terça-feira, julho 21, 2009

Pressa sempre

Por André Debevc

Ela diz que tenho pressa em levá-la pra cama.
Vive reclamando que minhas mãos voam
descolando tecidos, elásticos e zíperes inconvenientes.
Mal sabe ela o que digo quando estou a ranger os dentes.
Tenho uma prece silenciosa
para que possamos resolver tudo isso do meu jeito,
essa missão interminável de macho predador,
que é a coleta de presas falsamente relutantes,
entorpecidas até o talo por orgásmos inebriantes
paridos nas pontas dos dedos e língua.
Talvez ela seja assim só mais um troféu na estante,
talvez eu lembre, silenciosamente, dela na roda de cúmplices
como aquela que vivia reclamando do meu jeito.
Ela sabe como venero um bom peito,
mas os eláticos de sua calcinha
não tinham que marcar a alma tanto assim.

sexta-feira, julho 17, 2009

Coração em paz

Por André Debevc

Quero sua boca rosa
saindo em camera lenta na penumbra
de um beijo de batom apagado,
quero o seu cheiro reconhecido até no caminho bêbado de casa.
Quero o rosa da sua boca questionando minha língua,
aceitando minhas mãos decididas
às vezes queitas e ancoradas à sua cintura.
Quero pôr-do-sol,
sorvete e japonês,
flores quase sempre talvez,
e a sensação de realização que há tanto me abandonou.
Quero ser meta, quero ser seta,
quero sempre uma boca semi-aberta
que intui mais que um beijo,
que instiga desejo e replays
e sorri feliz por saber um coração em paz.

quinta-feira, julho 16, 2009

fino trato

Por André Debevc

Que mel é esse que brota em minha boca
e faz feitiços com as moças que dele provam?
Sei lá eu que doce viciante
rescende em meus lábios e língua solta.
Entorpecente de fino trato,
não sujeito à fiscalização federal,
corra pelas esquinas em boatos
para que minhas conquistas
sejam simples lendas
tais como inesquecíveis atos.

(sem título)

Por André Debevc

Sua indecisão pontuava sua resistência,
indecisão medrosa de uma cumplicidade branda.
E vai, me beija logo,
antes que sua boca consiga fingir arquivar o desejo
que te move agora.
Me lê, me beija, deixa ser
pois agora sou simples demais, um impulso primário
que adora te dominar.

quinta-feira, julho 09, 2009

Apelos milenares

Por André Debevc

Agora,
vamos às ilusões coletivas,
às momentâneas faltas de caráter,
ao mergulho da saudade precoce.
Vamos aos braços das lágrimas doces,
nos rendamos ao apelo mais milenar de nossos instintos animais.
Falesmo de palavras que calam e de gestos que consentem.
Suspendamos, assim nesse ar onírico,
as mais maliciosas ilusões
no piscar mais vacilativo do segundo de cansaço.
Paremos de beber antes mesmo de começar,
renunciemos agressões gratuitas
e guardemos para nós alguma conclusão inútil.
Já é tempo de morder o mundo com esses caninos afiados,
já é hora de passar-lhe a língua no lábio superior.
Os dias não vêm pré-fabricados
e ninguém sabe sua cota de alegrias nem de dor.

terça-feira, julho 07, 2009

Jantar pra quê?

Por André Debevc

Com o buraco imenso que tinha no peito, a fome se acovadou e sumiu. Vai ver a comida sabia que nunca chegaria no estômago.

segunda-feira, julho 06, 2009

Dúvida constante

Por André Debevc

Quando te beijo de novo?
Faz tempo que meus sentidos
não concebem o seu gosto,
e muito a contra-gosto acabo brincando comigo mesmo,
invento desculpas sem sentido nem rima
sem ficar paralisado e atento
algenado pelos seus olhos acinzentados.
Então na escalada das horas vasculho perfumes,
me embriago em saliva, mas nada me salva...

Noites insossas
não rendem lábios sempre doces,
e a cumplicidade de nossas bocas
até finge...
mas não aparece em qualquer esquina.

sexta-feira, julho 03, 2009

resolução escrita

Por André Debevc

Sua nuca é a mais bonita que já vi,
embora isso não conte muito a seu favor
se eu não souber o seu nome.
Algumas coisa só sei resolver escrevendo,
já que minha boca quer saber a sua em braile
e deixar tudo mais
virar uma boa história para a gente contar.

Regime de cotas

Por André Debevc

Vou aumentar minha cota de deslizes.
Ando muito inocente ultimamente
e quase esqueci aquele meu sorriso safado.
Não quero é deixar de lado
minha poesia pouco contundente.
Até acho graça nas minhas cicatrizes,
e preciso de histórias para encompridar.

Descoberta Solo

Por André Debevc

Nem só de palavras bonitas
e slogans incríveis vive a minha boca.

Além de meus dentes afiados
trago uma língua de seda parecendo tecido molhado
que se estica até a ponta do meu nariz.

Desejado objeto,
quase sempre agindo, quase nunca quieto,
minha boca esconde delírios além de segredos e mentiras.

Para você, tenho uns beijos esboçados
com gosto apurado, que garante replay.
Mas até aí, nem eu sei,
já que sua boca ignora cobiçada ação
restrita às moças que me encantam
e tentam de toda maneira se infiltrar em meu coração.

Nem só de palavras bonitas vive a minha boca.
Mas isso você pode descobrir sozinha.

quinta-feira, julho 02, 2009

diagnóstico

Por André Debevc

Premeditação e inconsequência andam juntas. Ninguém nunca teve um sorriso safado e sem mostrar os dentes no rosto, sem mil idéias deliciosas na cabeça.

quarta-feira, julho 01, 2009

dia de inferno

Por André Debevc

uma angústia gigante me estacionou latente num pedaço que vai, da garganta até quase a parte debaixo do coração. e num abrir de olhos, como tantos outros - num dia final de inferno - foi como se todos os beijos eternamente adiados, todos os empregos e peitos nunca tidos, todas as viagens e promessas nunca feitas, absolutamente toda a liberdade e as ilusões nati-mortas resolvessem ficar engarrafadas em mim, baixando a luz da minha alma por mais tempo que qualquer outra tristeza sem cúmplice. em dias assim, de ponteiros lentos e piadas órfãs de sorrisos, tudo que eu queria é poder correr, correr, correr. até me encontrar, cheio de planos e soluções, e com aquele sorriso de alma tão profundo que me faz até ter buracos felizes no rosto. hoje acho que não vai dar...

quase quatro

Por André Debevc

descobria as coxas dela com as costas do indicador mais esperto. depois de quase 4cm de penugem arrepiada, não sabiam nem mesmo seus próprios nomes.

quinta-feira, junho 25, 2009

Chuva de quinta

Por André Debevc

a massa polar que chegou lá do sul
me faz querer atracar felino e letárgico no sofá,
a chuva caindo burocrática e constante lá fora,
e dentro de casa só a luz azul da tv no jogo do Brasil
desenhando sombras cúmplices nas paredes.

cenário perfeito, granulado em preto-e-branco,
para ter uma gata branca preguiçosa e fotofóbica no colo,
ronronando com um quase sorriso nos lábios
todo o calorzinho cheiroso que ela guarda para dias assim.

na mesa de centro, a coca-cola perdendo o gás,
sem pressa, enquanto na casa toda só o copo sua
e as almas se enroscam querendo que não exista amanhã.

segunda-feira, junho 15, 2009

na folha em branco

Por Andre Debevc

brinque com a folha em branco com carinho.
nela cabem mil aventuras.

ali, cercada de nada por todos os lados,
você pode ser quem quiser,
fazer de tudo um muito,
até mesmo aquilo que nunca teve nem coragem
de falar alto, assim aos quarto ventos.

você pode beijar e ser beijada,
pode despir ou já estar despida,
pode qualquer coisa, ter um segredo ou
até mesmo ser lambida,
num curioso banho de gata bípede.

…da folha em branco, ninguém escapa, todos ali podem ser mil histórias….

então escreva a sua, vale tudo.
desenho, verso, interjeição e,
depois do espásmo,
o palavrão.
…ah sim, e espere encontrar sorrisos também.
nem que seja assim, sorrindo só com os olhos,
as coxas mornas se apertando de ansiedade.

mas não esqueça, quando guardar a folha em branco,
que seja com um beijo longo do lado mais quente do peito.
juntinho da pele, que é pra toda aventura que tiver guardada ali
ficar paradinha, imobilizada pelo seu cheiro.

quarta-feira, maio 06, 2009

Revendo uma velha amada

Por André Debevc

Peço desculpas pela ausência, a culpa não é de uma emergência nem nada. É que tive que cumprir um compromisso dos mais penosos: a dura e árdua tarefa de visitar uma velha amada. O peito acelerado no avião e a tensão paquidérmica, quase obrigatória, daquela ansiedade espessa de rever um amor de tantas histórias e risadas.
Tivemos nossos altos e baixos, confesso (e amigos não me deixam mentir). Mas agora, depois de tanto tempo, penso que o fim não precisava ter sido como foi. Eu não precisava ter ido embora daquele jeito. A mala, cuia e alma pagando excesso de bagagem num aeroporto de segunda categoria. Como se tivesse fugindo de alguma coisa, fingindo pra mim mesmo que não estava fugindo dela. Eu mal me despedi. Cretino. Nem um derradeiro beijo de adeus, nem um afago prometendo guardá-la no meu peito pra sempre.
Restaram fotos, lembranças, cheiros e sons que não esquecerei nem em mil encarnações, talvez ela goste de saber disso, sei lá. Mas também sobraram silêncios e notícias eternamente incompletas de como ela andava. Ouvi de tudo, e não soube exatamente de nada. Mas pra mim sempre vai ficar a imagem da minha velha amada, no auge da sua forma. Sem as marcas inapagáveis do tempo e de relações erradas. Toda em pézinha, como ninguém nunca mais verá. Tínhamos uma intimidade de noites a sós invejada por amigos e conhecidos que nos viram juntos.
Indo ao seu encontro, devo admitir que foi um erro não vê-la por tanto tempo. A gente tinha uma história, tinha uma coisa especial um pelo outro, eu sei. Só de vê-la se aproximando, com aquele jeito dela de achar que é única, já fico eufórico. Preciso me conter. Se eu suasse nas mãos, encharcaria meu passaporte agora. Desse jeito vou acabar me entregando. Manhattan, te amo.

Em São Paulo (I)

Por André Debevc

Ando tranquilo. Sem lugares de onde preciso fugir, sem mulheres onde preciso chegar. O peito devidamente ocupado e uma casa com o cheiro dela, que amo, pra onde eu posso voltar todos os dias. Até de carro troquei, pra poder levar a vida mais devagar, enquanto os finais de tarde bonitos de outono voltam silenciosos aos céus polarizados de São Paulo. Da cobertura do casarão, onde troco meus dias e pensamentos por dinheiro, vejo o sol fugindo pra de trás de Osasco enquanto a lua sorri, desembarcando em Congonhas e atravessando Moema. Na vida, só mesmo o trabalho anda insano, num engarrafamento de projetos, fundindo idéias, atropelando madrugadas na frente do powerpoint. Mas é São Paulo, o que mais eu podia esperar? Fora o trânsito e a falta de praia, confesso que gosto daqui. Não é sempre assim não. É só porque por quase a metade do milésimo dia seguido, acordei tranquilo.

sexta-feira, março 20, 2009

A eternidade começa aos nove minutos

Por André Debevc

Aproximadamente nove minutos depois de fechar os olhos, ela dá um suspiro alto e profundo, mergulhando fundo no sono da noite onde ela se aninha. Dormindo, ela não sabe disso. Nem disso, nem do quanto tempo passo imóvel, com um leve sorriso pendurado no rosto, praticando o meu adorado esporte de vê-la dormir, enquanto nossos futuros avançam de mãos dadas pra cada vez mais longe. Passo a mão no seu cabelo - tantas noites ainda molhado do banho - e sinto sua pele cada vez mais quente enquanto toda a energia inqueita que ela é repousa sem abrir a boca. Por causa dela, faz tempo que não preciso lembrar de nada velho para aquecer meu peito. Faço mil musiquinhas e jingles só nossos, pra animar a nossa vida e rotina corrida. Por causa dessa moça, com três tatuagens e unhas pintadas de vermelho, vejo crianças na rua e fico pensando em como serão os nossos filhos. Se terão os pés com tons de cor-de-rosa, ou quase fecharão os olhos quando gargalharem sem fazer barulho. Se darão esse suspiro adoravelmente fundo minutos depois de dormir, ou se me trarão desenhos e invenções criativos, feitos de coisas que sempre tivemos em casa. Agora já tem 12 minutos que ela fechou os olhos e dormiu. O segundo suspiro fundo – mais raso que o anterior, é verdade – vem aí. E esse eu também não posso perder. Até logo.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Conversa com sentido

Por André Debevc

- Me promete uma coisa, Shirley?
- Que foi, Flecha?
- Promete?
- Prometo, Flecha, o que foi?
- Promete que nunca vai me esquecer?
(silêncio)
- Mas que conversa sem sentido é essa agora, meu amor? A gente vai ficar junto pra sempre...
- Não, Shirley. Já ouvi que ia ser pra sempre e o pra sempre acabou. Foi pro saco. Só me promete que, haja o que houver, mesmo que a vida nos separe e você vá pra uma outra dimensão, que você vai sempre lembrar de mim. Que mesmo que a gente nunca mais se veja, vai ter sempre um cantinho no seu peito pro que vivemos...
- Ai, Flecha...que conversa mais triste...pára...a gente nunca vai se separar...
- Pára não, Shirley. Promete, vai.
- Juro, Flecha. Juro.
- Não jura não. Promete. Prefiro.
- Tá bom, prometo. Mas vem cá pra eu te dar um beijo, vem.
(smack)
- Agora me dá uma coçadinha aqui, Flecha?
- Aqui aonde, Shirley? Na virilha?
- Isso, Flecha. Aí. Vou te amar pra sempre!
- Não promete o que você não pode cumprir, Shirley...não promete o que você não pode cumprir.
- Ai...você é foda, sabia? Às vezes me desanima!
- Por que? Pode acontecer, Shirley, pode acontecer...
- Se você continuar com esse papo, vai acontecer MESMO!
- Não disse, Shirley? Eu não disse?

