfeito
querendo convencer que a morte daquilo tudo que se pensou eterno
algum dia vai fazer sentido.
(como dói o peito)
quinta-feira, janeiro 31, 2008
vice-versa
Por André Debevc
quase 3 da manhã num meio de semana cinza de um verão frio. lá fora até a garoa e congonhas descansam. aqui depois do vigésimo andar, caixas de pizzas vazias e fatias órfãs se esparramam pelo ambiente com um cheiro engordativo e querendo não ser tão recente. no avançar do ponteiro e re-envio de emails, só se ouvem teclas batendo e a impressora incansável cuspindo insossa layouts repetidos. palavras poucas entremeiam suspiros longos. tem um copo de guaraná esquecido a caminho da escada. há olhares cansados e perguntas repetidas. meu amor foi dormir com raiva de mim pela minha ausência. será que ela sabe lá no fundo do peito, que nem deve sentir minha falta agora, que era trabalho? e que com trabalho eu não brinco. menos de 15 minutos pra 3 da manhã...e eu só penso em beijar a minha branca e dar o fora daqui. Ou melhor: vice-versa, que é pra poder não ter que parar os beijos tão cedo.
quase 3 da manhã num meio de semana cinza de um verão frio. lá fora até a garoa e congonhas descansam. aqui depois do vigésimo andar, caixas de pizzas vazias e fatias órfãs se esparramam pelo ambiente com um cheiro engordativo e querendo não ser tão recente. no avançar do ponteiro e re-envio de emails, só se ouvem teclas batendo e a impressora incansável cuspindo insossa layouts repetidos. palavras poucas entremeiam suspiros longos. tem um copo de guaraná esquecido a caminho da escada. há olhares cansados e perguntas repetidas. meu amor foi dormir com raiva de mim pela minha ausência. será que ela sabe lá no fundo do peito, que nem deve sentir minha falta agora, que era trabalho? e que com trabalho eu não brinco. menos de 15 minutos pra 3 da manhã...e eu só penso em beijar a minha branca e dar o fora daqui. Ou melhor: vice-versa, que é pra poder não ter que parar os beijos tão cedo.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Bem Juntado
Por André Debevc
A gente não sabe mais dormir separado. E quando cai a madrugada de segunda-feira, depois de rolar mais de mil metros indo de lado a lado, lembramos com um quase sorriso de saudade no rosto que desaprendemos a dormir com um pedaço da cama desocupado. Chegamos naquele momento, raramente celebrado, onde os corpos só sossegam e descansam pra depois se cansar se um pedaço do seu pé pode me encontrar no meio da noite sem horário previamente acertado. Então vamos ver se vivemos, daqui por diante, sem faltas o nosso delicioso combinado: te dou casa na minha asa, e você me traz esse seu cheirinho gostoso de banho tomado. Não sei mais dormir separado, sem acordar à noite correndo o risco de ter o ante-braço mais lindo do mundo pelo meu peito docemente atravessado.
A gente não sabe mais dormir separado. E quando cai a madrugada de segunda-feira, depois de rolar mais de mil metros indo de lado a lado, lembramos com um quase sorriso de saudade no rosto que desaprendemos a dormir com um pedaço da cama desocupado. Chegamos naquele momento, raramente celebrado, onde os corpos só sossegam e descansam pra depois se cansar se um pedaço do seu pé pode me encontrar no meio da noite sem horário previamente acertado. Então vamos ver se vivemos, daqui por diante, sem faltas o nosso delicioso combinado: te dou casa na minha asa, e você me traz esse seu cheirinho gostoso de banho tomado. Não sei mais dormir separado, sem acordar à noite correndo o risco de ter o ante-braço mais lindo do mundo pelo meu peito docemente atravessado.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Imperma o quê?
Por André Debevc
A paz de vê-la dormindo o fazia suspirar mais fundo na companhia singela de um sorriso, destes do tipo doce, mas sem qualquer sinal de dentes. Covinhas leves na bochecha talvez. Brilho de felicidade nos olhos talvez. O calor da mão dela largada quase inconsciente sobre seu peito, subindo e descendo em longos movimentos quase letárgicos, trazia uma sensação de paz e complitude que sua alma nunca tinha experimentado. Em tardes assim, com a luz sumindo pela janela de sábado, a impermanência – tanto lembrada pelos budistas - parecia brincar de mágica de desaparecer para sempre. Dentre os mil mais de mil segredos que ela guardava, esta era apenas mais uma de suas espetaculares habilidades. Destas do tipo que o faziam achar que ele podia ser muita coisa. Até mesmo o homem mais feliz do mundo.
A paz de vê-la dormindo o fazia suspirar mais fundo na companhia singela de um sorriso, destes do tipo doce, mas sem qualquer sinal de dentes. Covinhas leves na bochecha talvez. Brilho de felicidade nos olhos talvez. O calor da mão dela largada quase inconsciente sobre seu peito, subindo e descendo em longos movimentos quase letárgicos, trazia uma sensação de paz e complitude que sua alma nunca tinha experimentado. Em tardes assim, com a luz sumindo pela janela de sábado, a impermanência – tanto lembrada pelos budistas - parecia brincar de mágica de desaparecer para sempre. Dentre os mil mais de mil segredos que ela guardava, esta era apenas mais uma de suas espetaculares habilidades. Destas do tipo que o faziam achar que ele podia ser muita coisa. Até mesmo o homem mais feliz do mundo.
Felicidade (em até 150 toques)
Por André Debevc
Quando percebeu, viu que era mais feliz do que pensou que pudesse ser. Teve até medo, mas mesmo assim decidiu não guardar pra si todo aquele sorriso.
Quando percebeu, viu que era mais feliz do que pensou que pudesse ser. Teve até medo, mas mesmo assim decidiu não guardar pra si todo aquele sorriso.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Limite, sim
Por André Debevc
Certo dia finalmente entendi, que pra nascer de novo, era preciso que eu morresse antes. E aí pois é, morri. E de morte matada mesmo, com dor e tudo. Só nunca agradeci quem me matou. Até porque acho que gratidão é uma dessas poucas coisas em que a gente tem que colocar limite mesmo.
Certo dia finalmente entendi, que pra nascer de novo, era preciso que eu morresse antes. E aí pois é, morri. E de morte matada mesmo, com dor e tudo. Só nunca agradeci quem me matou. Até porque acho que gratidão é uma dessas poucas coisas em que a gente tem que colocar limite mesmo.
Eu sou aquele ali
Por André Debevc
eu sou o cara que abre a porta do carro pra moça,
aquele sobre o peito de quem ela cruza o braço no meio da noite,
o sujeito que faz ela rir dançando engraçado na cama
antes mesmo do dia oficialmente começar.
eu sou a alma que se despiu de todas as armaduras pra ela
e agora canta em engarrafamento,
achando graça de tudo no caminho do castelo
onde ela inventa receitas e me conta mil casos de tios alucinados.
eu sou o doido que faz passinhos na sala antes de ir pro trabalho
sou o homem que descobriu um lado ainda melhor
sem que isso fosse só pra fazê-la mais feliz.
ela que colocou vitória no meu caminho,
ou foi vice-versa, não importa.
eu sou aquele ali do lado da moça
de unhas pintadas de vermelho escuro,
aquele ali feliz da vida com o coração batendo
de um jeito que nunca tinha sabido bater na vida.
eu sou o cara que abre a porta do carro pra moça,
aquele sobre o peito de quem ela cruza o braço no meio da noite,
o sujeito que faz ela rir dançando engraçado na cama
antes mesmo do dia oficialmente começar.
eu sou a alma que se despiu de todas as armaduras pra ela
e agora canta em engarrafamento,
achando graça de tudo no caminho do castelo
onde ela inventa receitas e me conta mil casos de tios alucinados.
eu sou o doido que faz passinhos na sala antes de ir pro trabalho
sou o homem que descobriu um lado ainda melhor
sem que isso fosse só pra fazê-la mais feliz.
ela que colocou vitória no meu caminho,
ou foi vice-versa, não importa.
eu sou aquele ali do lado da moça
de unhas pintadas de vermelho escuro,
aquele ali feliz da vida com o coração batendo
de um jeito que nunca tinha sabido bater na vida.
Amor lembrado
Por André Debevc
Com você eu só quis ser assim…o melhor dos seus namorados. Na verdade teve até um tempo em que quis ser eterno, mas acho que não tinha como ser desse jeito, um sujeito tão seriamente condenado. Então decidi eu que queria mesmo depois de milênios ser lembrado, como o melhor e mais feliz dos seus amados. O melhor beijo, a melhor língua, sempre o mais deliciosamente dedicado. E até quando, longe dali, fazendo as vezes de pedaço estilhaçado e ímpar do passado, no que tivesse atravessando a rua distraído ou correndo o mundo alucinado, eu só queria ser seu mais valioso e apreciado amor. Aquele que fizesse você sorrir (e quem sabe ter até um pouquinho de saudade paralítica, dessas que não movem nem um dedinho), um amor que merecesse e soubesse de algum jeito bobo, nosso e lindo, que é sim um amor muito bem guardado.
Com você eu só quis ser assim…o melhor dos seus namorados. Na verdade teve até um tempo em que quis ser eterno, mas acho que não tinha como ser desse jeito, um sujeito tão seriamente condenado. Então decidi eu que queria mesmo depois de milênios ser lembrado, como o melhor e mais feliz dos seus amados. O melhor beijo, a melhor língua, sempre o mais deliciosamente dedicado. E até quando, longe dali, fazendo as vezes de pedaço estilhaçado e ímpar do passado, no que tivesse atravessando a rua distraído ou correndo o mundo alucinado, eu só queria ser seu mais valioso e apreciado amor. Aquele que fizesse você sorrir (e quem sabe ter até um pouquinho de saudade paralítica, dessas que não movem nem um dedinho), um amor que merecesse e soubesse de algum jeito bobo, nosso e lindo, que é sim um amor muito bem guardado.
sexta-feira, novembro 09, 2007
Sina Danada
Por André Debevc
A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. Uns fazem dela segredo, outros bandeira. E assim há os que andam como se nunca tivessem a tido, e os que mancam deixando claro que ainda não a tem guardada como algo esquecido. Membro amputado em batalha, às vezes faz que formiga onde já não há nada, a tal da dor. Coça o vazio pinicando lembrança de outro tempo e até de outra vida. Dor afiada, traidora essa bandida, de vez em quando cutuca, só pra ter certeza que não foi esquecida, pois que é sina da qual o sujeito não pode escapar. Pobres dos que tem que aprender a viver com uma dor assim desse tipo, feito a de fratura eternamente mal reparada. Dorzinha dessa renitente, que vez por outra chia se o tempo vira de repente ou se um nome velho cruza nosso caminho sem olhar pros dois lados. A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. E com a danada de uma pergunta não respondida: será que foram mesmo amados?
A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. Uns fazem dela segredo, outros bandeira. E assim há os que andam como se nunca tivessem a tido, e os que mancam deixando claro que ainda não a tem guardada como algo esquecido. Membro amputado em batalha, às vezes faz que formiga onde já não há nada, a tal da dor. Coça o vazio pinicando lembrança de outro tempo e até de outra vida. Dor afiada, traidora essa bandida, de vez em quando cutuca, só pra ter certeza que não foi esquecida, pois que é sina da qual o sujeito não pode escapar. Pobres dos que tem que aprender a viver com uma dor assim desse tipo, feito a de fratura eternamente mal reparada. Dorzinha dessa renitente, que vez por outra chia se o tempo vira de repente ou se um nome velho cruza nosso caminho sem olhar pros dois lados. A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. E com a danada de uma pergunta não respondida: será que foram mesmo amados?
quarta-feira, outubro 17, 2007
Correria
Por André Debevc
Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Menininha impertinente, amiga de Morfeu, mocinha de sorriso largo, vento nos cabelos e um milhão de amigas. Chegou de mansinho, e foi me desenhando novos sorrisos, e foi reativando covinhas, me deixou até com vontade de fazer planos, a danada. Quando vi já tinha até capturado minha asa esquerda pra se aninhar quando a preguiça chega desavisada. Hoje ela atravessa o braço no meu peito no meio da noite, toma conta do meu velho apelido, me conta como foi seu dia. Eu na falta de palavras, brinco com interjeições, fico sorvendo seus beijos e cheirando o vôo que ela esconde na nuca, quem diria. Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Só não fui atrás porque ando ocupado decidindo o que fazer com tantos sorrisos.
Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Menininha impertinente, amiga de Morfeu, mocinha de sorriso largo, vento nos cabelos e um milhão de amigas. Chegou de mansinho, e foi me desenhando novos sorrisos, e foi reativando covinhas, me deixou até com vontade de fazer planos, a danada. Quando vi já tinha até capturado minha asa esquerda pra se aninhar quando a preguiça chega desavisada. Hoje ela atravessa o braço no meu peito no meio da noite, toma conta do meu velho apelido, me conta como foi seu dia. Eu na falta de palavras, brinco com interjeições, fico sorvendo seus beijos e cheirando o vôo que ela esconde na nuca, quem diria. Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Só não fui atrás porque ando ocupado decidindo o que fazer com tantos sorrisos.
Quase Férias (justificando a ausência)
Por André Debevc
Quando você fica feliz tudo fica mais fácil. Menos escrever. Com um sorriso na alma e mil planos na cabeça, quem tira férias é a palavra escrita.
Quando você fica feliz tudo fica mais fácil. Menos escrever. Com um sorriso na alma e mil planos na cabeça, quem tira férias é a palavra escrita.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Herança Simplória
Por André Debevc
De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.
Perdidos em seu closet desorganizado
se decompõe lentos na maresia
seu cinismo, frieza e capacidade rápida de esquecer.
Enterradas com você vão
a indiferença, o peito pequeno de memória curta,
a cumplicidade falsamente eterna
e os gestos de cuidado inexistentes
que não me cabem mais.
Jogadas ao vento como meu carinho
vão aqueles nossos planos, os desejos de sucesso
e a vontade de te ver feliz.
E caso encontre lembrança de mim que te faça sorrir
em meio à bagunça dos seus papéis errados,
pode cremar sem dor na alma,
como quando você passou a me conjugar no passado.
De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.
O resto já foi devidamente incinerado.
De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.
Perdidos em seu closet desorganizado
se decompõe lentos na maresia
seu cinismo, frieza e capacidade rápida de esquecer.
Enterradas com você vão
a indiferença, o peito pequeno de memória curta,
a cumplicidade falsamente eterna
e os gestos de cuidado inexistentes
que não me cabem mais.
Jogadas ao vento como meu carinho
vão aqueles nossos planos, os desejos de sucesso
e a vontade de te ver feliz.
E caso encontre lembrança de mim que te faça sorrir
em meio à bagunça dos seus papéis errados,
pode cremar sem dor na alma,
como quando você passou a me conjugar no passado.
De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.
O resto já foi devidamente incinerado.
quinta-feira, setembro 13, 2007
Ciuminho Retroativo
Por André Debevc
Dela só tenho ciúme do que veio antes. Ciúme assim do tipo mais bobo, tolamente infundado. Ciuminho retroativo, variação mais inofensiva dessa praga, nunca realmente parido ou provocado. Ciúme de coisa que não se pode desafiar, de alguém que habitou um passado. Ciúme até bonitinho que passa fácil com um belo beijo estalado. Dela só tenho ciúme do que veio antes. Antes de viver acordando com ela do meu lado.
Dela só tenho ciúme do que veio antes. Ciúme assim do tipo mais bobo, tolamente infundado. Ciuminho retroativo, variação mais inofensiva dessa praga, nunca realmente parido ou provocado. Ciúme de coisa que não se pode desafiar, de alguém que habitou um passado. Ciúme até bonitinho que passa fácil com um belo beijo estalado. Dela só tenho ciúme do que veio antes. Antes de viver acordando com ela do meu lado.
terça-feira, setembro 11, 2007
A Primeira Noite de Um Homem
Por André Debevc
O sol começava a dar o ar de sua graça no horizonte atrás do Pão de Açúcar pintando o céu daquele janeiro de lilás e laranja. Ajoelhado no sofá olhando os poucos carros que rasgavam a Jardim Botânico meu coração acelerado batia na boca e não me deixava dormir. O dia que ensaiava acordar me reservava uma resposta importante. Diria até que naquele verão de 1991 era a resposta (no exagero típico de adolescente) mais importante da minha vida. A menina mais linda de todo o universo – e que agora já era responsável pela minha primeira noite em claro – se pronunciaria sobre a sua escolha entre mim e outro moleque (penso agora em como é engraçado como aos 16 anos, você se coloca em situações como essa, disputando a atenção e o amor da menina mais linda que você já viu com um sujeito que atende pelo apelido de Rato).
Naquele dia nem eu nem Rato ficamos com ela. Era difícil demais escolher um, ela me diria mais tarde. E se ele pintou alguma bobagem no chão da rua, na frente da janela do segundo andar onde ela ficava, eu contra-ataquei com palavras sinceras e um coração acelerado tentando fazer ela mudar de opinião. Não adiantou. Ali o empate estava selado. Mas naquele dia, mesmo sem ninguém ganhar o beijo tão desejado, eu senti que perdi. Talvez a primeira e mais profunda de muitas outras derrotas que viriam no meu caminho amoroso. Rato nunca realmente a quis com coração. Estava na briga apenas porque ela era linda, e ele queria aquele troféu. O amor, por mais sincero que fosse – como depois eu comprovaria ao longo da vida – não me fortalecia em nada.
Semanas depois, ela voltaria para o interior – pois é, acho que todo homem na adolescência tem uma paixão que vem do interior – e eu e Rato ficaríamos no Rio, comparando quem afinal tinha chegado mais perto do beijo da menina mais linda do universo. Se minha memória não está me enganando, acho que foi ele, paciência. Vida que segue.
E a vida seguiu mesmo. Notícias da menina mais linda do universo, só espaçadas de uma tia dela que eu encontrava por ali na vizinhança. Até hoje quando passo em frente àquela janela de segundo andar penso em como eu ficava quando estava perto dela (da menina, não da tia). Meus olhos indecisos dançando entre a boca de milhares de sorrisos perfeitos e os olhos caramelo mais brilhantes e vivos que já vi. Como era linda. Seus cabelos longos, lisos e escuros que cismavam em se agarrar nos lábios que eu tanto queria beijar. Eu realmente amava aquela menina...
Mas o tempo passou. E de repente nunca mais se soube nada da linda menina. Eu já era homem feito. De barba na cara, já tinha me apaixonado, amado e sofrido. E viajava com meus amigos querendo colecionar conquistas e histórias pra contar em cidades distantes e pequenas. Feiras agropecuárias, feriados, férias de faculdade, carnavais. E lá pelos vinte e poucos anos de idade a diversão era passar o carnaval em Minas. Mais precisamente na cidade da família de um amigo de infância que ficava ainda mais divertida quando a gente chegava com tantos outros amigos.