(os nomes dos personagens são sim uma homenagem aos personagens de Luís Fernando Veríssimo - um dos meus grandes heróis da literatura)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Granulado em Preto-e-Branco

Por André Debevc

Posava toda sua naturalidade mansa com sossego felino, abrigada e preguiçosa, numa tarde de chuva sem relógio ou celular por tocar. Quase nua, sorvia o silêncio e esculpia movimentos quase em camera lenta (com trilha sonora claro), com a tranquilidade de quem vive um segredo. Abria sua intimidade pra ele como quem folheia, sem cerimônia nem pressa uma revista antiga, em sala de espera. Insinuações sempre são melhores que o escracho, dizia jogando dissimulada. E assim, fingindo não sentir lá no fundo nem um pouquinho de tesão, ia doando o que ninguém nunca poderia colecionar ou reunir: os melhores de seus fragmentos.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

depois de todo aquele silêncio

Por André Debevc

...e se alguma coisa tiver quebrado?

...e se for uma daquelas coisas que não tem conserto?

...e se for uma dessas coisas sem volta?

Uma pessoa só é realmente importante na sua vida
quando o que ela pensa, ou deixa de pensar,
faz toda a diferença para você.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Resolução Zero

Por André Debevc

Reveillon passado eu não fiz uma promessa de ano novo. Dez, nove, oito, sete...e nada. Nenhuma mísera resolução quase heróica pra seguir por 365 dias quando o dia raiou azulzinho lá num cafundó escondido do sul da Bahia. Não prometi parar de fumar porque não fumo. Não prometi parar de beber porque não minto. Não prometi ficar menos careca porque não posso. E sinceramente acho que entro o ano melhor assim. Livre, leve e solto, correndo e sorridente como mulher menstruada em comercial de absorvente interno. Um ser que pode tudo. Quer dizer, quase tudo porque infelizmente, ficar no paraíso (pois é gente, descobri onde fica) não era possível. Sem internet, sem hora, e em breve sem repelente. Até pensei em prometer voltar lá, mas aí lembrei: melhor mesmo é não ter que prometer nada, e ainda assim poder sair com o sorriso mais safado que tenho estampado bem aqui no rosto.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Nada

Por André Debevc

Das coisas que você me deu, acho que não tenho mais nada.
Tudo que sobrou é buraco do que você levou embora.

segunda-feira, novembro 24, 2008

finitude

Por André Debevc

às vezes só é preciso um farol de relance na contramão
ou uma palavra escapando de manhã em alto tom e velocidade,
pra lembrar que nós
também podemos
não ter nada de eternos.

segunda-feira, novembro 17, 2008

No box (ele)

Por André Debevc

Sentado no chão do seu box blindex há mais de vinte minutos, ele pensava numa frase de Balzac enquanto a água quente descia quase sem pressão do chuveiro chinfrin comprado na lojinha da vizinhança. A sorte de uma relação amorosa depende da primeira noite, dizia o velho romancista.

Com a água escorrendo as suas costas e nenhuma preocupação com o tempo, ele pensava em toda a verdade da frase enquanto pensava na sua nova aspiração amorosa. Imaginava na verdade, já que a exatidão das curvas, do tom de rosa e raio exato das auréolas dos, provavelmente, empinados peitos de seu objeto de desejo eram até ali apenas suposição de sua mente fantasiosa e um tanto indecisa.

Macaco velho de guerra nas noites, bagagem não lhe faltava para saber que nenhuma primeira noite acontece em flashes sépia ou closes elegantes em câmera lenta. Lances com imagem granulada, só em dias seguintes. E mesmo assim, dependendo do álcool.

Era um desses raros sujeitos realmente atentos ao detalhe. Sem vulgaridades ou babaquices de pornografia desnecessária. Desses caras que lembra de besteiras ditas sem qualquer intenção – todo mundo conhece um, né? Do tipo que mapeia corpos e idolatra fragmentos e temperaturas que fazem de cada mulher uma criatura completamente diferente da outra.

Gosta de mulher de verdade. E é cético em relação à mulheres de capa de revista, todas refeitas com Photoshop, segundo ele. Imperfeições e detalhes são o que realmente o movem. Não pode ver uma mulher com uma leve cicatriz no rosto. Charme pessoal e intransferível, gosta de dizer. Sabe que a gravidade e celulites acontecem - fazer o quê, né? – e só acha mesmo que começa a pensar numa moça quando ela provoca nele aquela indefinível vontade de colocá-la na boca. Só não aprova sutiã com enchimento. Porque isso é propaganda enganosa.

E foi visitando imaginariamente, e sem nenhuma pressa, cada milímetro do corpo, sinal de nascença e cicatrizes do objeto de sua atenção, que ele ficou. De olhos fechados, sentia cada gota morna que viajava do chuveiro até seu corpo. Tudo tem seu tempo, pensava.

O melhor jeito de decorar o cheiro de sua nuca. A descoberta do calor de suas coxas. O último olhar dela antes dele lhe tirar a calcinha. A primeira vez em que a visse nua, ansiosa, com todo pêlo da alma em guarda, arqueado, esperando o bote. Tudo tem seu tempo. Tudo.

Amores, desilusões, sonhos e promessas feitas ao pé do ouvido. Tudo tem seu tempo. Como a água que escorre pro mar, partindo ali dos seus pés junto ao ralo. E pra ele, que não gosta lá muito de esperar, este tempo só pode ser agora.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Plano de Fuga

Por André Debevc

A curva do seu peito que meio sem jeito finge que não quer pular na minha boca, escapa ali pelo seu decote tímido liquidando toda atenção que eu podia ter por qualquer outra coisa. Engulo dissimulação seca desviando os olhos pra você poder passar horas brincando de musa sem nunca precisar publicamente perceber minhas retinas e ajeitar a blusa, tirando minha visão abençoada do seu peito direito. Conto penugens, cumprimento um a um os poros, encontro pintas, investigo o relevo, imagino textura e crio cheiro. Tudo sem que, infelizmente, você tenha a alegria de ver meu sorriso mais safado e faceiro (daqueles que guardo só pra ocasiões especiais e moças mais ainda). Hoje moça, vou lembrar da curva do seu peito quando deitar no travesseiro. Mas aí, vou saborear seus seios por inteiro. E sentirei temperatura, bicos e auréolas sem pressa nem desnecessário sutiã trapaceiro. Mas até la, vou derrapar na reveladora linha curva do seu decote, rezando a cada minuto pro seu peito dar um pinote e vir parar sorrindo na minha boca.

exatamente

Por André Debevc

com o jeito mais despreocupado do mundo
ela leva o umbigo para passear
arrastando olhares silenciosos pelo salão.
sem fazer qualquer esforço
coleciona almas debruçadas, inertes e sem palavras,
rendidas pelo seu ar de menina e sorriso de leite.
doce, traz o resto de sua voz suave para voar pela sala
feito gaivota no fim da tarde de um verão carioca.
a moça que delicadamente anda em estrelas,
não é fã de camelo nem amante de amarante,
acaricia o tempo com dedos de esmalte esquecido
encantando feito as mulheres de Chico,
enquanto o vento em algum canto assovia seu apelido.
ela que brinca de ainda não ter decidido
se quer ser menina apaixonante ou uma cativante mulher,
mas que com certeza já sabe
que quer ser diferente de todas as outras.
e isso é o melhor que alguém pode querer ser.
exatamente o que ela é.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Inspiração

Por André Debevc

ando me especializando em decorar seus sorrisos
de tanto de fazer gargalhar
com alguns de meus improvisos indecisos
faço de tudo um pouco querendo causar às vezes até falta de ar.
mas é só você ir lá longe um pouquinho
que toda minha graça dá um sumiço,
desses longos e quietos por não ter pra quem se engraçar.
que seu calor é do que mais preciso para simplesmente me inspirar.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Foi pouco

Por André Debevc

Outro dia eu a vi atravessando a rua, passando na praça da minha infância, com seu ar primaveril de quem anda sempre com uma leve brisa dançando à sua volta: a mulher com quem (ou seria contra quem?) cometi a maior obra de canalhice de toda minha existência.

Pois é, eu não sabia exatamente quanto, mas descobri que eu também sei ser canalha. E dos bons. Com as pessoas erradas principalmente. Como é típico dos bons moços, aliás. Diria até que quanto mais bom moço o moço, maior a sua capacidade de cometer um grande gesto de canalhice. Destes de causar estranheza até na roda de chope de amigos nada santos.

Enfim, vi de longe a mulher que sei que atravessaria a rua para o outro lado se me visse ali naquela calçada (e todo homem que passou dos trinta tem pelo menos uma). A vi e não fiz nada. Nem um pedido de desculpas, nem um esboço de explicação. Nada. Até porque tudo aquilo, naquela noite, naquela festa em que eu estava com outra mulher (com quem saí apenas algumas vezes), foi um acidente. Mas ela não entenderia. Ela não deixaria eu me explicar se tentasse. Sei que existem horas em que ainda não adianta tentar falar com uma mulher. Esta era uma dessas horas.

Confesso que também não sei como iria começar a explicar porque acabamos, eu e ela (a mulher que vi na rua) aos beijos num corredor escuro, enquanto a mulher que entrou na festa comigo dançava a metros dali. Eu JURO que achei que ela tivesse percebido que eu não estava sozinho, e que mesmo assim estava topando toda aquela loucura. Mas não sei o que se passava na minha cabeça e nem mesmo onde eu tinha esquecido a minha noção de perigo. Não sei.

Sei que sempre a desejei e nunca esperava encontrar com ela ali. Nunca. Logo no dia em que resolvi ir acompanhado por pura e simples falta de paciência de flertar. Eu andava cansado daquele jogo todo, de saídas, bebidas e flertes. De verdade. Mas quando a vi, pirei completamente. Perdi a noção de estar momentaneamente acompanhado. Esqueci qualquer polidez e convenção social enquanto minha solteirice, ali não exatamente completa, martelava meu cérebro com ordens imediatas de ataque. E o pior, sem nem pensar em colocar a pobre incauta que sacodia o esqueleto na pista de dança num taxi rumo a qualquer lugar longe dali.

Quando dei por mim estávamos no corredor escuro, eu e a moça que há anos despertava em mim muito mais que interesse. Em beijos espetaculares, de uma sincronicidade e cumplicidade poucos antes vistos. Na hora de voltar à festa, deixei-a ir sozinha na frente. Ao entrar no banheiro, dei de cara com a minha cara de canalha no espelho. Um sorriso largo e cretino no rosto que só a lembrança da outra, esquecida ao som de alguma música insuportável na pista de dança conseguiu quebrar.

Joguei água no rosto, ainda sem acreditar no que tinha acabado de fazer, e fiz a única coisa que me restava fazer: fui resgatar a mulher que tinha chegado na festa comigo para irmos embora e acabarmos de vez com aquilo. Foi quando a pequena Ana (será que eu mencionei que o nome dela era Ana? Será que eu mencionei que ela era pequena?) viu que eu não estava desacompanhado. Seus olhos se injetaram de ódio e eu que pensava que tinha uma cúmplice (juro que pensei que ela sabia que eu não estava só) vi que tinha acabado de ganhar uma fã pelo contrário.

Foi quando ela atravessou a sala como uma bala e disse para que eu nunca ligasse para ela. E nunca mais a vi até este dia, na rua.

Amigas (tô falando de mulheres mesmo, não foi um erro de digitação) que depois ficaram sabendo do acontecido me recriminaram com um estranho tapinha quase cúmplice nas costas. “Você precisava de uma coisa assim na sua vida”, disse uma delas. Outra falou que sabia lá no fundo que eu não era bonzinho, e que eu tinha potencial. Só não precisava ter errado com ela, a doce e pequena Ana. A Ana que agora me odeia. Ana que não quer me ver nem pintado de ouro nem nas próximas encarnações.

Se pedir desculpa adiantasse alguma coisa, eu pediria. Nem que pra isso precisasse levar um bom tapa na cara. Mas cá pra nós, um canalha assim merece muito mais.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A conta do recado

Por André Debevc

Ela era uma dessas mulheres com marca suave de biquini na alma, dourando ao sol de uma Ipanema da vida, escondendo os olhos castanhos e um ensaio do que seriam sardas atrás de um óculos grande, desses que anda na moda agora. Toda vez que ela deixava o carro, ele – um cara comum, repleto de vícios inofensivos e amigos antigos - como que numa reação automática passava a mão direita carinhosamente pelo banco do carona, querendo ainda sentir ali o calor dela.

Dizer que ele quase cheirava o banco de carro seria exagero, tudo bem, mas quase. A idéia de que todo o calor do objeto de desejo dele tinha estado ali há segundos – e ele não tinha feito nada - o deixava louco. Prestes a se declarar. A dizer que tava apaixonado, que tava amando, entre outras besteiras que todo homem já tentou usar pra levar alguém pra cama. Quanto mais quentinho o banco do carro, mais à beira de se declarar pra ela ficava. Mas declarar o que?

Ele sabia que não tinha nada na manga. Só um pouco de canalhice, uns sorrisos safados e muitas intenções bem objetivas e práticas. Nuas e cruas, diria. Mais pra nuas, claro. Ele só queria umas tardes, noites ou madrugadas sem pressa pra colocar moça na boca feito manga. E ficar ali, com aquela mulher na ponta da língua e alguns outros lugares. Até ela se desfazer mil vezes em suor e gozo, e arrumar um lugar pra ele na galeria de trepadas inesquecíveis dela. Lugar eterno, e de preferência com direito a visitas futuras sem necessidade prévia de agendamento ou joguinhos bestas. Mas como fazer isso? Perguntar diretamente era só garantia de um tapa na cara. Ela era bonita, mas não ordinária...

Como eu vinha dizendo, ele não tinha nada na manga. E ela – bonita e cobiçada – não tava muito aí pra ele não. Até o dia em que ele, distraído, esqueceu de elogiar uma mudança no cabelo dela que todo o resto do universo notou e fez questão de elogiar. Foi o suficiente pra que ela olhasse pra ele com outros olhos. Como se de repente tivesse nascido ali outro homem a ser conquistado. Certamente mais um na sua coleção de presas.

E bastou essa pequena desatenção para que algumas caronas depois, estivessem trocando beijos e amassos em frente à portaria dela. Na primeira vez que colocou as mãos entre as pernas dela, espemidas num jeans importado, ele quase explodiu de alegria e precocidade. Era muito mais quente que o banco do carro. Era muito mais quente do que ele esperava que fosse. Ela era muito mais quente do que ele esperava. A pele, a nuca, os peitos, a virilha, tudo. E como era linda.

Na penumbra então, nem se fala. A falta de luz a fazia ficar ainda mais linda - isso ele descobriu no dia em que subiu na casa dela – o peitinho um pouco menor do que ele queria que fosse (enganando a todos num desses sutiãs propaganda enganosa), a bundinha um pouco mais desafiada pela gravidade do que ele imaginava. Enfim, imperfeições que a faziam ainda mais irresistível. A moça que deixava o banco do carro quente. E ela esta a ali, a segundos de ser consumada por ele.

Taças de vinho e um início de dvd (Vanilla Sky, que ele sempre gostou mas viu mil vezes) depois, transaram, treparam e alguns outros sinônimos para todo esse lance de beijar, passar a mão, ficar pelado, beijar mais, lamber, chupar, quase fazer merda, achar a camisinha, lamber mais, colocar a camisinha e voltar a beijar pra poder gozar (com e sem trocadilho) da liberdade de ir e vir, conforme está previsto na constituição. Ufa....e olha...ela é bonita, viu?

Olhando com um sorriso sem dentes para ele mesmo no espelho do elevador do prédio bacana onde ela morava, foi essa a conclusão a que ele chegou. Moça bonita. Virilha quente. Peitinho lindinho e sem biquinho evidente, mas realmente menor do que o ideal. E aquele corriqueiro defeito que mulheres bonitas demais costumam ter: era esforçada. Tinha uns talentos, é verdade, mas estava longe de ser boa naquilo. Esforçada.

O quão boa ou ruim? Digamos que boa o suficiente para ele não ligar no dia seguinte. Mas nada que o fizesse evitar atender quando ela aparecia numa noite de semana no visor do seu celular. "- Oi lindo!" Lindo não, mas que dá sempre conta do recado.

As batatas

Por André Debevc

Acordou ainda sem saber muito bem onde estava, coisa comum nos últimos anos da sua vida. Um resto de shampoo e fumaça na cabeça recostada no seu ombro dormente não deixava dúvida: mais uma vez tinha acabado nua e bêbaba na casa de uma amiga que se divertia levando desconhecidos – quase sempre sem camisinha na carteira - para casa para brincar à três na madrugada.

A boca macia no seu peito, ainda exalando álcool e cigarro barato já até parecia ser coisa antiga e normal, mas a sensação de que toda aquela noite descolada demais não era verdadeiramente pra ela ainda soava seca e forte em manhãs assim, onde flashes de um estranho – quase sempre um pouco agressivo demais - querendo colocá-la de quatro, com a boca entre as pernas da amiga eram mais reais do que nos seus sonhos, sonhados de boca aberta.

Talvez no fundo fosse mesmo apenas uma menina sozinha, de poucos amigos sinceros, a quem nunca tivesse sido dado ou cobrado muito limite.
Desde adolescente se metia em pequenas enrascadas, como quando contraiu uma doença venérea numa noite onde mentiu para a mãe e até pegou carona na moto de um garoto sem carteira e sem nome. Aventuras doidas, segundo ela, que contava os fatos – um pouco amenizados para não chocar demais, claro - aos pais e namorados como se tivessem sido vividas por uma amiga, daquelas que você, eu e todo mundo, não conhece muito bem não.

Mas algo na manhã tardia daquela terça-feira, na luz que entrava no quarto daquele apartamento sem cortinas em Laranjeiras, onde se acostumou a andar nua para deleite dos vizinhos, incomodava um pouquinho mais. Que desculpa usaria para a mãe desta vez para justificar o roxo na coxa grossa e o andar coxo ao chegar em casa? Que tamanho teria o vazio que a separava tanto de quem um dia foi? Era isso mesmo que ela queria? Ou era isso que ela achava que teria que querer e gostar? Teria o limite dela, onde se violou pela primeira vez, sido deixado para trás de uma maneira sem volta?

De frente ao espelho do banheiro da casa da amiga, apertado e encardido pelo tempo, lavou o rosto tentando acordar e deixar a ressaca moral, já costumeira para trás. Parou sem querer os olhos na marca de nascença que um antigo namorado, já esquecido – talvez o mais carinhoso de todos – tanto gostava. Uma onda de fraçao de segundos fez que ia a invadir com nostalgia. Chegou até a ensaiar um sorriso. As melhores batatas são sempre as do fundo do saco, o velho namorado costumava dizer, nas milhares de vezes que iam matar a fome do motel num fastfood longe dali e de tudo que ela era hoje. Ele tinha razão, pensou. E então seus olhos ali, em frente à torneira fechada, se encheram de água silenciosa. Gole seco e inevitável.“As melhores batatas são sempre as do fundo do saco.”

Aquele saco - com as melhores batatas e anos da sua vida - não volta mais. Nunca mais.

quarta-feira, setembro 03, 2008

da alma

Por André Debevc

vai ver é mesmo da alma
isso de vir se despedaçando pelo caminho,
se reinventando e esfarelando,
esquecendo fragmentos e bilhetes dobrados
onde o amor esqueceu
de lembrar que já foi embora.

antes do pôr-do-sol,
muito antes de tantas auroras
ou dela mesma, a alma,
se olhar fundo nos olhos
e entender sorrindo sozinha
que o importante mesmo na vida
é ter páginas com histórias,
porque são elas
as coisas boas de virar.

quinta-feira, agosto 07, 2008

O biscoito e a chuva

Por André Debevc

na tarde de gotas de chuva que mais parecem pães de queijo,
um pacote de biscoito familiar me planta um sorriso mais longo.
estou em são paulo e a garoa bombada achou o endereço de casa
depois de um mês de férias em algum lugar lá pro sul.

debruçado sobre meu itunes repleto de novas aquisições
escalo a tarde driblando o sono,
enquanto o ponteiro pequeno do relógio não chega no sete,
criando idéias pra vender e pagar o aluguel.

e em meio ao pantone de cinza emoldurado na janela,
um biscoito Globo aparece do nada e me sorri,
me fazendo fechar os olhos e lembrar da praia, do Rio,
e de um cara que sou lá naquele universo paralelo
onde o vento bate depois de saltar as ilhas cagarras
e as palmeiras imperiais me mostram que estou em casa.

nada como um biscoito na chuva para fazer o sol bater forte na alma.
Biscoito Globo doce, claro.
porque de salgado já me basta o peito.
regado e sempre morrendo de saudade
da água do mar.

a casa pra qual não se pode voltar

Por André Debevc

depois de tanto tempo ainda tem dias
que sonho em voltar pra casa...
a velha casa que já não é mais minha
onde eu podia encontrar minha fruta favorita,
e sorvê-la em paz.

uma casa que mudou de dono, e até de endereço,
mas que sempre vai ser um lugar bom de sonhar em voltar.

algumas lembranças renascem - com um cheiro, um gosto,
uma voz saindo que pula de canal na tv - só pra cicatriz que nos fez
ter certeza que existiu.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Filosofia Fast-Food

Por André Debevc

As melhores batatas fritas são sempre as que se jogam no fundo do saco
quando pedimos o lanche pra viagem.

quarta-feira, julho 30, 2008

Só ele

Por André Debevc

Velando seu sono enfermo, pensou em acordá-la só pra dizer o quanto a amava. Mas aí lembrou que ainda não inventaram palavra para coisa de tal grandeza. Aí sorriu, lembrando que só ele e o universo sabem o que é uma coisa que não pára de crescer. Nunca pára.

a moça e a mão nada boba

Por André Debevc

era a moça que adorava dormir com pelo menos uma parte do corpo encostada nele. o dedinho do pé que fosse, como gostava de dizer antes de cruzar o tornozelo sobre o dele, mexer no cabelo, roubar um beijo calmo de boa noite e sorrir. aí já balbuciando o fim de alguma história com personagens que ele não conhecia bem, ela apagava a luz e esperava que ele não resistisse ao calor do corpo dela ali pulsando sob pouca roupa, mergulhado na penumbra do quarto de cortinas esvoaçantes. ali onde dormia como sempre, com a mão dentro da calcinha, ali mesmo onde gozou mais do que jamais tinha sabido que podia pela primeira vez, enquanto ele dava aquele beijo diferente e a bebia entre sussurros e interjeições confessadas por todo seu corpo, começando pelas coxas, já quase rendidas naquela distante manhã de domingo. a moça com nada de feia que quase se desfez em alegrias e sonhos na cama estreita do prédio amarelinho no meio da ladeira, dormindo com a mão na calcinha e acordando sem ela. mais que uma lembrança feliz guardada em segredo, uma história mutante que já viveu de tesão e conversas longas, e que agora achou seu lugarzinho especial e intocado para ser eterna, como a sua mão e sua vida. nada bobas.

Reflexões

Por André Debevc

O melhor filme é o que nunca pode ter uma continuação.

quarta-feira, julho 16, 2008

De Luto

Por André Debevc

Hoje em dia, para morrer, basta estar no Rio.