A folia corria nos conformes com cerveja, idas à cachoeira, bagunça na casa alugada numa ruazinha transversal da cidadezinha e amassos aleatórios com conquistas fugazes de carnaval. No entra e sai da casa nunca trancada, a noite de domingo ficava pra trás com o desfile da única escola de samba da cidade. E depois de um dia de sol e cerveja nos tombos da cachoeira, eu já vagava pela rua indo pra casa de uma vez por todas. Rumava ainda indeciso até que depois de tantos anos querendo ver a menina mais linda do universo, meus olhos atenderam minhas velhas preces e, abertos, realmente a viram.
Era ela, distraída, em pé sozinha no meio da rua de paralelepípedos e sonhos. E antes que meu coração saísse pela boca, consegui passar pela garganta o apelido dela e gritei. NUNCA na vida alguém se virou para mim numa câmera tão lenta. E em plena rua principal de uma cidade pequenininha perdida no cantinho esquerdo de Minas Gerais, o meu mundo parou.
A surpresa de encontrá-la ali naquele fim de mundo não era só minha. Quase seis anos tinham se passado e ela só tinha ficado ainda mais linda, a menina mais linda do universo. Agora uma mulher. Agora ali sorrindo o seu sorriso perfeito a poucos passos de mim. Conversamos nos olhando nos olhos mais do que nunca. Nos abraçamos, nos demos as mãos. Não acreditamos juntos.
E no meio da folia, tudo pareceu sumir. E nossos silêncios impontuais eram quebrados por comentários sobre aquela coisa do destino, nos colocando ali, frente à frente depois de tanto tempo. Relembramos nossa saga. Meus poemas e a rua pintada. Nunca tínhamos esquecido um do outro. E aí sem saber exatamente como, eu a beijei numa madrugada de carnaval. E foi bom. E foi muito melhor do que eu tinha sonhado tantas vezes quando adolescente. E ali, num dos lugares mais perdidos do planeta, eu me senti o dono do mundo. Eu e a menina mais linda do universo. Saímos dali de mãos dadas e sorrisos estampados. O que tinha que ser, finalmente era – lembro que pensei.
Depois disso namoramos um namoro à distancia, que não me deixou viver com ela nem um milésimo do que queria ter vivido. Mas a história já estava escrita. Um amor com um fim. Anos depois de passar a primeira noite inteira acordado por alguém tive muito mais do que pensava. E fui namorado da menina mais linda do universo. Uma menina que eu não soube ver mulher, e que há pouco um site desses de relacionamento me trouxe de volta. Casada, bem sucedida e feliz como ela merece ser. Linda com os olhos brilhantes e doces como pra mim ela sempre será.
O sol começava a dar o ar de sua graça no horizonte atrás do Pão de Açúcar pintando o céu daquele janeiro de lilás e laranja. Ajoelhado no sofá olhando os poucos carros que rasgavam a Jardim Botânico meu coração acelerado batia na boca e não me deixava dormir. O dia que ensaiava acordar me reservava uma resposta importante. Diria até que naquele verão de 1991 era a resposta (no exagero típico de adolescente) mais importante da minha vida. A menina mais linda de todo o universo – e que agora já era responsável pela minha primeira noite em claro – se pronunciaria sobre a sua escolha entre mim e outro moleque (penso agora em como é engraçado como aos 16 anos, você se coloca em situações como essa, disputando a atenção e o amor da menina mais linda que você já viu com um sujeito que atende pelo apelido de Rato).
Naquele dia nem eu nem Rato ficamos com ela. Era difícil demais escolher um, ela me diria mais tarde. E se ele pintou alguma bobagem no chão da rua, na frente da janela do segundo andar onde ela ficava, eu contra-ataquei com palavras sinceras e um coração acelerado tentando fazer ela mudar de opinião. Não adiantou. Ali o empate estava selado. Mas naquele dia, mesmo sem ninguém ganhar o beijo tão desejado, eu senti que perdi. Talvez a primeira e mais profunda de muitas outras derrotas que viriam no meu caminho amoroso. Rato nunca realmente a quis com coração. Estava na briga apenas porque ela era linda, e ele queria aquele troféu. O amor, por mais sincero que fosse – como depois eu comprovaria ao longo da vida – não me fortalecia em nada.
Semanas depois, ela voltaria para o interior – pois é, acho que todo homem na adolescência tem uma paixão que vem do interior – e eu e Rato ficaríamos no Rio, comparando quem afinal tinha chegado mais perto do beijo da menina mais linda do universo. Se minha memória não está me enganando, acho que foi ele, paciência. Vida que segue.
E a vida seguiu mesmo. Notícias da menina mais linda do universo, só espaçadas de uma tia dela que eu encontrava por ali na vizinhança. Até hoje quando passo em frente àquela janela de segundo andar penso em como eu ficava quando estava perto dela (da menina, não da tia). Meus olhos indecisos dançando entre a boca de milhares de sorrisos perfeitos e os olhos caramelo mais brilhantes e vivos que já vi. Como era linda. Seus cabelos longos, lisos e escuros que cismavam em se agarrar nos lábios que eu tanto queria beijar. Eu realmente amava aquela menina...
Mas o tempo passou. E de repente nunca mais se soube nada da linda menina. Eu já era homem feito. De barba na cara, já tinha me apaixonado, amado e sofrido. E viajava com meus amigos querendo colecionar conquistas e histórias pra contar em cidades distantes e pequenas. Feiras agropecuárias, feriados, férias de faculdade, carnavais. E lá pelos vinte e poucos anos de idade a diversão era passar o carnaval em Minas. Mais precisamente na cidade da família de um amigo de infância que ficava ainda mais divertida quando a gente chegava com tantos outros amigos.
A folia corria nos conformes com cerveja, idas à cachoeira, bagunça na casa alugada numa ruazinha transversal da cidadezinha e amassos aleatórios com conquistas fugazes de carnaval. No entra e sai da casa nunca trancada, a noite de domingo ficava pra trás com o desfile da única escola de samba da cidade. E depois de um dia de sol e cerveja nos tombos da cachoeira, eu já vagava pela rua indo pra casa de uma vez por todas. Rumava ainda indeciso até que depois de tantos anos querendo ver a menina mais linda do universo, meus olhos atenderam minhas velhas preces e, abertos, realmente a viram.
Era ela, distraída, em pé sozinha no meio da rua de paralelepípedos e sonhos. E antes que meu coração saísse pela boca, consegui passar pela garganta o apelido dela e gritei. NUNCA na vida alguém se virou para mim numa câmera tão lenta. E em plena rua principal de uma cidade pequenininha perdida no cantinho esquerdo de Minas Gerais, o meu mundo parou.
A surpresa de encontrá-la ali naquele fim de mundo não era só minha. Quase seis anos tinham se passado e ela só tinha ficado ainda mais linda, a menina mais linda do universo. Agora uma mulher. Agora ali sorrindo o seu sorriso perfeito a poucos passos de mim. Conversamos nos olhando nos olhos mais do que nunca. Nos abraçamos, nos demos as mãos. Não acreditamos juntos.
E no meio da folia, tudo pareceu sumir. E nossos silêncios impontuais eram quebrados por comentários sobre aquela coisa do destino, nos colocando ali, frente à frente depois de tanto tempo. Relembramos nossa saga. Meus poemas e a rua pintada. Nunca tínhamos esquecido um do outro. E aí sem saber exatamente como, eu a beijei numa madrugada de carnaval. E foi bom. E foi muito melhor do que eu tinha sonhado tantas vezes quando adolescente. E ali, num dos lugares mais perdidos do planeta, eu me senti o dono do mundo. Eu e a menina mais linda do universo. Saímos dali de mãos dadas e sorrisos estampados. O que tinha que ser, finalmente era – lembro que pensei.
Depois disso namoramos um namoro à distancia, que não me deixou viver com ela nem um milésimo do que queria ter vivido. Mas a história já estava escrita. Um amor com um fim. Anos depois de passar a primeira noite inteira acordado por alguém tive muito mais do que pensava. E fui namorado da menina mais linda do universo. Uma menina que eu não soube ver mulher, e que há pouco um site desses de relacionamento me trouxe de volta. Casada, bem sucedida e feliz como ela merece ser. Linda com os olhos brilhantes e doces como pra mim ela sempre será.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Gritos de Passagem
Por André Debevc
Deus sabe como te xinguei. Deus, entre uma distração e outra, e meus amigos sabem como eu te xinguei. Tinha até um ritual, diziam eles (os amigos, porque Deus nunca se manifestou). No início estranhavam calados, mas o tempo foi escorrendo e eles passaram a fazer parte de tudo – penso que amigos de verdade são mesmo essa espécie de cúmplice calado, mesmo na mais profunda reprovação - mas ninguém protestava. Ninguém estranhava a minha dor e nem o meu ressentimento. E aí tudo passou a ser meio como que uma rotina oficial quando eu passava pelos seus pedaços da cidade. A conversa no carro cessava, baixava-se até o som de algo que tivesse tocando. Com frio ou com chuva, noite ou dia. O vidro descia, e lá do canto mais magoado de minha alma vinha o grito mais primal e ofensivo que alguém no universo podia lançar contra você. O que era dito na verdade era o que menos importava. Valia sim a força dos meus pulmões. Contava (como se tivesse um júri sempre comigo) expurgar a raiva e a dor que você me causou. Um protesto esperado. Durante meses foi assim. Sempre. E o giro das rodas continuava, meus comparsas subiam os vidros, o volume do som e retomavam o assunto como se nada tivesse acontecido, apos os segundos de silêncio em que solidarizavam comigo. Entre homens, respeita-se o soldado caído. Protocolo triste de um apocalipse sinalizado.
Tudo seguia sua seca normalidade, até que numa noite no caminho de ida para uma das partes mais idiotas da cidade, nos aproximávamos de um dos seus redutos. Baixou-se o som. Fez-se silêncio. Desceram solenemente os vidros que davam pro seu mundo. E não se ouviu um suspiro meu. Minhas palavras de ofensa para você tinham acabado. E se não tinham acabado tinham cansado daquele exercício inútil. Dias depois, até comentaram o meu silêncio: – Ele nem gritou quando a gente foi pra parte mais idiota da cidade. Alguns nem acreditaram. Eu só sorri. Em silêncio como passei a viver meus lutos. Calado como é melhor ser quando não se tem nada de bom a dizer sobre alguém.
Deus sabe como te xinguei. Deus, entre uma distração e outra, e meus amigos sabem como eu te xinguei. Tinha até um ritual, diziam eles (os amigos, porque Deus nunca se manifestou). No início estranhavam calados, mas o tempo foi escorrendo e eles passaram a fazer parte de tudo – penso que amigos de verdade são mesmo essa espécie de cúmplice calado, mesmo na mais profunda reprovação - mas ninguém protestava. Ninguém estranhava a minha dor e nem o meu ressentimento. E aí tudo passou a ser meio como que uma rotina oficial quando eu passava pelos seus pedaços da cidade. A conversa no carro cessava, baixava-se até o som de algo que tivesse tocando. Com frio ou com chuva, noite ou dia. O vidro descia, e lá do canto mais magoado de minha alma vinha o grito mais primal e ofensivo que alguém no universo podia lançar contra você. O que era dito na verdade era o que menos importava. Valia sim a força dos meus pulmões. Contava (como se tivesse um júri sempre comigo) expurgar a raiva e a dor que você me causou. Um protesto esperado. Durante meses foi assim. Sempre. E o giro das rodas continuava, meus comparsas subiam os vidros, o volume do som e retomavam o assunto como se nada tivesse acontecido, apos os segundos de silêncio em que solidarizavam comigo. Entre homens, respeita-se o soldado caído. Protocolo triste de um apocalipse sinalizado.
Tudo seguia sua seca normalidade, até que numa noite no caminho de ida para uma das partes mais idiotas da cidade, nos aproximávamos de um dos seus redutos. Baixou-se o som. Fez-se silêncio. Desceram solenemente os vidros que davam pro seu mundo. E não se ouviu um suspiro meu. Minhas palavras de ofensa para você tinham acabado. E se não tinham acabado tinham cansado daquele exercício inútil. Dias depois, até comentaram o meu silêncio: – Ele nem gritou quando a gente foi pra parte mais idiota da cidade. Alguns nem acreditaram. Eu só sorri. Em silêncio como passei a viver meus lutos. Calado como é melhor ser quando não se tem nada de bom a dizer sobre alguém.
Tem Dia
Por André Debevc
Todo dia passo por uma moça que me lembra muito seu jeito, seu gosto e sua cor. Ela tem seu ar, sua pele e até seu jeito de desviar o olhar quase tímida quando se pega sendo admirada sem maior aviso. Tem dias que penso em colocá-la na boca, pra lembrar seu calor e relembrar seu sexo, mas aí lembro em como você me envenenou e mudo de idéia rapidinho.
Todo dia passo por uma moça que me lembra muito seu jeito, seu gosto e sua cor. Ela tem seu ar, sua pele e até seu jeito de desviar o olhar quase tímida quando se pega sendo admirada sem maior aviso. Tem dias que penso em colocá-la na boca, pra lembrar seu calor e relembrar seu sexo, mas aí lembro em como você me envenenou e mudo de idéia rapidinho.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Prato Pronto
Por André Debevc
Dentro de todo pássaro voa uma libélula. Inseto devorado, prato pronto para fazer cócegas na barriga do pássaro e fazê-lo voar ainda mais alto.
Dentro de todo pássaro voa uma libélula. Inseto devorado, prato pronto para fazer cócegas na barriga do pássaro e fazê-lo voar ainda mais alto.
sábado, agosto 18, 2007
Mais de Mil Segredos
Por André Debevc
Em um castelo no térreo, sem calabouços ou escadas, mora uma moça sem tranças com mais de mil segredos que atende secretamente por vossa palhaceza. Dela sempre quis se saber mais de mil coisas sem precisar fazer uma só pergunta. Até hoje só se sabe que dela não se pede beijo e nem coice se leva. E que privilegiado existe que conheça o cheiro de sua nuca. Mas só porque noite dessas de frio ela se distraiu entre uma piscada e outra de história que ela já sabia até de trás pra frente. É uma menina impertinente, dizem. Espoleta inqueita, admite que sofre o ônus da eterna indecisão, e aperta os olhos castanhos antes de seguir quase saltitante pra qualquer outro lado. A única certeza de que se tem notícia por aqui, grande reino cinza onde a moça habita, é que dela ainda há muito por saber. Desconfiam se ela teria sido uma menina que roubava livros, se perguntam se viveu cem anos de solidão ou se namorou James Lins. Morrem de vergonha em perguntar se teria ela achado seu mindinho, mas são doidos pra descobrir se passou por ritos na infância ou se é misteriosa assim porque guarda secretamente notícias de um seqüestro. A moça dos mais de mil segredos tem um quase muro de sorrisos e doce sotaque envolvendo seu reino secreto. Lá ela passeia livre, em família, dançando feito criança em boliches, com um coração imenso e quente que só quem vem láaaaa de um outro reino, província distante, pode ter. Mas grandes enigmas envolvem vossa palhaceza...Como se faz para que ela não represe seu beijo, ou me jogue a sua âncora de companhia em abraços? Qual será o segredo pro seu carinho? Existirá uma passagem invisível para doces amassos? Será que, mesmo quando dorme, tem as mãos frias? Será que ela faz bico quando sonha, ou fica de manha quando acorda sem hora pra se atrasar? A moça dos mais de mil segredos, vossa palhaceza: não gosta de pizza e gosta de verde. Mas será que um dia ela se distrai e se deixa gostar de mim?
Em um castelo no térreo, sem calabouços ou escadas, mora uma moça sem tranças com mais de mil segredos que atende secretamente por vossa palhaceza. Dela sempre quis se saber mais de mil coisas sem precisar fazer uma só pergunta. Até hoje só se sabe que dela não se pede beijo e nem coice se leva. E que privilegiado existe que conheça o cheiro de sua nuca. Mas só porque noite dessas de frio ela se distraiu entre uma piscada e outra de história que ela já sabia até de trás pra frente. É uma menina impertinente, dizem. Espoleta inqueita, admite que sofre o ônus da eterna indecisão, e aperta os olhos castanhos antes de seguir quase saltitante pra qualquer outro lado. A única certeza de que se tem notícia por aqui, grande reino cinza onde a moça habita, é que dela ainda há muito por saber. Desconfiam se ela teria sido uma menina que roubava livros, se perguntam se viveu cem anos de solidão ou se namorou James Lins. Morrem de vergonha em perguntar se teria ela achado seu mindinho, mas são doidos pra descobrir se passou por ritos na infância ou se é misteriosa assim porque guarda secretamente notícias de um seqüestro. A moça dos mais de mil segredos tem um quase muro de sorrisos e doce sotaque envolvendo seu reino secreto. Lá ela passeia livre, em família, dançando feito criança em boliches, com um coração imenso e quente que só quem vem láaaaa de um outro reino, província distante, pode ter. Mas grandes enigmas envolvem vossa palhaceza...Como se faz para que ela não represe seu beijo, ou me jogue a sua âncora de companhia em abraços? Qual será o segredo pro seu carinho? Existirá uma passagem invisível para doces amassos? Será que, mesmo quando dorme, tem as mãos frias? Será que ela faz bico quando sonha, ou fica de manha quando acorda sem hora pra se atrasar? A moça dos mais de mil segredos, vossa palhaceza: não gosta de pizza e gosta de verde. Mas será que um dia ela se distrai e se deixa gostar de mim?
quarta-feira, agosto 08, 2007
quinta-feira, agosto 02, 2007
Nem todo final consegue ser feliz
Por André Debevc
“Melhor uma dor com fim do que uma agonia sem fim.” Não, não esta frase não é de Sêneca e nem de nenhum outro filósofo ou pensador zen pregando o desapego. É uma frase de minha bisavó. Ou pelo menos é a ela que minha mãe costuma atribuir o dito. A velha dona Mariquinha, casada com um dos homens mais metódicos da Araguari do século passado (diz a lenda que as pessoas acertavam o relógio pela hora em que meu bisavô saía do trabalho para almoçar em casa), tinha razão. Finais – ardentes, insossos, trágicos, felizes, previsíveis – quaisquer sejam eles, são sempre necessários.