(deus, o que estão fazendo com a minha cidade?)

quarta-feira, julho 02, 2008

Eterno Amor

Por André Debevc

meu coração bate fazendo eco
como nunca nenhuma mulher fez ele bater.
tenho as mãos frias, a boca seca
e um tique que não deixa meu pé parar quieto.
entro e saio de sites,
leio e canto sozinho num dos dias
mais longos da minha existência.
abrigo o prenúncio de uma noite apoteótica no peito
enquanto seguro um grito que anda louco pra ser verdade.
desabafo, comemoração, merecimento…
a glória flerta exigindo uma coragem épica
de almas suando sangue e determinação para se deixar carregar.
visito o relógio a cada segundo
e minha vida toda até anseia desabar
num choro de felicidade.
eterno amor, meu Fluminense,
tudo que quero hoje é celebrar a sua felicidade,
a nossa maior conquista até agora.

quinta-feira, junho 26, 2008

lugar indeterminado

Por André Debevc

de algum lugar indeterminado do mundo ela aparece online e diz que andou sonhando comigo. ah, aquelas coisas… - ela diz - enquanto imagino sua cara de tarada digitando eheheheheh. ela conta que tá com pressa e atrasada, lá em outro fuso, mas que acordou com uma música que fazia lembrar meu cheiro, e aí bateu uma saudade - daquelas que não mata mas não passa – de colocar a mão na minha coxa no trânsito e rir de alguma das minhas palhaçadas no meio da tarde. o mundo não é mais aquele, moça. e nem nós, digo. com certeza, ela responde. mas nunca me esqueci daquele dia naquele quarto amarelo. às vezes, quando tô sozinha, penso nisso…e dá uma vontade de te colocar na boca. sabia que eu sempre lembro daquela sua frase de que mulheres foram feitas para serem colocadas na boca? ehehehehe. fico feliz que você lembre de mim, moça ☺. lembro, lembro sim…só não lembro porque não te amei pra sempre, você lembra? não era hora, talvez, não sei. mas eu também lembro do quarto amarelo. você de shortinho frouxo e sem calcinha. hahahahahah. eu era louquinha, né? é…e eu acho que aproveitei pouco, concorda. ehehhehe… tenho certeza :-P (offline)

quarta-feira, junho 25, 2008

Lágrimas oficiais

Por André Debevc

Vejo o Presidente Fernando Henrique em pé ao lado do caixão da esposa, Dona Ruth, e a mais profunda tristeza me faz de casa. Cinquenta e cinco anos de casamento interrompidos antes do final do Jornal Nacional. Não existirá no universo uma só palavra de conforto. Não existirá em toda a história um abraço de carinho forte o suficiente. O coração ex-presidencial viverá o resto dos seus dias a meio pau. A morte de sua companheira institui à força uma eternidade de goles em seco. De frases incompletas. E mesas não-postas. Agora a democracia não tem voz. Foi-se nossa eterna primeira dama. Foi-se a doce Ruth, do Fernando. Chegou a maior tristeza de um homem. Presidente, por mais que isso nada signifique, você tem meu choro em solidariedade.

segunda-feira, junho 23, 2008

Fon-fon

Por André Debevc

estar ao seu lado
me faz um bem danado

eu lavo a louça e você rega as plantas,
e assim segue a vida, gostosa e divertida,
antes que o despertador nos acorde,
de segunda à quinta, quase às oito da manhã.

levantar todo dia dessa cama
e viver essa rotina sã me recheia os sonhos,
cravejando a volta do trabalho de planos
e vontade de beijar a sua nuca.

amar é meio isso mesmo,
criar uma religião com um deus falível,
desses que me deixa te irritar
só com o comentário que faço
do jeito que você dirige.

Ops...

Por André Debevc

o peixe morre pela boca,
o homem pelo coração - que às vezes se confunde,
e pulsa dentro da calça.

quinta-feira, junho 19, 2008

Olhar Fracionado

Por André Debevc

às vezes, confesso,
te olho aos pedaços…

nuca
olhos
boca

peitos
barriga
flancos
pés

e me convenço
que viveria sem embaraço dias
nesse estudo deste tudo
meticulosamente distraído de você.

ao som da sua voz mansa
falando qualquer coisa
te vasculho ocupada
na tarefa nada pesada
de simplesmente ser você

e sem régua te meço
e sem chegar perto te beijo
e te cheiro.

amo-te em partes,
que somadas
fazem mais que um inteiro.

e se numa hora dessas você me flagrasse
com todo meu ser seguindo seus passos,
não me restaria nada a confessar senão
a mais pura verdade,
que sim, minha pequena,
tem horas que te amo em pedaços.

sexta-feira, maio 23, 2008

Havana

Por André Debevc

A manhã se convida para dentro do quarto pelas frestas da persiana velha de guerra que o hotel anda precisando trocar. Dançando nos feixes de sol penetra que corre o chão, a poeira do tempo, embalada em sussurros e interjeições, vai ricochetear naquele quarto para sempre. O ventilador de teto gira ainda entorpecido tentando cortar o ar denso que ainda emana a maratona de pernas e bocas e mãos que ela e ele percorreram, e ganharam. Parece Havana de tão quente e úmido. Parece Havana de tão granulado e irreal. Talvez até seja Havana depois de tanta sensualidade e tesão. O jeito que se olharam quando a porta fechou, o jeito que se pegaram quando tudo não parou. Corpos exaustos em lençóis molhados e atravessados pelo quarto. Os celulares desligados pro mundo. O universo todo deletado da porta pra fora. Velhos amantes amando corpos antes tantas vezes percorridos e até decorados. Depois de quase aplaudirem, só mesmo as tatuagens descansam, certas de que não são mais a única coisa que eles terão para sempre. Ele vai acordar com cara de safado e cínico. Ela com um sorriso e as pernas ainda bambas. Os dois pensando em começar tudo de novo. Os dois adorando acordar com aquele cheiro familiar e que nunca realmente esqueceram. A distância entre eles andava escondendo alguma coisa forte. Alguns dizem que é saudade, outros tesão. Das pernas dela em prender o corpo dele. Da boca dele em ler em braile as curvas e penugens dela. Um encontro tão clandestino quanto inevitável, rasgado pelo toque do telefone do quarto no dia embrulhado em preguiça.
Ela atende. E antes que ela possa desligar, ele já mergulha sem piedade ou hesitação em direção à nuca. Ela arqueia as costas e pede mais.

segunda-feira, maio 05, 2008

TODAS

Por André Debevc

as que me disseram sim
e as que me deram pelo menos um não,

as moças que eu sempre quis e nunca tive
e as que eu quis uma vez e tive sempre,

as que me encheram de sorrisos
e as que me secaram de lágrimas,

as mulheres que eu quis ter na boca
e as que quis nunca mais ter nos olhos,

as que me tiveram pra sempre
e as que sempre me prometeram o que nunca podiam dar,

as fêmeas que me beberam
e as que me escorreram pelas mãos,

as que beijei com vontade
e as pra quem mostrei a língua

aquelas que quis levar pra uma ilha
e as de quem eu não consegui fugir,

as que estraguei eternamente
e as que consertei só com um sorriso um pouquinho mais longo

todas as que cruzaram o meu mundo me trouxeram até aqui
pra deixar você ser a única que pode me chamar de seu.

por pura falta do que fazer

Por André Debevc

hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer

na cama no banho ou até num sofá
confesso que estou aqui perdendo meu tempo
pensando em como pode ter sido e até será

tô há minutos (ou seriam já horas?)
parecendo sério sem precisar sorrir sozinho ou disfarçar…
coisa mesmo de quem tá pensando em outra pessoa
em outra coisa, e certamente em outro lugar

tô no meu velho lugar sem saber de você,
ser ter idéia nem certeza se você já pensou em me dar
enquanto tava sozinha com o chuveirinho
ou dormindo só de calcinha num quarto com ar

hoje por pura falta do que fazer
eu tô pensando em te comer

mas não se envaideça não

minha falta completa
do que fazer já vai passar.

terça-feira, abril 22, 2008

A Blueberry Life

Por André Debevc

Cores saturadas, movimentos laterais em camera lenta e muitos silêncios. Lembranças são assim, peças órfãs e granuladas de quebra-cabeças sem trilha sonora ou frases de efeito ricocheteando pela eternidade. Finais que não engolimos e chaves de portas que fecharam, perdidas em um jarro de vidro onde nadam histórias contadas por um só lado. Ninguém ensina a gente na escola a ser deixado. Mas se a gente deixar, o mundo até gosta que a gente se reinvente.

sexta-feira, abril 18, 2008

Melhoras

Por André Debevc

A distensão já melhorou bastante. E a panturrilha já tá bem menos inchada. Sempre achou engraçado este nome. Panturrilha. Melhor que chamar de batata da perna, diz. Nem parece batata. Andar já anda mais fácil, assim como levantar da cama de manhã. Hoje mesmo nem queria sair da cama. A namorada ali, quentinha e cheirosa, pedindo pra ele inventar uma desculpa e ficar ali na cama, sem precisar levantar e descobrir que a panturrilha melhorou. Não deu. Levantou depois que o despertador tocou pela segunda vez. Foi pro banho ainda pensando se casar e morar junto é a mesma coisa. Anda pensando. Em morar junto. Ele e a moça que não acorda cedo às sextas-feiras. Afinal também é o rodízio dela, né? O dele não é hoje. Foi na quarta. Dia da distensão. A batata da perna rasgando. Batata não, panturrilha. Passou dias mancando. Anti-inflamatório e gelo. Andar, só devagar. Como os amigos que vão se perdendo pelo caminho. Anda pensando. Nos amigos. Em fazer um esporte diferente. Já até mudou o visual. Óculos novo e meia dúzia de peças virgens no armário. No trabalho anda até mais falante. Culpa da distensão que o deixou mancando. Ela não é a única coisa que já melhorou bastante.

quarta-feira, abril 16, 2008

outro dia

por André Debevc

Tem dias que, sem motivo ou explicação, uma tristeza gigantesca invade minha alma. Aí fica reverberando nos ossos aquela saudade imensa de não sei bem o quê, que tira o brilho dos meus olhos e deixa meu sorriso opaco. Uma quase dor latente que dá um sono e uma preguiça danada, às vezes até de falar, acreditem. E me faltam respostas ou justificativas. E reviro os bolsos da minha existência, vasculho os cantinhos pouco varridos da vida, e nada. Nada explica essa minha tristeza. Nem a programação pobre da tv, nem avenida engarrafada. É meu dia de reticências. Sem alegrias nem tragédias, sem sorrisos verdadeiros nem elogios falsos. Tem dias que uma tristeza gigantesca invade minha alma, uma tristeza que não é minha. Espero que amanhã não seja um destes dias. Porque hoje já não tem como não ser.

sexta-feira, março 28, 2008

inconstante

Por André Debevc

Sou um homem que vive de vender palavras. Tenho meia dúzia de sonhos e uns dois ou três pesadelos nos bolsos. Me satisfaço com o que vale a pena, e curto cada dia mais ser o melhor de mim mesmo, sem precisar agradar ninguém. Carrego cada vez menos melhores amigos no peito. Conheço algumas verdades, nutro seletas esperanças, e rezo toda noite pra aprender a perdoar pra um dia, quem sabe, esquecer de vez a minha coleçãozinha de mágoas. No caminho de casa, costurando o asfalto no meu carro, olho para o horizonte de concreto na cidade cinza e lembro de tudo que eu já quis ser. E nessa hora, vejo pelo retrovisor, que o sorriso que me vem, não tem nada de amarelo.

terça-feira, março 18, 2008

Pré-destinados (em até 150 toques)

Por André Debevc

Antes mesmo de sonhar aquele beijo, já a tinha nos braços. Os dois ali só de passagem. Mãos dadas na madrugada, embarcando juntos com um só destino.

Outro meio, outro fim

Por André Debevc

Espero que isso nunca me complique, mas sei que sempre que falar de você, vou acabar sorrindo. Complicar por que, ele perguntou. Ah, sei lá…você sempre acaba com umas mulheres ciumentas, que não gostariam de saber o que tivemos. Quer dizer, na verdade acho que é normal ficar incomodada quando você suspeita que o seu namorado teve uma relação super carnal com uma mulher que está ali te dando dois beijinhos com a cara mais deslavada do mundo. Carnal? – Ele indagou. Como mais poderíamos classificar o que tiveram, pensaram. Ele ousou dizer que nunca precisaram dar nome pro que tinham. Verdade, ela disse. E aí sorriu. E assim se despediram deste quase desencontro. Ali no aeroporto onde ela voltava para sua casa em Paris e ele passava por um desvio de ponte aérea em dia de neblina baixa.

Ao vê-la ir embora quem sorriu em silêncio foi ele. Vendo a ir, elegante e discreta como sempre. A mulher com quem, alguns anos antes, tinha vivido um intenso e rápido caso de sexo e amizade. Nada oficialmente clandestino, mas também longe de ser publicamente assumido, mesmo que nenhum dos dois tivesse compromisso pra impedir. Muito pelo contrário, vinham de desastres emocionais e estavam, os dois, com o coração fechado para balanço. Mas nada que impedisse o corpo de funcionar, claro.

Os encontros frequentes por causa de amigos em comum foram o princípio impensado de tudo. E quando se deram conta, estavam na sala, na cama, no box, no mar. Amantes sem compromisso ou paixão para os condenar ao fracasso. Vivendo uma maratona de pernas, línguas, calores e aquele suor que só costuma pingar de corpos muito ofegantes e sempre prontos para mais.

E o que crescia, rentitente como capim colonião, entre os encontros feitos para o sexo, era amizade. Conversas raras, do tipo mais sincero que um homem pode ter com uma mulher. Um papo realmente desprovido de intenções ou armadilhas, tão nu quanto ele e ela numa velha tarde de Natal, antes de cada um seguir para suas famílias sem trocar ao menos um presente. Eles que voltariam ali algumas outras vezes para descobrir os corpos um do outro. Com bocas, mãos, lábios e sexo cúmplices apenas na tarefa de se darem prazer. Sempre.

Estritamente sexo. Sem apego, esperanças ou promessas. Sexo tão compatível que chegava a dar medo. Os corpos nus, ou sempre a caminho de se arrancarem as roupas. Ela que costumava dizer que ele só tinha uma habilidade maior do que a com as palavras: a habilidade que tem com a boca. Ele que sorria cínico em público ao vê-la passar com seus peitos espetaculares e uma atitude de fazer padre engasgar em plena missa.
Ela era mesmo uma mulher sensacional. Em tudo. Bonita, inteligente, interessante e muitíssimo talentosa e fogosa entre lençóis, no chão, na água. Ele era um homem comum, atormentado pelo passado e com uma certeza: a de que uma mulher daquelas não apareceria na sua vida todos os dias. Talvez fosse até bom que fosse assim. Superficial e intenso. Quente e úmido e com cheiro de coito como o ar pesado das tardes que passavam juntos.

Entre amigos, a cordialidade e distância deles escondia a voracidade e vontade com que se despiam quando ficavam sozinhos. Admiravam-se, sem dúvida. Sempre gostaram do sacarcásmo e inteligência um do outro. Sempre gozaram muito um com o outro. O calor lascivo dela, as tentativas de acrobacias dele, a disposição dos dois. Em alguns momentos chegaram a se entender só no olhar. Foi quando começaram a perceber o quanto gostavam do cheiro, jeito de pegar e do calor um do outro. Foi quando ele começou a pensar nela no caminho de volta pra casa. Foi quando ela começou a esperar que ele ligasse.

Um dia o telefone nunca mais tocou. Talvez a regra fosse mesmo essa. A regra não dita para que sempre sorrissem quando ouvissem o nome um do outro. Respeito e carinho por uma amiga que adorava prender o rosto dele entre as coxas. Uma amiga que sorri quando fala dele. Como ele sorri quando pensa nela. Mágoa nenhuma, nunca. Assim como deveria ser sempre. Ainda bem.

segunda-feira, março 17, 2008

Na falta de Greene

Por André Debevc

Você com certeza não leu Greene. Se não foi obrigada ou apresentada a alguma cena antológica dele, você não deve mesmo saber quem é Graham Greene, autor de algumas obras primas da literatura mundial, entre elas o livro “Fim de Caso”. Leitura nunca foi o seu forte mesmo, fazer o que (daqui a pouco sai o filme, não é isso?). Quem sabe agora que você tem que saber um pouco mais sobre os grandes personagens, quem sabe agora você um dia se depare com Maurice Bendrix, um dos maiores personagens de todos os tempos. Um covarde, canalha, quase um anti-herói. Quem sabe…

Mas também, quem sou eu pra dizer quem você leu e quem você não leu? Eu não sou ninguém. Não pra você. Não hoje. Não mais. Você nunca leu Greene. Nunca soube como são as coisas do amor, como são os jeitos da traição. As canalhices e os suspiros, as cegueiras temporárias e o sangue frio conviencente. Você e seus personagens. Até hoje não sei que você realmente era. Seu amor, sua dependência da minha asa, sua necessidade da minha companhia e atenção. Eu não sei de nada. Nada de você. Me dói só saber que você nunca leu Greene.

"Esquecemos as pessoas que amamos, mas não esquececemos as pessoas que traímos." Greene disse isso. Se você lesse, saberia. Não. Você esqueceu quem amou e, principalmente, quem traiu. Nem Bendrix seria tão ingrato. Mas, de novo, você nunca leu Greene. Maldita incauta!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

em órbita

Por André Debevc

ainda encostada em mim,
ela está incomunicável
em órbita irregular rindo sozinha.
de olhos fechados
esboça tapar o sorriso com as costas da mão.
mas entorpecida de si mesma não consegue.
sensível até o primeiro toque
desacelera espásmos entre lençóis
sem procurar se quer uma só palavra.

para entender tudo que ela gostaria de me dizer
só preciso estar de olhos abertos.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

dia de sorte

Por André Debevc

a respiração pára e ela arqueia as costas enterrando a cabeça na cama.

até há intenção de uma interjeição mas não há consciência para articular uma.

vejo seu ventre vibrar entre seus goles secos.

ela agora está em órbita, suando ofegante em outra dimensão.

alegria, letargia e uma vontade de retribuir a tomam na volta a este planeta.

não tenho lugar nenhum para ir agora. deve ser meu dia de sorte.

Outro fim de caso

Por André Debevc

tem hora que nada que possa ser dito tem efeito,
a frase sai até medrosa, de tão sem jeito.
um ali gaguejando as palavras que transboradam do peito ferido
e o outro querendo ir embora já existindo ressentido.

fim de caso tem dessas coisas,
a história começando a se apagar do jeito mais doído,
e as lembranças atravessando de vez pro pretérito imperfeito
querendo convencer que a morte daquilo tudo que se pensou eterno
algum dia vai fazer sentido.

(como dói o peito)

quinta-feira, janeiro 31, 2008

vice-versa

Por André Debevc

quase 3 da manhã num meio de semana cinza de um verão frio. lá fora até a garoa e congonhas descansam. aqui depois do vigésimo andar, caixas de pizzas vazias e fatias órfãs se esparramam pelo ambiente com um cheiro engordativo e querendo não ser tão recente. no avançar do ponteiro e re-envio de emails, só se ouvem teclas batendo e a impressora incansável cuspindo insossa layouts repetidos. palavras poucas entremeiam suspiros longos. tem um copo de guaraná esquecido a caminho da escada. há olhares cansados e perguntas repetidas. meu amor foi dormir com raiva de mim pela minha ausência. será que ela sabe lá no fundo do peito, que nem deve sentir minha falta agora, que era trabalho? e que com trabalho eu não brinco. menos de 15 minutos pra 3 da manhã...e eu só penso em beijar a minha branca e dar o fora daqui. Ou melhor: vice-versa, que é pra poder não ter que parar os beijos tão cedo.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Bem Juntado

Por André Debevc

A gente não sabe mais dormir separado. E quando cai a madrugada de segunda-feira, depois de rolar mais de mil metros indo de lado a lado, lembramos com um quase sorriso de saudade no rosto que desaprendemos a dormir com um pedaço da cama desocupado. Chegamos naquele momento, raramente celebrado, onde os corpos só sossegam e descansam pra depois se cansar se um pedaço do seu pé pode me encontrar no meio da noite sem horário previamente acertado. Então vamos ver se vivemos, daqui por diante, sem faltas o nosso delicioso combinado: te dou casa na minha asa, e você me traz esse seu cheirinho gostoso de banho tomado. Não sei mais dormir separado, sem acordar à noite correndo o risco de ter o ante-braço mais lindo do mundo pelo meu peito docemente atravessado.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Imperma o quê?

Por André Debevc

A paz de vê-la dormindo o fazia suspirar mais fundo na companhia singela de um sorriso, destes do tipo doce, mas sem qualquer sinal de dentes. Covinhas leves na bochecha talvez. Brilho de felicidade nos olhos talvez. O calor da mão dela largada quase inconsciente sobre seu peito, subindo e descendo em longos movimentos quase letárgicos, trazia uma sensação de paz e complitude que sua alma nunca tinha experimentado. Em tardes assim, com a luz sumindo pela janela de sábado, a impermanência – tanto lembrada pelos budistas - parecia brincar de mágica de desaparecer para sempre. Dentre os mil mais de mil segredos que ela guardava, esta era apenas mais uma de suas espetaculares habilidades. Destas do tipo que o faziam achar que ele podia ser muita coisa. Até mesmo o homem mais feliz do mundo.

Felicidade (em até 150 toques)

Por André Debevc

Quando percebeu, viu que era mais feliz do que pensou que pudesse ser. Teve até medo, mas mesmo assim decidiu não guardar pra si todo aquele sorriso.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Limite, sim

Por André Debevc

Certo dia finalmente entendi, que pra nascer de novo, era preciso que eu morresse antes. E aí pois é, morri. E de morte matada mesmo, com dor e tudo. Só nunca agradeci quem me matou. Até porque acho que gratidão é uma dessas poucas coisas em que a gente tem que colocar limite mesmo.

Eu sou aquele ali

Por André Debevc

eu sou o cara que abre a porta do carro pra moça,
aquele sobre o peito de quem ela cruza o braço no meio da noite,
o sujeito que faz ela rir dançando engraçado na cama
antes mesmo do dia oficialmente começar.
eu sou a alma que se despiu de todas as armaduras pra ela
e agora canta em engarrafamento,
achando graça de tudo no caminho do castelo
onde ela inventa receitas e me conta mil casos de tios alucinados.
eu sou o doido que faz passinhos na sala antes de ir pro trabalho
sou o homem que descobriu um lado ainda melhor
sem que isso fosse só pra fazê-la mais feliz.
ela que colocou vitória no meu caminho,
ou foi vice-versa, não importa.
eu sou aquele ali do lado da moça
de unhas pintadas de vermelho escuro,
aquele ali feliz da vida com o coração batendo
de um jeito que nunca tinha sabido bater na vida.

Amor lembrado

Por André Debevc

Com você eu só quis ser assim…o melhor dos seus namorados. Na verdade teve até um tempo em que quis ser eterno, mas acho que não tinha como ser desse jeito, um sujeito tão seriamente condenado. Então decidi eu que queria mesmo depois de milênios ser lembrado, como o melhor e mais feliz dos seus amados. O melhor beijo, a melhor língua, sempre o mais deliciosamente dedicado. E até quando, longe dali, fazendo as vezes de pedaço estilhaçado e ímpar do passado, no que tivesse atravessando a rua distraído ou correndo o mundo alucinado, eu só queria ser seu mais valioso e apreciado amor. Aquele que fizesse você sorrir (e quem sabe ter até um pouquinho de saudade paralítica, dessas que não movem nem um dedinho), um amor que merecesse e soubesse de algum jeito bobo, nosso e lindo, que é sim um amor muito bem guardado.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Sina Danada

Por André Debevc

A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. Uns fazem dela segredo, outros bandeira. E assim há os que andam como se nunca tivessem a tido, e os que mancam deixando claro que ainda não a tem guardada como algo esquecido. Membro amputado em batalha, às vezes faz que formiga onde já não há nada, a tal da dor. Coça o vazio pinicando lembrança de outro tempo e até de outra vida. Dor afiada, traidora essa bandida, de vez em quando cutuca, só pra ter certeza que não foi esquecida, pois que é sina da qual o sujeito não pode escapar. Pobres dos que tem que aprender a viver com uma dor assim desse tipo, feito a de fratura eternamente mal reparada. Dorzinha dessa renitente, que vez por outra chia se o tempo vira de repente ou se um nome velho cruza nosso caminho sem olhar pros dois lados. A sina de alguns homens é aprender a viver com uma dor. E com a danada de uma pergunta não respondida: será que foram mesmo amados?

quarta-feira, outubro 17, 2007

Correria

Por André Debevc

Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Menininha impertinente, amiga de Morfeu, mocinha de sorriso largo, vento nos cabelos e um milhão de amigas. Chegou de mansinho, e foi me desenhando novos sorrisos, e foi reativando covinhas, me deixou até com vontade de fazer planos, a danada. Quando vi já tinha até capturado minha asa esquerda pra se aninhar quando a preguiça chega desavisada. Hoje ela atravessa o braço no meu peito no meio da noite, toma conta do meu velho apelido, me conta como foi seu dia. Eu na falta de palavras, brinco com interjeições, fico sorvendo seus beijos e cheirando o vôo que ela esconde na nuca, quem diria. Ela pegou minhas palavras e saiu correndo. Só não fui atrás porque ando ocupado decidindo o que fazer com tantos sorrisos.

Quase Férias (justificando a ausência)

Por André Debevc

Quando você fica feliz tudo fica mais fácil. Menos escrever. Com um sorriso na alma e mil planos na cabeça, quem tira férias é a palavra escrita.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Herança Simplória

Por André Debevc

De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.

Perdidos em seu closet desorganizado
se decompõe lentos na maresia
seu cinismo, frieza e capacidade rápida de esquecer.
Enterradas com você vão
a indiferença, o peito pequeno de memória curta,
a cumplicidade falsamente eterna
e os gestos de cuidado inexistentes
que não me cabem mais.
Jogadas ao vento como meu carinho
vão aqueles nossos planos, os desejos de sucesso
e a vontade de te ver feliz.
E caso encontre lembrança de mim que te faça sorrir
em meio à bagunça dos seus papéis errados,
pode cremar sem dor na alma,
como quando você passou a me conjugar no passado.