Histórias abertas são feridas que nunca cicatrizam. Produzem gente que vaga por aí com bolsos cheios de pontos finais nunca colocados, pessoas que tentam andar para frente olhando para trás. Gente que manca da alma e sente sempre um gosto estranho quando engole seco. E pensando nessa gente, lembro de um livro, que li ainda adolescente, com um nome muito sugestivo, desses que deixa claro o quanto finais são importantes: “Todas as histórias de amor terminam mal”. Já concordei e discordei do titulo mil vezes. Hoje só sei que toda história PRECISA terminar. Seja ela de amor, seja de ódio – indiferença não, porque indiferença não presta pra nada, e é analfabeta de pai e mão pra falar bem a verdade.
E não sei se é a época do ano, cheia de finais de temporada na tv a cabo, ou se foi a minha amiga Marina (www.lebalmasque.blogspot.com) charlando com o assunto, mas sei que nestes dias, finais, começos e arquivos mortos emocionais pairam sobre a minha cabeça. Penso, peno, penso e lembro de finais que vivi e uns que vagam sem fecho por aí – cheios de coisa pra dizer que nunca serão ditas e cheios de silêncios por fazer que nunca serão feitos. Como eu gostaria de tê-los vivido...estaria menos fragmentário, eu acho.
Somos personagens eternamente em construção. Frutos de cada história, levemente alterados a cada final. A canalhice cometida com alguém que você amava, o amor que não soubemos corresponder, a paixão errada, a dor de ter sido trocado, a mágoa de ter sido deixado, a alegria vingativa (e sem nenhum porque) de deixar, o reencontro que não significou nada, enfim tudo modifica imperceptivelmente e para sempre quem somos de um jeito ou de outro.
Fins, afins, sem fins, ser-a-fim. Me ocorre agora como não querer que algo tenha acabado é completamente diferente de não querer que tenha tido um fim. Eu já quis que as poucas coisas que amei de verdade nessa vida nunca acabassem, mas acho que sempre soube – inundado de melancolia e borboletas nucleares no estômago - que todas precisavam, alguma hora, ter um fim. Mas nem todas tiveram esta sorte.
“Melhor uma dor com fim do que uma agonia sem fim.” Não, não esta frase não é de Sêneca e nem de nenhum outro filósofo ou pensador zen pregando o desapego. É uma frase de minha bisavó. Ou pelo menos é a ela que minha mãe costuma atribuir o dito. A velha dona Mariquinha, casada com um dos homens mais metódicos da Araguari do século passado (diz a lenda que as pessoas acertavam o relógio pela hora em que meu bisavô saía do trabalho para almoçar em casa), tinha razão. Finais – ardentes, insossos, trágicos, felizes, previsíveis – quaisquer sejam eles, são sempre necessários.
Histórias abertas são feridas que nunca cicatrizam. Produzem gente que vaga por aí com bolsos cheios de pontos finais nunca colocados, pessoas que tentam andar para frente olhando para trás. Gente que manca da alma e sente sempre um gosto estranho quando engole seco. E pensando nessa gente, lembro de um livro, que li ainda adolescente, com um nome muito sugestivo, desses que deixa claro o quanto finais são importantes: “Todas as histórias de amor terminam mal”. Já concordei e discordei do titulo mil vezes. Hoje só sei que toda história PRECISA terminar. Seja ela de amor, seja de ódio – indiferença não, porque indiferença não presta pra nada, e é analfabeta de pai e mão pra falar bem a verdade.
E não sei se é a época do ano, cheia de finais de temporada na tv a cabo, ou se foi a minha amiga Marina (www.lebalmasque.blogspot.com) charlando com o assunto, mas sei que nestes dias, finais, começos e arquivos mortos emocionais pairam sobre a minha cabeça. Penso, peno, penso e lembro de finais que vivi e uns que vagam sem fecho por aí – cheios de coisa pra dizer que nunca serão ditas e cheios de silêncios por fazer que nunca serão feitos. Como eu gostaria de tê-los vivido...estaria menos fragmentário, eu acho.
Somos personagens eternamente em construção. Frutos de cada história, levemente alterados a cada final. A canalhice cometida com alguém que você amava, o amor que não soubemos corresponder, a paixão errada, a dor de ter sido trocado, a mágoa de ter sido deixado, a alegria vingativa (e sem nenhum porque) de deixar, o reencontro que não significou nada, enfim tudo modifica imperceptivelmente e para sempre quem somos de um jeito ou de outro.
Fins, afins, sem fins, ser-a-fim. Me ocorre agora como não querer que algo tenha acabado é completamente diferente de não querer que tenha tido um fim. Eu já quis que as poucas coisas que amei de verdade nessa vida nunca acabassem, mas acho que sempre soube – inundado de melancolia e borboletas nucleares no estômago - que todas precisavam, alguma hora, ter um fim. Mas nem todas tiveram esta sorte.
segunda-feira, julho 30, 2007
O Fim das Lacunas Vazias
Por André Debevc
Vamos preencher as lacunas, colocar o passado pra dormir. É hora de esquecer tudo que vivemos até agora, suspender lembranças e lambanças emocionais e começar do zero. Pode levantar da cama hoje resolvida, limpa, zerada. Pronta para escrever novas páginas de uma história que escolha só a minha melhor presença. Vamos celebrar a ausência de fantasmas. As mágoas estão todas suspensas, os velhos vícios de saudade estão todos curados. Já é hora de deixar o passado dormir. Deixar tudo que veio antes fazer sua sesta, sonhar pra sempre as mil maravilhas de ser pretérito, de delirar ter sido perfeito. O momento, você bem sabe, é de ocupar com alegria o que andava, por escolha nossa sim, até tranquilamente desocupado. É hora de entreter espaços antes vazios com os primeiros raios de promessas que já vêm formigando no horizonte. A história que chega tem final feliz, e logo no primeiro parágrafo, onde artesãos e estetas confeccionam protagonistas, tem duas lacunas perfeitas esperando o recheio muito mais do que merecido: os nossos nomes.
Vamos preencher as lacunas, colocar o passado pra dormir. É hora de esquecer tudo que vivemos até agora, suspender lembranças e lambanças emocionais e começar do zero. Pode levantar da cama hoje resolvida, limpa, zerada. Pronta para escrever novas páginas de uma história que escolha só a minha melhor presença. Vamos celebrar a ausência de fantasmas. As mágoas estão todas suspensas, os velhos vícios de saudade estão todos curados. Já é hora de deixar o passado dormir. Deixar tudo que veio antes fazer sua sesta, sonhar pra sempre as mil maravilhas de ser pretérito, de delirar ter sido perfeito. O momento, você bem sabe, é de ocupar com alegria o que andava, por escolha nossa sim, até tranquilamente desocupado. É hora de entreter espaços antes vazios com os primeiros raios de promessas que já vêm formigando no horizonte. A história que chega tem final feliz, e logo no primeiro parágrafo, onde artesãos e estetas confeccionam protagonistas, tem duas lacunas perfeitas esperando o recheio muito mais do que merecido: os nossos nomes.
terça-feira, julho 17, 2007
Envelope Errado
Por André Debevc
O tempo trai e distrai. Tira de foco a dor que a gente acha que não vai passar nunca. E quando a gente acha que o corte virou cicatriz, organiza a casa e acaba abrindo um envelope pardo errado. E vendo fotos e lendo coisas que escrevi há milhões de anos, descobri que te amava muito mais do que eu podia lembrar.
O tempo trai e distrai. Tira de foco a dor que a gente acha que não vai passar nunca. E quando a gente acha que o corte virou cicatriz, organiza a casa e acaba abrindo um envelope pardo errado. E vendo fotos e lendo coisas que escrevi há milhões de anos, descobri que te amava muito mais do que eu podia lembrar.
segunda-feira, julho 16, 2007
Repetição (em apenas 150 toques)
Por André Debevc
Velhos nomes acenam novas promessas. Safra fresca de sorrisos na volta pra casa, onde o dia raia o horizonte e a esperança sobrevoa a cabeça.
Velhos nomes acenam novas promessas. Safra fresca de sorrisos na volta pra casa, onde o dia raia o horizonte e a esperança sobrevoa a cabeça.
O Prisioneiro
Por André Debevc
Agora você já tem um nome, bem eterno que só mulheres e estrelas carregam. E eu já tenho o que balbuciar em sonho. Já tenho o que sonhar balbuciar acordado. Já posso dizer aos quatro ventos que te quero, se te quero, como quero - juro que ainda não decidi. Você agora carrega um nome que te protege, capa que te faz irreconhecível, escudo invisível contra a insensibilidade e a rotina que deixaram de brilhar quando ouviam a sua voz. Mas relaxe moça, você e eu estamos salvos. Começamos a conjugar esse tempo onde você já pode me mandar beijos na boca, pode até de um jeito quase silencioso brincar um pouquinho de louca e me confessar mais que uma fantasia. Quando quiser, você já tem a sua alforria para me contar sonhos, desejos e todas as mais secretas vontades. Você está livre para narrar e viver todo um paralelo, assim até tangível, e unicamente nosso. Sem proibições de beijos ou impedimentos para uma tarde toda dedicada a cheirar somente a sua nuca. Agora que você fez sua senha, venha doce Lisbela. Brinque um pouco de eu te deixar sem palavras, te encontrar com beijos na boca, te encher de suspiros e sorrisos. Você está segura nesse quase anonimato. Nada aqui no meu peito, único lugar onde você atende por este nome, nada pode te machucar. Para proteger seu nome me fiz prisioneiro. Refém de um cheiro e gosto que ando louco para saber até de olhos fechados.
Agora você já tem um nome, bem eterno que só mulheres e estrelas carregam. E eu já tenho o que balbuciar em sonho. Já tenho o que sonhar balbuciar acordado. Já posso dizer aos quatro ventos que te quero, se te quero, como quero - juro que ainda não decidi. Você agora carrega um nome que te protege, capa que te faz irreconhecível, escudo invisível contra a insensibilidade e a rotina que deixaram de brilhar quando ouviam a sua voz. Mas relaxe moça, você e eu estamos salvos. Começamos a conjugar esse tempo onde você já pode me mandar beijos na boca, pode até de um jeito quase silencioso brincar um pouquinho de louca e me confessar mais que uma fantasia. Quando quiser, você já tem a sua alforria para me contar sonhos, desejos e todas as mais secretas vontades. Você está livre para narrar e viver todo um paralelo, assim até tangível, e unicamente nosso. Sem proibições de beijos ou impedimentos para uma tarde toda dedicada a cheirar somente a sua nuca. Agora que você fez sua senha, venha doce Lisbela. Brinque um pouco de eu te deixar sem palavras, te encontrar com beijos na boca, te encher de suspiros e sorrisos. Você está segura nesse quase anonimato. Nada aqui no meu peito, único lugar onde você atende por este nome, nada pode te machucar. Para proteger seu nome me fiz prisioneiro. Refém de um cheiro e gosto que ando louco para saber até de olhos fechados.
sexta-feira, junho 29, 2007
Segundos idiotas
Por André Debevc
nina simone canta
o carro preto acelera
um dia cinza
de asfalto molhado
e o coração seco
rachando os lábios
de cem tipos de silêncio.
o limpador vai e vem.
eu não vou,
você não vem.
mas uma saudade nem sei bem do que,
idiota, me fez pensar na gente.
nina simone canta
o carro preto acelera
um dia cinza
de asfalto molhado
e o coração seco
rachando os lábios
de cem tipos de silêncio.
o limpador vai e vem.
eu não vou,
você não vem.
mas uma saudade nem sei bem do que,
idiota, me fez pensar na gente.
Eu só sei
Por André Debevc
Eu não sei como eu sei. Só olho pra você e sei. E se continuar me olhando com essa cara de interrogação, vou ter que te responder com um beijo.
Eu não sei como eu sei. Só olho pra você e sei. E se continuar me olhando com essa cara de interrogação, vou ter que te responder com um beijo.
Jogado às leoas
Por André Debevc
Tonto e sangrando ainda pude ver
meu coração arrancado, pulsando na sua mão direita
quando aquela porta se fechou pra sempre.
Nos seus olhos,
a indiferença pensou em se esconder
mas percebeu que não ia dar tempo.
Foi a última vez que te vi.
tínhamos acabado de ser separados...
Mal tínhamos deixado o sábado
e agora era só uma questão de tempo
pra virem devorar o que sobrou de mim.
Eu estava de novo jogado às leoas.
Logo eu que criei uma religião,
com uma deusa falível, eu sei.
Logo eu que fiz do nosso amor uma nação,
com bandeira, hino e tudo,
logo eu acabei ali, deixado pra morrer sozinho.
Agora você se embriaga com sua trupe e sua liberdade
e eu engasgo na saudade um estranho desejo de nunca mais saber de você.
Tomara que as leoas me devorem,
quem sabe elas conseguem acabar o trabalho que você começou,
tomara que não sobre um pedaço de mim pra contar história.
Acabem logo com isso, me destrocem,
porque os dias têm sido cruéis demais
e não suporto mais esse coquetel de agonia e indiferença.
Você nem ficou pra ver seu estrago, menina.
Já tinha até esquecido que você só fica mesmo com o que precisa...
Jogado de um lado pro outro, entre mordidas e arranhões,
lembro que vou acordar intranqüilo e pensando em você. Dane-se.
O que dói mesmo nem é acordar com o mesmo buraco,
o que dói é lembrar que acreditei que fossemos um time,
que fossemos filhos da lua,
que achei que éramos mesmo um só
antes de até Zeus ficar com medo do nosso amor.
Tonto e sangrando ainda pude ver
meu coração arrancado, pulsando na sua mão direita
quando aquela porta se fechou pra sempre.
Nos seus olhos,
a indiferença pensou em se esconder
mas percebeu que não ia dar tempo.
Foi a última vez que te vi.
tínhamos acabado de ser separados...
Mal tínhamos deixado o sábado
e agora era só uma questão de tempo
pra virem devorar o que sobrou de mim.
Eu estava de novo jogado às leoas.
Logo eu que criei uma religião,
com uma deusa falível, eu sei.
Logo eu que fiz do nosso amor uma nação,
com bandeira, hino e tudo,
logo eu acabei ali, deixado pra morrer sozinho.
Agora você se embriaga com sua trupe e sua liberdade
e eu engasgo na saudade um estranho desejo de nunca mais saber de você.
Tomara que as leoas me devorem,
quem sabe elas conseguem acabar o trabalho que você começou,
tomara que não sobre um pedaço de mim pra contar história.
Acabem logo com isso, me destrocem,
porque os dias têm sido cruéis demais
e não suporto mais esse coquetel de agonia e indiferença.
Você nem ficou pra ver seu estrago, menina.
Já tinha até esquecido que você só fica mesmo com o que precisa...
Jogado de um lado pro outro, entre mordidas e arranhões,
lembro que vou acordar intranqüilo e pensando em você. Dane-se.
O que dói mesmo nem é acordar com o mesmo buraco,
o que dói é lembrar que acreditei que fossemos um time,
que fossemos filhos da lua,
que achei que éramos mesmo um só
antes de até Zeus ficar com medo do nosso amor.
Codinome
Por André Debevc
te peço um codinome
pra te beijar em outro universo,
pra confessar o meu carinho
e ficar um pouquinho mais perto de você.
só te peço
um nome secreto
pra te libertar de tudo que nos impossibilita.
um segredo só nosso,
inofensivo e paralelo
que me deixe te pegar pela mão
e te mostrar uns versos e universos
onde você sorri mais perto
e me beija bem devagarinho
te peço um codinome
porque não posso te agarrar nem um pouquinho.
te peço um codinome
pra te beijar em outro universo,
pra confessar o meu carinho
e ficar um pouquinho mais perto de você.
só te peço
um nome secreto
pra te libertar de tudo que nos impossibilita.
um segredo só nosso,
inofensivo e paralelo
que me deixe te pegar pela mão
e te mostrar uns versos e universos
onde você sorri mais perto
e me beija bem devagarinho
te peço um codinome
porque não posso te agarrar nem um pouquinho.
Seu futuro ex
Por André Debevc
Com o ar mais despreocupado do mundo ele vaga pelo universo. Três ou quatro respostas prontas no bolso costurado pela mãe, ele domina seis sorrisos diferentes fingindo não estar nem aí. Ele sabe que tem mais que merece, ele está ciente que é coisa de outra encarnação, mil karmas a seu favor, sei lá...mas ele também sabe que o relógio anda pra trás, subtrai momentos, reduz segundos, decepando lembranças de quando você sentia o vento da praia na cara, filtro solar 60 e seja o que deus quiser. Ele finge que não, mas sabe sem saber exatamente como que você e ele um dia vão ter um fim.
E aí sem saber bem porque, em alguns dias lindos ele amanhece ciumento e intranqüilo, como quem despenca do centésimo andar, como quem pisa apressado cercado de minas e incertezas. É um homem povoado de sombras futuras, do que ele viveu um dia, do que aconteceu e foi embora. O dia que raiou, inevitável e silencioso como a promessa de que tudo é passageiro. E ele coça a cueca no caminho do banheiro, e ele boceja no caminho da cozinha. Alguma hora tudo passa, ele pensa. Alguma hora a festa acaba. Aqueles olhos, aqueles traços finos e convidativos nos lábios inferiores, aquela cintura fina e os horizontes eternos em seus olhos...aquilo tudo tinha mesmo que se pôr, como o sol que morre fugindo do leblon e do pontal, como tudo que é prometido só com um quarto de vontade.
É um sujeito que já pensa muito menos nos seus olhos castanhos, seus dentes ordenados. Acabar é inevitável, ele sabe. Mas ele finge que não sabe. Ele tem oitocentas desculpas, e ele pede a ajuda do tempo, da família, de qualquer coisa que arraste a ilusão de vencer. Ele sabe que os dias estão desabando em cima dele feito uma onda de três mil metros, ele sabe que vai ser vencido. Às vezes ele se pega pensando nos seus olhos fitando outra boca, nas suas costelas se aninhando em outras mãos, sem promessas, sem viagens. Só com muito mais vontade de descobrir seu gosto, de decorar sua cor favorita, seu jeito de dizer que não, seu meio sorriso de olhar fugindo dizendo que sim. Ele anda falsamente despreocupado por aí.
Ele vaga acelerando pelas avenidas sem lembrar que seu sorriso merece mais, que seu peito acelerado não tem preço em moedas, e custa letras gestos e reticências. Ele quase não olha pros lados antes de furar o sinal e não lembrar que o suspense do que é novo fita sarcástico o primeiro beijo quente e mil vezes pensado. Olhos que se driblam enquanto as bocas ansiosas se mordem em câmera lenta. Peito descompassado, minha mão abraça sua cintura, traz sua coluna e arqueia suas costelas. Te quero inteira numa só rendição em suspiros mordendo minha orelha. Dizendo que há milênios eu tinha – mesmo calado – razão.
O beijo era esse. O cheiro era esse. O calor que te tira do sério era esse. Você dançando comigo entre mil pessoas, e esquecendo do mundo, me concedendo seu universo quente, se explodindo em milhares pra sempre. Seu sorriso na manhã seguinte como você nunca teve antes, seus olhos raiando pérolas e diamantes de acordar com, finalmente, o homem certo. Ah...nossa cumplicidade, nosso beijo. O beijo diz tudo. O fim sorrindo safado, prometendo futuros e planos. Ele nem desconfia. Ele nunca me viu. Eu te encosto meio sem querer e sorrio.
Eu te abraço e gargalho. Respiro fundo pra prender o que posso de você. O relance dos olhos. A sala repleta de desatenções e a gente se encontra. Sei sua mão nas minhas costas, te encho de olhos no descaminho do café. Nunca tomei tanto café...nunca fingi tanto não ver alguém.
Ah se ele soubesse. Vidas paralelas de quem há tempos não te quer como eu te quero. Universo estranho de quem, diferente de mim encontra seu cheiro em qualquer virada do lençol. Ele anda por aí com um ar mais reticente do mundo. E eu só queria ter certeza do que você não gosta de comer, de quando você nunca bebe e do quanto antes de dormir existe uma chance de você pensar em mim. Ele vaga por aí com o ar mais despreocupado do mundo. Seu futuro ex. Um cargo que já ocupei. Com outras mulheres, em outras histórias. E que agora quero viver com você.
Com o ar mais despreocupado do mundo ele vaga pelo universo. Três ou quatro respostas prontas no bolso costurado pela mãe, ele domina seis sorrisos diferentes fingindo não estar nem aí. Ele sabe que tem mais que merece, ele está ciente que é coisa de outra encarnação, mil karmas a seu favor, sei lá...mas ele também sabe que o relógio anda pra trás, subtrai momentos, reduz segundos, decepando lembranças de quando você sentia o vento da praia na cara, filtro solar 60 e seja o que deus quiser. Ele finge que não, mas sabe sem saber exatamente como que você e ele um dia vão ter um fim.
E aí sem saber bem porque, em alguns dias lindos ele amanhece ciumento e intranqüilo, como quem despenca do centésimo andar, como quem pisa apressado cercado de minas e incertezas. É um homem povoado de sombras futuras, do que ele viveu um dia, do que aconteceu e foi embora. O dia que raiou, inevitável e silencioso como a promessa de que tudo é passageiro. E ele coça a cueca no caminho do banheiro, e ele boceja no caminho da cozinha. Alguma hora tudo passa, ele pensa. Alguma hora a festa acaba. Aqueles olhos, aqueles traços finos e convidativos nos lábios inferiores, aquela cintura fina e os horizontes eternos em seus olhos...aquilo tudo tinha mesmo que se pôr, como o sol que morre fugindo do leblon e do pontal, como tudo que é prometido só com um quarto de vontade.
É um sujeito que já pensa muito menos nos seus olhos castanhos, seus dentes ordenados. Acabar é inevitável, ele sabe. Mas ele finge que não sabe. Ele tem oitocentas desculpas, e ele pede a ajuda do tempo, da família, de qualquer coisa que arraste a ilusão de vencer. Ele sabe que os dias estão desabando em cima dele feito uma onda de três mil metros, ele sabe que vai ser vencido. Às vezes ele se pega pensando nos seus olhos fitando outra boca, nas suas costelas se aninhando em outras mãos, sem promessas, sem viagens. Só com muito mais vontade de descobrir seu gosto, de decorar sua cor favorita, seu jeito de dizer que não, seu meio sorriso de olhar fugindo dizendo que sim. Ele anda falsamente despreocupado por aí.
Ele vaga acelerando pelas avenidas sem lembrar que seu sorriso merece mais, que seu peito acelerado não tem preço em moedas, e custa letras gestos e reticências. Ele quase não olha pros lados antes de furar o sinal e não lembrar que o suspense do que é novo fita sarcástico o primeiro beijo quente e mil vezes pensado. Olhos que se driblam enquanto as bocas ansiosas se mordem em câmera lenta. Peito descompassado, minha mão abraça sua cintura, traz sua coluna e arqueia suas costelas. Te quero inteira numa só rendição em suspiros mordendo minha orelha. Dizendo que há milênios eu tinha – mesmo calado – razão.
O beijo era esse. O cheiro era esse. O calor que te tira do sério era esse. Você dançando comigo entre mil pessoas, e esquecendo do mundo, me concedendo seu universo quente, se explodindo em milhares pra sempre. Seu sorriso na manhã seguinte como você nunca teve antes, seus olhos raiando pérolas e diamantes de acordar com, finalmente, o homem certo. Ah...nossa cumplicidade, nosso beijo. O beijo diz tudo. O fim sorrindo safado, prometendo futuros e planos. Ele nem desconfia. Ele nunca me viu. Eu te encosto meio sem querer e sorrio.
Eu te abraço e gargalho. Respiro fundo pra prender o que posso de você. O relance dos olhos. A sala repleta de desatenções e a gente se encontra. Sei sua mão nas minhas costas, te encho de olhos no descaminho do café. Nunca tomei tanto café...nunca fingi tanto não ver alguém.
Ah se ele soubesse. Vidas paralelas de quem há tempos não te quer como eu te quero. Universo estranho de quem, diferente de mim encontra seu cheiro em qualquer virada do lençol. Ele anda por aí com um ar mais reticente do mundo. E eu só queria ter certeza do que você não gosta de comer, de quando você nunca bebe e do quanto antes de dormir existe uma chance de você pensar em mim. Ele vaga por aí com o ar mais despreocupado do mundo. Seu futuro ex. Um cargo que já ocupei. Com outras mulheres, em outras histórias. E que agora quero viver com você.
quinta-feira, junho 21, 2007
Saídas Sumidas
Por André Debevc
quero afastá-la de mim mas me falta força,
quero agarrá-la para um beijo mas me falta coragem.
tenho sorrisos, palavras, tenho abraços curtos e algumas piadas,
tenho, talvez, até um bolso cheio de boas intenções...
só não tenho uma saída,
só me falta uma mísera saída heróica e real
para cada vez que a gente fica perto o suficiente para arriscar alguma coisa.
quero afastá-la de mim mas me falta força,
quero agarrá-la para um beijo mas me falta coragem.
tenho sorrisos, palavras, tenho abraços curtos e algumas piadas,
tenho, talvez, até um bolso cheio de boas intenções...
só não tenho uma saída,
só me falta uma mísera saída heróica e real
para cada vez que a gente fica perto o suficiente para arriscar alguma coisa.
Lembrança Latente
Por André Debevc
penso em você mais do que devia
penso em você mais que podia
penso em você muito mais do que gostaria
se esqueço e penso pouco
só acontece umas vezes todo dia
somos pretérito imperfeito
e meu peito ainda conjuga você no presente,
mesmo quando não há mais “a gente”.
sei que penso em você...
já não deveria.
penso em você mais do que devia
penso em você mais que podia
penso em você muito mais do que gostaria
se esqueço e penso pouco
só acontece umas vezes todo dia
somos pretérito imperfeito
e meu peito ainda conjuga você no presente,
mesmo quando não há mais “a gente”.
sei que penso em você...
já não deveria.
Cometa Paralelo
Por André Debevc
com meia dúzia de palavras te deixo completamente nua.
e não importa a avenida,
e não faz diferença a multidão letárgica...
te dispo de tudo sem nenhum receio,
e você morde o lábio inferior devagarzinho,
você desvia os olhos catando no chão alguma coisa pra cobrir sua alma.
é uma mulher sem palavras de efeito ou planos de fuga
o rosto ficando rosa, pupilas dilatadas
um riso nervoso
e o coração batendo na garganta
a falta de uma boa desculpa para correr dali sem olhar para trás.
somos um momento exclusivo onde o resto do mundo não palpita,
e tudo que você quer é que um carro buzine
que um celular toque
que alguma coisa no sistema solar te desvie
antes que você beije a minha boca
antes que você entre sem volta no meu campo de gravidade
e jogue toda essa sua normalidade pro espaço.
mas o ponteiro dos segundos acorda e pula,
a lucidez veste covardia
e balbucia alguma coisa ininteligível no seu ouvido.
o universo lembra o próprio destino e volta a se expandir
agora com um beijo suspenso
ricocheteando em galáxias distantes
passando feito cometa no céu de um lugar paralelo
onde te deixo nua e louca por mim
sem precisar de uma só sílaba.
com meia dúzia de palavras te deixo completamente nua.
e não importa a avenida,
e não faz diferença a multidão letárgica...
te dispo de tudo sem nenhum receio,
e você morde o lábio inferior devagarzinho,
você desvia os olhos catando no chão alguma coisa pra cobrir sua alma.
é uma mulher sem palavras de efeito ou planos de fuga
o rosto ficando rosa, pupilas dilatadas
um riso nervoso
e o coração batendo na garganta
a falta de uma boa desculpa para correr dali sem olhar para trás.
somos um momento exclusivo onde o resto do mundo não palpita,
e tudo que você quer é que um carro buzine
que um celular toque
que alguma coisa no sistema solar te desvie
antes que você beije a minha boca
antes que você entre sem volta no meu campo de gravidade
e jogue toda essa sua normalidade pro espaço.
mas o ponteiro dos segundos acorda e pula,
a lucidez veste covardia
e balbucia alguma coisa ininteligível no seu ouvido.
o universo lembra o próprio destino e volta a se expandir
agora com um beijo suspenso
ricocheteando em galáxias distantes
passando feito cometa no céu de um lugar paralelo
onde te deixo nua e louca por mim
sem precisar de uma só sílaba.
sexta-feira, junho 15, 2007
Festa Junina
Por André Debevc
Quis rasgar todas as fotos deles juntos para fazer uma fogueira. Mudou de idéia. Qual a graça de ver um cartão de memória arder no fogo?
Quis rasgar todas as fotos deles juntos para fazer uma fogueira. Mudou de idéia. Qual a graça de ver um cartão de memória arder no fogo?
Louco Pelo Seu Beijo
Por André Debevc
Acordei com uma vontade louca de beijar você. Te encher de beijos curtos, depois perder um tempo quase absurdo com beijos longos, mas antes quem sabe, te ver dormir um pouco no quarto ainda com preguiça da luz da manhã que se arrasta blasé por entre as persianas. Você em paz ali, só de calcinha e camiseta velha, descansando assim de ladinho com a boca meio aberta e um sonho feliz na cabeça. Acordei com vontade de viver um dia pra te ver se espreguiçando ainda dengosa e me mandando um beijo e um com sorriso antes de me dar bom dia. Um daqueles dias perfeitos pra te ver andando descalça pela casa com os cabelos soltos e um copo com nescau demais na mão. Te ver folheando qualquer revista, pulando em cima de mim quando eu me distrair e me enchendo de ordens e beijos com seu bom humor sarcástico. Um dia pra gente ficar junto sem precisar resolver nada. Um dia pra ficar de bobeira, com um tempinho no sol talvez. Você com a mão na minha perna – que você tanto ama – e eu atento como um felino, revistando com os olhos e a alma o seu corpo pra me apaixonar de vez por qualquer detalhe que te defina, como uma pinta, uma cicatriz ou quem sabe até uma celulite. Acordei morrendo de vontade de olhar dentro dos seus olhos, de sentir o seu calor, de visitar cada traço dos seus lábios e beber do cheiro que só você tem no colo e nuca. Ah, que vontade de te puxar mais perto, te segurar daquele jeito que você adora porque te deixa louca e te faz ter certeza de que você é minha. Levantei da cama hoje pra sentir a parte mais quentinha da suas coxas e ser surpreendido pelo seu lado mais safado. Quero andar de mãos dadas até que o mundo todo feche e sorrir em silêncio no caminho de casa quando você cair no sono no carro. Acordei com uma vontade imensa de ter você pulando em cima de mim, me dizendo o quanto você me ama, me perguntando se sei o quanto eu sou sortudo e prometendo que a gente vai ficar junto pra sempre. Saudade de você, moça. Saudade de viver eu e você. O problema é que eu ainda não sei seu nome, não conheço seu rosto e nem quem você. Mas sei que a gente vai se encontrar em breve. Está escrito há três mil anos como dizia Nélson Rodrigues. Aí não se assuste se eu te perguntar: - será que eu já falei que acordei louco pra te dar um beijo?
Acordei com uma vontade louca de beijar você. Te encher de beijos curtos, depois perder um tempo quase absurdo com beijos longos, mas antes quem sabe, te ver dormir um pouco no quarto ainda com preguiça da luz da manhã que se arrasta blasé por entre as persianas. Você em paz ali, só de calcinha e camiseta velha, descansando assim de ladinho com a boca meio aberta e um sonho feliz na cabeça. Acordei com vontade de viver um dia pra te ver se espreguiçando ainda dengosa e me mandando um beijo e um com sorriso antes de me dar bom dia. Um daqueles dias perfeitos pra te ver andando descalça pela casa com os cabelos soltos e um copo com nescau demais na mão. Te ver folheando qualquer revista, pulando em cima de mim quando eu me distrair e me enchendo de ordens e beijos com seu bom humor sarcástico. Um dia pra gente ficar junto sem precisar resolver nada. Um dia pra ficar de bobeira, com um tempinho no sol talvez. Você com a mão na minha perna – que você tanto ama – e eu atento como um felino, revistando com os olhos e a alma o seu corpo pra me apaixonar de vez por qualquer detalhe que te defina, como uma pinta, uma cicatriz ou quem sabe até uma celulite. Acordei morrendo de vontade de olhar dentro dos seus olhos, de sentir o seu calor, de visitar cada traço dos seus lábios e beber do cheiro que só você tem no colo e nuca. Ah, que vontade de te puxar mais perto, te segurar daquele jeito que você adora porque te deixa louca e te faz ter certeza de que você é minha. Levantei da cama hoje pra sentir a parte mais quentinha da suas coxas e ser surpreendido pelo seu lado mais safado. Quero andar de mãos dadas até que o mundo todo feche e sorrir em silêncio no caminho de casa quando você cair no sono no carro. Acordei com uma vontade imensa de ter você pulando em cima de mim, me dizendo o quanto você me ama, me perguntando se sei o quanto eu sou sortudo e prometendo que a gente vai ficar junto pra sempre. Saudade de você, moça. Saudade de viver eu e você. O problema é que eu ainda não sei seu nome, não conheço seu rosto e nem quem você. Mas sei que a gente vai se encontrar em breve. Está escrito há três mil anos como dizia Nélson Rodrigues. Aí não se assuste se eu te perguntar: - será que eu já falei que acordei louco pra te dar um beijo?
Sem Velhas Traições
Por André Debevc
Ando cansado. Das mulheres erradas, das noites vazias, das madrugadas caras e crepúsculos ébrios. Cansado de abordagens planejadas, da caça sem recompensa ou sorriso no dia seguinte, do telefone sem rosto anotado no celular. Da intenção escancarada antes mesmo de sair de casa. Ando cansado de falar da boca pra fora, de não querer fazer força ou ter alguém pra pedir pra ficar. Ando esvaziado, de motivos pra passar a noite e acordar acompanhado, de sorriso no espelho e de histórias que não tenham deixado algum tipo de decepção ou mágoa. E quando debruço os olhos abatidos sobre a metrópole, encontro um reflexo cinza e triste. Sou eu voltando pra casa no meu corcel negro, imerso em insulfilme e músicas do Dashboard Confessionals. Silêncio na alma, buraco assombrado no peito e luzes azuis do painel refletida nos olhos. Vida que segue com esse maldito cheiro de cigarro na roupa. E no lugar que ficava o coração, uma vontade imensa de amar e nunca me trair de novo.
Ando cansado. Das mulheres erradas, das noites vazias, das madrugadas caras e crepúsculos ébrios. Cansado de abordagens planejadas, da caça sem recompensa ou sorriso no dia seguinte, do telefone sem rosto anotado no celular. Da intenção escancarada antes mesmo de sair de casa. Ando cansado de falar da boca pra fora, de não querer fazer força ou ter alguém pra pedir pra ficar. Ando esvaziado, de motivos pra passar a noite e acordar acompanhado, de sorriso no espelho e de histórias que não tenham deixado algum tipo de decepção ou mágoa. E quando debruço os olhos abatidos sobre a metrópole, encontro um reflexo cinza e triste. Sou eu voltando pra casa no meu corcel negro, imerso em insulfilme e músicas do Dashboard Confessionals. Silêncio na alma, buraco assombrado no peito e luzes azuis do painel refletida nos olhos. Vida que segue com esse maldito cheiro de cigarro na roupa. E no lugar que ficava o coração, uma vontade imensa de amar e nunca me trair de novo.
terça-feira, maio 29, 2007
Palavras reféns e beijos também
Por André Debevc
do outro lado da sala ela só precisa de um sorriso
para sequestrar todas as minhas palavras
aí desvio os olhos
engulo seco
finjo entregar minha atenção a qualquer outra coisa
na tentativa de resgatar um pouco da razão
que caiu no chão junto com o coração
segundos antes
e conto até dez
quando consigo lembrar dos números,
e respiro fundo retribuindo o sorriso
escondendo toda minha sinceridade
por trás da minha simpatia inofensiva
e aí do outro lado da sala ela ajeita o cabelo
e me olha assim de lado
e dá de novo, quase em camera lenta, um só sorriso
e eu que já nem tinha achado as minhas palavras
passo a não pensar em mais nada,
só em beijos que acho que nunca vou poder dar
do outro lado da sala ela só precisa de um sorriso
para sequestrar todas as minhas palavras
aí desvio os olhos
engulo seco
finjo entregar minha atenção a qualquer outra coisa
na tentativa de resgatar um pouco da razão
que caiu no chão junto com o coração
segundos antes
e conto até dez
quando consigo lembrar dos números,
e respiro fundo retribuindo o sorriso
escondendo toda minha sinceridade
por trás da minha simpatia inofensiva
e aí do outro lado da sala ela ajeita o cabelo
e me olha assim de lado
e dá de novo, quase em camera lenta, um só sorriso
e eu que já nem tinha achado as minhas palavras
passo a não pensar em mais nada,
só em beijos que acho que nunca vou poder dar
terça-feira, maio 22, 2007
Estranho Isso
Por André Debevc
Estranho isso de sentir saudade da noite ainda não dormida. Da viagem que nunca foi feita. Do jogo nunca visto. Do milésimo beijo que nunca foi dado. Das mãos se achando no escuro do filme não assistido. Da discussão nunca tida. Do presente jamais recebido. Estranho isso de sentir falta da declaração de amor que nunca foi feita. De um dia perceber o coração batendo mais rápido. Do olhar de cumplicidade ainda sem data pra nascer. Da ligação nunca discada. Da entrega total e feliz de corpo e alma. Estranho isso de estranhar o silêncio online. Os dedos hesitantes no teclado e a bocas que se procuraram tão menos no último encontro. Chato mesmo é isso: de sentir saudade de você e da idéia de tudo que poderíamos ter sido.