De você eu só herdei açaí, aspargos e havaianas.
O resto já foi devidamente incinerado.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Ciuminho Retroativo

Por André Debevc

Dela só tenho ciúme do que veio antes. Ciúme assim do tipo mais bobo, tolamente infundado. Ciuminho retroativo, variação mais inofensiva dessa praga, nunca realmente parido ou provocado. Ciúme de coisa que não se pode desafiar, de alguém que habitou um passado. Ciúme até bonitinho que passa fácil com um belo beijo estalado. Dela só tenho ciúme do que veio antes. Antes de viver acordando com ela do meu lado.

terça-feira, setembro 11, 2007

A Primeira Noite de Um Homem

Por André Debevc

O sol começava a dar o ar de sua graça no horizonte atrás do Pão de Açúcar pintando o céu daquele janeiro de lilás e laranja. Ajoelhado no sofá olhando os poucos carros que rasgavam a Jardim Botânico meu coração acelerado batia na boca e não me deixava dormir. O dia que ensaiava acordar me reservava uma resposta importante. Diria até que naquele verão de 1991 era a resposta (no exagero típico de adolescente) mais importante da minha vida. A menina mais linda de todo o universo – e que agora já era responsável pela minha primeira noite em claro – se pronunciaria sobre a sua escolha entre mim e outro moleque (penso agora em como é engraçado como aos 16 anos, você se coloca em situações como essa, disputando a atenção e o amor da menina mais linda que você já viu com um sujeito que atende pelo apelido de Rato).

Naquele dia nem eu nem Rato ficamos com ela. Era difícil demais escolher um, ela me diria mais tarde. E se ele pintou alguma bobagem no chão da rua, na frente da janela do segundo andar onde ela ficava, eu contra-ataquei com palavras sinceras e um coração acelerado tentando fazer ela mudar de opinião. Não adiantou. Ali o empate estava selado. Mas naquele dia, mesmo sem ninguém ganhar o beijo tão desejado, eu senti que perdi. Talvez a primeira e mais profunda de muitas outras derrotas que viriam no meu caminho amoroso. Rato nunca realmente a quis com coração. Estava na briga apenas porque ela era linda, e ele queria aquele troféu. O amor, por mais sincero que fosse – como depois eu comprovaria ao longo da vida – não me fortalecia em nada.

Semanas depois, ela voltaria para o interior – pois é, acho que todo homem na adolescência tem uma paixão que vem do interior – e eu e Rato ficaríamos no Rio, comparando quem afinal tinha chegado mais perto do beijo da menina mais linda do universo. Se minha memória não está me enganando, acho que foi ele, paciência. Vida que segue.

E a vida seguiu mesmo. Notícias da menina mais linda do universo, só espaçadas de uma tia dela que eu encontrava por ali na vizinhança. Até hoje quando passo em frente àquela janela de segundo andar penso em como eu ficava quando estava perto dela (da menina, não da tia). Meus olhos indecisos dançando entre a boca de milhares de sorrisos perfeitos e os olhos caramelo mais brilhantes e vivos que já vi. Como era linda. Seus cabelos longos, lisos e escuros que cismavam em se agarrar nos lábios que eu tanto queria beijar. Eu realmente amava aquela menina...

Mas o tempo passou. E de repente nunca mais se soube nada da linda menina. Eu já era homem feito. De barba na cara, já tinha me apaixonado, amado e sofrido. E viajava com meus amigos querendo colecionar conquistas e histórias pra contar em cidades distantes e pequenas. Feiras agropecuárias, feriados, férias de faculdade, carnavais. E lá pelos vinte e poucos anos de idade a diversão era passar o carnaval em Minas. Mais precisamente na cidade da família de um amigo de infância que ficava ainda mais divertida quando a gente chegava com tantos outros amigos.

A folia corria nos conformes com cerveja, idas à cachoeira, bagunça na casa alugada numa ruazinha transversal da cidadezinha e amassos aleatórios com conquistas fugazes de carnaval. No entra e sai da casa nunca trancada, a noite de domingo ficava pra trás com o desfile da única escola de samba da cidade. E depois de um dia de sol e cerveja nos tombos da cachoeira, eu já vagava pela rua indo pra casa de uma vez por todas. Rumava ainda indeciso até que depois de tantos anos querendo ver a menina mais linda do universo, meus olhos atenderam minhas velhas preces e, abertos, realmente a viram.

Era ela, distraída, em pé sozinha no meio da rua de paralelepípedos e sonhos. E antes que meu coração saísse pela boca, consegui passar pela garganta o apelido dela e gritei. NUNCA na vida alguém se virou para mim numa câmera tão lenta. E em plena rua principal de uma cidade pequenininha perdida no cantinho esquerdo de Minas Gerais, o meu mundo parou.

A surpresa de encontrá-la ali naquele fim de mundo não era só minha. Quase seis anos tinham se passado e ela só tinha ficado ainda mais linda, a menina mais linda do universo. Agora uma mulher. Agora ali sorrindo o seu sorriso perfeito a poucos passos de mim. Conversamos nos olhando nos olhos mais do que nunca. Nos abraçamos, nos demos as mãos. Não acreditamos juntos.

E no meio da folia, tudo pareceu sumir. E nossos silêncios impontuais eram quebrados por comentários sobre aquela coisa do destino, nos colocando ali, frente à frente depois de tanto tempo. Relembramos nossa saga. Meus poemas e a rua pintada. Nunca tínhamos esquecido um do outro. E aí sem saber exatamente como, eu a beijei numa madrugada de carnaval. E foi bom. E foi muito melhor do que eu tinha sonhado tantas vezes quando adolescente. E ali, num dos lugares mais perdidos do planeta, eu me senti o dono do mundo. Eu e a menina mais linda do universo. Saímos dali de mãos dadas e sorrisos estampados. O que tinha que ser, finalmente era – lembro que pensei.

Depois disso namoramos um namoro à distancia, que não me deixou viver com ela nem um milésimo do que queria ter vivido. Mas a história já estava escrita. Um amor com um fim. Anos depois de passar a primeira noite inteira acordado por alguém tive muito mais do que pensava. E fui namorado da menina mais linda do universo. Uma menina que eu não soube ver mulher, e que há pouco um site desses de relacionamento me trouxe de volta. Casada, bem sucedida e feliz como ela merece ser. Linda com os olhos brilhantes e doces como pra mim ela sempre será.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Gritos de Passagem

Por André Debevc

Deus sabe como te xinguei. Deus, entre uma distração e outra, e meus amigos sabem como eu te xinguei. Tinha até um ritual, diziam eles (os amigos, porque Deus nunca se manifestou). No início estranhavam calados, mas o tempo foi escorrendo e eles passaram a fazer parte de tudo – penso que amigos de verdade são mesmo essa espécie de cúmplice calado, mesmo na mais profunda reprovação - mas ninguém protestava. Ninguém estranhava a minha dor e nem o meu ressentimento. E aí tudo passou a ser meio como que uma rotina oficial quando eu passava pelos seus pedaços da cidade. A conversa no carro cessava, baixava-se até o som de algo que tivesse tocando. Com frio ou com chuva, noite ou dia. O vidro descia, e lá do canto mais magoado de minha alma vinha o grito mais primal e ofensivo que alguém no universo podia lançar contra você. O que era dito na verdade era o que menos importava. Valia sim a força dos meus pulmões. Contava (como se tivesse um júri sempre comigo) expurgar a raiva e a dor que você me causou. Um protesto esperado. Durante meses foi assim. Sempre. E o giro das rodas continuava, meus comparsas subiam os vidros, o volume do som e retomavam o assunto como se nada tivesse acontecido, apos os segundos de silêncio em que solidarizavam comigo. Entre homens, respeita-se o soldado caído. Protocolo triste de um apocalipse sinalizado.
Tudo seguia sua seca normalidade, até que numa noite no caminho de ida para uma das partes mais idiotas da cidade, nos aproximávamos de um dos seus redutos. Baixou-se o som. Fez-se silêncio. Desceram solenemente os vidros que davam pro seu mundo. E não se ouviu um suspiro meu. Minhas palavras de ofensa para você tinham acabado. E se não tinham acabado tinham cansado daquele exercício inútil. Dias depois, até comentaram o meu silêncio: – Ele nem gritou quando a gente foi pra parte mais idiota da cidade. Alguns nem acreditaram. Eu só sorri. Em silêncio como passei a viver meus lutos. Calado como é melhor ser quando não se tem nada de bom a dizer sobre alguém.

Tem Dia

Por André Debevc
Todo dia passo por uma moça que me lembra muito seu jeito, seu gosto e sua cor. Ela tem seu ar, sua pele e até seu jeito de desviar o olhar quase tímida quando se pega sendo admirada sem maior aviso. Tem dias que penso em colocá-la na boca, pra lembrar seu calor e relembrar seu sexo, mas aí lembro em como você me envenenou e mudo de idéia rapidinho.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Prato Pronto

Por André Debevc

Dentro de todo pássaro voa uma libélula. Inseto devorado, prato pronto para fazer cócegas na barriga do pássaro e fazê-lo voar ainda mais alto.

sábado, agosto 18, 2007

Mais de Mil Segredos

Por André Debevc

Em um castelo no térreo, sem calabouços ou escadas, mora uma moça sem tranças com mais de mil segredos que atende secretamente por vossa palhaceza. Dela sempre quis se saber mais de mil coisas sem precisar fazer uma só pergunta. Até hoje só se sabe que dela não se pede beijo e nem coice se leva. E que privilegiado existe que conheça o cheiro de sua nuca. Mas só porque noite dessas de frio ela se distraiu entre uma piscada e outra de história que ela já sabia até de trás pra frente. É uma menina impertinente, dizem. Espoleta inqueita, admite que sofre o ônus da eterna indecisão, e aperta os olhos castanhos antes de seguir quase saltitante pra qualquer outro lado. A única certeza de que se tem notícia por aqui, grande reino cinza onde a moça habita, é que dela ainda há muito por saber. Desconfiam se ela teria sido uma menina que roubava livros, se perguntam se viveu cem anos de solidão ou se namorou James Lins. Morrem de vergonha em perguntar se teria ela achado seu mindinho, mas são doidos pra descobrir se passou por ritos na infância ou se é misteriosa assim porque guarda secretamente notícias de um seqüestro. A moça dos mais de mil segredos tem um quase muro de sorrisos e doce sotaque envolvendo seu reino secreto. Lá ela passeia livre, em família, dançando feito criança em boliches, com um coração imenso e quente que só quem vem láaaaa de um outro reino, província distante, pode ter. Mas grandes enigmas envolvem vossa palhaceza...Como se faz para que ela não represe seu beijo, ou me jogue a sua âncora de companhia em abraços? Qual será o segredo pro seu carinho? Existirá uma passagem invisível para doces amassos? Será que, mesmo quando dorme, tem as mãos frias? Será que ela faz bico quando sonha, ou fica de manha quando acorda sem hora pra se atrasar? A moça dos mais de mil segredos, vossa palhaceza: não gosta de pizza e gosta de verde. Mas será que um dia ela se distrai e se deixa gostar de mim?

quarta-feira, agosto 08, 2007

Enigma

Por André Debevc

Ela é um enigma. Mas se eu não a decifrar, ela também não me devora.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Nem todo final consegue ser feliz

Por André Debevc
“Melhor uma dor com fim do que uma agonia sem fim.” Não, não esta frase não é de Sêneca e nem de nenhum outro filósofo ou pensador zen pregando o desapego. É uma frase de minha bisavó. Ou pelo menos é a ela que minha mãe costuma atribuir o dito. A velha dona Mariquinha, casada com um dos homens mais metódicos da Araguari do século passado (diz a lenda que as pessoas acertavam o relógio pela hora em que meu bisavô saía do trabalho para almoçar em casa), tinha razão. Finais – ardentes, insossos, trágicos, felizes, previsíveis – quaisquer sejam eles, são sempre necessários.

Histórias abertas são feridas que nunca cicatrizam. Produzem gente que vaga por aí com bolsos cheios de pontos finais nunca colocados, pessoas que tentam andar para frente olhando para trás. Gente que manca da alma e sente sempre um gosto estranho quando engole seco. E pensando nessa gente, lembro de um livro, que li ainda adolescente, com um nome muito sugestivo, desses que deixa claro o quanto finais são importantes: “Todas as histórias de amor terminam mal”. Já concordei e discordei do titulo mil vezes. Hoje só sei que toda história PRECISA terminar. Seja ela de amor, seja de ódio – indiferença não, porque indiferença não presta pra nada, e é analfabeta de pai e mão pra falar bem a verdade.

E não sei se é a época do ano, cheia de finais de temporada na tv a cabo, ou se foi a minha amiga Marina (www.lebalmasque.blogspot.com) charlando com o assunto, mas sei que nestes dias, finais, começos e arquivos mortos emocionais pairam sobre a minha cabeça. Penso, peno, penso e lembro de finais que vivi e uns que vagam sem fecho por aí – cheios de coisa pra dizer que nunca serão ditas e cheios de silêncios por fazer que nunca serão feitos. Como eu gostaria de tê-los vivido...estaria menos fragmentário, eu acho.

Somos personagens eternamente em construção. Frutos de cada história, levemente alterados a cada final. A canalhice cometida com alguém que você amava, o amor que não soubemos corresponder, a paixão errada, a dor de ter sido trocado, a mágoa de ter sido deixado, a alegria vingativa (e sem nenhum porque) de deixar, o reencontro que não significou nada, enfim tudo modifica imperceptivelmente e para sempre quem somos de um jeito ou de outro.

Fins, afins, sem fins, ser-a-fim. Me ocorre agora como não querer que algo tenha acabado é completamente diferente de não querer que tenha tido um fim. Eu já quis que as poucas coisas que amei de verdade nessa vida nunca acabassem, mas acho que sempre soube – inundado de melancolia e borboletas nucleares no estômago - que todas precisavam, alguma hora, ter um fim. Mas nem todas tiveram esta sorte.

segunda-feira, julho 30, 2007

O Fim das Lacunas Vazias

Por André Debevc

Vamos preencher as lacunas, colocar o passado pra dormir. É hora de esquecer tudo que vivemos até agora, suspender lembranças e lambanças emocionais e começar do zero. Pode levantar da cama hoje resolvida, limpa, zerada. Pronta para escrever novas páginas de uma história que escolha só a minha melhor presença. Vamos celebrar a ausência de fantasmas. As mágoas estão todas suspensas, os velhos vícios de saudade estão todos curados. Já é hora de deixar o passado dormir. Deixar tudo que veio antes fazer sua sesta, sonhar pra sempre as mil maravilhas de ser pretérito, de delirar ter sido perfeito. O momento, você bem sabe, é de ocupar com alegria o que andava, por escolha nossa sim, até tranquilamente desocupado. É hora de entreter espaços antes vazios com os primeiros raios de promessas que já vêm formigando no horizonte. A história que chega tem final feliz, e logo no primeiro parágrafo, onde artesãos e estetas confeccionam protagonistas, tem duas lacunas perfeitas esperando o recheio muito mais do que merecido: os nossos nomes.

terça-feira, julho 17, 2007

Envelope Errado

Por André Debevc

O tempo trai e distrai. Tira de foco a dor que a gente acha que não vai passar nunca. E quando a gente acha que o corte virou cicatriz, organiza a casa e acaba abrindo um envelope pardo errado. E vendo fotos e lendo coisas que escrevi há milhões de anos, descobri que te amava muito mais do que eu podia lembrar.

segunda-feira, julho 16, 2007

Repetição (em apenas 150 toques)

Por André Debevc

Velhos nomes acenam novas promessas. Safra fresca de sorrisos na volta pra casa, onde o dia raia o horizonte e a esperança sobrevoa a cabeça.

O Prisioneiro

Por André Debevc

Agora você já tem um nome, bem eterno que só mulheres e estrelas carregam. E eu já tenho o que balbuciar em sonho. Já tenho o que sonhar balbuciar acordado. Já posso dizer aos quatro ventos que te quero, se te quero, como quero - juro que ainda não decidi. Você agora carrega um nome que te protege, capa que te faz irreconhecível, escudo invisível contra a insensibilidade e a rotina que deixaram de brilhar quando ouviam a sua voz. Mas relaxe moça, você e eu estamos salvos. Começamos a conjugar esse tempo onde você já pode me mandar beijos na boca, pode até de um jeito quase silencioso brincar um pouquinho de louca e me confessar mais que uma fantasia. Quando quiser, você já tem a sua alforria para me contar sonhos, desejos e todas as mais secretas vontades. Você está livre para narrar e viver todo um paralelo, assim até tangível, e unicamente nosso. Sem proibições de beijos ou impedimentos para uma tarde toda dedicada a cheirar somente a sua nuca. Agora que você fez sua senha, venha doce Lisbela. Brinque um pouco de eu te deixar sem palavras, te encontrar com beijos na boca, te encher de suspiros e sorrisos. Você está segura nesse quase anonimato. Nada aqui no meu peito, único lugar onde você atende por este nome, nada pode te machucar. Para proteger seu nome me fiz prisioneiro. Refém de um cheiro e gosto que ando louco para saber até de olhos fechados.

sexta-feira, junho 29, 2007

Segundos idiotas

Por André Debevc

nina simone canta
o carro preto acelera
um dia cinza
de asfalto molhado
e o coração seco
rachando os lábios
de cem tipos de silêncio.

o limpador vai e vem.
eu não vou,
você não vem.

mas uma saudade nem sei bem do que,
idiota, me fez pensar na gente.

Eu só sei

Por André Debevc

Eu não sei como eu sei. Só olho pra você e sei. E se continuar me olhando com essa cara de interrogação, vou ter que te responder com um beijo.

Jogado às leoas

Por André Debevc

Tonto e sangrando ainda pude ver
meu coração arrancado, pulsando na sua mão direita
quando aquela porta se fechou pra sempre.
Nos seus olhos,
a indiferença pensou em se esconder
mas percebeu que não ia dar tempo.
Foi a última vez que te vi.
tínhamos acabado de ser separados...
Mal tínhamos deixado o sábado
e agora era só uma questão de tempo
pra virem devorar o que sobrou de mim.

Eu estava de novo jogado às leoas.

Logo eu que criei uma religião,
com uma deusa falível, eu sei.
Logo eu que fiz do nosso amor uma nação,
com bandeira, hino e tudo,
logo eu acabei ali, deixado pra morrer sozinho.

Agora você se embriaga com sua trupe e sua liberdade
e eu engasgo na saudade um estranho desejo de nunca mais saber de você.
Tomara que as leoas me devorem,
quem sabe elas conseguem acabar o trabalho que você começou,
tomara que não sobre um pedaço de mim pra contar história.
Acabem logo com isso, me destrocem,
porque os dias têm sido cruéis demais
e não suporto mais esse coquetel de agonia e indiferença.
Você nem ficou pra ver seu estrago, menina.
Já tinha até esquecido que você só fica mesmo com o que precisa...

Jogado de um lado pro outro, entre mordidas e arranhões,
lembro que vou acordar intranqüilo e pensando em você. Dane-se.
O que dói mesmo nem é acordar com o mesmo buraco,
o que dói é lembrar que acreditei que fossemos um time,
que fossemos filhos da lua,
que achei que éramos mesmo um só
antes de até Zeus ficar com medo do nosso amor.

Codinome

Por André Debevc

te peço um codinome
pra te beijar em outro universo,
pra confessar o meu carinho
e ficar um pouquinho mais perto de você.

só te peço
um nome secreto
pra te libertar de tudo que nos impossibilita.
um segredo só nosso,
inofensivo e paralelo
que me deixe te pegar pela mão
e te mostrar uns versos e universos
onde você sorri mais perto
e me beija bem devagarinho

te peço um codinome
porque não posso te agarrar nem um pouquinho.

Seu futuro ex

Por André Debevc

Com o ar mais despreocupado do mundo ele vaga pelo universo. Três ou quatro respostas prontas no bolso costurado pela mãe, ele domina seis sorrisos diferentes fingindo não estar nem aí. Ele sabe que tem mais que merece, ele está ciente que é coisa de outra encarnação, mil karmas a seu favor, sei lá...mas ele também sabe que o relógio anda pra trás, subtrai momentos, reduz segundos, decepando lembranças de quando você sentia o vento da praia na cara, filtro solar 60 e seja o que deus quiser. Ele finge que não, mas sabe sem saber exatamente como que você e ele um dia vão ter um fim.

E aí sem saber bem porque, em alguns dias lindos ele amanhece ciumento e intranqüilo, como quem despenca do centésimo andar, como quem pisa apressado cercado de minas e incertezas. É um homem povoado de sombras futuras, do que ele viveu um dia, do que aconteceu e foi embora. O dia que raiou, inevitável e silencioso como a promessa de que tudo é passageiro. E ele coça a cueca no caminho do banheiro, e ele boceja no caminho da cozinha. Alguma hora tudo passa, ele pensa. Alguma hora a festa acaba. Aqueles olhos, aqueles traços finos e convidativos nos lábios inferiores, aquela cintura fina e os horizontes eternos em seus olhos...aquilo tudo tinha mesmo que se pôr, como o sol que morre fugindo do leblon e do pontal, como tudo que é prometido só com um quarto de vontade.

É um sujeito que já pensa muito menos nos seus olhos castanhos, seus dentes ordenados. Acabar é inevitável, ele sabe. Mas ele finge que não sabe. Ele tem oitocentas desculpas, e ele pede a ajuda do tempo, da família, de qualquer coisa que arraste a ilusão de vencer. Ele sabe que os dias estão desabando em cima dele feito uma onda de três mil metros, ele sabe que vai ser vencido. Às vezes ele se pega pensando nos seus olhos fitando outra boca, nas suas costelas se aninhando em outras mãos, sem promessas, sem viagens. Só com muito mais vontade de descobrir seu gosto, de decorar sua cor favorita, seu jeito de dizer que não, seu meio sorriso de olhar fugindo dizendo que sim. Ele anda falsamente despreocupado por aí.

Ele vaga acelerando pelas avenidas sem lembrar que seu sorriso merece mais, que seu peito acelerado não tem preço em moedas, e custa letras gestos e reticências. Ele quase não olha pros lados antes de furar o sinal e não lembrar que o suspense do que é novo fita sarcástico o primeiro beijo quente e mil vezes pensado. Olhos que se driblam enquanto as bocas ansiosas se mordem em câmera lenta. Peito descompassado, minha mão abraça sua cintura, traz sua coluna e arqueia suas costelas. Te quero inteira numa só rendição em suspiros mordendo minha orelha. Dizendo que há milênios eu tinha – mesmo calado – razão.

O beijo era esse. O cheiro era esse. O calor que te tira do sério era esse. Você dançando comigo entre mil pessoas, e esquecendo do mundo, me concedendo seu universo quente, se explodindo em milhares pra sempre. Seu sorriso na manhã seguinte como você nunca teve antes, seus olhos raiando pérolas e diamantes de acordar com, finalmente, o homem certo. Ah...nossa cumplicidade, nosso beijo. O beijo diz tudo. O fim sorrindo safado, prometendo futuros e planos. Ele nem desconfia. Ele nunca me viu. Eu te encosto meio sem querer e sorrio.

Eu te abraço e gargalho. Respiro fundo pra prender o que posso de você. O relance dos olhos. A sala repleta de desatenções e a gente se encontra. Sei sua mão nas minhas costas, te encho de olhos no descaminho do café. Nunca tomei tanto café...nunca fingi tanto não ver alguém.

Ah se ele soubesse. Vidas paralelas de quem há tempos não te quer como eu te quero. Universo estranho de quem, diferente de mim encontra seu cheiro em qualquer virada do lençol. Ele anda por aí com um ar mais reticente do mundo. E eu só queria ter certeza do que você não gosta de comer, de quando você nunca bebe e do quanto antes de dormir existe uma chance de você pensar em mim. Ele vaga por aí com o ar mais despreocupado do mundo. Seu futuro ex. Um cargo que já ocupei. Com outras mulheres, em outras histórias. E que agora quero viver com você.

quinta-feira, junho 21, 2007

Saídas Sumidas

Por André Debevc

quero afastá-la de mim mas me falta força,
quero agarrá-la para um beijo mas me falta coragem.
tenho sorrisos, palavras, tenho abraços curtos e algumas piadas,
tenho, talvez, até um bolso cheio de boas intenções...
só não tenho uma saída,
só me falta uma mísera saída heróica e real
para cada vez que a gente fica perto o suficiente para arriscar alguma coisa.

Lembrança Latente

Por André Debevc

penso em você mais do que devia
penso em você mais que podia
penso em você muito mais do que gostaria

se esqueço e penso pouco
só acontece umas vezes todo dia

somos pretérito imperfeito
e meu peito ainda conjuga você no presente,
mesmo quando não há mais “a gente”.

sei que penso em você...
já não deveria.