Estranho isso de sentir saudade da noite ainda não dormida. Da viagem que nunca foi feita. Do jogo nunca visto. Do milésimo beijo que nunca foi dado. Das mãos se achando no escuro do filme não assistido. Da discussão nunca tida. Do presente jamais recebido. Estranho isso de sentir falta da declaração de amor que nunca foi feita. De um dia perceber o coração batendo mais rápido. Do olhar de cumplicidade ainda sem data pra nascer. Da ligação nunca discada. Da entrega total e feliz de corpo e alma. Estranho isso de estranhar o silêncio online. Os dedos hesitantes no teclado e a bocas que se procuraram tão menos no último encontro. Chato mesmo é isso: de sentir saudade de você e da idéia de tudo que poderíamos ter sido.
terça-feira, maio 15, 2007
Uma vida sem troféus (em 150 toques)
Por André Debevc
Desejava-a intensamente como tudo. Menos troféu. Tivesse uma noite – e não a eternidade - usaria a casa toda com ela. Tirando a estante, claro.
Desejava-a intensamente como tudo. Menos troféu. Tivesse uma noite – e não a eternidade - usaria a casa toda com ela. Tirando a estante, claro.
quarta-feira, maio 09, 2007
Meias sílabas perdidas
Por André Debevc
Meias sílabas ricocheteiam pelo quarto ainda zonzas procurando suas respectivas metades sem saber que horas do dia já são. Ensaios de fachos de uma luz difusa, onde a poeira dança sem pagar ingresso pelo show, invadem o ambiente pela persiana esquecida pelos anos. Talvez seja o sol, pode ser que seja apenas o neon de alguma espelunca qualquer aí em frente, mas quem se importa. Almas vestidas de suor e tesão convocam todos os sentidos pra melhor das batalhas: a que se dorme, acorda e se enrosca no inimigo. Uma dança carnal onde só descansamos recuperando o ar quando quem vence, às vezes, é o cansaço. Maratona de pernas, saliva, horas e dois vencedores. Você me engole sorrindo, me entrega todos os lábios arquejos e penugens que já pensou ter. Testa a resistência das suas pernas, nossa elasticidade, a minha força. E continuamos sem desperdício ou reticência. Um ritmo desritmado, alterando tudo pra que não percamos nada. O calor dos seus beijos, a alegria mais do que morna que escorre pelas suas pernas. Nossos cheiros e sucos inundando o colchão surrado sobre a cama que range e bate todos os pés, morrendo de inveja das paredes, móveis e dos nossos improvisos. Estamos em todos os lugares, de todos os jeitos. Seus dentes no meu ombro, minha língua passeando milhões de vezes pelos seus peitos. Olhos que se cruzam, sorrisos quase sem ar que se reconhecem e se revelam em milímetros de segundo de distância. Mais beijos, mais línguas. Ah, quantas línguas. Fico louco quando você me mordisca a orelha e te agarro pelos cabelos ali pouco acima da nuca. Quero mais é beber desse seu suor ofegante. E entre espásmos e ordens você até tenta me render umas duas ou três sílabas, mas tudo que espoca da sua boca são letras soltas, agarradas umas nas outras, fundidas num só som ininteligível. O ar que você expulsa, sua meia tentativa de pausa olhos fechados e o seu ventre vibrando em quase contrações. Me aperta forte, vai. Me aperta. Fecho os olhos pra poder ir mais fundo, agora já não tem volta. Pede mais, pede. Me dá a mesma ordem mil vezes sem uma palavra. Vamos juntos. Me aperta mão, me arranha as costas, me trava dentro de você até o fim. Agora explode, arqueja, perde a noção de tudo por bem mais que o espaço de milhões de hífens. Morde os lábios. Respira. Sorri. Respira um pouco mais. Fecha os olhos. Me abraça e, ao invés de outra meia sílaba órfã de metade, me diz que ainda é só o começo.
Meias sílabas ricocheteiam pelo quarto ainda zonzas procurando suas respectivas metades sem saber que horas do dia já são. Ensaios de fachos de uma luz difusa, onde a poeira dança sem pagar ingresso pelo show, invadem o ambiente pela persiana esquecida pelos anos. Talvez seja o sol, pode ser que seja apenas o neon de alguma espelunca qualquer aí em frente, mas quem se importa. Almas vestidas de suor e tesão convocam todos os sentidos pra melhor das batalhas: a que se dorme, acorda e se enrosca no inimigo. Uma dança carnal onde só descansamos recuperando o ar quando quem vence, às vezes, é o cansaço. Maratona de pernas, saliva, horas e dois vencedores. Você me engole sorrindo, me entrega todos os lábios arquejos e penugens que já pensou ter. Testa a resistência das suas pernas, nossa elasticidade, a minha força. E continuamos sem desperdício ou reticência. Um ritmo desritmado, alterando tudo pra que não percamos nada. O calor dos seus beijos, a alegria mais do que morna que escorre pelas suas pernas. Nossos cheiros e sucos inundando o colchão surrado sobre a cama que range e bate todos os pés, morrendo de inveja das paredes, móveis e dos nossos improvisos. Estamos em todos os lugares, de todos os jeitos. Seus dentes no meu ombro, minha língua passeando milhões de vezes pelos seus peitos. Olhos que se cruzam, sorrisos quase sem ar que se reconhecem e se revelam em milímetros de segundo de distância. Mais beijos, mais línguas. Ah, quantas línguas. Fico louco quando você me mordisca a orelha e te agarro pelos cabelos ali pouco acima da nuca. Quero mais é beber desse seu suor ofegante. E entre espásmos e ordens você até tenta me render umas duas ou três sílabas, mas tudo que espoca da sua boca são letras soltas, agarradas umas nas outras, fundidas num só som ininteligível. O ar que você expulsa, sua meia tentativa de pausa olhos fechados e o seu ventre vibrando em quase contrações. Me aperta forte, vai. Me aperta. Fecho os olhos pra poder ir mais fundo, agora já não tem volta. Pede mais, pede. Me dá a mesma ordem mil vezes sem uma palavra. Vamos juntos. Me aperta mão, me arranha as costas, me trava dentro de você até o fim. Agora explode, arqueja, perde a noção de tudo por bem mais que o espaço de milhões de hífens. Morde os lábios. Respira. Sorri. Respira um pouco mais. Fecha os olhos. Me abraça e, ao invés de outra meia sílaba órfã de metade, me diz que ainda é só o começo.
Quarto Amarelo
Por André Debevc
no teu quarto amarelo
tuas coxas perfeitas
querem me deixar vermelho,
mas roxo de desejo
nada vejo quando te puxo
te trago te beijo desviando fácil
o último pano que te cobre
e é quando você se abre
me aperta me sobe,
recebe e consome
e no teu quarto amarelo,
você arfante eu mais que quente,
nos cravamos os dentes entre espásmos
e você de repente aperta o laço
que me dá com as coxas
jogando meus sentidos pra longe,
pra onde sua calcinha branca
deita molhada e torta
desde o seu primeiro sorriso
quando entrei mal intencionado e duro
por aquela porta que nem nos incomodamos em fechar.
no teu quarto amarelo
tuas coxas perfeitas
querem me deixar vermelho,
mas roxo de desejo
nada vejo quando te puxo
te trago te beijo desviando fácil
o último pano que te cobre
e é quando você se abre
me aperta me sobe,
recebe e consome
e no teu quarto amarelo,
você arfante eu mais que quente,
nos cravamos os dentes entre espásmos
e você de repente aperta o laço
que me dá com as coxas
jogando meus sentidos pra longe,
pra onde sua calcinha branca
deita molhada e torta
desde o seu primeiro sorriso
quando entrei mal intencionado e duro
por aquela porta que nem nos incomodamos em fechar.
quinta-feira, maio 03, 2007
Inocência zero
Por André Debevc
Finjo bem na minha cordialidade mansa, de cumprimentos sem maiores contatos, mas com você eu não tenho um pensamento puro. Nem um pra contar história e fingir que sou esse cara bonzinho que algumas línguas nem tão más assim queriam espalhar por aí, só pra acabar de vez com minha reputação. Zero. Nada. É só você atravessar meu caminho sorrindo com a boca, ou com os olhos, que partimos para uma dimensão onde todo mundo some e só sobramos nós. Nós e cada vez menos roupa - que só não some por completo pra podermos ter o que puxar e agarrar frenéticos entre amassos e segundos educados com alguma pretensão de hesitação, logo esquecida, quando a temperatura sobe pra valer. Nesta nossa dimensão não existe nada nem ninguém que nos impeça de qualquer coisa. Te beijo, você me morde. Te derreto na boca e você só pede mais. Rasgamos a noite e atravessamos o dia feito dois animais. Frações de segundo na tarde que cai. Carne e química. Cheiro e pólvora. Inconsequência e impossibilidade. Curvas pêlos cheiros e fluídos proibidos aqui na terra de agora que se encontram e reagem incandescentes quando a gente se encontra quando te vejo passar. Imagino seu outro lado que nesse mundo ninguém conhece. Desvendo a força das suas coxas, o calor de seus contornos e a embriaguez de seus lábios. Rendo minhas orelhas pros seus sussurros, ordens e mordidas.
Com você eu não tenho nenhum pensamento puro. E de algum jeito quando nossos olhos se cruzam, sei que você sabe disso há muito tempo.
Finjo bem na minha cordialidade mansa, de cumprimentos sem maiores contatos, mas com você eu não tenho um pensamento puro. Nem um pra contar história e fingir que sou esse cara bonzinho que algumas línguas nem tão más assim queriam espalhar por aí, só pra acabar de vez com minha reputação. Zero. Nada. É só você atravessar meu caminho sorrindo com a boca, ou com os olhos, que partimos para uma dimensão onde todo mundo some e só sobramos nós. Nós e cada vez menos roupa - que só não some por completo pra podermos ter o que puxar e agarrar frenéticos entre amassos e segundos educados com alguma pretensão de hesitação, logo esquecida, quando a temperatura sobe pra valer. Nesta nossa dimensão não existe nada nem ninguém que nos impeça de qualquer coisa. Te beijo, você me morde. Te derreto na boca e você só pede mais. Rasgamos a noite e atravessamos o dia feito dois animais. Frações de segundo na tarde que cai. Carne e química. Cheiro e pólvora. Inconsequência e impossibilidade. Curvas pêlos cheiros e fluídos proibidos aqui na terra de agora que se encontram e reagem incandescentes quando a gente se encontra quando te vejo passar. Imagino seu outro lado que nesse mundo ninguém conhece. Desvendo a força das suas coxas, o calor de seus contornos e a embriaguez de seus lábios. Rendo minhas orelhas pros seus sussurros, ordens e mordidas.
Com você eu não tenho nenhum pensamento puro. E de algum jeito quando nossos olhos se cruzam, sei que você sabe disso há muito tempo.
quarta-feira, maio 02, 2007
O que vem depois
Por André Debevc
Ele gosta de banheiros grandes e lugares de pé direito alto. Sujeito tranquilo, costuma dizer que luas cheias e noites sem nuvens dão vontade de uivar e lamber uns pescoços e peitos por aí. O jeito que ela o beija quando bebe e o time do Fluminense o tiram do sério, só de que maneiras completamente diferentes. E tem dias, em que gosta de pensar nele mesmo como o espaço que respira entre parênteses – cheio de coisas que se pensam mas não se dizem em voz alta. Beijos, queijos, vinhos e amassos. Bom mesmo é fugir quando a tarde cai, entre gargalhadas e dados, amigos distraídos. Aumentar o calor no quarto, suar no frio. Voltar com a alma lavada, o corpo suado e a cara deslavada de quem ficou nu e sapeca, pelado enchendo a cara do cheiro e das interjeições dela. E morreu pra nascer de novo, alegre na goteira aberta no telhado que cobre penugens claras, beijos curtos de quase adeus e sorrisos longos. Mas ele gosta mesmo é de beijos longos, tirar um ronco na rede depois do almoço, fotos pra lembrar que foi feliz; e de um dia pra guardar pra sempre. Até porque, no seu otimismo quase restaurado, o pra sempre - assim como o futuro – ainda vem por aí.
Ele gosta de banheiros grandes e lugares de pé direito alto. Sujeito tranquilo, costuma dizer que luas cheias e noites sem nuvens dão vontade de uivar e lamber uns pescoços e peitos por aí. O jeito que ela o beija quando bebe e o time do Fluminense o tiram do sério, só de que maneiras completamente diferentes. E tem dias, em que gosta de pensar nele mesmo como o espaço que respira entre parênteses – cheio de coisas que se pensam mas não se dizem em voz alta. Beijos, queijos, vinhos e amassos. Bom mesmo é fugir quando a tarde cai, entre gargalhadas e dados, amigos distraídos. Aumentar o calor no quarto, suar no frio. Voltar com a alma lavada, o corpo suado e a cara deslavada de quem ficou nu e sapeca, pelado enchendo a cara do cheiro e das interjeições dela. E morreu pra nascer de novo, alegre na goteira aberta no telhado que cobre penugens claras, beijos curtos de quase adeus e sorrisos longos. Mas ele gosta mesmo é de beijos longos, tirar um ronco na rede depois do almoço, fotos pra lembrar que foi feliz; e de um dia pra guardar pra sempre. Até porque, no seu otimismo quase restaurado, o pra sempre - assim como o futuro – ainda vem por aí.
Erro do Passado (em apenas 150 toques)
Por André Debevc
O amor por ela era tão grande que a primeira coisa a que renunciou foi ele mesmo. Cúmplice, ela não fez menos: assim que viu, abriu mão dele também.
O amor por ela era tão grande que a primeira coisa a que renunciou foi ele mesmo. Cúmplice, ela não fez menos: assim que viu, abriu mão dele também.
segunda-feira, abril 23, 2007
Hoje não
Por André Debevc
hoje não te vejo não te beijo nem te acordo
hoje não te olho não cheiro nem te encosto
hoje é dia de mãos órfãs braços vazios e boca seca
hoje é noite de rolar quilômetros acordar mil vezes
tatear o vazio onde você dorme toda vez que fecho os olhos
hoje o único sinal de você
é essa dor aguda embaixo de alguma das minhas costelas canhotas.
hoje não te vejo não te beijo nem te acordo
hoje não te olho não cheiro nem te encosto
hoje é dia de mãos órfãs braços vazios e boca seca
hoje é noite de rolar quilômetros acordar mil vezes
tatear o vazio onde você dorme toda vez que fecho os olhos
hoje o único sinal de você
é essa dor aguda embaixo de alguma das minhas costelas canhotas.
sexta-feira, abril 20, 2007
corre
Por André Debevc
corre menina. corre como se você tivesse atrasada corre como se fosse fugir da chuva corre como se tivesse que atender o telefone corre como se não tivesse amanhã corre pra dar o ultimo beijo corre sorrindo sabendo que tão olhando corre sabendo que você não vai chegar corre porque já não dá mais tempo corre pra entrar de vez na minha mente corre porque já não vai dar mais pra segurar o mundo em slow motion pra eu nunca poder te alcançar. menina, corre.
corre menina. corre como se você tivesse atrasada corre como se fosse fugir da chuva corre como se tivesse que atender o telefone corre como se não tivesse amanhã corre pra dar o ultimo beijo corre sorrindo sabendo que tão olhando corre sabendo que você não vai chegar corre porque já não dá mais tempo corre pra entrar de vez na minha mente corre porque já não vai dar mais pra segurar o mundo em slow motion pra eu nunca poder te alcançar. menina, corre.
quinta-feira, abril 12, 2007
Perto Dela
Por André Debevc
perto dela
acho até
que
meu peito
bate mais
devagar
como esperando sempre
um olhar ou um gesto,
uns pontos de reticências no ar
pra eu me agarrar e poder
acordar o grande resto que imagino
a cada vez que eu a olho
como se não tivesse olhando
perto dela
às vezes
acho
que meu peito
vai
parar
ansioso
por um momento de distração
e uma resposta
assim como um meio sorriso rendido
para a pergunta que nunca fiz
perto dela
meu peito
às vezes acha
que já é dela
será?
perto dela
acho até
que
meu peito
bate mais
devagar
como esperando sempre
um olhar ou um gesto,
uns pontos de reticências no ar
pra eu me agarrar e poder
acordar o grande resto que imagino
a cada vez que eu a olho
como se não tivesse olhando
perto dela
às vezes
acho
que meu peito
vai
parar
ansioso
por um momento de distração
e uma resposta
assim como um meio sorriso rendido
para a pergunta que nunca fiz
perto dela
meu peito
às vezes acha
que já é dela
será?
terça-feira, abril 03, 2007
Aos Poucos
Por André Debevc
meço palavras
analiso gestos
ensaio carinhos
cedo sorrisos
peço beijos
só quando não resisto
confesso saudade
só quando não aguento
é tudo novo
é tudo diferente
nessa distância
nessa coisa da gente
pra você tenho
milhões de esperanças e gestos
que liberto aos poucos
quando te vejo
pra nós finjo
que não tenho planos nem beijos
a cada noite que o buraco da sua ausência
me lembra que ainda não te tenho
por inteiro
meço palavras
analiso gestos
ensaio carinhos
cedo sorrisos
peço beijos
só quando não resisto
confesso saudade
só quando não aguento
é tudo novo
é tudo diferente
nessa distância
nessa coisa da gente
pra você tenho
milhões de esperanças e gestos
que liberto aos poucos
quando te vejo
pra nós finjo
que não tenho planos nem beijos
a cada noite que o buraco da sua ausência
me lembra que ainda não te tenho
por inteiro
segunda-feira, abril 02, 2007
na terra da vontade
Por André Debevc
fica aí na impossibilidade,
na terra da vontade tudo fica mais perfeito
planta seu sorriso
seu peito
sua sinceridade
onde a vida cresce mais bonita
e quase sem maldade
se esfrega em mim de mansinho
pega em mim um pouco mais
fala baixinho pra ter que chegar mais perto,
e me laça com seu cheiro só um pouquinho
porque a vida que a gente não vai ter
acenou indo embora e já se desfaz…
fica aí na impossibilidade,
na terra da vontade tudo fica mais perfeito
planta seu sorriso
seu peito
sua sinceridade
onde a vida cresce mais bonita
e quase sem maldade
se esfrega em mim de mansinho
pega em mim um pouco mais
fala baixinho pra ter que chegar mais perto,
e me laça com seu cheiro só um pouquinho
porque a vida que a gente não vai ter
acenou indo embora e já se desfaz…
sexta-feira, março 30, 2007
dorme
Por André Debevc
dorme
na luz laranja
que invade o quarto
assim de lado,
seus sonhos se esparramando
na cama entre os lençóis e
cabelos em ondas
enquanto você
descansa mansa
e quase sorri
dorme
nessa manhã
sem roupa sem medo
o corpo dourado
ancorado ao meu
no melhor sono acompanhado
de todas
as minhas estórias
acorda
lenta e linda
suspira fundo
e me beija o peito
antes que o mundo volte a girar
antes que a vida dê um jeito
de voltar a bater
enquanto as nossas bocas ainda
se encontram de olhos fechados
e coração aberto.
dorme
na luz laranja
que invade o quarto
assim de lado,
seus sonhos se esparramando
na cama entre os lençóis e
cabelos em ondas
enquanto você
descansa mansa
e quase sorri
dorme
nessa manhã
sem roupa sem medo
o corpo dourado
ancorado ao meu
no melhor sono acompanhado
de todas
as minhas estórias
acorda
lenta e linda
suspira fundo
e me beija o peito
antes que o mundo volte a girar
antes que a vida dê um jeito
de voltar a bater
enquanto as nossas bocas ainda
se encontram de olhos fechados
e coração aberto.
Acrílicos
Por André Debevc
Na primeira vez que me viu, ainda recém-nascido, meu tio Farnese me olhou em silêncio por uns instantes. Homem de poucas palavras, e ainda menos sorrisos, ele disse à minha mãe, me vendo dormir no berço: - tem que colocar no acrílico. Minha mãe olhou pra ele meio que sem entender e antes que ela perguntasse, ele explicou: - uma coisa perfeita assim tem que ser posta em acrílico para ficar preservada. Era o jeito dele dizer que certas coisas precisam ser eternizadas, da sua forma mais crua. Sem que a humanidade e o tempo possam vir a corromper pra sempre e de uma forma irreversível algo que comprovava, muito a contragosto dele, a existência de deus.
Eu que passei a vida achando que meu soturno tio artista não gostava de nada, a não ser de gatos de rua, pão-de-queijo e ficar sozinho, sorri quando soube que eu, seu sobrinho-neto, tinha merecido tal comentário. Ele não gostava muito de criança, mas gostava de você, disse minha mãe. Mesmo anos depois, ao me ver correndo pela casa de minha avó com meu então inseparável sorriso no rosto, meu velho tio teria sorrido – mais com os olhos do que com a boca, como eram os poucos sorrisos dele – e teria lembrado: - alguém tem que colocar esse menino no acrílico.
Hoje vejo a vida meio assim. Certos momentos, palavras e até olhares deveriam ser eternizados em acrílico. Congelados no tempo e preservados pra sempre aos nossos olhos como nossa memória guardou o que vivemos. O instante onde tudo valia a pena. O milésimo de segundo onde a única coisa que temos é a certeza da felicidade. Da perfeição. O quadro congelado, um frame somente que resume toda uma história, que guarda o que alguém é pra nós. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu poderia ser assim pra sempre. Você bem que podia ser assim pra mim pra sempre...
Todos nós temos nossa coleção de peças com acrílico envolvendo para sempre lembranças, pessoas e até sentimentos. Acrílicos guarados no peito. Acrílicos com o que valeu a pena e com olhares que nunca vamos deixar a vida levar da gente. Olhares como os do meu tio Farnese. Um mestre na arte de capturar para sempre um momento dramático.
Na primeira vez que me viu, ainda recém-nascido, meu tio Farnese me olhou em silêncio por uns instantes. Homem de poucas palavras, e ainda menos sorrisos, ele disse à minha mãe, me vendo dormir no berço: - tem que colocar no acrílico. Minha mãe olhou pra ele meio que sem entender e antes que ela perguntasse, ele explicou: - uma coisa perfeita assim tem que ser posta em acrílico para ficar preservada. Era o jeito dele dizer que certas coisas precisam ser eternizadas, da sua forma mais crua. Sem que a humanidade e o tempo possam vir a corromper pra sempre e de uma forma irreversível algo que comprovava, muito a contragosto dele, a existência de deus.
Eu que passei a vida achando que meu soturno tio artista não gostava de nada, a não ser de gatos de rua, pão-de-queijo e ficar sozinho, sorri quando soube que eu, seu sobrinho-neto, tinha merecido tal comentário. Ele não gostava muito de criança, mas gostava de você, disse minha mãe. Mesmo anos depois, ao me ver correndo pela casa de minha avó com meu então inseparável sorriso no rosto, meu velho tio teria sorrido – mais com os olhos do que com a boca, como eram os poucos sorrisos dele – e teria lembrado: - alguém tem que colocar esse menino no acrílico.
Hoje vejo a vida meio assim. Certos momentos, palavras e até olhares deveriam ser eternizados em acrílico. Congelados no tempo e preservados pra sempre aos nossos olhos como nossa memória guardou o que vivemos. O instante onde tudo valia a pena. O milésimo de segundo onde a única coisa que temos é a certeza da felicidade. Da perfeição. O quadro congelado, um frame somente que resume toda uma história, que guarda o que alguém é pra nós. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu poderia ser assim pra sempre. Você bem que podia ser assim pra mim pra sempre...
Todos nós temos nossa coleção de peças com acrílico envolvendo para sempre lembranças, pessoas e até sentimentos. Acrílicos guarados no peito. Acrílicos com o que valeu a pena e com olhares que nunca vamos deixar a vida levar da gente. Olhares como os do meu tio Farnese. Um mestre na arte de capturar para sempre um momento dramático.
quinta-feira, março 15, 2007
Notícias de longe
Por André Debevc
meu coração ligou não sei daonde
e avisou que está voltando.
não disse como vem
e nem se é de vez,
mas falou que está chegando.
não contou se vem sozinho
vazio ou transbordando.
que surpresa esse sujeito estará me aprontando?
na verdade não importa,
não é pra isso que tô ligando.
sei que meu peito pensou em voltar a bater
e o que menos importa é quando.
meu coração ligou não sei daonde
e avisou que está voltando.
não disse como vem
e nem se é de vez,
mas falou que está chegando.
não contou se vem sozinho
vazio ou transbordando.
que surpresa esse sujeito estará me aprontando?
na verdade não importa,
não é pra isso que tô ligando.
sei que meu peito pensou em voltar a bater
e o que menos importa é quando.
Simples de ler
Por André Debevc
Nunca achei que fosse um cara difícil de ler.
Meu sim normalmente é sim. Meu não, categórico ou precedido de uma certa hesitação, é não. E meu distanciamento é uma tentativa bem intencionada de não entrar em rota de colisão.
Quando eu quero, vou atrás ou chego na frente. Em dúvida – e todos nós temos o direito de tê-las - aguardo. Não sou homem de reticências. Prefiro pontos finais. Pra acabar, pra começar a frase ou a fase seguinte. Sei que é complicado isso de sincronizar relógios. Mas cada um tem seu tempo.
Não sou um engima. Ando sincero e simples como não andava há séculos. Preto no branco, essas coisas. Ando respeitando meu coração. Principalmente quando ele não faz questão de se meter na conversa.
Nunca achei que fosse um cara difícil de ler.
Meu sim normalmente é sim. Meu não, categórico ou precedido de uma certa hesitação, é não. E meu distanciamento é uma tentativa bem intencionada de não entrar em rota de colisão.
Quando eu quero, vou atrás ou chego na frente. Em dúvida – e todos nós temos o direito de tê-las - aguardo. Não sou homem de reticências. Prefiro pontos finais. Pra acabar, pra começar a frase ou a fase seguinte. Sei que é complicado isso de sincronizar relógios. Mas cada um tem seu tempo.
Não sou um engima. Ando sincero e simples como não andava há séculos. Preto no branco, essas coisas. Ando respeitando meu coração. Principalmente quando ele não faz questão de se meter na conversa.
quarta-feira, março 14, 2007
Amar errado
Por André Debevc
Atire a primeira pedra quem já não amou errado. Largou a pedra, né? Pois é, todos nós já o fizemos. Todos nós já amamos bem errado. Amar errado não é exceção, é a regra. Só assim a gente aprende, só assim a gente sofre. E cresce. Aquela menina linda que você amava tanto e com quem queria passar o resto da vida, aquela mulher cheia de vida e planos que você achava que iria te fazer um homem melhor, e até mesmo a paixão adolescente que fez você passar sua primeira noite em claro. Amores errados. Todos eles. Se você olhar bem, vai entender porque.
É difícil é entender as regras do amor. Só com uma coleção de cicatrizes e um punhado de mágoas e amores mal resolvidos que entendemos algumas verdades. Aquela coisa de que os opostos se atraem é uma enorme besteira, por exemplo.
Opostos se distraem e os dispostos se atraem, isso sim. Não se ama duas vezes a mesma mulher. Não se entregue demais a quem acredita ou adora coisas muito diferentes de você. Dê mais valor a quem te faça rir, essas coisas. Moças fingem que amam. Mulheres fingem orgásmos. Importante mesmo é saber reconhecer essas criaturas. E fugir das duas.
Amar em si não é o problema, é coisa que dá e passa. É coisa saudável, que às vezes nos destruir pra começar do zero, mas faz parte. O problema é amar errado. É olhar pra trás e reconhecer que vocês nunca olharam na mesma direção. E amar errado dói. Dói depois. Dói perceber que você investiu em uma relação fadada ao fracasso.
Então, meu camarada, se você desconfiar que não está amando certo, saia fora. Pratique a quase impossível arte de acabar bem, de acabar na hora certa. É um favor que você estará fazendo para sua vida inteira – e não só um gesto louvável de cavalheirismo. Porque talvez ainda dê tempo de se salvar. Talvez ainda dê tempo de conseguir não trair a você mesmo. Pode ser que seja o último lampejo de lucidez antes que seja tarde demais pra alimentar algum tipo de ressentimento, seu ou dela. Se faça esse favor. Não fuzile a esperança ou semeie fantasmas. Deixe espaço para o que vem depois.
Até porque quando a gente reencontra a esperança, aquela guardada numa gaveta que tínhamos perdido junto com um relacionamento que se foi, entendemos que ela ainda é um dos grandes combustíveis do amor. Nos transforma novamente numa folha em branco. Por isso a nossa teimosia, pela chance de um novo começo. Uma folha em branco pode ser qualquer coisa. Até mesmo feliz. E numa hora dessas não é que o medo de amar errado suma. Ele, frustrações, sucessos e amores que quase deram certo sempre vão existir. Mas desta vez vai. Desta vez, vai.
Atire a primeira pedra quem já não amou errado. Largou a pedra, né? Pois é, todos nós já o fizemos. Todos nós já amamos bem errado. Amar errado não é exceção, é a regra. Só assim a gente aprende, só assim a gente sofre. E cresce. Aquela menina linda que você amava tanto e com quem queria passar o resto da vida, aquela mulher cheia de vida e planos que você achava que iria te fazer um homem melhor, e até mesmo a paixão adolescente que fez você passar sua primeira noite em claro. Amores errados. Todos eles. Se você olhar bem, vai entender porque.
É difícil é entender as regras do amor. Só com uma coleção de cicatrizes e um punhado de mágoas e amores mal resolvidos que entendemos algumas verdades. Aquela coisa de que os opostos se atraem é uma enorme besteira, por exemplo.
Opostos se distraem e os dispostos se atraem, isso sim. Não se ama duas vezes a mesma mulher. Não se entregue demais a quem acredita ou adora coisas muito diferentes de você. Dê mais valor a quem te faça rir, essas coisas. Moças fingem que amam. Mulheres fingem orgásmos. Importante mesmo é saber reconhecer essas criaturas. E fugir das duas.
Amar em si não é o problema, é coisa que dá e passa. É coisa saudável, que às vezes nos destruir pra começar do zero, mas faz parte. O problema é amar errado. É olhar pra trás e reconhecer que vocês nunca olharam na mesma direção. E amar errado dói. Dói depois. Dói perceber que você investiu em uma relação fadada ao fracasso.
Então, meu camarada, se você desconfiar que não está amando certo, saia fora. Pratique a quase impossível arte de acabar bem, de acabar na hora certa. É um favor que você estará fazendo para sua vida inteira – e não só um gesto louvável de cavalheirismo. Porque talvez ainda dê tempo de se salvar. Talvez ainda dê tempo de conseguir não trair a você mesmo. Pode ser que seja o último lampejo de lucidez antes que seja tarde demais pra alimentar algum tipo de ressentimento, seu ou dela. Se faça esse favor. Não fuzile a esperança ou semeie fantasmas. Deixe espaço para o que vem depois.
Até porque quando a gente reencontra a esperança, aquela guardada numa gaveta que tínhamos perdido junto com um relacionamento que se foi, entendemos que ela ainda é um dos grandes combustíveis do amor. Nos transforma novamente numa folha em branco. Por isso a nossa teimosia, pela chance de um novo começo. Uma folha em branco pode ser qualquer coisa. Até mesmo feliz. E numa hora dessas não é que o medo de amar errado suma. Ele, frustrações, sucessos e amores que quase deram certo sempre vão existir. Mas desta vez vai. Desta vez, vai.
terça-feira, março 13, 2007
Encontro de fim de tarde
Por André Debevc
Essa tarde de sol que morre lilás quase com trilha sonora no horizonte à direita de ipanema me faz querer fugir com você pra outro lugar. Um lugar com o mar calmo de noronha no inverno e uma cabana de madeira só pra nós dois. Uma choupana com uma rede na sombra onde nem lembraríamos que um dia pensaram em trancar o tempo em dias. Um canto nosso, de brisa e tranquilidade onde eu levaria todos os milênios do mundo te lambendo lento como você fosse uma manga, carnuda como suas curvas exatas e suculenta como seus beijos de duração perfeita. E já te vejo, de cabelos ainda secando ao vento, sorrindo quase letárgica, olhos semi-cerrados pela claridade. A alça do vestido te escapando o ombro esquerdo revelando um princípio de marca de biquini. Os dentes perfeitos alinhados na boca inquieta e um olhar de quem acabou de deletar todo o resto do universo pra sempre. Sua mão direita se fechando em torno do meu braço, me pedindo um beijo, enquanto sua outra ajeita os cabelos que cismam em beijar seus lábios antes de mim. Ah, tarde de sol lilás à direita de ipanema. Se não prestar atenção por onde ando acabo atropelado na ciclovia. Bem que podia ser por você.
Essa tarde de sol que morre lilás quase com trilha sonora no horizonte à direita de ipanema me faz querer fugir com você pra outro lugar. Um lugar com o mar calmo de noronha no inverno e uma cabana de madeira só pra nós dois. Uma choupana com uma rede na sombra onde nem lembraríamos que um dia pensaram em trancar o tempo em dias. Um canto nosso, de brisa e tranquilidade onde eu levaria todos os milênios do mundo te lambendo lento como você fosse uma manga, carnuda como suas curvas exatas e suculenta como seus beijos de duração perfeita. E já te vejo, de cabelos ainda secando ao vento, sorrindo quase letárgica, olhos semi-cerrados pela claridade. A alça do vestido te escapando o ombro esquerdo revelando um princípio de marca de biquini. Os dentes perfeitos alinhados na boca inquieta e um olhar de quem acabou de deletar todo o resto do universo pra sempre. Sua mão direita se fechando em torno do meu braço, me pedindo um beijo, enquanto sua outra ajeita os cabelos que cismam em beijar seus lábios antes de mim. Ah, tarde de sol lilás à direita de ipanema. Se não prestar atenção por onde ando acabo atropelado na ciclovia. Bem que podia ser por você.
Brincos e lembranças órfãs
Por André Debevc
Reduzo a velocidade e com uma mão tateio aquela parte da porta do carro, que um ou dois amigos me deixariam chamar de console, em busca de troco pro pedágio. No mp3, a gaita da versão de Catherine Wheel para Wish You Were Here ilumina o asfalto com chuva na volta à metrópole. Papel, caneta, fragmento de folheto imobiliário, moedas de um centavo (odeio moedas de um centavo), um brinco. Pago o pedágio com a nota que tinha no bolso, agradeço à atendente de nome composto pelo sorriso frio pelo troco, fecho o vidro e tchau. Primeira. Segunda. Três músicas depois, o primeiro flash, ainda meio embaçado de que raios aquele brinco está fazendo ali. Volto a tatear com a mão esquerda e acho a argola. Mais pra grande, mais pra dourada. Como é que foi parar ali?
Triste isso de um brinco só. Órfão. Incompleto. Tipo de coisa que nasceu pra vir em pares, como juras de amor, peitos e atenção de mulher que te ignorava até que você finalmente sossega e começa a namorar. Onde andará a outra metade do par? E mais importante: - de que orelha terá saído? Agora perdido, não tem ao menos uma tarracha, que dirá uma resposta.
Mais uns quilômetros de silêncio e chuva e me vem um dos meus últimos beijos, ou melhor, o primeiro de muitos que levariam a meus últimos beijos com aquela mulher. Aquela que eu só ousei chamar por um apelido diminutivo e doce, mas tão impessoal que nem me surpreenderia se ela não respondesse. Um caso de amor fugaz, destes tão impossíveis e rápidos, que dá até pra dizer que terminou na hora certa. Antes do amor deixar de ser razoável, antes de brotarem as neuroses e enquanto ainda existe generosidade e não ódio ou palavrões balbuciados a cada vez que um virasse as costas.
Acho que era com esse brinco mesmo que ela estava naquela noite em que começamos a dizer adeus. Por um motivo qualquer da vida, parece que eu sempre acabo (ou começo, depende de como se vê) com mulheres com brincos desse tipo, sei lá. Tantos beijos e amassos encostados contra a escada, dançando mergulhados um nos olhos e boca um do outro que não podia mesmo acabar de um jeito diferente. Lembro agora de uma vez, tomando sorvete no fim de um domingo despreocupado, dela dizendo que vivia perdendo brincos. Ela me disse isso mais de uma vez, mas essa foi a última em que ela me disse isso e sorriu também dizendo que tinha decidido começar a achar que aquilo ali era sinal de sorte. E vai ver nossa sorte foi essa: a de acabar na hora certa o que nem oficialmente tinha começado mas que já tomava nossas vidas e viagens curtas de final-de-semana.
Tivemos bons momentos, aquela moça e eu. Uma intimidade rápida e tão cúmplice que duvido que ela consiga passar na frente de uma certa pousada sem lembrar de mim e sorrir em silêncio. Nosso último beijo foi nesse carro, exatamente um mês depois de não conseguir nem trancar as portas na saída de uma festinha que tinha começado inocente como um chope no Baixo Gávea. Ainda com a calcinha embrulhada na mão esquerda, ela sorriu, me pediu que ligasse quando chegasse em casa e me deu um beijo bem aqui neste banco. Agora quem sorri sozinho sou eu.