Cometa Paralelo

Por André Debevc

com meia dúzia de palavras te deixo completamente nua.
e não importa a avenida,
e não faz diferença a multidão letárgica...
te dispo de tudo sem nenhum receio,
e você morde o lábio inferior devagarzinho,
você desvia os olhos catando no chão alguma coisa pra cobrir sua alma.
é uma mulher sem palavras de efeito ou planos de fuga
o rosto ficando rosa, pupilas dilatadas
um riso nervoso
e o coração batendo na garganta
a falta de uma boa desculpa para correr dali sem olhar para trás.
somos um momento exclusivo onde o resto do mundo não palpita,
e tudo que você quer é que um carro buzine
que um celular toque
que alguma coisa no sistema solar te desvie
antes que você beije a minha boca
antes que você entre sem volta no meu campo de gravidade
e jogue toda essa sua normalidade pro espaço.
mas o ponteiro dos segundos acorda e pula,
a lucidez veste covardia
e balbucia alguma coisa ininteligível no seu ouvido.
o universo lembra o próprio destino e volta a se expandir
agora com um beijo suspenso
ricocheteando em galáxias distantes
passando feito cometa no céu de um lugar paralelo
onde te deixo nua e louca por mim
sem precisar de uma só sílaba.

sexta-feira, junho 15, 2007

Festa Junina

Por André Debevc

Quis rasgar todas as fotos deles juntos para fazer uma fogueira. Mudou de idéia. Qual a graça de ver um cartão de memória arder no fogo?

Louco Pelo Seu Beijo

Por André Debevc

Acordei com uma vontade louca de beijar você. Te encher de beijos curtos, depois perder um tempo quase absurdo com beijos longos, mas antes quem sabe, te ver dormir um pouco no quarto ainda com preguiça da luz da manhã que se arrasta blasé por entre as persianas. Você em paz ali, só de calcinha e camiseta velha, descansando assim de ladinho com a boca meio aberta e um sonho feliz na cabeça. Acordei com vontade de viver um dia pra te ver se espreguiçando ainda dengosa e me mandando um beijo e um com sorriso antes de me dar bom dia. Um daqueles dias perfeitos pra te ver andando descalça pela casa com os cabelos soltos e um copo com nescau demais na mão. Te ver folheando qualquer revista, pulando em cima de mim quando eu me distrair e me enchendo de ordens e beijos com seu bom humor sarcástico. Um dia pra gente ficar junto sem precisar resolver nada. Um dia pra ficar de bobeira, com um tempinho no sol talvez. Você com a mão na minha perna – que você tanto ama – e eu atento como um felino, revistando com os olhos e a alma o seu corpo pra me apaixonar de vez por qualquer detalhe que te defina, como uma pinta, uma cicatriz ou quem sabe até uma celulite. Acordei morrendo de vontade de olhar dentro dos seus olhos, de sentir o seu calor, de visitar cada traço dos seus lábios e beber do cheiro que só você tem no colo e nuca. Ah, que vontade de te puxar mais perto, te segurar daquele jeito que você adora porque te deixa louca e te faz ter certeza de que você é minha. Levantei da cama hoje pra sentir a parte mais quentinha da suas coxas e ser surpreendido pelo seu lado mais safado. Quero andar de mãos dadas até que o mundo todo feche e sorrir em silêncio no caminho de casa quando você cair no sono no carro. Acordei com uma vontade imensa de ter você pulando em cima de mim, me dizendo o quanto você me ama, me perguntando se sei o quanto eu sou sortudo e prometendo que a gente vai ficar junto pra sempre. Saudade de você, moça. Saudade de viver eu e você. O problema é que eu ainda não sei seu nome, não conheço seu rosto e nem quem você. Mas sei que a gente vai se encontrar em breve. Está escrito há três mil anos como dizia Nélson Rodrigues. Aí não se assuste se eu te perguntar: - será que eu já falei que acordei louco pra te dar um beijo?

Sem Velhas Traições

Por André Debevc

Ando cansado. Das mulheres erradas, das noites vazias, das madrugadas caras e crepúsculos ébrios. Cansado de abordagens planejadas, da caça sem recompensa ou sorriso no dia seguinte, do telefone sem rosto anotado no celular. Da intenção escancarada antes mesmo de sair de casa. Ando cansado de falar da boca pra fora, de não querer fazer força ou ter alguém pra pedir pra ficar. Ando esvaziado, de motivos pra passar a noite e acordar acompanhado, de sorriso no espelho e de histórias que não tenham deixado algum tipo de decepção ou mágoa. E quando debruço os olhos abatidos sobre a metrópole, encontro um reflexo cinza e triste. Sou eu voltando pra casa no meu corcel negro, imerso em insulfilme e músicas do Dashboard Confessionals. Silêncio na alma, buraco assombrado no peito e luzes azuis do painel refletida nos olhos. Vida que segue com esse maldito cheiro de cigarro na roupa. E no lugar que ficava o coração, uma vontade imensa de amar e nunca me trair de novo.

terça-feira, maio 29, 2007

Palavras reféns e beijos também

Por André Debevc

do outro lado da sala ela só precisa de um sorriso
para sequestrar todas as minhas palavras

aí desvio os olhos
engulo seco
finjo entregar minha atenção a qualquer outra coisa
na tentativa de resgatar um pouco da razão
que caiu no chão junto com o coração
segundos antes

e conto até dez
quando consigo lembrar dos números,
e respiro fundo retribuindo o sorriso
escondendo toda minha sinceridade
por trás da minha simpatia inofensiva

e aí do outro lado da sala ela ajeita o cabelo
e me olha assim de lado
e dá de novo, quase em camera lenta, um só sorriso
e eu que já nem tinha achado as minhas palavras
passo a não pensar em mais nada,
só em beijos que acho que nunca vou poder dar

terça-feira, maio 22, 2007

Estranho Isso

Por André Debevc

Estranho isso de sentir saudade da noite ainda não dormida. Da viagem que nunca foi feita. Do jogo nunca visto. Do milésimo beijo que nunca foi dado. Das mãos se achando no escuro do filme não assistido. Da discussão nunca tida. Do presente jamais recebido. Estranho isso de sentir falta da declaração de amor que nunca foi feita. De um dia perceber o coração batendo mais rápido. Do olhar de cumplicidade ainda sem data pra nascer. Da ligação nunca discada. Da entrega total e feliz de corpo e alma. Estranho isso de estranhar o silêncio online. Os dedos hesitantes no teclado e a bocas que se procuraram tão menos no último encontro. Chato mesmo é isso: de sentir saudade de você e da idéia de tudo que poderíamos ter sido.

terça-feira, maio 15, 2007

Uma vida sem troféus (em 150 toques)

Por André Debevc
Desejava-a intensamente como tudo. Menos troféu. Tivesse uma noite – e não a eternidade - usaria a casa toda com ela. Tirando a estante, claro.

quarta-feira, maio 09, 2007

Meias sílabas perdidas

Por André Debevc

Meias sílabas ricocheteiam pelo quarto ainda zonzas procurando suas respectivas metades sem saber que horas do dia já são. Ensaios de fachos de uma luz difusa, onde a poeira dança sem pagar ingresso pelo show, invadem o ambiente pela persiana esquecida pelos anos. Talvez seja o sol, pode ser que seja apenas o neon de alguma espelunca qualquer aí em frente, mas quem se importa. Almas vestidas de suor e tesão convocam todos os sentidos pra melhor das batalhas: a que se dorme, acorda e se enrosca no inimigo. Uma dança carnal onde só descansamos recuperando o ar quando quem vence, às vezes, é o cansaço. Maratona de pernas, saliva, horas e dois vencedores. Você me engole sorrindo, me entrega todos os lábios arquejos e penugens que já pensou ter. Testa a resistência das suas pernas, nossa elasticidade, a minha força. E continuamos sem desperdício ou reticência. Um ritmo desritmado, alterando tudo pra que não percamos nada. O calor dos seus beijos, a alegria mais do que morna que escorre pelas suas pernas. Nossos cheiros e sucos inundando o colchão surrado sobre a cama que range e bate todos os pés, morrendo de inveja das paredes, móveis e dos nossos improvisos. Estamos em todos os lugares, de todos os jeitos. Seus dentes no meu ombro, minha língua passeando milhões de vezes pelos seus peitos. Olhos que se cruzam, sorrisos quase sem ar que se reconhecem e se revelam em milímetros de segundo de distância. Mais beijos, mais línguas. Ah, quantas línguas. Fico louco quando você me mordisca a orelha e te agarro pelos cabelos ali pouco acima da nuca. Quero mais é beber desse seu suor ofegante. E entre espásmos e ordens você até tenta me render umas duas ou três sílabas, mas tudo que espoca da sua boca são letras soltas, agarradas umas nas outras, fundidas num só som ininteligível. O ar que você expulsa, sua meia tentativa de pausa olhos fechados e o seu ventre vibrando em quase contrações. Me aperta forte, vai. Me aperta. Fecho os olhos pra poder ir mais fundo, agora já não tem volta. Pede mais, pede. Me dá a mesma ordem mil vezes sem uma palavra. Vamos juntos. Me aperta mão, me arranha as costas, me trava dentro de você até o fim. Agora explode, arqueja, perde a noção de tudo por bem mais que o espaço de milhões de hífens. Morde os lábios. Respira. Sorri. Respira um pouco mais. Fecha os olhos. Me abraça e, ao invés de outra meia sílaba órfã de metade, me diz que ainda é só o começo.

Quarto Amarelo

Por André Debevc

no teu quarto amarelo
tuas coxas perfeitas
querem me deixar vermelho,
mas roxo de desejo
nada vejo quando te puxo
te trago te beijo desviando fácil
o último pano que te cobre

e é quando você se abre
me aperta me sobe,
recebe e consome

e no teu quarto amarelo,
você arfante eu mais que quente,
nos cravamos os dentes entre espásmos
e você de repente aperta o laço
que me dá com as coxas
jogando meus sentidos pra longe,
pra onde sua calcinha branca
deita molhada e torta
desde o seu primeiro sorriso
quando entrei mal intencionado e duro
por aquela porta que nem nos incomodamos em fechar.

quinta-feira, maio 03, 2007

Inocência zero

Por André Debevc

Finjo bem na minha cordialidade mansa, de cumprimentos sem maiores contatos, mas com você eu não tenho um pensamento puro. Nem um pra contar história e fingir que sou esse cara bonzinho que algumas línguas nem tão más assim queriam espalhar por aí, só pra acabar de vez com minha reputação. Zero. Nada. É só você atravessar meu caminho sorrindo com a boca, ou com os olhos, que partimos para uma dimensão onde todo mundo some e só sobramos nós. Nós e cada vez menos roupa - que só não some por completo pra podermos ter o que puxar e agarrar frenéticos entre amassos e segundos educados com alguma pretensão de hesitação, logo esquecida, quando a temperatura sobe pra valer. Nesta nossa dimensão não existe nada nem ninguém que nos impeça de qualquer coisa. Te beijo, você me morde. Te derreto na boca e você só pede mais. Rasgamos a noite e atravessamos o dia feito dois animais. Frações de segundo na tarde que cai. Carne e química. Cheiro e pólvora. Inconsequência e impossibilidade. Curvas pêlos cheiros e fluídos proibidos aqui na terra de agora que se encontram e reagem incandescentes quando a gente se encontra quando te vejo passar. Imagino seu outro lado que nesse mundo ninguém conhece. Desvendo a força das suas coxas, o calor de seus contornos e a embriaguez de seus lábios. Rendo minhas orelhas pros seus sussurros, ordens e mordidas.
Com você eu não tenho nenhum pensamento puro. E de algum jeito quando nossos olhos se cruzam, sei que você sabe disso há muito tempo.

quarta-feira, maio 02, 2007

O que vem depois

Por André Debevc

Ele gosta de banheiros grandes e lugares de pé direito alto. Sujeito tranquilo, costuma dizer que luas cheias e noites sem nuvens dão vontade de uivar e lamber uns pescoços e peitos por aí. O jeito que ela o beija quando bebe e o time do Fluminense o tiram do sério, só de que maneiras completamente diferentes. E tem dias, em que gosta de pensar nele mesmo como o espaço que respira entre parênteses – cheio de coisas que se pensam mas não se dizem em voz alta. Beijos, queijos, vinhos e amassos. Bom mesmo é fugir quando a tarde cai, entre gargalhadas e dados, amigos distraídos. Aumentar o calor no quarto, suar no frio. Voltar com a alma lavada, o corpo suado e a cara deslavada de quem ficou nu e sapeca, pelado enchendo a cara do cheiro e das interjeições dela. E morreu pra nascer de novo, alegre na goteira aberta no telhado que cobre penugens claras, beijos curtos de quase adeus e sorrisos longos. Mas ele gosta mesmo é de beijos longos, tirar um ronco na rede depois do almoço, fotos pra lembrar que foi feliz; e de um dia pra guardar pra sempre. Até porque, no seu otimismo quase restaurado, o pra sempre - assim como o futuro – ainda vem por aí.

Erro do Passado (em apenas 150 toques)

Por André Debevc

O amor por ela era tão grande que a primeira coisa a que renunciou foi ele mesmo. Cúmplice, ela não fez menos: assim que viu, abriu mão dele também.