Uma paixão que vale lembrar. Um amor que me traz saudade e não mágoa. Raro eu sei. Ela também é. Ela sabe disso. Quanto a mim, bom, eu não sei se a vejo de novo. Não sei se ela já deu por falta dos brincos ou se depois de uma noite mais fria ela acorda com saudade do meu peito e abraço quente. Não é tão difícil assim que eu não saiba a resposta certa. As certezas que carrego na vida são poucas. Sei que quando chove não tem blitz e que quem vive no passado está morto. O resto não importa. Nem mesmo de quem realmente são estes brincos.
Reduzo a velocidade e com uma mão tateio aquela parte da porta do carro, que um ou dois amigos me deixariam chamar de console, em busca de troco pro pedágio. No mp3, a gaita da versão de Catherine Wheel para Wish You Were Here ilumina o asfalto com chuva na volta à metrópole. Papel, caneta, fragmento de folheto imobiliário, moedas de um centavo (odeio moedas de um centavo), um brinco. Pago o pedágio com a nota que tinha no bolso, agradeço à atendente de nome composto pelo sorriso frio pelo troco, fecho o vidro e tchau. Primeira. Segunda. Três músicas depois, o primeiro flash, ainda meio embaçado de que raios aquele brinco está fazendo ali. Volto a tatear com a mão esquerda e acho a argola. Mais pra grande, mais pra dourada. Como é que foi parar ali?
Triste isso de um brinco só. Órfão. Incompleto. Tipo de coisa que nasceu pra vir em pares, como juras de amor, peitos e atenção de mulher que te ignorava até que você finalmente sossega e começa a namorar. Onde andará a outra metade do par? E mais importante: - de que orelha terá saído? Agora perdido, não tem ao menos uma tarracha, que dirá uma resposta.
Mais uns quilômetros de silêncio e chuva e me vem um dos meus últimos beijos, ou melhor, o primeiro de muitos que levariam a meus últimos beijos com aquela mulher. Aquela que eu só ousei chamar por um apelido diminutivo e doce, mas tão impessoal que nem me surpreenderia se ela não respondesse. Um caso de amor fugaz, destes tão impossíveis e rápidos, que dá até pra dizer que terminou na hora certa. Antes do amor deixar de ser razoável, antes de brotarem as neuroses e enquanto ainda existe generosidade e não ódio ou palavrões balbuciados a cada vez que um virasse as costas.
Acho que era com esse brinco mesmo que ela estava naquela noite em que começamos a dizer adeus. Por um motivo qualquer da vida, parece que eu sempre acabo (ou começo, depende de como se vê) com mulheres com brincos desse tipo, sei lá. Tantos beijos e amassos encostados contra a escada, dançando mergulhados um nos olhos e boca um do outro que não podia mesmo acabar de um jeito diferente. Lembro agora de uma vez, tomando sorvete no fim de um domingo despreocupado, dela dizendo que vivia perdendo brincos. Ela me disse isso mais de uma vez, mas essa foi a última em que ela me disse isso e sorriu também dizendo que tinha decidido começar a achar que aquilo ali era sinal de sorte. E vai ver nossa sorte foi essa: a de acabar na hora certa o que nem oficialmente tinha começado mas que já tomava nossas vidas e viagens curtas de final-de-semana.
Tivemos bons momentos, aquela moça e eu. Uma intimidade rápida e tão cúmplice que duvido que ela consiga passar na frente de uma certa pousada sem lembrar de mim e sorrir em silêncio. Nosso último beijo foi nesse carro, exatamente um mês depois de não conseguir nem trancar as portas na saída de uma festinha que tinha começado inocente como um chope no Baixo Gávea. Ainda com a calcinha embrulhada na mão esquerda, ela sorriu, me pediu que ligasse quando chegasse em casa e me deu um beijo bem aqui neste banco. Agora quem sorri sozinho sou eu.
Uma paixão que vale lembrar. Um amor que me traz saudade e não mágoa. Raro eu sei. Ela também é. Ela sabe disso. Quanto a mim, bom, eu não sei se a vejo de novo. Não sei se ela já deu por falta dos brincos ou se depois de uma noite mais fria ela acorda com saudade do meu peito e abraço quente. Não é tão difícil assim que eu não saiba a resposta certa. As certezas que carrego na vida são poucas. Sei que quando chove não tem blitz e que quem vive no passado está morto. O resto não importa. Nem mesmo de quem realmente são estes brincos.
Outros dentes
por andré debevc
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos,
minha boca rastreando pintas curvas auréolas
minha língua te varrendo macia
as mãos puxando segurando esquentando,
seus cabelos entre meus dentes
aquele cantinho atrás da orelha
onde você esconde seu cheiro
as coxas grossas me apertando
a cicatriz do seu joelho,
eu voltando pra casa
em cada um dos seus espásmos.
O caso de amor
da sua virilha e minha barba mal feita,
você em cima de mim
me rendendo o mamilo
rindo achando que tava no controle.
vou dormir hoje com saudade dos seus peitos
vou acordar no meio da noite lembrando do seu calor
e de cada uma de suas interjeições e meias síliabas,
vou rolar na cama sem seus beijos
ou sua mão abrindo a minha calça.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos
que você me esfregava assim,
que diziam me amar tanto
e que hoje não mandam nem lembrança.
amanhã vou acordar com saudade dos seus peitos
que já devem ter se perdido em tantas outras bocas,
que nem reconheceriam a marca doce dos meus dentes.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos,
minha boca rastreando pintas curvas auréolas
minha língua te varrendo macia
as mãos puxando segurando esquentando,
seus cabelos entre meus dentes
aquele cantinho atrás da orelha
onde você esconde seu cheiro
as coxas grossas me apertando
a cicatriz do seu joelho,
eu voltando pra casa
em cada um dos seus espásmos.
O caso de amor
da sua virilha e minha barba mal feita,
você em cima de mim
me rendendo o mamilo
rindo achando que tava no controle.
vou dormir hoje com saudade dos seus peitos
vou acordar no meio da noite lembrando do seu calor
e de cada uma de suas interjeições e meias síliabas,
vou rolar na cama sem seus beijos
ou sua mão abrindo a minha calça.
hoje vou dormir com saudade dos seus peitos
que você me esfregava assim,
que diziam me amar tanto
e que hoje não mandam nem lembrança.
amanhã vou acordar com saudade dos seus peitos
que já devem ter se perdido em tantas outras bocas,
que nem reconheceriam a marca doce dos meus dentes.
Esqueçam as portas
Por André Debevc
Hoje não quero nem saber. Vou sentar de costas pra porta. Sem vigiar se você vem ou se passa. Vou esquecer que um dia te esperei demais e vou beijar na boca com sinceridade e alívio entre um sorriso e mil outros. Hoje eu vou ser feliz como já devia ter voltado a ser a mais tempo. Hoje a porta e meus guarda-costas que se danem. Que meus cães farejadores se distraiam com qualquer outra bobagem facilmente mais entorpecente do que sua presença esvaziada, esse espectro distante de alegria de alguém que um dia já precisou de bem menos platéia. Hoje não quero nem saber. Esqueçam as malditas portas, todas elas. As que bati, as que fecharam na minha cara, as que escancaro só com um suspiro mais fundo e um sorriso mais cínico. Nem se todos os meus fantasmas entrassem neste momento com todo o arsenal do mundo, conseguiriam me derrubar. Hoje eu sou o dono desse lugar. E agora vou celebrar com saliva e uma nova deliciosa nuca na boca todo o movimento de entra-e-sai debaixo daqueles batentes dessa minha nova verdade - Aí sorrio sozinho e lembro que um dia achei que fosse morrer como Pushkin, de coração rachado. Mas aí lembro que não sou o poeta russo, e quem passou jamais seria poderia ter o papel de Natasha. Que bom. - Vou celebrar sem chope, distração rasa ou promessa contundente esse coração no peito, esse calor úmido e ritmado na boca. Beijos que me fecham os olhos mas não me suspendem o sorriso. Beijos que me colocam de costas para sempre para a porta por onde quem amei não vai entrar nunca mais. Já não era sem tempo.
Hoje não quero nem saber. Vou sentar de costas pra porta. Sem vigiar se você vem ou se passa. Vou esquecer que um dia te esperei demais e vou beijar na boca com sinceridade e alívio entre um sorriso e mil outros. Hoje eu vou ser feliz como já devia ter voltado a ser a mais tempo. Hoje a porta e meus guarda-costas que se danem. Que meus cães farejadores se distraiam com qualquer outra bobagem facilmente mais entorpecente do que sua presença esvaziada, esse espectro distante de alegria de alguém que um dia já precisou de bem menos platéia. Hoje não quero nem saber. Esqueçam as malditas portas, todas elas. As que bati, as que fecharam na minha cara, as que escancaro só com um suspiro mais fundo e um sorriso mais cínico. Nem se todos os meus fantasmas entrassem neste momento com todo o arsenal do mundo, conseguiriam me derrubar. Hoje eu sou o dono desse lugar. E agora vou celebrar com saliva e uma nova deliciosa nuca na boca todo o movimento de entra-e-sai debaixo daqueles batentes dessa minha nova verdade - Aí sorrio sozinho e lembro que um dia achei que fosse morrer como Pushkin, de coração rachado. Mas aí lembro que não sou o poeta russo, e quem passou jamais seria poderia ter o papel de Natasha. Que bom. - Vou celebrar sem chope, distração rasa ou promessa contundente esse coração no peito, esse calor úmido e ritmado na boca. Beijos que me fecham os olhos mas não me suspendem o sorriso. Beijos que me colocam de costas para sempre para a porta por onde quem amei não vai entrar nunca mais. Já não era sem tempo.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Brilho eterno de um peito vazio
Por André Debevc
Quem veio te apagar da minha mente esqueceu de se livrar do meu sorriso vendo suas calcinhas coloridas, você correndo pelo corredor de casa quase pelada, sua boca aberta quando você dorme voltando pra casa depois do motel. Esqueceram de apagar os lenços de papel que você largou pelo carro e pela minha vida, os seus esmaltes anti-alérgicos e suas calças 38. Deixaram pelos cantos as marcas dos seus pés sempre descalços, no vidro do carro que nem existe mais, seu sutiã de mil alças jogado no canto do quarto e o jeito sapeca que você ajeitava os peitos pra eles sempre parecerem maiores. Quem veio te apagar da minha vida foi embora e parece ter deixado aqui como eu adorava você me pedindo pra coçar sua virilha ou vindo correndo na minha direção na cozinha pra depois pular em cima de mim e me embrulhar com suas coxas. Quem quer que tenha vindo fazer o serviço de te arrancar de dentro mim não levou a imagem de você cortando pão com tesoura ou enchendo o copo com nescau demais pelas manhãs. Não levaram você esfregando os peitos na minha cara ou abrindo, moleca, a toalha só pra me mostrar o corpo lindo e molhado com seus pais na porta aberta logo ali ao lado. Deixaram em algum desses meus cantos a lembrança feliz de ver seu carro chegando e você me beijando antes da porta do elevador tentar fechar pela milésima vez a cada vez que eu ia embora. Esqueceram de deletar suas pernas grossas jogadas sobre mim numa noite de semana no sofá, que eu achava ser azul, enquanto víamos alguma série na televisão. Quem veio te tirar da minha alma não cortou você tentando ajeitar minhas cutículas numa noite de biscoito Bono ou pipoca de microondas. Quem quer que tenha vindo com a tarefa de tirar você da minha cabeça certamente esqueceu de apagar o encaixe dos nossos beijos e aquele cheirinho que você tem atrás da orelha que eu adorava tanto. Deixaram jogado por aqui também os seus pés brincando com os meus e me dando beliscões, o jeito que você gostava de me ver de óculos e me chamar de cabrito, e o sorriso que espocava nos seus olhos toda vez que você me falava de Bali ou do Macarrão. Esqueceram de levar do meu peito a cicatriz do seu joelho esquerdo e a da velha cirurgia de quando você ainda era pequena, a bagunça eterna do seu carro e a sua inacreditável memória pra letras de música. E quem foi que deixou aqui dentro o jeito lindo que você não consegue falar direito “world” e o barulhinho insistente que você fazia toda vez que a gente dormia em São Paulo? De uma maneira ou de outra, partiram e não deletaram a alegria de andar com você no shopping ou o jeito que você entorta os pés quando mexe nas roupas penduradas na loja antes de parar na frente do espelho fazendo mil caras. Pois é menina, deixaram você dizendo que a gente era um time, lendo bestsellers pra arrumar um jeito de ganhar dinheiro e me contando de Wicca. E olha que também não deram sumiço nos beijos perfeitos, nas risadas – a gente ria muito, lembra? - e no nosso jeito todo nosso de falar mal de alguém. Deixaram por aqui a diversão dos trezentos casamentos e a gente dancando NewYorkNewYork na ponte do Caiçaras numa cumplicidade e alegria que ninguém nunca viu. Não apagaram a nossa ida ao Garota da Urca com você dançando em cima do capô do bolinha, nem a noite que você bebeu demais no Baixo e só queria que eu te levasse dali e arrancasse sua roupa. Não tiraram daqui um monte de coisa. Seu jeito de me chantagear fazendo cara de gato de botas, as nossas noites em Búzios, no Leblon e Teresópolis ou na vez em que não fomos ao noivado da sua irmã porque você tava passando mal. Nós éramos ótimos juntos. Será que você lembra? Ai, canalhas que pediram alto para tirar você da minha cabeça... Não apagaram o quanto eu te amava e gostava de pegar engarrafamento com você depois de acordar ao seu lado, quase sempre atrasada pra faculdade. Ai, deus. Quem veio te apagar da minha mente fez mesmo foi um belo de um serviço de porco.
Quem veio te apagar da minha mente esqueceu de se livrar do meu sorriso vendo suas calcinhas coloridas, você correndo pelo corredor de casa quase pelada, sua boca aberta quando você dorme voltando pra casa depois do motel. Esqueceram de apagar os lenços de papel que você largou pelo carro e pela minha vida, os seus esmaltes anti-alérgicos e suas calças 38. Deixaram pelos cantos as marcas dos seus pés sempre descalços, no vidro do carro que nem existe mais, seu sutiã de mil alças jogado no canto do quarto e o jeito sapeca que você ajeitava os peitos pra eles sempre parecerem maiores. Quem veio te apagar da minha vida foi embora e parece ter deixado aqui como eu adorava você me pedindo pra coçar sua virilha ou vindo correndo na minha direção na cozinha pra depois pular em cima de mim e me embrulhar com suas coxas. Quem quer que tenha vindo fazer o serviço de te arrancar de dentro mim não levou a imagem de você cortando pão com tesoura ou enchendo o copo com nescau demais pelas manhãs. Não levaram você esfregando os peitos na minha cara ou abrindo, moleca, a toalha só pra me mostrar o corpo lindo e molhado com seus pais na porta aberta logo ali ao lado. Deixaram em algum desses meus cantos a lembrança feliz de ver seu carro chegando e você me beijando antes da porta do elevador tentar fechar pela milésima vez a cada vez que eu ia embora. Esqueceram de deletar suas pernas grossas jogadas sobre mim numa noite de semana no sofá, que eu achava ser azul, enquanto víamos alguma série na televisão. Quem veio te tirar da minha alma não cortou você tentando ajeitar minhas cutículas numa noite de biscoito Bono ou pipoca de microondas. Quem quer que tenha vindo com a tarefa de tirar você da minha cabeça certamente esqueceu de apagar o encaixe dos nossos beijos e aquele cheirinho que você tem atrás da orelha que eu adorava tanto. Deixaram jogado por aqui também os seus pés brincando com os meus e me dando beliscões, o jeito que você gostava de me ver de óculos e me chamar de cabrito, e o sorriso que espocava nos seus olhos toda vez que você me falava de Bali ou do Macarrão. Esqueceram de levar do meu peito a cicatriz do seu joelho esquerdo e a da velha cirurgia de quando você ainda era pequena, a bagunça eterna do seu carro e a sua inacreditável memória pra letras de música. E quem foi que deixou aqui dentro o jeito lindo que você não consegue falar direito “world” e o barulhinho insistente que você fazia toda vez que a gente dormia em São Paulo? De uma maneira ou de outra, partiram e não deletaram a alegria de andar com você no shopping ou o jeito que você entorta os pés quando mexe nas roupas penduradas na loja antes de parar na frente do espelho fazendo mil caras. Pois é menina, deixaram você dizendo que a gente era um time, lendo bestsellers pra arrumar um jeito de ganhar dinheiro e me contando de Wicca. E olha que também não deram sumiço nos beijos perfeitos, nas risadas – a gente ria muito, lembra? - e no nosso jeito todo nosso de falar mal de alguém. Deixaram por aqui a diversão dos trezentos casamentos e a gente dancando NewYorkNewYork na ponte do Caiçaras numa cumplicidade e alegria que ninguém nunca viu. Não apagaram a nossa ida ao Garota da Urca com você dançando em cima do capô do bolinha, nem a noite que você bebeu demais no Baixo e só queria que eu te levasse dali e arrancasse sua roupa. Não tiraram daqui um monte de coisa. Seu jeito de me chantagear fazendo cara de gato de botas, as nossas noites em Búzios, no Leblon e Teresópolis ou na vez em que não fomos ao noivado da sua irmã porque você tava passando mal. Nós éramos ótimos juntos. Será que você lembra? Ai, canalhas que pediram alto para tirar você da minha cabeça... Não apagaram o quanto eu te amava e gostava de pegar engarrafamento com você depois de acordar ao seu lado, quase sempre atrasada pra faculdade. Ai, deus. Quem veio te apagar da minha mente fez mesmo foi um belo de um serviço de porco.
segunda-feira, setembro 25, 2006
Saída pela direita
Por André Debevc
Sair dali. Juro que eu acordei pensando nisso. Quer dizer, quando comecei a pensar, foi isso que veio à minha cabeça. Até porque do jeito que fui acordado – chupado feito caroço de manga – não tinha mesmo muito como raciocinar. Essa coisa puramente carnal é bom quando você vai pra cama, nem sempre quando você abre os olhos no dia seguinte. Camisinha arremessada no lixo – lá se vão mais uns milhares de ganhadores do prêmio nobel, gosto de pensar – só faltava mesmo sair dali.
Sou muito bom em ficar ali abraçadinho pós-coito, mas como só mesmo minha analista sabe, tenho sérios problemas em ficar abraçado a quem não quero realmente abraçar. Ando meio arredio já há alguns anos e nem sei bem porque, mas isso é outra conversa. Marcando cerrado o relógio digital perto da foto dela mesma em algum lugar cliché da europa, faço o que posso antes de sorrir, respirar fundo, apertar a moça com um abraço de um braço só, e pular da cama com uma desculpa pra ir embora tão boa que quase eu acredito que tenha mesmo compromisso logo mais. Aí, sem mentir, digo que preciso ir já juntando os fragmentos da minha passagem por ali e dou um beijo de adeus com aquele ar de penúltimo.
Cabelo desgrenhado, sorriso reprisado pra mim mesmo no espelho do elevador, cumprimento o porteiro e ganho as ruas sem lembrar a última manhã em que eu não quis ir embora, a última vez em que torci pra estar chovendo e ser domingo, a última mulher que me fez querer esquecer do mundo e viver ali, me alimentando apenas dos beijos dela. Nossa, faz tanto tempo que às vezes acho que foi até invenção da minha cabeça, às vezes imprecisa e cínica. Não faz diferenca, quem sabe na próxima, né?
Belas manhãs de sol são ainda mais belas quando você já tá sem pressa, o dia ainda sem saber direito se é domingo ou terça-feira e você já está livre pra fazer o que quiser da vida, até mesmo ir pra casa e dormir numa cama maior e, principalmente, vazia.
Sorrindo pra gente que nunca vi, vou andando jurando um dia usar a mentira mais deslavada do mundo só pra ver se cola. Talvez um dia que vá comprar cigarros e nunca volte. Talvez um dia diga que tenho que voltar pra minha mulher só pra ver a cara da moça, se causo revolta ou tristeza, antes de cair na gargalhada e ficar mais um pouquinho pra mais uns beijos e quem sabe mais uma camisinha no lixo. Sexo de reconciliação não devia ser privilégio só de quem tem compromisso.
Passada alguma banca de jornal onde vejo as manchetes sem me espantar com a desgraça do país, cerro os olhos pra fugir de alguns dos raios de sol que me lembram como adoro esse astro amarelo. Será que eu devia ir pra praia? Enquanto tiro meu tempo pensando, chega uma mensagem de texto. É moça, sei que foi bom. Ótimo fica por sua conta. Sei que posso ser melhor que isso, talvez na próxima eu te deixe experimentar mais um pouquinho. E não me leve a mal, gosto de você e tudo mais, só que não achei que fosse preciso abrir toda minha caixinha de ferramentas ou surpresas pra esta noite. Pra não ser indelicado com tanta honestidade respondo só com uma carinha feliz.
Saber ir embora é uma arte. Vai que um dia quero voltar. Vai que um dia a idéia de ficar um pouco mexa com alguma coisa dentro de mim. Deixa pra lá, depois eu penso nisso. Depois eu me preocupo em te ver ou não. Depois, se lembrar, eu dou um jeito de deixar a porta aberta. Agora a única coisa que quero esquecer é que na porta que eu queria bater, nem adianta tentar.
Sair dali. Juro que eu acordei pensando nisso. Quer dizer, quando comecei a pensar, foi isso que veio à minha cabeça. Até porque do jeito que fui acordado – chupado feito caroço de manga – não tinha mesmo muito como raciocinar. Essa coisa puramente carnal é bom quando você vai pra cama, nem sempre quando você abre os olhos no dia seguinte. Camisinha arremessada no lixo – lá se vão mais uns milhares de ganhadores do prêmio nobel, gosto de pensar – só faltava mesmo sair dali.
Sou muito bom em ficar ali abraçadinho pós-coito, mas como só mesmo minha analista sabe, tenho sérios problemas em ficar abraçado a quem não quero realmente abraçar. Ando meio arredio já há alguns anos e nem sei bem porque, mas isso é outra conversa. Marcando cerrado o relógio digital perto da foto dela mesma em algum lugar cliché da europa, faço o que posso antes de sorrir, respirar fundo, apertar a moça com um abraço de um braço só, e pular da cama com uma desculpa pra ir embora tão boa que quase eu acredito que tenha mesmo compromisso logo mais. Aí, sem mentir, digo que preciso ir já juntando os fragmentos da minha passagem por ali e dou um beijo de adeus com aquele ar de penúltimo.
Cabelo desgrenhado, sorriso reprisado pra mim mesmo no espelho do elevador, cumprimento o porteiro e ganho as ruas sem lembrar a última manhã em que eu não quis ir embora, a última vez em que torci pra estar chovendo e ser domingo, a última mulher que me fez querer esquecer do mundo e viver ali, me alimentando apenas dos beijos dela. Nossa, faz tanto tempo que às vezes acho que foi até invenção da minha cabeça, às vezes imprecisa e cínica. Não faz diferenca, quem sabe na próxima, né?
Belas manhãs de sol são ainda mais belas quando você já tá sem pressa, o dia ainda sem saber direito se é domingo ou terça-feira e você já está livre pra fazer o que quiser da vida, até mesmo ir pra casa e dormir numa cama maior e, principalmente, vazia.
Sorrindo pra gente que nunca vi, vou andando jurando um dia usar a mentira mais deslavada do mundo só pra ver se cola. Talvez um dia que vá comprar cigarros e nunca volte. Talvez um dia diga que tenho que voltar pra minha mulher só pra ver a cara da moça, se causo revolta ou tristeza, antes de cair na gargalhada e ficar mais um pouquinho pra mais uns beijos e quem sabe mais uma camisinha no lixo. Sexo de reconciliação não devia ser privilégio só de quem tem compromisso.
Passada alguma banca de jornal onde vejo as manchetes sem me espantar com a desgraça do país, cerro os olhos pra fugir de alguns dos raios de sol que me lembram como adoro esse astro amarelo. Será que eu devia ir pra praia? Enquanto tiro meu tempo pensando, chega uma mensagem de texto. É moça, sei que foi bom. Ótimo fica por sua conta. Sei que posso ser melhor que isso, talvez na próxima eu te deixe experimentar mais um pouquinho. E não me leve a mal, gosto de você e tudo mais, só que não achei que fosse preciso abrir toda minha caixinha de ferramentas ou surpresas pra esta noite. Pra não ser indelicado com tanta honestidade respondo só com uma carinha feliz.
Saber ir embora é uma arte. Vai que um dia quero voltar. Vai que um dia a idéia de ficar um pouco mexa com alguma coisa dentro de mim. Deixa pra lá, depois eu penso nisso. Depois eu me preocupo em te ver ou não. Depois, se lembrar, eu dou um jeito de deixar a porta aberta. Agora a única coisa que quero esquecer é que na porta que eu queria bater, nem adianta tentar.
quinta-feira, setembro 21, 2006
Bela manhã de sol
Por André Debevc
Engraçado como a gente se engana com as pessoas. Uma bela manhã de sol, e pum. Ela ta fora da sua vida. Ela que você jurou amar pra sempre, logo ela que tinha te enchido de planos, apelidos e responsabilidades. Fazer o quê. Tudo que começa acaba, alguém te diz. A gente se engana. Ou muda de idéia, o que parece mais aceitável principalmente para quem não vai voltar atrás.
Aí se fecham as portas do elevador e você ganha as ruas, perde uns quilos, evita lugares, músicas, e comidas pra tentar não lembrar que você já não existe mais. Não naquele quarto, não naquele coração, não entre aquelas pernas, não em quaisquer planos. Assim. Adeus, saia da minha vida pra sempre por favor. Apenas seja cordial se nos encontrarmos sem querer num bar, numa noite, numa esquina, num outro equívoco da vida que nos coloque frente à frente.
E de uma hora pra outra, os bilhetes, as confissões em versos de fotos, os emails, as risadas, as histórias secretas da família, tudo, vira lembrança. Maldita manhã de sol. Lambança da vida, rua sem saída. Pare e volte porque aqui não tem mais pra onde ir. E tome coragem pra encaixotar tudo, queimar lembranças, dar aquela camiseta que lembra ela pro porteiro, jurar nunca mais pedir o número dois especial, e não ficar tenso toda vez que ver um maldito carrinho preto rasgando as ruas pra longe daquilo tudo.
A gente se engana mesmo com as pessoas, engraçado. Então você que era centro, é posto de lado e cai no esquecimento antes mesmo de poder cicatrizar. Sarcástico isso de um dia amar. Amar e esquecer. Amar e não pensar. Ter que usar o nome inteiro ao telefone para poder se identificar. Peraí. Não eram as suas coxas que eu chamava de casa? Não era a sua boca a que me achava até no escuro mais denso? Não importa mais. Mil noites depois, se me distraio muito é nisso que penso, mas não deixar mais me derrubar. O que existe hoje você nem conhece. Nem imagina que eu tinha decidido nunca mais beijar outra pessoa, só você, mas aí você tinha que estragar tudo…
Aí, olhando pra trás vejo que de você eu só herdei açaí, havaianas e aspargos. Nada mais. Nem um afago, nem um carinho que me autentica no seu passado. Impressão de um tempo de erro, um tempo melhor apagado, esquecido, anulado. E desse jeito vamos deixando tudo pra trás. Porque amar alguém é engraçado e pra algumas pessoas pode ser demais. É apostar sabendo que vai perder. É entrar com peito aberto na vida de alguém pra depois ser arrancado. Parto à forceps pra gente nascer de novo, página em branco, simplesmente zerado. Trágico só isso, de nascer com essa memória de vida passada. Lembrança de beijo, amasso gostoso, apelido guardado. Nada tangível. Aconteceu ou eu terei imaginado? Coleção de fantasmas a assombrar aqueles cantinhos da alma que são dados a fazer planos, promessas e principalmente besteiras. Já dizia Nelson Rodrigues: todo mundo já amou errado.
É que a gente acha que conhece alguém. Que sabe a importância que teve. Sonho em ser pra sempre o melhor em alguma coisa que só os dois poderiam pra sempre lembrar. Ai, ai…melhor parar por aqui. Caixinha de surpresas mesmo essa vida. Bela manhã que nada. Melhor apressar a página virada, afinal viramos o rosto pro que vivemos. Contamos meias verdades sem olhar nos olhos. Suspiramos fundo xingando deus e suas piadas em silêncio. Viver é colecionar o que esquecer. E esquecer um dia parece fácil, até que damos de cara com o porteiro em outra bela manhã de sol. Ele sorri e comenta futebol. Sem problema, se não tivesse usando a camisa que aquela cretina te deu milênios atrás.
Engraçado como a gente se engana com as pessoas. Uma bela manhã de sol, e pum. Ela ta fora da sua vida. Ela que você jurou amar pra sempre, logo ela que tinha te enchido de planos, apelidos e responsabilidades. Fazer o quê. Tudo que começa acaba, alguém te diz. A gente se engana. Ou muda de idéia, o que parece mais aceitável principalmente para quem não vai voltar atrás.
Aí se fecham as portas do elevador e você ganha as ruas, perde uns quilos, evita lugares, músicas, e comidas pra tentar não lembrar que você já não existe mais. Não naquele quarto, não naquele coração, não entre aquelas pernas, não em quaisquer planos. Assim. Adeus, saia da minha vida pra sempre por favor. Apenas seja cordial se nos encontrarmos sem querer num bar, numa noite, numa esquina, num outro equívoco da vida que nos coloque frente à frente.
E de uma hora pra outra, os bilhetes, as confissões em versos de fotos, os emails, as risadas, as histórias secretas da família, tudo, vira lembrança. Maldita manhã de sol. Lambança da vida, rua sem saída. Pare e volte porque aqui não tem mais pra onde ir. E tome coragem pra encaixotar tudo, queimar lembranças, dar aquela camiseta que lembra ela pro porteiro, jurar nunca mais pedir o número dois especial, e não ficar tenso toda vez que ver um maldito carrinho preto rasgando as ruas pra longe daquilo tudo.
A gente se engana mesmo com as pessoas, engraçado. Então você que era centro, é posto de lado e cai no esquecimento antes mesmo de poder cicatrizar. Sarcástico isso de um dia amar. Amar e esquecer. Amar e não pensar. Ter que usar o nome inteiro ao telefone para poder se identificar. Peraí. Não eram as suas coxas que eu chamava de casa? Não era a sua boca a que me achava até no escuro mais denso? Não importa mais. Mil noites depois, se me distraio muito é nisso que penso, mas não deixar mais me derrubar. O que existe hoje você nem conhece. Nem imagina que eu tinha decidido nunca mais beijar outra pessoa, só você, mas aí você tinha que estragar tudo…
Aí, olhando pra trás vejo que de você eu só herdei açaí, havaianas e aspargos. Nada mais. Nem um afago, nem um carinho que me autentica no seu passado. Impressão de um tempo de erro, um tempo melhor apagado, esquecido, anulado. E desse jeito vamos deixando tudo pra trás. Porque amar alguém é engraçado e pra algumas pessoas pode ser demais. É apostar sabendo que vai perder. É entrar com peito aberto na vida de alguém pra depois ser arrancado. Parto à forceps pra gente nascer de novo, página em branco, simplesmente zerado. Trágico só isso, de nascer com essa memória de vida passada. Lembrança de beijo, amasso gostoso, apelido guardado. Nada tangível. Aconteceu ou eu terei imaginado? Coleção de fantasmas a assombrar aqueles cantinhos da alma que são dados a fazer planos, promessas e principalmente besteiras. Já dizia Nelson Rodrigues: todo mundo já amou errado.
É que a gente acha que conhece alguém. Que sabe a importância que teve. Sonho em ser pra sempre o melhor em alguma coisa que só os dois poderiam pra sempre lembrar. Ai, ai…melhor parar por aqui. Caixinha de surpresas mesmo essa vida. Bela manhã que nada. Melhor apressar a página virada, afinal viramos o rosto pro que vivemos. Contamos meias verdades sem olhar nos olhos. Suspiramos fundo xingando deus e suas piadas em silêncio. Viver é colecionar o que esquecer. E esquecer um dia parece fácil, até que damos de cara com o porteiro em outra bela manhã de sol. Ele sorri e comenta futebol. Sem problema, se não tivesse usando a camisa que aquela cretina te deu milênios atrás.
terça-feira, setembro 19, 2006
Poeminha quase não comportado
Por André Debevc
deixa eu te tirar a roupa
te falar um monte de bobagens
deixa a gente rir das besteiras
se divertir com as mais inocentes sacanagens.
sem jogos promessas ou grandes sacadas
deixa a vida ir assim fácil
sem precisar ter resposta errada.
vamos lá,
bom é viver sem precisar ser exatamente nada.
vamos rir beijar sorrir
desmaiar suados, cansados e nus,
acordar enroscados
crus como o olhar mais sincero,
como aquele primeiro que te dei
meio ainda sem saber
bem o que sei, sinto ou quero.
só sei que agora estou vivo,
cheio de perguntas, improvisos
e um punhado de sorrisos em silêncio
guardados para quando você percebe tímida
o carinho dos meus olhos.
deixa eu te tirar a roupa
te falar um monte de bobagens
deixa a gente rir das besteiras
se divertir com as mais inocentes sacanagens.
sem jogos promessas ou grandes sacadas
deixa a vida ir assim fácil
sem precisar ter resposta errada.
vamos lá,
bom é viver sem precisar ser exatamente nada.
vamos rir beijar sorrir
desmaiar suados, cansados e nus,
acordar enroscados
crus como o olhar mais sincero,
como aquele primeiro que te dei
meio ainda sem saber
bem o que sei, sinto ou quero.
só sei que agora estou vivo,
cheio de perguntas, improvisos
e um punhado de sorrisos em silêncio
guardados para quando você percebe tímida
o carinho dos meus olhos.
Sorriso Bobo
Por André Debevc
Com sua língua na boca
e seu peito nas mãos,
te beijo com o coração na garganta.
Te puxo,
me entrego, fecho os olhos
para encontrar seus lábios perfeitos,
bocas que pareciam se conhecer de outros tempos.
Contra a parede da boate escura
já nem sei o que toca
a não ser a sua pele quente e nossas mãos aflitas.
E abro os olhos pra sorrir
e jogar a cabeça pra trás
e mergulhar na sua boca
ainda sem acreditar direito,
que beijo, que cheiro, quê isso…
Aí esqueço tudo,
solto as rédeas parece que enlouqueço
e te puxo mais perto, te sinto ofegante, te encaixo.
Nós só existimos ali, naquele presente.
No próximo passo
essa realidade deliciosa se dissolve
e nós seremos passado,
nós seremos segredo,
beijo guardado pra sempre na memória da impossibilidade.
Seus olhos apertados me prendem, confessa brilham,
aí suspiro sorrio te agarro – te quero pra sempre -
sabendo que não te terei nunca.
Então vivo o momento,
deixo qualquer idéia de arrependimento pra depois.
Depois duvido, mas se precisar,
a gente se arrepende com um sorriso inegável na alma.
Calo a boca do que ela ia dizer
porque preciso mesmo é te beijar
e te abraço forte só pra ver se, de repente,
pelo menos ali, na loucura do momento a gente se funde em um.
Cúmplices num dos melhores e mais secretos beijos do universo.
Amanhã
no lugar da cicatriz do meu peito
vai amanhecer um sorriso bobo
e muito difícil de apagar.
Com sua língua na boca
e seu peito nas mãos,
te beijo com o coração na garganta.
Te puxo,
me entrego, fecho os olhos
para encontrar seus lábios perfeitos,
bocas que pareciam se conhecer de outros tempos.
Contra a parede da boate escura
já nem sei o que toca
a não ser a sua pele quente e nossas mãos aflitas.
E abro os olhos pra sorrir
e jogar a cabeça pra trás
e mergulhar na sua boca
ainda sem acreditar direito,
que beijo, que cheiro, quê isso…
Aí esqueço tudo,
solto as rédeas parece que enlouqueço
e te puxo mais perto, te sinto ofegante, te encaixo.
Nós só existimos ali, naquele presente.
No próximo passo
essa realidade deliciosa se dissolve
e nós seremos passado,
nós seremos segredo,
beijo guardado pra sempre na memória da impossibilidade.
Seus olhos apertados me prendem, confessa brilham,
aí suspiro sorrio te agarro – te quero pra sempre -
sabendo que não te terei nunca.
Então vivo o momento,
deixo qualquer idéia de arrependimento pra depois.
Depois duvido, mas se precisar,
a gente se arrepende com um sorriso inegável na alma.
Calo a boca do que ela ia dizer
porque preciso mesmo é te beijar
e te abraço forte só pra ver se, de repente,
pelo menos ali, na loucura do momento a gente se funde em um.
Cúmplices num dos melhores e mais secretos beijos do universo.
Amanhã
no lugar da cicatriz do meu peito
vai amanhecer um sorriso bobo
e muito difícil de apagar.
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